26 de junho de 2018

Capítulo 13

Blue gostava muito de ter os garotos na casa dela.
A presença deles lá era aprazível por várias razões. A razão absolutamente mais simples era que Blue às vezes se cansava de compor cem por cento da população não mediúnica da Rua Fox, 300 — cada vez mais nos últimos dias —, e essa porcentagem melhorava dramaticamente quando os garotos estavam por lá. A segunda razão era que Blue via todos os garotos, particularmente Richard Campbell Gansey III, sob uma luz muito diferente quando eles estavam ali. Em vez do garoto polido e seguro de si que ele era quando ela o vira pela primeira vez, o Gansey da Rua Fox, 300 era um observador autodepreciativo, ao mesmo tempo ansioso e inadequado em relação a todas as artes intuitivas. Ele era um turista privilegiado em um país primitivo: lisonjeiramente curioso, inconscientemente insultante e certamente incapaz de sobreviver se deixado sozinho.
E a terceira razão é que a presença deles sugeria permanência. Blue tinha conhecidos na escola, pessoas de quem ela gostava. Mas eles não eram para sempre. Embora ela tivesse uma boa relação com muitos deles, não havia ninguém com quem ela quisesse estabelecer um vínculo para o resto da vida. E ela sabia que isso era sua culpa. Ela nunca fora muito boa em ter amizades casuais. Para Blue, havia a família — que nunca dissera respeito a relações de sangue na Rua Fox, 300 — e depois todo o resto.
Quando os garotos apareciam na casa dela, eles deixavam de ser todo o resto.
Naquele instante, Adam e Gansey estavam no interior estreito da casa. Era um dia de céu aberto, um sol promissor que invadia todas as janelas. Sem nenhuma discussão particular, Gansey e Blue haviam decidido que aquele seria um dia de exploração, assim que Ronan chegasse.
Gansey estava sentado à mesa da cozinha, de camisa polo agressivamente verde. Na mão esquerda, havia uma garrafa de vidro de uma bebida chique com café que ele trouxera consigo. Nos últimos meses, a mãe de Blue vinha trabalhando numa linha de chás para incrementar sua renda. Blue tinha aprendido cedo que saudável não era sinônimo de delicioso, e deixara sua saída do grupo de teste bem clara.
Gansey estava por fora, então aceitou o que lhe foi dado.
— Acho que não podemos esperar mais. Mas eu gostaria de minimizar os riscos — ele disse, enquanto Blue remexia na geladeira. Alguém tinha enchido uma prateleira inteira com um pudim de supermercado horroroso. — Acho que não podemos fazer isso se tornar completamente seguro, mas com certeza existe uma maneira de tomar mais cuidado.
Por um momento, Blue achou que ele estivesse falando sobre o processo de beber um dos chás de Maura. Então percebeu que Gansey estava falando sobre Cabeswater. Blue amava o lugar de uma maneira difícil de suportar. Ela sempre adorara a faia grande no jardim dos fundos da casa, os carvalhos ao longo da Rua Fox e as florestas de modo geral, mas nada se comparava às árvores de Cabeswater. Antigas, retorcidas e sencientes. E... elas sabiam o nome dela. Parecia muito com um indício de algo mais.
Maura observava Gansey cuidadosamente. Blue suspeitava que não era por causa do que Gansey estava dizendo, mas porque ela estava esperando que ele desse um gole na terrível poção que ela tinha feito em infusão naquela xícara na frente dele.
— Eu sei o que você vai dizer — disse Blue, decidindo-se por um iogurte que tinha pedaços de fruta na parte de baixo, mas que ela comeria somente em cima. Blue se jogou em uma cadeira na mesa. — Você vai dizer: “Bem, então não leve a Blue com você”.
A mãe dela virou uma mão, como quem diz: Se você sabia, por que perguntou?
— O quê? Ah, porque a Blue aumenta a intensidade das coisas? — disse Gansey.
Irritada, Blue percebeu que Gansey a tinha chamado agora de Jane tantas vezes que soava estranho ouvi-lo dizer seu nome verdadeiro.
— É — respondeu Maura. — Mas na realidade eu não ia dizer isso, embora seja verdade. Eu ia dizer que esse lugar deve ter regras. Tudo que envolve energia e espírito tem regras. Nós simplesmente não as conhecemos. Então elas parecem imprevisíveis para nós. Mas isso acontece porque somos idiotas. Você tem certeza que quer voltar?
Gansey deu um gole na bebida curativa. O queixo de Maura se projetou para frente enquanto ela observava o volume do chá que descia pela garganta dele. Seu rosto permaneceu precisamente o mesmo e ele não disse absolutamente nada, mas, após um momento, Gansey fechou suavemente a mão em punho e bateu no esterno.
— Para que você disse que isso era bom mesmo? — perguntou educadamente. Sua voz estava um pouco esquisita, até que ele limpou a garganta.
— Bem-estar geral — disse Maura. — E também deve coordenar os sonhos.
— Os meus sonhos? — ele perguntou.
Maura ergueu uma sobrancelha bastante entendida.
— De quem mais?
— Hum.
— E também ajuda com questões legais.
Gansey estivera bebendo o máximo que conseguia engolir de seu café chique sem respirar, mas então parou e colocou a garrafa sobre a mesa com um tinido.
— Eu preciso de ajuda com questões legais?
Maura deu de ombros.
— Pergunte a uma médium.
— Mãe — disse Blue. — Sério. — Para Gansey, ela instigou: — Cabeswater.
— Ah, certo. Bom, ninguém mais precisa vir comigo — ele disse. — Mas o fato incontroverso que permanece é que estou procurando por um rei místico em uma linha ley e há uma floresta mística em uma linha ley. Não posso ignorar essa coincidência. Nós podemos procurar em outra parte, mas acho que Glendower está lá. E não quero desperdiçar tempo agora que a linha ley está desperta. Sinto como se o tempo estivesse se esgotando.
— Você tem certeza que ainda quer encontrar esse rei? — perguntou Maura.
Blue já sabia que aquela pergunta era irrelevante. Sem virar o olhar para ele, ela já sabia o que veria. Veria um garoto rico vestido como um manequim e impecável como um apresentador de telejornal, mas seus olhos eram como o lago de sonhos em Cabeswater. Ele escondia o poço do desejo insaciável, mas, agora que ela o tinha visto uma vez, não conseguia deixar de vê-lo. Mas ele não seria capaz de explicar para Maura.
E ele nunca teria realmente de explicar para Blue.
Era o seu algo mais.
— Sim, tenho — ele disse, muito formalmente.
— Isso pode te matar — disse Maura.
Então houve aquele momento incomodo que ocorre quando dois terços das pessoas no aposento sabem que o outro terço deve morrer em menos de nove meses, e a pessoa que deve morrer não está entre aquelas que sabem disso.
— Sim — disse Gansey. — Eu sei. Já fiz isso uma vez antes. Morrer, quero dizer. Você não gosta dos pedaços de fruta? É a melhor parte. — Ele dirigiu essa última declaração para Blue, que lhe passou seu copo de iogurte na maior parte vazio.
Ele tinha claramente dado por encerrado o assunto morte.
Maura suspirou, desistindo, bem quando Calla entrou agitada na cozinha. Ela não estava brava, só agia assim sempre que possível. Calla escancarou a geladeira e pegou um pote de pudim.
Enquanto voltava com o pudim de supermercado odiado na mão, ela o sacuda na direção de Gansey e disparou:
— Não se esqueça que Cabeswater é um videogame que todo mundo que está nele joga há muito mais tempo que você. Todos sabem como subir de nível.
Ela se arrancou da sala. Maura a seguiu.
— Bem — disse Gansey.
— Sim — concordou Blue. Após um segundo, ela empurrou a cadeira para trás para seguir Maura, mas Gansey estendeu a mão.
— Espera — ele disse em voz baixa.
— Espera o quê?
Com um olhar de relance para o corredor e a sala de leitura, ele disse:
— Hum, o Adam.
Na mesma hora, Blue pensou em Adam perdendo a cabeça e sentiu o calor em suas faces.
— O que tem ele?
Gansey passou um polegar sobre o lábio inferior. Era um hábito pensativo, realizado tão frequentemente que era surpreendente que ele ainda tivesse alguma coisa para cobrir a arcada inferior.
— Você contou para ele sobre a maldição de não poder beijar ninguém?
Se Blue achava que suas faces estavam quentes antes, isso não era nada comparado ao incêndio que as queimava agora.
— Você não contou para ele, contou? — ela perguntou.
Ele pareceu delicadamente magoado.
— Você me pediu para não contar!
— Bem, não. Não contei.
— Você não acha que deveria?
A cozinha não parecia muito privada, e ambos inconscientemente se inclinavam o mais próximo um do outro para evitar que suas vozes fossem ouvidas. Blue sussurrou:
— Está tudo sob controle, mesmo. Não quero discutir isso, ainda mais com você!
— Ainda mais com você?! — ecoou Gansey. — Por quê, que tipo de pessoa você acha que eu sou?
Ela não fazia ideia agora. Confusa, Blue respondeu:
— Você não é minha... minha avó ou algo que o valha.
— Você falaria sobre isso com a sua avó? Não consigo nem imaginar discutir minha vida amorosa com a minha. Ela é uma mulher adorável, imagino. Se você gosta das carecas e racistas. — Ele olhou de relance em torno da cozinha, como se estivesse procurando por alguém. — Onde está a sua, falando nisso? Achei que todas as suas parentas estavam nessa casa em algum lugar.
Blue sussurrou furiosamente:
— Não seja... des... des...
— Elegante? Deselegante?
— Desrespeitoso! As minhas duas avós já morreram.
— Jesus. Do que elas morreram?
— A minha mãe sempre diz que foi de “intromissão”.
Gansey esqueceu completamente que eles estavam cuidando para não ser ouvidos e soltou uma risada tremenda. Era uma coisa poderosa, aquela risada. Ele a deu apenas uma vez, mas seus olhos seguiram com o formato dela.
Algo dentro de Blue deu um puxão esquisito.
Ah, não!, ela pensou. Mas então se acalmou. Richard C. Gansey III tem uma boca bonita. Agora eu sei que ele tem belos olhos quando ri, também. Isso ainda não é amor.
Ela também pensou: Adam. Lembre-se de Adam.
— Faz sentido que exista um histórico familiar para a sua condição — ele disse. — Vocês comem todos os homens da família? Para onde eles vão? Essa casa tem um porão?
Blue se pôs de pé.
— É como um treinamento do exército. Eles não aguentam, pobrezinhos.
— Pobre de mim — ele disse.
— Ãhã! Espere aqui. — Ela se sentiu um pouco aliviada de deixá-lo na mesa; seu pulso estava acelerado. Blue encontrou Maura e Calla ainda no corredor, conferenciando em voz baixa. Então disse para a mãe: — Escute. Nós vamos todos para Cabeswater, mesmo. Hoje à tarde, quando o Ronan chegar. Esse é o plano. Nós vamos manter o plano.
Maura parecia muito menos incomodada com aquela declaração do que Blue temera.
Na realidade, ela não parecia nem um pouco incomodada.
— Por que você está me contando isso? — perguntou Maura. — Por que o seu rosto está tão vermelho?
— Porque você é minha mãe. Porque você é uma figura de autoridade. Porque você deve informar as pessoas dos seus planos de viagem quando vai fazer escaladas ou trilhas perigosas. É assim que o meu rosto parece sempre.
— Hum — disse Maura.
— Hum — disse Calla.
Desconfiada, Blue perguntou:
— Você não vai me dizer para não ir?
— Não dessa vez.
— Não adianta — concordou Calla.
— Também tem uma tigela divinatória no sótão — disse Blue.
A sua mãe espiou a sala de leitura.
— Não, não tem.
Blue insistiu:
— Alguém tem usado ela.
— Não, não tem.
Com a voz ligeiramente alterada, Blue disse:
— Você não pode dizer simplesmente que ela não está lá e que ninguém está usando ela. Porque eu não sou criança e eu uso meus próprios olhos e meu cérebro o tempo inteiro.
— O que você quer que eu lhe conte, então? — perguntou Maura.
— A verdade. Eu acabei de contar a verdade para você.
— Foi mesmo! — exclamou Gansey da cozinha.
— Cala a boca! — Blue e Calla disseram ao mesmo tempo.
Maura levantou uma mão.
— Está bem. Eu a usei.
— Para quê?
— Para procurar pelo Chuchu — disse Calla.
Meu pai! Blue provavelmente não deveria ter se surpreendido — Neeve havia sido chamada para encontrar seu pai, e, embora ela tivesse ido embora, o mistério do paradeiro dele continuava.
— Achei que você tinha dito que adivinhação não era uma boa ideia.
— É como vodca — disse Calla. — A qualidade depende de quem faz. — Com a colher pousada sobre o pote de pudim, ela espiou a outra sala, como Maura havia feito.
Blue esticou o pescoço para ver o que elas estavam olhando. Era apenas Adam. Ele estava sentando na sala de leitura sozinho, a luz difusa da manhã o deixando tênue e indistinto. Ele havia tirado um dos baralhos de tarô do saco e alinhado todas as cartas abertas em três longas fileiras. Agora estava inclinado sobre a mesa e estudava a imagem de cada carta, uma a uma, avançando sobre os cotovelos para a próxima quando terminava. Ele não parecia nem um pouco com o Adam que perdera a cabeça, e tudo com o Adam que ela encontrara pela primeira vez. Era isso que a assustava, no entanto — não houvera aviso.
Maura franziu o cenho. Em voz baixa, disse:
— Acho que preciso ter uma conversa com aquele garoto.
— Alguém precisa — respondeu Calla, subindo a escada. Cada degrau rangeu um protesto pelo qual ela puniu o próximo com uma pisada forte. — Estou fora. Larguei mão desses desastres de trem.
— Ele é um desastre de trem? — perguntou Blue, alarmada.
A sua mãe estalou a língua.
— A Calla gosta de fazer drama. Desastre de trem! Quando um trem leva um tempão para sair dos trilhos, eu não chamo isso de desastre. Gosto da expressão descarrilamento.
Lá de cima, Blue ouviu a risada divertida de Calla.
— Eu odeio vocês duas — disse Blue, enquanto sua mãe ria e subia rapidamente a escada para se juntar a Calla. — Vocês deviam usar seus poderes para o bem, vocês sabem disso!
Após um momento, Adam disse para ela, sem erguer os olhos:
— Eu ouvi vocês, sabia?
Blue esperava fervorosamente que ele estivesse falando sobre Maura e Calla, e não sobre a conversa dela com Gansey na cozinha.
— Você acha que é um desastre de trem?
— Isso significaria que um dia eu estive nos trilhos — ele respondeu. — Nós vamos a Cabeswater quando o Ronan chegar?
Gansey apareceu ao lado de Blue no vão da porta, balançando a garrafa vazia para ela.
— Comércio justo — ele disse de maneira que indicava que havia escolhido uma bebida cafeinada com o selo de comércio justo apenas para poder contar isso a Blue, para que ela pudesse lhe dizer: “Muito bem, a camada de ozônio agradece”.
— Não esquece de reciclar a garrafa — disse Blue.
Ele lançou um sorriso para ela antes de bater no batente da porta com o punho.
— Sim, Parrish. Estamos indo para Cabeswater.

2 comentários:

  1. O que o Gansey tem de inteligente ele tem de non sense

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  2. Gansey e Blue conversando muito perto um do outro, ok né? Pulso acelerado, rosto corado kkkkk não sei não viu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!