20 de junho de 2018

Capítulo 15

É claro que Gansey estava atrasado para a leitura. A hora marcada tinha chegado e passado. Nada de Gansey. E, talvez mais decepcionante ainda, nenhum telefonema de Adam. Blue abriu as cortinas e deu uma espiada para um lado e para o outro na rua, mas não havia nada, a não ser o tráfego normal após um dia de trabalho. Maura inventou desculpas.
— Talvez ele tenha escrito a hora errada — disse ela.
Blue não achava que ele havia escrito a hora errada.
Dez minutos mais se arrastaram. Maura disse:
— Talvez ele tenha tido problemas com o carro.
Blue não achava que ele havia tido problemas com o carro.
Calla pegou o romance que estava lendo e subiu a escada. Sua voz chegou até elas:
— Falando nisso, você precisa ver a correia do seu Ford. Vejo uma quebra no seu futuro. Ao lado daquela loja de móveis. Um homem muito feio com um celular vai parar e ser extremamente gentil.
Era possível que ela realmente tivesse visto uma quebra no futuro de Maura, mas também era possível que estivesse sendo hiperbólica. De qualquer maneira, Maura anotou no calendário.
— Talvez eu tenha me enganado e dito para ele amanhã à tarde em vez de hoje — disse Maura.
Persephone murmurou:
— Isso sempre é possível — então disse: — Talvez eu faça uma torta.
Blue olhou ansiosamente para Persephone. O preparo de uma torta era um processo demorado e carinhoso, e Persephone não gostava de ser interrompida enquanto estivesse cozinhando. Ela não começaria uma torta se realmente achasse que a chegada de Gansey a interromperia.
Maura também olhou para Persephone antes de tirar um saco de abóbora amarela e uma barra de manteiga da geladeira. Agora Blue sabia precisamente como o resto do dia se desenrolaria. Persephone faria algo doce. Maura faria algo com manteiga. Mais tarde, Calla reapareceria e faria algo com salsicha ou bacon. Era como prosseguiam todos os entardeceres se uma refeição não tivesse sido planejada antecipadamente.
Blue não achava que Maura tivesse dito para Gansey “amanhã à tarde” em vez de “hoje”. O que ela achava era que Gansey havia olhado para o relógio no painel de seu Mercedes-Benz ou no rádio de seu Aston Martin e decidido que a leitura interferia com sua escalada ou seu jogo de tênis. E então ele lhe dera o fora, como Adam lhe dera ao não ligar para ela. Blue não podia estar realmente surpresa. Eles haviam feito exatamente o que ela esperava de garotos corvos.
Bem na hora em que Blue estava se preparando para se amuar no andar de cima, com suas agulhas e sua lição de casa, Orla deu um berro do Quarto do Telefone, um grito mudo finalmente se esclarecendo em palavras:
— Tem um Camaro 1973 na frente da casa! Ele combina com as minhas unhas!
Da última vez que Blue vira as unhas de Orla, elas traziam uma complicada estampa paisley. Ela não tinha certeza de como era um Camaro 1973, mas tinha certeza de que, se ele trazia um desenho persa, devia ser impressionante. Também tinha certeza de que Orla estava no telefone, ou ela estaria lá embaixo, espiando.
— Bem, lá vamos nós — disse Maura, abandonando a abóbora na pia. Calla reapareceu na cozinha, trocando um olhar rápido com Persephone.
O estômago de Blue se contorceu.
Gansey. É só isso.
A campainha tocou.
— Você está pronta? — Calla perguntou a Blue.
Gansey era o garoto que ela mataria ou por quem se apaixonaria. Ou ambos.
Não havia como estar pronta. Havia apenas isto: Maura abrindo a porta.
Havia três garotos ali, contra a luz do sol da tarde, como Neeve estivera tantas semanas atrás. Três pares de ombros: um quadrado, um musculoso, um magro e rijo.
— Desculpe pelo atraso — disse o garoto da frente, com os ombros quadrados. O aroma de hortelã entrou naturalmente com ele, como naquele dia, no adro da igreja. — Tem algum problema?
Blue conhecia aquela voz.
Ela estendeu a mão para o corrimão da escada para manter o equilíbrio, enquanto o Presidente Celular entrava.
Ah, não. Ele não. Todo aquele tempo ela estivera se perguntando como Gansey morreria e no fim das contas ela iria estrangulá-lo. No Nino’s, o ruído da música havia abafado os pontos mais refinados de sua voz e o cheiro de alho havia se sobrepujado ao aroma de hortelã.
Mas, agora que ela tinha somado dois mais dois, a questão parecia óbvia.
Quando entrou, ele parecia ligeiramente menos presidencial, mas apenas porque o calor havia feito com que arregaçasse desajeitadamente as mangas da camisa e tirasse a gravata. O cabelo castanho desgrenhado estava empoeirado também, como só o calor da Virgínia consegue fazer. Mas o relógio ainda estava ali, grande o suficiente para nocautear ladrões de banco, e ele ainda trazia aquele brilho de beleza. O brilho que significava não apenas que ele nunca fora pobre, mas que seu pai não o fora, nem seu avô e tampouco seu bisavô. Blue não conseguia dizer se ele era realmente muito bonito ou apenas muito rico. Talvez fossem a mesma coisa.
Gansey. Aquele era Gansey.
E isso significava que o diário pertencia a ele.
Isso significava que Adam pertencia a ele.
— Bem — disse Maura. Estava claro que sua curiosidade suplantava todas as regras sobre horários. — Não é tarde demais. Vamos para a sala de leitura. Posso saber alguns nomes?
Porque é claro que o Presidente Celular havia levado a maior parte do seu pelotão do Nino’s, com exceção do garoto sujo. Eles ocupavam todo o espaço da entrada, apenas os três, viris e barulhentos, tão à vontade uns com os outros que não permitiam a mais ninguém que se sentisse confortável junto deles. Eram uma matilha de animais elegantes, blindados com seus relógios e mocassins e o corte caro de seus uniformes. Até mesmo a tatuagem do garoto ríspido, que lhe cortava a junta do pescoço acima do colarinho, era uma arma que de algum modo penetrava Blue.
— Gansey — disse o Presidente Celular novamente, apontando para si mesmo. — Adam, Ronan. Para onde vamos? Ali?
Ele apontou uma mão para a sala de leitura, a palma aberta, como se estivesse dirigindo o tráfego.
— Ali mesmo — concordou Maura. — Aliás, esta é minha filha. Ela vai estar presente para a leitura, se você não se importar.
Os olhos de Gansey encontraram os de Blue. Ele estivera sorrindo educadamente, mas então seu rosto congelou no meio do sorriso.
— Oi de novo — disse ele. — Isso é estranho.
— Vocês já se conhecem? — Maura lançou um olhar venenoso para Blue, que se sentiu injustamente perseguida.
— Já — respondeu Gansey, altivamente. — Tivemos uma discussão sobre profissões alternativas para mulheres. Eu não sabia que ela era sua filha. Adam?
Ele lançou um olhar quase tão venenoso para Adam, cujos olhos estavam bem abertos. Adam era o único que não estava de uniforme, e sua mão estava aberta sobre o peito, como se os dedos pudessem cobrir a camiseta puída da Coca-Cola.
— Eu também não sabia! — disse Adam. Se Blue soubesse que ele viria, talvez não vestisse a blusa azul-bebê com penas costuradas na gola. Adam olhava fixamente para a roupa dela. Para Blue, ele disse novamente: — Eu não sabia, juro.
— O que aconteceu com seu rosto? — perguntou Blue.
Adam deu de ombros pesarosamente. Ou ele ou Ronan tinham um cheiro de oficina. Sua voz era autodepreciativa.
— Você acha que me faz parecer mais durão?
Na verdade, aquilo o fazia parecer mais frágil e sujo, como uma xícara de chá desenterrada, mas Blue não disse nada.
Ronan disse:
— Faz você parecer um perdedor.
— Ronan — disse Gansey.
— Eu preciso que todos se sentem! — gritou Maura.
Foi uma coisa tão alarmante ouvir Maura gritar que quase todo mundo obedeceu, afundando ou se jogando nos móveis descombinados da sala de leitura.
Adam esfregou a mão sobre a maçã do rosto, como se pudesse remover o hematoma. Gansey se sentou em uma cadeira de braços na ponta da mesa, com as mãos estendidas sobre cada um, como o presidente de um conselho, uma sobrancelha erguida enquanto olhava para o rosto emoldurado de Steve Martin.
Apenas Calla e Ronan permaneceram em pé, trocando olhares cautelosos.
Parecia que a casa nunca estivera tão cheia, o que era uma inverdade. Era possivelmente verdade que nunca houvera tantos homens ali antes. Certamente nunca tantos garotos corvos.
Blue sentiu como se a própria presença deles roubasse algo dela. Eles haviam feito a família dela parecer sombria.
— Está terrivelmente barulhento aqui — disse Maura. A maneira como ela o disse, no entanto, pressionando um dedo na pulsação logo abaixo do maxilar, dizia a Blue que não eram as vozes que estavam altas demais. Era algo que ela estava ouvindo dentro de sua cabeça. Persephone também estava se contraindo.
— Preciso sair? — perguntou Blue, apesar de ser a última coisa que ela quisesse fazer.
Não entendendo do que se tratava, Gansey imediatamente perguntou:
— Por que você teria de sair?
— Ela torna as coisas mais discerníveis para nós — disse Maura, franzindo o cenho para todos, como se estivesse tentando entender a situação. — E vocês três já são... muito ruidosos.
A pele de Blue estava quente. Ela podia imaginar a si mesma esquentando como um condutor elétrico, com faíscas de todas as partes viajando através dela. O que estaria acontecendo àqueles garotos corvos a ponto de ensurdecer sua mãe? Seria a conjunção de todos eles ou simplesmente Gansey, sua energia gritando a contagem regressiva para sua morte?
— O que você quer dizer com muito ruidosos? — perguntou Gansey. Estava claro que ele era o líder daquele pequeno bando, pensou Blue. Todos seguiam olhando para ele, para suas pistas de como interpretar a situação.
— O que quero dizer é que tem algo na energia de vocês que é muito... — disse Maura, deixando a frase morrer e perdendo o interesse em sua própria explicação. Ela se virou para Persephone, e Blue reconheceu a troca de olhares entre elas. Era um: O que está acontecendo? — Como vamos fazer isso?
A maneira como ela o perguntou, distraída e vaga, fez o estômago de Blue se apertar de nervosismo. Sua mãe estava derrotada. Pela segunda vez, uma leitura parecia empurrá-la para um lugar onde ela não se sentia confortável.
— Um de cada vez? — sugeriu Persephone, com a voz quase inaudível.
Calla disse:
— Carta única. Você precisa fazer assim, ou alguns deles terão de sair. Eles são ruidosos demais.
Adam e Gansey olharam de relance um para o outro. Ronan brincou com as pulseiras de couro em torno do punho.
— Carta única? — perguntou Gansey. — Como isso é diferente de uma leitura comum?
Calla falou com Maura, como se ele não tivesse dito nada:
— Não importa o que eles queiram. É assim que é. É pegar ou largar.
O dedo de Maura ainda estava pressionado sob o maxilar. Então ela disse para Gansey:
— Carta única quer dizer que cada um tira apenas uma carta do baralho de tarô, e nós fazemos a interpretação.
Gansey e Adam compartilharam uma espécie de conversa privada com os olhos. Era o tipo de coisa que Blue estava acostumada a ver surgir entre sua mãe e Persephone ou Calla, e não achava que ninguém mais era capaz disso. O fato a fez se sentir estranhamente invejosa; ela queria algo assim, um laço forte o suficiente para transcender palavras. A cabeça de Adam anuiu rapidamente em resposta a qualquer coisa não dita por Gansey, que falou:
— Como você achar melhor.
Persephone e Maura deliberaram por um instante, apesar de não parecer que se sentiriam confortáveis com qualquer coisa no momento.
— Espere — disse Persephone quando Maura apresentou seu baralho. — Deixe que a Blue dê as cartas.
Não era a primeira vez que pediam para Blue dar as cartas. Às vezes, em leituras importantes ou difíceis, as mulheres queriam que ela tocasse o baralho primeiro, para tornar claras quaisquer que fossem as mensagens que as cartas pudessem conter. Dessa vez, ela estava excessivamente ciente da atenção dos garotos quando tomou o baralho de sua mãe. Aproveitando a situação, embaralhou as cartas de maneira ligeiramente teatral, movendo-as de uma mão à outra. Ela era muito boa com truques de cartas que não envolviam um dom paranormal.
Enquanto os garotos, impressionados, observavam as cartas voarem de um lado para o outro, Blue refletiu que ela daria uma excelente falsa médium.
Como ninguém quis ser voluntário para começar, ela ofereceu o baralho a Adam. Ele a encarou e sustentou seu olhar por um momento. Havia algo de vigoroso e intencional a respeito do gesto, mais agressivo do que ele havia sido na noite em que a abordara.
Adam escolheu uma carta e a apresentou para Maura.
— Dois de espadas — disse ela. Blue estava demasiadamente consciente do sotaque de sua mãe, soando subitamente rural e ignorante para seus ouvidos. Era assim que Blue soava?
Maura continuou:
— Você está evitando uma escolha difícil. Agindo ao não agir. Você é ambicioso, mas sente como se alguém estivesse lhe pedindo algo que você não está disposto a dar. Pedindo que comprometa seus princípios. Creio que alguém próximo de você. Seu pai?
— Irmão, eu acho — disse Persephone.
— Eu não tenho irmão, senhora — respondeu Adam. Mas Blue viu seus olhos se lançarem para Gansey.
— Você quer fazer uma pergunta? — perguntou Maura.
Adam considerou:
— Qual é a escolha certa?
Maura e Persephone conferenciaram entre si. Maura respondeu:
— Não há uma escolha certa. Apenas uma com a qual você consiga conviver. Pode haver uma terceira opção que vai lhe cair melhor, mas, neste momento, você não a está vendo porque está muito envolvido com as outras duas. Pelo que estou vendo, eu diria que qualquer outro caminho requereria que você deixasse de lado essas duas opções e criasse a sua própria opção. Também estou sentindo que você é um pensador muito analítico. Você passou muito tempo aprendendo a ignorar suas emoções, mas não creio que seja a hora para isso.
— Obrigado — disse Adam. Não era exatamente a coisa certa a ser dita, mas não era inteiramente errada, também. Blue gostava do modo como ele era educado. Parecia diferente da educação de Gansey. Quando Gansey era educado, isso o tornava poderoso. Quando Adam era educado, ele estava concedendo poder.
Parecia certo deixar Gansey por último. Então Blue seguiu com Ronan, apesar de estar um pouco temerosa em relação a ele. Algo nele gotejava veneno, apesar de ele não ter aberto a boca. Pior de tudo, na opinião de Blue, era que havia algo a respeito de seu antagonismo que a fazia querer conquistar sua estima, para obter sua aprovação. A aprovação de alguém como ele, que claramente não se importava com ninguém, parecia que valeria mais.
Para oferecer o baralho a Ronan, Blue teve de se levantar, pois ele ainda estava de pé perto do vão da porta, próximo de Calla. Eles pareciam prontos para boxear.
Quando Blue abriu em leque as cartas, ele examinou as mulheres na sala e disse:
— Não vou pegar uma carta. Me digam algo verdadeiro primeiro.
— Como é? — disse Calla severamente, respondendo por Maura.
A voz de Ronan era de vidro, fria e quebradiça.
— Tudo que vocês disseram a ele poderia se aplicar a qualquer pessoa. Qualquer pessoa viva tem dúvidas. Qualquer um já discutiu com o irmão ou com o pai. Me digam algo que ninguém mais pode me dizer. Não me venham com uma carta de jogo e uma besteira junguiana para me enfiar goela abaixo. Me digam algo específico.
Os olhos de Blue se estreitaram. Persephone colocou ligeiramente a língua para fora, um hábito surgido da incerteza, não da insolência. Maura se mexeu na cadeira, incomodada.
— Nós não fazemos uma leitura especí...
Calla a interrompeu.
— Um segredo matou o seu pai e você sabe qual era.
A sala caiu em um silêncio mortal. Tanto Persephone quanto Maura olhavam fixamente para Calla. Gansey e Adam encaravam Ronan, e Blue olhava fixamente para a mão de Calla.
Maura muitas vezes chamava Calla para fazer leituras de tarô conjuntas, e Persephone às vezes a chamava para interpretar seus sonhos, mas muito raramente alguém pedia a Calla para usar um de seus dons mais estranhos: a psicometria. Calla tinha uma capacidade excepcional de segurar um objeto e sentir sua origem, sentir os pensamentos do dono e ver os lugares onde o objeto havia estado.
Nesse instante, Calla afastou a mão; ela a havia estendido para tocar a tatuagem de Ronan, bem onde ela encontrava o colarinho. O rosto dele estava voltado ligeiramente, olhando para onde os dedos dela haviam estado.
Poderia haver apenas Ronan e Calla na sala. Ele era uma cabeça mais alto que ela, mas parecia jovem ao seu lado, como um gato selvagem magricelo que ainda não ganhara peso. Ela era uma leoa.
Calla sibilou:
— O que você é?
O sorriso de Ronan gelou Blue. Havia algo de vazio nele.
— Ronan? — perguntou Gansey, com um tom preocupado na voz.
— Vou esperar no carro.
Sem mais um comentário sequer, Ronan partiu, batendo a porta com tanta força que as louças na cozinha tilintaram.
Gansey voltou um olhar acusador para Calla.
— O pai dele morreu.
— Eu sei — disse Calla, com os olhos estreitos.
O tom de voz de Gansey era cordial o suficiente para seguir direto do educado ao rude.
— Eu não sei como você descobriu isso, mas que coisa desprezível para jogar em um garoto.
— Em uma cobra, você quis dizer — Calla rosnou de volta. — E para que vocês vieram aqui, se não acreditam que podemos fazer o trabalho pelo qual estamos cobrando? Ele pediu algo específico, eu dei algo específico. Sinto muito se não eram filhotinhos.
— Calla — advertiu Maura, ao mesmo tempo em que Adam disse:
— Gansey.
Adam murmurou algo no ouvido do amigo e então se recostou. Um osso se moveu no maxilar de Gansey. Blue o observou voltando a ser o Presidente Celular; ela não havia se dado conta antes de que ele podia ser outra coisa. Agora ela gostaria que tivesse prestado mais atenção, para que pudesse ter visto o que havia de diferente nele.
Gansey disse:
— Desculpem. O Ronan é curto e grosso e, para começo de conversa, ele não estava se sentindo bem em vir aqui. Eu não estava tentando insinuar que vocês não são verdadeiras. Podemos continuar?
Ele soava tão velho, pensou Blue. Tão formal comparado aos garotos que o acompanhavam. Havia algo intensamente desconcertante nele, comparável a como ela se sentiu compelida a impressionar Ronan. Algo a respeito de Gansey a fazia se sentir tão fortemente outra que era como se ela tivesse de proteger suas emoções. Ela não conseguia gostar dele, ou do que quer que houvesse naqueles garotos que suprimia as habilidades paranormais de sua mãe e tomava conta da sala, a ponto de esmagá-la.
— Não tem problema — disse Maura, embora estivesse olhando para o rosto irado de Calla ao dizê-lo.
Quando Blue se deslocou para onde Gansey estava sentado, ela viu de relance seu carro na calçada: um brilho laranja impossível, o tipo de laranja com o qual Orla definitivamente pintaria suas unhas. Não era exatamente o que ela esperaria que um garoto de Aglionby dirigisse — eles gostavam de coisas novas e brilhantes, e aquela era uma coisa velha e brilhante —, mas, mesmo assim, era claramente o carro de um garoto corvo. E só então Blue teve uma sensação de queda, como se as coisas estivessem acontecendo rápido demais para absorvê-las apropriadamente. Havia algo esquisito e complicado a respeito de todos aqueles garotos, pensou Blue — esquisito e complicado assim como o diário era esquisito e complicado. Suas vidas estavam de certa forma interligadas, e de algum modo ela havia conseguido fazer algo para se manter presa naquela teia. Se esse algo fora feito no passado ou seria feito no futuro, parecia irrelevante. Naquela sala, com Maura, Calla e Persephone, o tempo parecia circular.
Ela parou na frente de Gansey. Tão próxima dele, sentiu mais uma vez o aroma de hortelã, e isso fez seu coração saltar incerto.
Gansey baixou o olhar para o baralho aberto em leque nas mãos dela. Quando Blue o viu assim, notou a curva de seus ombros e a parte de trás de sua cabeça, e então se lembrou agudamente de seu espírito, do garoto por quem ela temia se apaixonar. Aquela sombra não tinha nada da confiança jovial e desembaraçada daquele garoto corvo à sua frente.
O que acontece com você, Gansey?, ela se perguntou. Quando você se torna aquela pessoa?
Gansey ergueu o olhar para ela, com um vinco entre as sobrancelhas.
— Não sei como escolher. Você pode escolher uma carta para mim? Funcionaria assim?
De canto de olho, Blue viu Adam se mexendo na cadeira, franzindo o cenho.
Persephone respondeu por trás de Blue:
— Se você assim quiser.
— O que vale é a intenção — acrescentou Maura.
— Eu quero que você escolha — disse ele. — Por favor.
Blue colocou as cartas em leque sobre a mesa, que deslizaram soltas sobre a superfície. Deixou os dedos flutuarem acima delas. Uma vez Maura havia lhe dito que as cartas corretas às vezes davam uma sensação de calor ou formigamento quando os dedos estavam próximos a elas. Para Blue, é claro, todas as cartas pareciam idênticas. Uma, no entanto, havia escorregado mais longe que as outras, e foi essa que ela escolheu.
Quando a abriu, Blue não conteve uma risadinha impotente.
O pajem de copas olhava de volta para Blue com o rosto dela. Parecia que alguém estava rindo dela, mas ela não tinha ninguém para culpar pela escolha da carta, a não ser ela mesma.
Quando Maura viu a carta, sua voz assumiu um tom sereno e distante.
— Essa não. Faça com que ele escolha outra.
— Maura — disse Persephone suavemente, mas Maura apenas gesticulou com a mão, desautorizando-a.
— Outra — ela insistiu.
— O que há de errado com essa carta? — perguntou Gansey.
— Ela tem a energia de Blue — disse Maura. — Não era para ser sua. Você mesmo terá de escolher uma carta.
Persephone mexeu a boca, mas não disse nada. Blue recolocou a carta e misturou o baralho com menos drama do que antes.
Quando ofereceu as cartas para Gansey, ele virou o rosto para o lado, como se estivesse tirando o número vencedor de uma rifa. Seus dedos tocaram de leve a ponta das cartas, contemplativos. Ele escolheu uma e a virou para mostrar para a sala.
Era um pajem de copas.
Ele olhou para o rosto da carta e então para o rosto de Blue, e ela sabia que ele tinha visto a similaridade.
Maura se inclinou para frente e tirou a carta de seus dedos.
— Escolha outra.
— Mas por quê? — disse Gansey. — O que há de errado com essa carta? O que ela quer dizer?
— Não há nada de errado com ela — respondeu Maura. — Ela só não é sua.
Pela primeira vez, Blue viu uma ponta de exasperação verdadeira na expressão de Gansey, e isso a fez gostar um pouco mais dele. Então talvez houvesse algo por baixo do exterior de garoto corvo. Petulante, Gansey puxou outra carta, evidentemente cheio daquele exercício. Com um floreio, ele virou a carta e a bateu na mesa.
Blue engoliu em seco.
Maura disse:
— Esta é a sua carta.
Na mesa havia um cavaleiro negro montado um cavalo branco. O capacete do cavaleiro estava levantado, e seu rosto era uma caveira dominada por órbitas sem olhos. O sol se punha atrás dele, e embaixo dos cascos do cavalo jazia um corpo.
Do lado de fora das janelas atrás deles, uma brisa sibilava audivelmente pelas árvores.
— Morte — Gansey leu a parte de baixo da carta. Ele não parecia surpreso ou alarmado. Apenas leu a palavra como leria “ovos” ou “Cincinnati”.
— Muito bem, Maura — disse Calla, com os braços cruzados firmemente sobre o peito. — Você vai interpretar isso para o garoto?
— Nós poderíamos devolver o dinheiro dele — sugeriu Persephone, embora Gansey não tivesse pago ainda.
— Achei que médiuns não previam a morte — disse Adam calmamente. — Li que a carta da Morte era apenas simbólica.
Maura, Calla e Persephone emitiram ruídos vagos. Blue, absolutamente ciente da verdade do destino de Gansey, sentiu-se enjoada. De Aglionby ou não, ele tinha a idade dela, obviamente tinha amigos que gostavam dele e uma vida que envolvia um carro muito laranja, e era terrível saber que ele estaria morto em menos de doze meses.
— Na verdade — disse Gansey —, não me importo com isso.
Todos na sala olharam para ele enquanto ele parava a carta de pé para estudá-la.
— Quer dizer, as cartas são muito interessantes. — Ele disse “as cartas são muito interessantes” como alguém diria “isso é muito interessante” para um tipo muito estranho de torta que a pessoa não gostaria realmente de terminar. — Não quero desprezar o que vocês fazem, mas eu não vim aqui para saber o meu futuro. Estou bastante satisfeito em descobri-lo por mim mesmo.
Ele lançou um rápido olhar para Calla ao dizê-lo, obviamente percebendo que estava caminhando em uma tênue linha entre “educado” e “Ronan”.
— Na verdade, eu vim porque queria fazer uma pergunta sobre energia — continuou. — Eu sei que vocês lidam com um trabalho que envolve energia, e venho tentando encontrar uma linha ley que acredito estar próxima de Henrietta. Vocês sabem alguma coisa sobre isso?
O diário!
— Linha ley? — repetiu Maura. — Talvez. Mas não sei se conheço por esse nome. O que é isso?
Blue estava um pouco atordoada. Ela sempre achara que sua mãe era a pessoa mais confiável à sua volta.
— São linhas de energia diretas que cruzam o globo — explicou Gansey. — Elas supostamente conectam locais espirituais importantes. O Adam achou que talvez vocês soubessem alguma coisa sobre elas, porque vocês lidam com energia.
Era óbvio que ele se referia ao caminho dos corpos, mas Maura não ofereceu nenhuma informação. Apenas apertou os lábios e olhou para Persephone e Calla.
— Isso lembra alguma coisa a vocês duas?
Persephone apontou um dedo reto para cima e então disse:
— Esqueci a cobertura da minha torta.
E se retirou da sala. Calla continuou:
— Eu preciso pensar. Não sou boa em questões específicas.
Havia um ligeiro sorriso divertido no rosto de Gansey, que significava que ele sabia que elas estavam mentindo. Era uma expressão estranhamente sábia, e mais uma vez Blue percebeu que ele parecia mais velho que os garotos que havia levado consigo.
— Vou procurar me informar sobre isso — disse Maura. — Se você deixar o seu telefone, posso ligar para você se descobrir alguma coisa.
Gansey respondeu, friamente educado:
— Ah, isso seria ótimo. Quanto eu devo pela leitura?
De pé, Maura disse:
— Ah, só vinte.
Blue pensou que aquilo era um crime. Gansey claramente gastara mais de vinte dólares só nos cadarços de seus mocassins.
Ele franziu o cenho para Maura enquanto abria a carteira. Havia um monte de notas ali. Elas podiam ser de um, mas Blue duvidava que fossem. Ela também podia ver sua carteira de motorista com bastante clareza; não próxima o suficiente para perceber detalhes, mas bem o bastante para ver que o nome impresso parecia bem mais longo do que apenas Gansey.
— Vinte?
— Cada uma — acrescentou Blue.
Calla tossiu.
O rosto de Gansey se desanuviou e ele passou sessenta dólares para Maura. Obviamente aquilo era mais perto do que ele estivera esperando pagar, e agora o mundo estava certo de novo.
Foi Adam, no entanto, que Blue observou então. Ele estava olhando para ela atentamente, e ela se sentiu transparente e culpada. Não apenas por cobrar a mais, mas em relação à mentira de Maura. Blue tinha visto o espírito de Gansey trilhar o caminho dos corpos e tinha conhecimento de seu nome antes de ele entrar pela porta. Como a mãe, ela não dissera nada. Então, era cúmplice.
— Vou levar vocês até a porta — disse Maura, claramente ansiosa em vê-los sair. Por um momento, pareceu que Gansey sentia o mesmo, mas então ele parou e deu atenção excessiva para sua carteira enquanto a dobrava e a guardava no bolso. Depois ergueu o olhar para Maura e fez uma linha firme com a boca.
— Olhe, somos todos adultos aqui — ele começou.
Calla fez uma cara, como se discordasse.
Gansey endireitou os ombros e continuou:
— Então eu acho que merecemos a verdade. Me diga que você sabe de algo mas não quer me ajudar, se é isso que está acontecendo, mas não minta para mim.
Era uma coisa corajosa de dizer, ou arrogante, ou talvez não houvesse diferença suficiente entre as duas coisas. Todas as cabeças na sala se viraram para Maura.
Ela disse:
— Eu sei de algo, mas não quero te ajudar.
Pela segunda vez naquele dia, Calla parecia encantada. A boca de Blue estava aberta, mas ela logo a fechou.
Gansey apenas anuiu, não mais nem menos angustiado do que quando Blue lhe respondera de volta no restaurante.
— Tudo bem, então. Não, não, fique onde está. Nós encontramos a saída.
E, sem mais nem menos, eles foram embora, Adam lançando para Blue um último olhar que ela não pôde interpretar. Um segundo depois, a rotação do motor do Camaro subiu alta e os pneus cantaram os verdadeiros sentimentos de Gansey.
Então a casa ficou em silêncio. Um silêncio forçado, como se os garotos corvos tivessem levado todo o ruído do bairro com eles.
Blue se lançou sobre a mãe.
— Mãe. — Ela ia dizer algo mais, mas tudo que conseguiu dizer novamente foi: — Mãe! — mais alto.
— Maura — disse Calla —, isso foi muito rude. — Então acrescentou: — Gostei.
Maura se virou para Blue, como se Calla não tivesse falado nada.
— Não quero que você veja esse garoto nunca mais.
Indignada, Blue protestou:
— E o que aconteceu com “crianças não devem receber ordens”?
— Isso foi antes de Gansey. — Maura virou a carta da Morte, dando a Blue um longo tempo para examinar o crânio dentro do capacete. — É o mesmo que dizer para você não atravessar a rua na frente de um ônibus.
Várias contestações se passaram rapidamente pela cabeça de Blue antes de encontrar a que ela queria.
— Por quê? A Neeve não me viu no caminho dos corpos. Eu não vou morrer no ano que vem.
— Em primeiro lugar, o caminho dos corpos é uma promessa, não uma garantia — respondeu Maura. — Em segundo lugar, existem outros destinos terríveis além da morte. Vamos falar de desmembramento? Paralisia? Trauma psicológico interminável? Tem alguma coisa muito errada com esses rapazes. Quando sua mãe diz “não atravesse a rua na frente de um ônibus”, ela tem uma boa razão para isso.
Da cozinha, a voz suave de Persephone soou:
— Se alguém tivesse evitado que você atravessasse a rua na frente de um ônibus, Maura, a Blue não estaria aqui.
Maura lançou uma careta em sua direção, então varreu com a mão a mesa de leitura, como se a estivesse limpando de migalhas de pão.
— O melhor cenário aqui é o de que você se tornará amiga de um garoto que vai morrer.
— Ah — disse Blue, de modo muito, muito astuto. — Agora entendi.
— Não venha me analisar — disse a mãe.
— Já fiz isso. E repito: “Ah”.
Maura sorriu com um sarcasmo que não lhe era costumeiro e então perguntou a Calla:
— O que você viu quando tocou aquele outro garoto? O garoto corvo?
— Todos eles são garotos corvos — disse Blue.
A mãe balançou a cabeça.
— Não, ele é mais corvo do que os outros.
Calla esfregou a ponta dos dedos, como se estivesse limpando deles a memória da tatuagem de Ronan.
— É como a leitura daquele espaço estranho. Tem tanta coisa saindo dele que não deveria ser possível. Lembra daquela mulher que apareceu grávida de quádruplos? É assim, só que pior.
— Ele está grávido? — perguntou Blue.
— Ele está criando — disse Calla. — Aquele espaço está criando também. Não sei como colocar melhor do que isso.
Blue se perguntou a que tipo de criação ela se referia. Ela estava sempre criando coisas — pegando coisas velhas, cortando-as e tornando-as melhores. Pegando coisas que já existiam e transformando-as em algo mais. Ela achava que isso era o que a maioria das pessoas queria dizer quando chamavam alguém de criativo.
Mas ela suspeitava que não era isso que Calla queria dizer. Ela achava que o que Calla queria dizer era o verdadeiro significado de criativo: fazer uma coisa onde antes não havia nada.
Maura percebeu a expressão de Blue e disse:
— Eu nunca mandei você fazer algo antes, Blue. Mas estou mandando agora. Fique longe deles.

6 comentários:

  1. ai meu gzuis. o suspense nisso tudo ainda vai me matar.

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  2. "— Ele está grávido? — perguntou Blue."

    TODA vez que eu leio essa parte quase morro.
    Se esse não é um dos melhores capítulos eu nem sei mais nada

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    1. Adoro a Calla, apesar da opinião dela sobre Ronan aonde eu discordo
      Mas ela tem comentários altamente pertinentes

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  3. "Ah, não. Ele não. Todo aquele tempo ela estivera se perguntando como Gansey morreria e no fim das contas ela iria estrangulá-lo."

    HAHAHAHAHAHAHAHA


    Não consigo imaginar o que é uma blusa azul-bebê com penas costuradas na gola kkk

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  4. Tô lendo tudo, não estou entendendo nada !!!

    Tem que ler tudo 2x para começar a entender ?

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  5. Calla rainha! Amei como ela lidou com o Ronan, adoro ele tbm, mas ele pediu.
    Persephone me deixou encucada com a estória da Maura e do onibus Blue kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!