20 de junho de 2018

Capítulo 13

— Mãe, por que a Neeve está aqui? — Blue perguntou.
Assim como a mãe, ela estava de pé sobre a mesa da cozinha. Quando Blue chegara da escola, Maura convocara sua ajuda para trocar as lâmpadas do problemático lustre de vitral pendurado sobre a mesa. O complicado processo exigia pelo menos três pessoas e tendia a ser protelado até a maioria das lâmpadas se queimar. Blue não se importava em ajudar. Precisava de algo para distrair a mente da hora da consulta de Gansey. E de Adam não ter ligado. Quando pensou que lhe dera seu telefone na noite anterior, Blue se sentiu leve e insegura.
— Ela é da família — respondeu Maura com gravidade, pegando energicamente a corrente da instalação enquanto lutava com uma lâmpada teimosa.
— Família que volta para casa no meio da noite?
Maura lançou um olhar carregado para Blue.
— Você nasceu com orelhas maiores do que devia. Ela só está me ajudando a procurar algo enquanto está aqui.
A porta da frente se abriu. Nenhuma delas deu atenção, pois tanto Calla quanto Persephone estavam pela casa em algum lugar. Calla era a menos provável, pois era uma criatura de hábitos, irascível e sedentária, mas Persephone tendia a ser pega em correntezas esquisitas e a vagar por aí.
Ajustando a maneira de segurar o lustre, Blue perguntou:
— Que tipo de algo?
— Blue.
— Que tipo de algo?
— Um alguém — disse Maura finalmente.
— Que tipo de alguém?
Mas, antes que a mãe tivesse tempo de responder, elas ouviram a voz de um homem:
— Que jeito estranho de se tocar um negócio.
As duas se viraram lentamente. Os braços de Blue ficaram levantados por tanto tempo que pareceram meio elásticos quando ela os baixou. O dono da voz estava parado na entrada da casa, com as mãos nos bolsos. Não era velho, tinha uns vinte e cinco anos e um cabelo negro emaranhado. Era bonito de uma maneira que exigia um pouco de trabalho por parte do observador. Todos os traços faciais pareciam um pouquinho grandes demais para o rosto.
Maura olhou de relance para Blue, com uma sobrancelha erguida, e ela ergueu um ombro em resposta. Não parecia que ele estava ali para assassiná-las ou para roubar algum eletrônico portátil.
— E esse — disse a mãe, largando o lustre — é um jeito muito estranho de entrar na casa de alguém.
— Desculpe — disse o jovem. — Há um aviso ali na frente dizendo que aqui é um ponto comercial.
Havia realmente um aviso na frente, pintado à mão — apesar de Blue não saber pela mão de quem —, em que se lia MÉDIUM. E abaixo: “Apenas com hora marcada”.
— Apenas com hora marcada — disse Maura para o homem. Ela fez uma careta em direção à cozinha, onde Blue havia deixado um cesto de roupa limpa com um dos sutiãs rendados no topo, à vista de todos. Mas Blue se recusou a se sentir culpada. Não era de esperar que homens passassem ao acaso pela cozinha.
O homem disse:
— Bem, então eu gostaria de marcar uma hora.
Uma voz da escada para o vão da porta fez com que os três se voltassem.
— Nós poderíamos fazer uma leitura tripla para você — disse Persephone.
Ela estava parada na base da escada, pequena e pálida, feita em grande parte de cabelo. O homem a encarou, e Blue não sabia se era porque ele estava considerando a proposta ou porque Persephone era informação demais para assimilar em um primeiro olhar.
— O que é isso? — o homem perguntou finalmente.
Blue levou um momento para perceber que ele se referia a “leitura tripla” e não a Persephone. Maura saltou da mesa, pousando no chão com tamanha força que os copos no armário tilintaram. Blue desceu mais respeitosamente. Afinal de contas, ela estava segurando uma caixa de lâmpadas.
Maura explicou:
— É quando nós três, Persephone, Calla e eu, lemos as cartas ao mesmo tempo e comparamos nossas interpretações. Ela não oferece isso para qualquer um, viu?
— É mais caro?
— Não se você trocar aquela lâmpada teimosa — disse Maura, secando as mãos no jeans.
— Tudo bem — disse o homem, parecendo irritado com a oferta.
Maura gesticulou para Blue dar uma lâmpada para o homem, então disse:
— Persephone, você chama a Calla?
— Ai, meu Deus — disse Persephone com uma voz pequena, e a voz de Persephone já era bem pequena, de maneira que sua voz pequena era mesmo minúscula, mas ela se virou e subiu as escadas. Os pés descalços não fizeram ruído algum enquanto ela subia.
Maura olhou para Blue, fazendo uma pergunta com sua expressão. Blue deu de ombros, concordando.
— Minha filha, Blue, vai ficar na sala, se você não se importar. Ela torna a leitura mais clara.
Com um olhar de relance desinteressado para a garota, o homem subiu na mesa, que rangeu um pouco sob seu peso. Ele gemeu enquanto tentava girar a lâmpada teimosa.
— Agora você vê o problema — disse Maura. — Qual é o seu nome?
— Ah — ele disse, dando um puxão na lâmpada. — Podemos deixar essa história anônima?
Maura respondeu:
— Nós somos médiuns, não strippers.
Blue riu, mas o homem não. Ela achou aquilo um tanto injusto da parte dele; talvez a piada fosse ligeiramente de mau gosto, mas era engraçada.
A cozinha subitamente se iluminou quando a lâmpada nova foi atarraxada no lugar. Sem comentários, ele pisou em uma cadeira e então no chão.
— Seremos discretas — prometeu Maura, gesticulando para que ele a seguisse.
Na sala de leitura, o homem olhou em volta com interesse clínico. Seu olhar passou pelas velas, as plantas nos potes, os queimadores de incenso, o candelabro elaborado da sala de jantar, a mesa rústica que dominava a sala, as cortinas rendadas e, por fim, uma fotografia emoldurada de Steve Martin.
— Assinada — disse Maura com algum orgulho, observando sua atenção. Então: — Ah, Calla.
Calla marchou sala adentro, com as sobrancelhas em fúria por ter sido perturbada. O batom que usava tinha um tom perigoso de ameixa, que fazia de sua boca um diamante pequeno e franzido sob o nariz pontudo. Calla lançou um olhar cortante para o homem, sondando as profundezas da sua alma e encontrando-a carente. Então apanhou seu baralho de cartas de uma prateleira ao lado da cabeça de Maura e se deixou cair pesadamente em uma cadeira na ponta da mesa. Atrás dela, Persephone estava parada no vão da porta, contraindo e abrindo as mãos.
Blue se esgueirou apressadamente para uma cadeira na cabeceira da mesa. A sala parecia muito menor do que alguns minutos antes. Mais por culpa de Calla.
Persephone disse, em um tom de voz afável:
— Sente-se.
E Calla completou, de maneira nem um pouco afável:
— O que você quer saber?
O homem se deixou cair em uma cadeira. Maura pegou outra do lado oposto a ele na mesa, com Calla e Persephone (e o cabelo de Persephone) de cada lado dela. Blue, como sempre, estava só um pouco distante.
— Eu prefiro não dizer — disse o homem. — Talvez vocês me digam.
O sorriso ameixa de Calla era positivamente diabólico.
— Talvez.
Maura escorregou o baralho de cartas sobre a mesa para o homem e disse para ele embaralhá-lo. Ele o fez com proficiência e pouca inibição. Quando terminou, Persephone e Calla fizeram o mesmo.
— Você já esteve em uma leitura antes — observou Maura.
Ele fez um ruído vagamente inarticulado de assentimento. Blue podia ver que ele achava que qualquer informação poderia fazer com que elas falseassem a leitura. Ainda assim, ela não achava que ele era cético. Ele só era cético em relação a elas.
Maura escorregou o baralho na frente do homem. Ela tinha aquele baralho desde que Blue conseguia se lembrar, e as bordas estavam gastas pelo manuseio. Era um baralho comum de tarô, tão impressionante quanto ela o fazia parecer.
Maura escolheu dez cartas e as abriu. Calla fez o mesmo com seu baralho ligeiramente mais inteiro — ela passara a usá-lo alguns anos atrás após um incidente infeliz que a fizera perder o gosto pelo baralho anterior. A sala estava quieta o suficiente para se ouvir o ruído das cartas contra a superfície desigual e marcada da mesa de leitura.
Persephone segurou as cartas nas mãos muito longas, encarando o homem durante um momento sugestivo. Por fim, contribuiu com apenas duas cartas, uma no começo e outra no fim do arranjo. Blue adorava observar Persephone abrir as cartas; o giro límpido do punho e o estalo da carta sempre faziam com que o gesto parecesse um movimento de prestidigitação ou balé. Até as cartas pareciam de outro mundo. As cartas de Persephone eram ligeiramente maiores do que as de Maura e Calla, e a arte nelas era curiosa. Linhas compridas e finas e fundos difusos sugeriam as figuras em cada carta; Blue nunca vira um baralho como aquele. Maura uma vez havia dito a Blue que era difícil fazer perguntas a Persephone cuja resposta você não precisasse absolutamente, de maneira que Blue nunca descobrira de onde viera aquele baralho.
Agora que as cartas estavam dispostas, Maura, Calla e Persephone estudaram a forma delas. Blue lutou para enxergar sobre as cabeças agrupadas. Tentou ignorar que, muito de perto, o homem tinha o aroma químico opressivo de um gel de banho bastante masculino. Do tipo que costuma vir em frascos pretos e com nomes como Shock, Excite ou Hit.
Calla foi a primeira a falar. Virou o três de espadas para o homem ver. Na carta dela, as três espadas perfuravam um coração escuro, sangrando, da cor de seus lábios.
— Você perdeu uma pessoa próxima.
O homem olhou para as mãos.
— Eu perdi... — começou, mas considerou antes de terminar — ... muitas coisas.
Maura apertou os lábios. Uma das sobrancelhas de Calla se aproximou do cabelo. Elas lançaram olhares uma para a outra. Blue conhecia as duas bem o suficiente para interpretar as expressões. A de Maura perguntou: O que você acha?
Calla disse: Isso é ruim. Persephone não disse nada.
Maura tocou a ponta do cinco de ouros.
— O dinheiro é uma preocupação — ela observou. Na carta, um homem com uma muleta capengava pela neve sob uma janela de vitral enquanto uma mulher segurava um xale abaixo do queixo.
Ela acrescentou:
— Por causa de uma mulher.
O olhar do homem era resoluto.
— Meus pais tinham recursos consideráveis. Meu pai se envolveu em um escândalo financeiro. Agora eles estão divorciados e não há mais dinheiro. Não para mim.
Era um jeito estranhamente desagradável de colocar as coisas. Implacavelmente factual.
Maura secou as mãos na calça e gesticulou para outra carta.
— E agora você tem um trabalho tedioso. Você é bom no que faz, mas está cansado disso.
Ele apertou os lábios com a verdade do que fora dito.
Persephone tocou a primeira carta que havia tirado. O cavaleiro de ouros. Um homem de armadura com olhos frios observa um campo no lombo de um cavalo, com uma moeda na mão. Blue achou que, se olhasse a moeda de perto, poderia ver uma forma nela. Três linhas curvas, um triângulo longo e pontiagudo. A forma do adro da igreja, do desenho despretensioso de Maura, do diário.
Mas não — quando olhou com mais atenção, era apenas uma estrela de cinco pontas fracamente desenhada. Um pentáculo.
Persephone finalmente falou. Com uma voz fina e precisa, disse para o homem:
— Você está procurando algo.
A cabeça do homem se virou subitamente para ela.
A carta de Calla, ao lado da de Persephone, também era o cavaleiro de ouros. Era incomum que dois baralhos concordassem exatamente. Mais estranho ainda era ver que a carta de Maura também era o cavaleiro de ouros. Três cavaleiros de olhos frios observavam o campo diante deles.
Três novamente.
Calla disse amargamente:
— Você está disposto a fazer o que for preciso para encontrá-lo. Você está trabalhando nisso há anos.
— Sim — retrucou o homem, surpreendendo a todas com a ferocidade de sua resposta. — Mas quanto tempo mais? Eu vou encontrá-lo?
As três mulheres examinaram as cartas novamente, procurando por uma resposta. Blue olhou também. Talvez ela não tivesse a visão, mas sabia o que as cartas deveriam significar. Sua atenção foi da Torre, que significava que a vida dele estava prestes a mudar dramaticamente, para a última carta na leitura, o pajem de copas. Blue olhou de relance para a mãe, que franzia o cenho. Não é que o pajem de copas fosse uma carta ruim; na verdade, era a carta que Maura sempre disse que representava Blue quando ela estava fazendo uma leitura para si mesma.
“Você é o pajem de copas”, Maura havia dito para ela certa vez. “Olhe todo o potencial que ele segura naquela taça. Veja, a figura até se parece com você.”
E não havia apenas um pajem de copas naquela leitura. Como o cavaleiro de ouros, ele viera triplicado. Três jovens segurando uma taça cheia de potencial, todos trazendo o rosto de Blue. A expressão de Maura era extremamente sombria.
Blue sentiu a pele formigando. Subitamente sentiu como se não houvesse fim para os destinos aos quais ela estava vinculada. Gansey, Adam, aquele lugar impossível de ser visto na tigela de adivinhação de Neeve, aquele homem estranho sentado ao lado dela. Seu coração disparou.
Maura se levantou tão rápido que a cadeira emborcou contra a parede.
— A leitura terminou — disse bruscamente.
O olhar de Persephone se desviou até o rosto de Maura, perplexo, e Calla parecia confusa, mas contente com os indícios de um conflito. Blue não reconheceu o rosto da mãe.
— Perdão? — disse o homem. — As outras cartas...
— Você a ouviu — disse Calla, ácida. Blue não sabia dizer se Calla também se sentia desconfortável ou se estava só apoiando Maura. — A leitura terminou.
— Saia da minha casa — disse Maura. Então, fazendo um esforço evidente de solicitude: — Agora. Obrigada. Tchau.
Calla abriu caminho para Maura passar como um furacão até a porta da frente. Maura apontou para a entrada.
Levantando-se, o homem disse:
— Estou incrivelmente insultado.
Maura não respondeu. Tão logo ele passou pelo vão da porta, ela a bateu atrás dele. As louças nos armários tilintaram mais uma vez.
Calla foi até a janela, abriu as cortinas e inclinou a testa contra o vidro para vê-lo partir.
Maura andava de um lado para o outro ao longo da mesa. Blue pensou em fazer uma pergunta, mas ficou hesitante. Parecia errado fazer uma pergunta se ninguém mais estava fazendo.
Persephone disse:
— Que rapaz desagradável.
Calla deixou que as cortinas se fechassem e observou:
— Peguei o número da placa dele.
— Espero que ele nunca encontre o que está procurando — disse Maura.
Recuperando as cartas da mesa, Persephone disse, um tanto pesarosa:
— Ele está fazendo um esforço enorme. Acho que vai encontrar algo.
Maura avançou sobre Blue:
— Blue, se você vir este homem outra vez, mude de direção.
— Não — corrigiu Calla. — Dê-lhe um chute no saco. Depois corra em outra direção.

8 comentários:

  1. Af, odeio estar por fora na visão de Blue. Queria saber o que acontece se ele achar, porque imagino que ele esteja procurando a mesma coisa que aqueles meninos. Concordamos que ele é o professor de latim?

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    1. Plenamente.

      Acho que a mãe da Blue e a tia dela também estão procurando as linhas de ley

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  2. O que elas viram? Alguma coisa que envpenv a BLUE

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  3. Com certeza é o professor!

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  4. Será o pai dela? O amigo dele era pai dela?

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  5. Era aquele professor de latim qe não sei escrever o nome, neh? Desde a conversa da Maura com a Neeve tô desconfiando qe o amigo morto é o pai da Blue. Calla é maravilhosa, tomara que apareça mais

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  6. Será que o amigo morto é o pai da Blue? Parece que ele e o professor não são tão mais velhos que os meninos corvo!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!