26 de junho de 2018

Capítulo 15

Adam se lembrou de como achara que Gansey seria cruel com ele. Não houve um dia durante seu primeiro mês na Academia Aglionby em que ele não duvidara de sua decisão de ir para lá. Os outros garotos eram tão estranhos e assustadores; ele jamais seria capaz de se parecer com um deles. Como ele havia sido ingênuo em pensar que um dia teria um quarto como os outros alunos da Aglionby. E Gansey era o pior de todos. Os outros garotos frequentavam a Aglionby e acomodavam a vida em torno dela. Mas Gansey... Era impossível esquecer que ele havia chegado com a vida intacta e, ao contrário dos outros, acomodara a Aglionby em torno de sua vida. Ele era o garoto para quem todos os olhares se voltavam quando entrava no ginásio. Ele era o aluno com o sorriso mais fácil quando chamado em latim. Sempre se deixava ficar depois das aulas para bater um papo com os professores como iguais — “Sr. Gansey, o senhor poderia esperar um minuto? Encontrei um artigo que acho que lhe interessará” —, e era o garoto com o carro mais belamente interessante e com o amigo mais ferozmente bonito, Ronan Lynch. Ele era o oposto de Adam de todas as maneiras possíveis.
Eles não conversavam. Por que conversariam? Adam entrava furtivamente na sala e mantinha a cabeça baixa e ouvia, tentando aprender a esconder seu sotaque. Gansey, um sol furioso, brilhava do outro lado do universo, sua atração gravitacional distante demais para afetar Adam. Embora Gansey passasse a impressão de ser amigo de todos na escola, era Ronan que estava sempre com ele. E era essa amizade e todos os olhares sem palavras e caretas esquisitas com a boca que faziam Adam achar que Gansey devia ser cruel. Ronan e Gansey riam, ele achava, de uma piada em que o resto do mundo era o ponto alto.
Não, Adam e Gansey não conversavam.
Eles não trocaram uma palavra até seis semanas ano adentro, quando Adam passou de bicicleta pelo Camaro a caminho da escola. Marcas pretas de pneu apontavam o caminho para o acostamento, o capô aberto. Era uma visão incomum: Adam vira o Camaro atrás de um guincho pelo menos duas vezes já.
Não havia razão alguma para pensar que Gansey, debruçado sobre o motor, iria querer a ajuda dele. Ele provavelmente já chamara um mecânico que tinha de prontidão.
Mas Adam parou. Ele lembrou como tivera medo então. De todos os dias agonizantes na Aglionby, aquele havia sido o pior momento até então: baixar o estribo da bicicleta velha ao lado do glorioso Camaro laranja-vivo de Richard C. Gansey III e esperar que ele se virasse. Seu estômago parecera uma ruína de medo.
Gansey se virara e, com seu sotaque lento e adorável, dissera:
— Adam Parrish, certo?
— Sim. Di... Richard Gansey?
— Só Gansey.
Adam já descobrira qual havia sido a avaria que parara o Camaro. Criando coragem, ele perguntara:
— Quer que eu conserte? Eu sei um pouco sobre carros.
— Não — Gansey respondera laconicamente.
Adam se lembrou de como suas orelhas queimaram, de como ele gostaria de nunca ter parado, de como ele odiava a Aglionby. Ele não era nada, ele sabia, e é claro que Gansey, de todos os alunos, podia ver isso nele. A ausência de valor nele. Seu uniforme de segunda mão, sua bicicleta barata, seu sotaque estúpido.
Ele não sabia o que o tinha feito parar.
Então Gansey, com os olhos cheios do Gansey de verdade, havia dito:
— Eu gostaria que você me mostrasse como consertar o carro sozinho, se você puder. Não faz sentido ter esse carro se eu não posso falar a língua dele. Falando em línguas, você me dá aulas de latim todos os dias. Você é tão bom quanto o Ronan.
Isso não deveria ter acontecido de maneira alguma, mas a amizade deles havia sido cimentada durante o tempo que havia levado para chegar à escola aquela manhã — Adam demonstrando como prender melhor o fio terra do Camaro, Gansey levantando a bicicleta de Adam para o porta-malas para que eles pudessem ir juntos para a escola, Adam confessando que trabalhava em uma oficina mecânica para pagar a Aglionby e Gansey se virando para o banco do passageiro e perguntando:
— O que você sabe sobre reis galeses?
Às vezes, Adam se perguntava o que teria acontecido se não tivesse parado aquele dia. O que estaria acontecendo com ele agora?
Provavelmente ele não estaria mais na Aglionby. E certamente não estaria no Camaro, a caminho de uma floresta mágica.
Gansey estava eufórico agora que tinha decidido voltar a Cabeswater. Não havia nada que ele odiasse mais do que ficar parado. Ele ordenou a Ronan que colocasse alguma música terrível — Ronan sempre ficava todo contente em condescender nesse departamento — e então forçou o Camaro em cada semáforo a caminho da saída da cidade.
— Ferro nele! — gritou Gansey, ofegante. Ele estava falando consigo mesmo, é claro, ou com a caixa de câmbio. — Não deixe que ele sinta o cheiro do medo em você!
Blue gritava cada vez que o giro do motor subia, mas não por se sentir infeliz. Noah tocava bateria na parte de trás do encosto de cabeça de Ronan. Adam, por sua vez, não se sentia tão animado, mas fez o melhor que pôde para não parecer desanimado, para não estragar o momento dos outros. Eles não tinham voltado a Cabeswater desde que Adam fizera seu sacrifício.
Ronan baixou a janela, deixando entrar uma rajada de ar quente, assim como o cheiro do asfalto e de grama cortada. Gansey seguiu o exemplo. A região lombar das costas de Adam já estava suada contra o assento de vinil, mas suas mãos estavam geladas. Será que Cabeswater o levaria junto assim que ele voltasse para lá?
O que foi que eu fiz?
Gansey, com o braço pendurado para fora, batia do lado do carro como se ele fosse um cavalo.
— Isso mesmo, Pig. Isso mesmo.
Adam sentia como se estivesse vendo tudo do lado de fora. Ele sentia como se estivesse prestes a vislumbrar outra imagem, como um filme das cartas de tarô que ele vira antes. Será que aquilo era uma pessoa parada no acostamento da estrada?
Não posso confiar em meus olhos.
Gansey se recostou no assento, a cabeça jogada para o lado, bêbado e bobo de alegria.
— Eu adoro esse carro — ele disse, alto para ser ouvido sobre o motor. — Eu devia comprar mais quatro desses. Eu simplesmente abro a porta de um e caio no outro. Um pode ser a sala de estar, outro a cozinha, eu durmo em um...
— E o quarto carro? Vai ser a despensa do mordomo? — gritou Blue.
— Não seja tão egoísta. Quarto de hóspedes. — O Camaro acelerou pela estrada de cascalho que os levaria para a floresta, uma nuvem de poeira como um paraquedas atrás dele. À medida que subiam, o campo se estendia ao redor, verde e interminável. Assim que chegassem ao cimo, eles conseguiriam ver a linha de árvores onde começava Cabeswater.
O estômago de Adam se revirou subitamente de nervoso, tão agressivamente quanto aquele dia em que ele havia parado sua bicicleta ao lado do carro de Gansey. Ele quase disse algo. Adam não sabia o que teria dito. Seria outra imagem? Uma tela em branco.
Eles subiram a colina.
O campo parecia não ter fim. A relva cerrada deu lugar a um terreno alagadiço onde um dia provavelmente houvera um regato, e então continuou por mais acres de relva.
Centenas de acres de campo.
Não havia árvores.
O carro ficou em silêncio.
Gansey dirigiu alguns metros mais antes de puxar o freio de mão. Todas as cabeças no carro, estavam voltadas na direção daquele campo interminável e do velho regato. A questão não era que um dia as árvores haviam existido e agora tinham desaparecido.
Não havia tocos ou marcas de pneus. Era como se elas nunca tivessem existido.
Gansey estendeu a mão, e, imediatamente, Ronan abriu o porta-luvas e pegou o diário. Lentamente, Gansey o folheou para onde havia escrito caprichosamente as coordenadas de Cabeswater. Era possível ouvir a respiração de Blue.
Tudo aquilo era ridículo. Era como conferir as coordenadas para a Indústria Monmouth. Todos eles sabiam onde ficava.
— Jane — disse Gansey, passando o telefone de volta para ela —, por favor, confira o GPS.
Ele leu os números da página. Então os leu novamente.
Passando o mapa com o polegar no telefone, Blue os leu de volta a partir da tela. Eram os mesmos. Eram as coordenadas que os trouxeram ali todas as outras vezes. As coordenadas que trouxeram seu professor de latim e Neeve até ali. Eles não haviam tomado um acesso errado. Não haviam passado da estrada ou estacionado no lugar errado. Fora ali que eles haviam encontrado Cabeswater. Fora ali que tudo começara.
— A floresta se foi — disse Noah finalmente.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!