3 de junho de 2018

Capítulo 14

Lá vai o senhor Bedrossian
Fugindo da gente
Numa calça de ginástica

— SÓ QUERO ELOGIOS — avisou Piper, saindo do quarto.
Mas eu nem sonharia em criticá-la.
Piper McLean estava muito elegante, pronta para o combate em seus All Star brancos, uma calça jeans skinny surrada, um cinto de couro e a camiseta laranja do acampamento. Uma pena azul enfeitava a trança lateral em seu cabelo — uma pena de harpia, se não me engano. Ela levava no cinto uma adaga de lâmina triangular igual à que as mulheres gregas usavam, um parazônio. Quando namorei Hécuba, que depois se tornou rainha de Troia, ela carregava uma dessas. Era mais cerimonial, pelo que eu lembrava, mas muito afiada. (Hécuba tinha o temperamento meio forte.)
Pendurado do outro lado do cinto de Piper… Ah, era por isso que ela estava constrangida. Uma minialjava estava presa à sua coxa, carregada com projéteis de trinta centímetros, com sementes de dente-de-leão no lugar das penas. Um tubo de bambu de um metro e vinte ia pendurado ao ombro, junto da mochila.
— Uma zarabatana! — exclamei. — A-do-ro zarabatanas!
Não que eu fosse um especialista naquele tipo de arma, mas é que a zarabatana é uma arma de disparo. É elegante, difícil de dominar e muito sorrateira. Como não amar?
Meg coçou a nuca.
— Zarabatana é coisa dos gregos?
Piper riu.
— Não, não é coisa dos gregos, é coisa dos Cherokee. Meu avô fez esta para mim, muito tempo atrás. Ele sempre quis que eu treinasse.
O cavanhaque de Grover tremelicou como se estivesse tentando se libertar do queixo, no maior estilo Houdini.
— As zarabatanas são muito difíceis de usar. Meu tio Ferdinando tinha uma. Você é boa nisso?
— Não sou a melhor do mundo — admitiu Piper. — Não chego nem perto da minha prima de Tahlequah, que é a campeã da tribo. Mas andei treinando. Isto aqui foi bem útil na última vez em que Jason e eu entramos no Labirinto. — Ela deu um tapinha gentil na aljava. — Vocês vão ver.
Grover conseguiu controlar a empolgação. Eu entendia a preocupação dele: nas mãos de alguém inexperiente, uma zarabatana era mais perigosa para aliados do que para inimigos.
— E a adaga? — perguntou Grover. — Essa é mesmo…?
— Katoptris — completou Piper, com orgulho. — Pertenceu a Helena de Troia.
Soltei um gritinho.
— Você tem a adaga de Helena de Troia? Onde você encontrou isso?
Piper deu de ombros.
— Em um galpão no acampamento.
Senti vontade de arrancar os cabelos. Eu me lembrava de quando Helena ganhou aquela adaga, como presente de casamento. Era uma lâmina tão linda, na mão da mulher mais bonita que já habitou este planeta (sem querer ofender os bilhões de outras mulheres por aí que também são encantadoras. Amo todas vocês.) E Piper encontrou aquela arma historicamente importante, bem elaborada e poderosa em um galpão?
Ora, o tempo transforma tudo em quinquilharia, por mais importante que a coisa seja. Fiquei me perguntando se era um destino desses que me aguardava.
Dali a mil anos, alguém poderia me encontrar em um galpão e dizer Ah, olha: Apolo, o deus da poesia. Talvez, dando uma lixada, dê para usar.
— A lâmina ainda traz visões? — perguntei.
— Você também sabe disso, é? — Piper balançou a cabeça. — As visões pararam no verão passado. Isso por acaso tem alguma coisa a ver com sua expulsão do Olimpo, senhor deus da profecia?
Meg fungou.
— Quase tudo é culpa dele.
— Ei! — protestei. — Tá, vamos lá: Piper, aonde você quer nos levar? Se todos os seus carros foram tomados, acho que teremos que usar o Chevette do treinador Hedge.
Piper abriu um sorrisinho.
— Acho que podemos usar algo melhor. Venham comigo.
Ela nos guiou até a porta de casa, perto de onde o sr. McLean andava de um lado para outro, atordoado. Ele subia e descia a entrada para carros, mantendo a cabeça baixa como se estivesse procurando uma moeda no chão.
Reunidos na traseira do caminhão mais próximo, os homens da mudança tinham parado para o intervalo de almoço, todos comendo tranquilamente em pratos de porcelana que sem dúvida pertenciam à cozinha do sr. McLean pouquíssimo tempo antes.
O sr. McLean olhou para Piper. Não pareceu preocupado com a faca e a zarabatana.
— Vai sair?
— É rapidinho. — Piper deu um beijo na bochecha do pai. — Volto ainda hoje, à noite. Não deixe eles levarem os sacos de dormir, tá bem? A gente pode acampar no terraço, vai ser bem legal.
— Tudo bem. — Ele deu um tapinha distraído no braço da filha. — Boa sorte… Vai estudar?
— É. Vou estudar.
A Névoa é incrível mesmo: a pessoa pode sair de casa coberta de armas, junto com um sátiro, uma semideusa e um ex-olimpiano gorducho, e, graças à magia de distorção da realidade, seu pai mortal fica achando que você vai a um grupo de estudos. Isso mesmo, pai. Temos que resolver uns problemas de matemática sobre a trajetória de dardos de zarabatana em alvos móveis.
Atravessamos a rua até a casa do vizinho mais próximo, uma mansão que mais parecia uma colcha de retalhos: azulejos da Toscana, janelas modernas e gabletes vitorianos, num conjunto que parecia querer muito dizer: Olhem só para mim: tenho muito dinheiro e nenhum bom gosto! PRECISO DE AJUDA!
Na porta da casa, um sujeito corpulento usando roupas de academia ia saindo de um Cadillac Escalade branco.
— Sr. Bedrossian! — chamou Piper.
O sujeito deu um pulo e olhou para a garota, horrorizado. Apesar da blusa em que se lia NO PAIN, NO GAIN, da trágica calça de ginástica e dos tênis de corrida espalhafatosos, ele parecia ter passado os últimos momentos num ritmo mais relaxado do que atlético. O sr. Bedrossian não estava nem suado nem sem fôlego, e o cabelo ralo besuntado de gel estava perfeitamente penteado e intocado. Quando ele franziu a testa, seus olhos e boca pareceram se encolher mais para o centro do rosto, como se atraídos pelos buracos negros gêmeos das narinas.
— P-Piper — gaguejou ele. — O que você…?
Piper abriu um sorriso.
— Ah, eu adoraria pegar o Escalade emprestado, obrigada!
— Hã, na verdade, isso não…
— Isso não é problema? — sugeriu a menina. — E você vai ficar feliz de me emprestar o carro pelo dia todo? Fantástico!
Bedrossian fez careta e tentou forçar a saída das palavras.
— Sim. Claro.
— Chaves, por favor?
O sr. Bedrossian jogou o chaveiro para ela e entrou em casa correndo o mais rápido que a calça apertada permitia.
Meg assobiou baixinho.
— Isso foi demais.
— O que foi isso? — perguntou Grover.
— Isso foi charme — respondi. Tive que dar o braço a torcer. Piper McLean tinha um poder e tanto. Eu não sabia se ficava impressionado ou saía correndo para longe e me juntava ao sr. Bedrossian. — Um dom raro entre os filhos de Afrodite. É comum você pegar o carro do sr. Bedrossian emprestado?
Piper deu de ombros.
— Ele é um péssimo vizinho. Sem falar que tem mais uns dez carros além desse. Pode acreditar, isso não vai ser nenhuma inconveniência para ele. E eu tenho o costume de trazer de volta tudo que pego emprestado. Quando dá. Vamos? Apolo, você dirige.
— Mas…
Piper abriu um sorrisinho doce e assustador, como quem diz eu estou pedindo, mas poderia obrigar.
— Eu dirijo — concordei.

* * *

Fomos para o sul no carro do vizinho, seguindo por uma estrada com uma belíssima vista para o oceano.
Como o Escalade só não era maior que o tanque de guerra e com blindagem lança-chamas de Hefesto, tive que tomar bastante cuidado para não atropelar nenhuma moto, caixa de correio, criança pequena em triciclos ou qualquer outro obstáculo irritante parecido.
— Vamos buscar o Jason? — perguntei.
Piper, no banco do passageiro, enfiou um dardo na zarabatana.
— Não precisa. E ele está na escola agora.
— Mas você não está.
— Eu estou de mudança, lembra? Começo segunda que vem na Tahlequah High. — Ela ergueu a zarabatana como se fosse uma taça de champanhe. — Agora vou torcer pelos Tigers. Viva!
Por mais estranho que pudesse parecer, ela não falou aquilo com ironia. Mais uma vez, fiquei me perguntando como ela podia estar tão resignada, tão pronta para deixar Calígula acabar com a vida que ela e o pai haviam construído naquele lugar. Mas, como Piper estava com uma arma carregada na mão, decidi deixar pra lá.
Meg enfiou a cabeça no espaço entre os bancos da frente.
— Então a gente não vai precisar da ajuda do seu ex?
Eu me desconcentrei e perdi um pouco o controle do carro, mas consertei a rota a tempo de evitar o atropelamento de alguma vovó.
— Meg! Senta e coloca o cinto, por favor. Grover… — Olhei pelo retrovisor. O sátiro estava comendo uma tira de tecido cinza. — Grover, pare de mastigar o cinto de segurança. Olha o mau exemplo!
Ele cuspiu o cinto.
— Desculpa.
Piper fez um carinho na cabeça de Meg, bagunçando seu cabelo, e a empurrou para o banco de trás de um jeito meio brincalhão.
— Respondendo à pergunta: não. Vamos ficar muito bem sem o Jason. Eu sei como chegar à entrada do Labirinto. Eu que sonhei com isso, afinal. E essa é a entrada que o imperador usa, então deve ser o caminho mais curto até o centro, onde está a sua Sibila.
— E o que aconteceu quando vocês entraram lá da última vez? — perguntei.
Piper deu de ombros.
— O que geralmente acontece no Labirinto: armadilhas, corredores sempre mudando. E umas criaturas estranhas. Guardas. Coisas difíceis de descrever. E fogo. Muito fogo.
Eu me lembrei da visão de Herófila, erguendo os braços acorrentados, presa naquele mundo de lava, pedindo desculpas para alguém que não era eu.
— Você não encontrou o oráculo?
Piper ficou alguns segundos em silêncio, olhando o pouco que dava para ver do oceano entre as casas pelas quais passávamos.
— Não. Mas Jason e eu nos separamos por alguns momentos. E eu… eu não sei se ele me contou tudo que aconteceu. Tenho quase certeza que não.
Grover ajeitou o cinto meio mastigado.
— Por que ele mentiria?
— Uma ótima pergunta — comentou Piper. — E mais um ótimo motivo para não chamá-lo. Eu quero ver por mim mesma.
Parecia que Piper também estava escondendo muita coisa: dúvidas, palpites, sentimentos... talvez até o que tinha acontecido com ela no Labirinto.
Eba, pensei. Nada melhor para incrementar uma missão perigosíssima do que um dramalhão de um ex-casal de heróis que podem ou não ter contado toda a verdade um para o outro (e para mim).
Seguimos até o centro de Los Angeles. Considerei isso um mau sinal. O “centro de Los Angeles” sempre me pareceu um oximoro, uma expressão absurda, como “sorvete quente” ou “inteligência militar”. (Sim, Ares, pode se sentir insultado: foi de propósito.) Los Angeles é uma cidade muito espalhada, com muitos subúrbios. Não é o tipo de lugar que deveria ter um centro, assim como pizza não é o tipo de comida que deveria levar pedaços de manga. Ah, é verdade que aqui e ali, entre os prédios cinza e sem graça do governo e as lojas enormes e brilhantes, partes do centro tinham sido revitalizadas. Vi várias construções novas enquanto ziguezagueávamos pelas ruas, lojas modernas e hotéis elegantes. Mas, para mim, aquela tentativa de criar um centro parecia tão eficiente quanto passar maquiagem num legionário romano. (E é bem inútil, falo por experiência própria.) Estacionamos perto do Grand Park (que de grande só tinha o nome: o lugar não era nem grande nem exatamente um parque). Do outro lado da rua ficava um prédio de oito andares. Se eu me lembrava bem, já tinha ido lá, décadas antes, para registrar meu divórcio de Greta Garbo. Ou foi de Liz Taylor? Fica aí a dúvida.
— Aquele é o Hall of Records, o famoso centro de registros de Los Angeles? — perguntei.
— É. Mas não vamos entrar — alertou Piper. — Pare ali na área de carga e descarga. Dá para ficar quinze minutos estacionado sem problema.
Grover se inclinou para a frente.
— E se a gente não voltar em quinze minutos?
Piper sorriu.
— Ah, aí com certeza a empresa de reboque vai cuidar muito bem do Escalade do sr. Bedrossian.
Saímos do carro e seguimos Piper até a lateral do prédio do governo. Ela levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio, e fez sinal para espiarmos pela esquina.
Um muro de concreto de seis metros contornava o quarteirão; a estrutura era pontilhada por portas comuns de metal, e supus que ali fosse a entrada de serviço. Na frente de uma delas, já na metade da rua, estava um guarda meio estranho. Apesar do calor que fazia, ele estava de terno preto e gravata. Era um sujeito baixo e corpulento, com mãos estranhamente grandes, usando um pano estranho enrolado na cabeça, mas não consegui identificar bem o que era — parecia um keffiyeh árabe extragrande, branco e felpudo, caindo pelos ombros até metade das costas. Talvez ele fosse segurança de algum milionário do petróleo saudita. Mas por que ele estaria parado em um beco ao lado de uma porta comum de metal? E por que seu rosto era todo coberto de pelos brancos — que combinavam perfeitamente com o seu keffiyeh?
Grover farejou o ar e nos puxou de volta para a esquina.
— Aquele cara não é humano — sussurrou.
— Ah, mas esse sátiro merece uma salva de palmas! — sussurrou Piper.
Eu não sabia por que estávamos falando tão baixo. A gente estava a meio quarteirão do guarda, e a rua era bem movimentada.
— O que ele é? — indagou Meg.
Piper verificou o dardo na zarabatana.
— Boa pergunta. Mas eles podem ser um grande problema se a gente perder o elemento-surpresa.
— Eles? — repeti.
— É. — Piper franziu a testa. — Eram dois da outra vez. E o pelo deles era preto, não sei se isso quer dizer que esse aí é muito diferente. Mas aquela porta é a entrada do Labirinto, então vamos ter que tirar o cara do caminho.
— Uso as espadas? — perguntou Meg.
— Só se eu errar. — Piper respirou fundo algumas vezes. — Prontos?
Achei que ela não aceitaria um não como resposta, então assenti, assim como Meg e Grover. Piper se adiantou, ergueu a zarabatana e soprou.
Era um disparo de quinze metros, o limite do que considero o alcance de uma zarabatana, mas Piper acertou o alvo. O dardo perfurou a perna esquerda da calça do guarda. O sujeito olhou para baixo, examinando, surpreso, o estranho novo acessório que se projetava de sua coxa. A ponta do dardo combinava perfeitamente com seu pelo branco.
Ah, que ótimo, pensei. Só conseguimos incomodar o cara.
Meg conjurou as espadas douradas.
Grover pegou a flauta.
Eu me preparei para sair correndo e gritando.
— Esperem — mandou Piper.
O guarda caiu para o lado bem devagar, como se na verdade a cidade é que estivesse se inclinando, e desabou, inconsciente, na calçada.
Ergui as sobrancelhas.
— Veneno?
— Receita especial do vovô Tom — explicou Piper. — Agora venham. Vou mostrar o que é estranho de verdade nesse cara peludo.

6 comentários:

  1. Gostei muito mais da Piper nesse livro do que na sequência dos Heróis do Olimpo. Parece que ela tem mais destaque sem o Jason.

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  2. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 17:59

    Hum ... este livro está ficando cada vez mais empolgante.

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  3. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 03:35

    A Piper evoluiu muito da menina que quase foi manipulada por Enchiladas!
    No quesito de lutar, ela pode talvez estar melhor q a Annabeth(claro, o charme ajuda)

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  4. Tô impressionada com essa nova Piper. Ela tá começando a parecer aquilo que eu esperava que ela fosse...

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  5. Piper ganhando meu respeito a cada parágrafo. Essa garota evoluiu muito.

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  6. Veja só como a Piper ta imensamente mais legal! Jason era só um limitante sonolento. Avoa minina Piper!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!