26 de junho de 2018

Capítulo 14

Você poderia perguntar para qualquer um: a Rua Fox, 300, em Henrietta, Virgínia, era o lugar para o espiritual, o invisível, o misterioso e o que ainda estava por acontecer. Por uma taxa bastante razoável, qualquer uma das mulheres debaixo daquele telhado leria a sua mão, tiraria cartas para você, limparia a sua energia, conectaria você com parentes falecidos ou ouviria a respeito da semana terrível que você teve há pouco. Durante o horário comercial, a clarividência significava muitas vezes trabalho.
Mas, nos dias de folga, quando apareciam os drinques, muitas vezes ela se tornava um jogo. Maura, Calla e Persephone reviravam a casa em busca de revistas, livros, caixas de cereais, baralhos antigos de tarô — qualquer coisa com palavras ou imagens. Uma delas selecionava uma imagem e a escondia das outras, que testavam quão precisamente conseguiam formular palpites. Elas faziam previsões de costas umas para as outras, com as cartas espalhadas, com números diferentes de velas sobre a mesa, de pé em baldes de água, gritando uma para a outra, a três ou sete degraus de distância do corredor da frente. Maura chamava isso de educação continuada. Calla, de resolver problemas. Persephone, de aquela coisa que podemos fazer quando não tem nada na televisão.
Naquele dia, após Blue, Gansey e Adam terem ido, não havia trabalho para fazer. Os domingos eram tranquilos, mesmo para quem não ia à igreja. A questão não era que as mulheres na Rua Fox, 300 não fossem espiritualizadas aos domingos. A questão era que elas eram espiritualizadas todos os dias, e assim o domingo não se destacava particularmente. Após os adolescentes terem deixado a casa, as mulheres abandonaram o trabalho e prepararam o jogo na sala de estar modesta, mas confortável.
— Estou praticamente bêbada o bastante para ser transcendente — disse Calla depois de um tempo. Ela não era a única médium que estava bebendo, mas era a mais próxima da transcendência.
Persephone espiou duvidosamente o fundo do próprio copo. Com uma voz pequenina (sua voz era sempre pequena), disse tristemente:
— Não estou nem um pouco bêbada.
— É a russa que há em você — sugeriu Maura.
— Estoniana — ela respondeu.
Nesse momento, a campainha tocou. Maura disse um palavrão delicadamente: uma palavra bem escolhida e altamente específica. Calla disse um palavrão indelicadamente: várias palavras com muito menos sílabas. Então Maura foi até a porta da frente e reapareceu na sala de estar com um homem alto.
Ele era muito... cinza. Usava uma camiseta de gola V cinza-escura que enfatizava a inclinação muscular de seus ombros. A calça era de um cinza mais profundo. O cabelo era de um loiro-acinzentado, assim como os pelos faciais de uma semana em torno da boca, bastante na moda. Até as íris eram cinzentas.
Não passou despercebido a nenhuma das mulheres na sala que ele era bonito.
— Esse é o sr...?
Ele sorriu de maneira um tanto deliberada.
— Cinzento.
A boca das mulheres se retorceu em seu próprio tipo de sorriso deliberado.
— Ele quer uma leitura — disse Maura.
— Nós estamos fechadas — respondeu Calla, de maneira absolutamente sumária.
— A Calla é uma grossa — disse Persephone em sua voz de boneca. — Nós não estamos fechadas, mas será que estamos ocupadas?
Isso foi dito com um tom de questionamento na voz e com um olhar ansioso na direção de Maura.
— Foi isso que eu disse a ele — disse Maura. — No entanto, no fim das contas, o sr... Cinzento... não precisa realmente de uma leitura. Ele é um romancista pesquisando mediunidade. Só quer observar.
Calla chacoalhou o gelo no copo. Uma sobrancelha parecia excepcionalmente cética.
— O que o senhor escreve, sr. Cinzento?
Ele sorriu de maneira descontraída para ela. Elas notaram que ele tinha dentes extraordinariamente retos.
— Suspenses. Vocês leem bastante?
Ela simplesmente assobiou e inclinou o copo na direção dele, a marca do batom roxo-escuro primeiro.
— Vocês se importariam se ele ficasse? — perguntou Maura. — Ele sabe poesia.
Calla desdenhou.
— Recite uma estrofe e eu lhe preparo um drinque.
Sem a menor hesitação ou sugestão de inibição, o Homem Cinzento colocou as mãos nos bolsos da calça cinza-escura e disse:
— Where has gone the steed? Where has gone the youth? Where has gone the giver of treasure? Where are the feasting seats, where the revelry in the hall? Alas, bright goblet; alas, mailed warrior; alas, princes glory! How that time has passed away, obscured beneath the crown of night as if it never were.
Calla ergueu os lábios dos dentes.
— Recite no inglês arcaico original e eu ponho álcool nesse drinque.
Ele recitou.
Calla foi preparar o drinque.
Quando voltou, o Homem Cinzento foi encorajado a se sentar no sofá gasto, e Maura disse:
— Já vou avisando que, se você tentar alguma coisa, a Calla tem um spray de pimenta.
Como demonstração, Calla lhe entregou o drinque e então tirou um tubo da bolsinha vermelha.
Maura gesticulou na direção do terceiro membro do grupo.
— E a Persephone é russa.
— Estoniana — corrigiu Persephone baixinho.
— E — Maura formou um punho extremamente convincente — eu sei como socar o nariz de um homem para dentro do cérebro.
— Que coincidência — disse o Homem Cinzento jovialmente. — Eu também.
Ele observou com uma atenção ao mesmo tempo educada e lisonjeira enquanto Maura juntava as cartas que estavam sobre as almofadas do sofá. Ele se inclinou para pegar uma que ela tinha deixado.
— Esse cara parece infeliz — ele observou. O desenho era de um homem atingido por dez espadas. A vítima estava deitada de bruços, como a maioria das pessoas fica após ser atingida por dez espadas.
— É assim que um cara fica depois que a Calla acaba com ele — disse Maura. — A boa notícia para ele é que o dez representa o fim de um ciclo. Essa carta representa o fundo mais profundo do poço a que ele vai chegar.
— Não parece que pode ficar muito pior do que dez pontadas nas suas costas e poeira na sua boca — concordou o Homem Cinzento.
— Olhe — disse Maura —, o rosto dele parece um pouco com o seu.
Ele estudou a carta e colocou o dedo sobre a lâmina enfiada nas costas da vítima.
— E essa espada parece um pouco com você.
Ele olhou para Maura. Foi um olhar de relance. Ela olhou de volta. Também foi um olhar de relance.
— Bem — disse Calla.
— Você nos daria a honra, sr. Cinzento? — Maura lhe estendeu o baralho de cartas. — Você precisa perguntar: em cima ou embaixo?
O sr. Cinzento aceitou seriamente a responsabilidade e perguntou a Calla:
— Em cima ou embaixo?
— Três de copas. E em cima, é claro — disse Calla, seu sorriso roxo-escuro e travesso. — O único lugar para se estar.
O sr. Cinzento tirou a carta do topo e a virou. É claro que era o três de copas.
Maura abriu um largo sorriso e disse:
— Imperatriz, embaixo.
O Homem Cinzento tirou a carta da parte de baixo e mostrou para a sala. A toga da imperatriz era sugerida por um amplo traço de carvão, e sua coroa era cravejada de frutas ou pedras de tinta.
O Homem Cinzento bateu palmas lentamente.
— Quatro de paus, embaixo — disse Calla.
— Dez de ouros, em cima — disparou Maura de volta.
— Ás de copas, embaixo — exclamou Calla.
Maura bateu no braço do sofá.
— O sol, embaixo.
— Quatro de espadas, em cima! — replicou Calla, sua boca um esgar purpúreo mortal.
O Homem Cinzento virou as cartas uma após a outra, revelando as previsões corretas.
A voz baixa de Persephone interrompeu a competição cada vez mais ruidosa de Maura e Calla.
— O rei de espadas.
Todo mundo se virou para olhar para ela, que estava sentada com os joelhos juntos e as mãos cruzadas elegantemente no colo. De vez em quando, Persephone parecia ter ao mesmo tempo oito e oitenta anos; agora era uma dessas vezes.
A mão do Homem Cinzento pairou obedientemente sobre o baralho.
— Em cima ou embaixo?
Persephone piscou.
— Dezesseis cartas contando de cima, creio eu.
Tanto Maura quanto Calla ergueram uma sobrancelha. A de Calla subiu um pouco mais.
O Homem Cinzento contou as cartas cuidadosamente, conferiu de novo a contagem e então virou a décima sexta carta para as outras verem. O rei de espadas, mestre das próprias emoções, mestre do próprio intelecto, mestre da razão, olhava de dentro da carta para elas, sua expressão inescrutável.
— Essa é a carta do sr. Cinzento — disse Persephone.
Maura perguntou:
— Tem certeza?
Diante da concordância muda de Persephone, Maura se virou para ele.
— Você acha que essa é a sua carta?
O Homem Cinzento virou a carta de um lado para o outro, como se ela fosse revelar seus segredos para ele.
— Eu não sei muito sobre tarô. É uma carta terrível?
— Nenhuma carta é terrível — disse Maura. Ela olhou para o Homem Cinzento, acomodando o rei de espadas ao homem à sua frente. — E a interpretação pode ser muito diferente em cada leitura. Mas... o rei de espadas é uma carta poderosa. Ele é forte, mas imparcial... frio. Ele é muito, muito bom em tomar decisões baseadas em fatos em vez de emoções. Não, não é uma carta terrível. Mas estou captando outra coisa dela. Algo como...
— Violência — terminou Calla.
A palavra teve efeito imediato sobre todos na sala. Para Maura, Persephone e Calla, as lembranças da meia-irmã de Maura ocorriam primeiro, na medida em que eram as mais recentes, seguidas pelo garoto Gansey e seu polegar quebrado.
O Homem Cinzento se lembrou do olhar atordoado de Declan Lynch, o sangue escorrendo do nariz dele.
Violência.
— Sim, violência — disse Maura. — É isso que você quer dizer, Persephone?
Sim.
Todas as três se inclinaram inconscientemente na direção das outras. Às vezes, Maura, Persephone e Calla pareciam mais três partes da mesma entidade em vez de três mulheres separadas. As três se viraram como uma para o sr. Cinzento.
— Meu trabalho é violento, às vezes — ele admitiu.
— Achei que você estava pesquisando para um romance. — O tom de Maura soava mais do que um pouco irritado.
— Era mentira — disse o Homem Cinzento. — Desculpe. Eu tive de pensar rápido quando você disse que eu não podia fazer uma leitura.
— Então qual é a verdade?
— Sou um assassino de aluguel.
Essa confissão precedeu vários momentos de silêncio. A resposta do Homem Cinzento parecia muito petulante, mas sua voz sugeria outra coisa. Era o tipo de resposta que exigia um esclarecimento ou uma qualificação imediata, mas ele não ofereceu nada.
— Isso não é muito engraçado — disse Maura.
— Não, não é — concordou o Homem Cinzento.
Todos na sala estavam esperando pela resposta de Maura, e ela perguntou:
— E foi o trabalho que trouxe você aqui hoje?
— Apenas pesquisa.
— Para o trabalho?
Sem se perturbar, o sr. Cinzento disse:
— Tudo é pesquisa para o trabalho. À sua maneira.
Ele não fez absolutamente nada para tornar suas palavras mais fáceis de ser aceitas.
Era impossível dizer se ele estava pedindo a elas que acreditassem nele, fizessem a vontade dele ou o temessem. Ele simplesmente fez sua confissão e esperou.
Por fim, Maura disse:
— Poderia ser uma boa ter alguém mais mortal que a Calla em casa para variar um pouco.
Ela olhou de relance para ele. Ele olhou de relance de volta. Havia uma concordância tácita, sem palavras, naquele gesto.
Todos tomaram mais um drinque. O Homem Cinzento fez perguntas cultas, cheias de um humor irônico. Algum tempo depois, ele se pôs de pé, levou os copos vazios para a cozinha e pediu licença com um olhar para o relógio.
— Não que eu não quisesse ficar mais.
Então perguntou se podia voltar mais tarde naquela semana.
E Maura disse que sim.
Depois que ele foi embora, Calla examinou a carteira dele, que ela havia roubado enquanto ele partia.
— A identidade é falsa — ela observou, fechando a carteira e a enfiando nas almofadas do sofá onde ele estivera sentado. — Mas ele vai sentir falta dos cartões de crédito. Por que você foi dizer que sim?
— Eu fico mais tranquila se ficar de olho nesse tipo de coisa — respondeu Maura.
— Ah — disse Persephone —, acho que todas nós sabemos em que você estava de olho.

2 comentários:

  1. Tenho quase ctz que a Maura tava de olho na bunda dele, kkkkk
    E a Calla é muito furtiva, mds, roubou a carteira de um assassino de aluguel

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  2. Já falei que amo essas três? Se não, agora digo. Eu amo essas três, são um amor..

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Boa leitura, E SEM SPOILER!