9 de junho de 2018

Capítulo 12

A MANHÃ SEGUINTE está cinza e chuvosa, e ficamos só nós três em casa porque papai deixou um bilhete na geladeira dizendo que recebeu uma chamada do hospital e que vai nos ver no jantar.
Margot ainda está sofrendo com o fuso horário, e por isso se levantou cedo e fez ovos mexidos com bacon. Estou colocando os ovos em uma torrada com manteiga e ouvindo a chuva bater no telhado quando digo:
— E se eu não for à aula hoje e, em vez disso, a gente fizer alguma coisa divertida?
Kitty se anima.
— Tipo o quê?
— Você, não. Você vai ter que ir para a escola. Eu praticamente acabei. Ninguém liga mais se eu falto ou não.
— Acho que papai vai ligar — diz Margot.
— Mas, se nós pudéssemos fazer qualquer coisa… o que faríamos?
— Qualquer coisa? — Margot morde o bacon. — Nós pegaríamos o trem para Nova York, entraríamos na loteria de Hamilton e ganharíamos.
— Vocês não podem ir sem mim — reclama Kitty.
— Fica quieta, E Peggy — digo, rindo.
Ela me lança um olhar irritado.
— Não me chame de “E Peggy”.
— Você nem sabe do que estamos falando, então fica na sua.
— Sei que você está rindo como uma bruxa. E também sei sobre Hamilton, porque você ouve a trilha sonora o dia todo. — Ela canta: — “Talk less; smile more.”
— Para sua informação, é uma gravação do elenco, não trilha sonora — digo, e ela exagera na hora de revirar os olhos.
Na verdade, se Kitty é alguém, é uma Jefferson. Esperta, cheia de estilo, com respostas rápidas. Margot é uma Angelica, sem dúvida. Ela veleja o próprio barco desde pequenininha. Sempre soube quem era e o que queria. Acho que sou uma Eliza, apesar de preferir ser uma Angelica. Na verdade, eu provavelmente sou E Peggy. Mas não quero ser a E Peggy da minha própria história. Eu quero ser o Hamilton.

* * *

Chove o dia todo, e assim que chegamos da escola a primeira coisa que Kitty e eu fazemos é vestir de novo os pijamas. Margot nem tirou o dela. Ela está de óculos, o cabelo preso em um coque no alto da cabeça (está curto demais para ficar preso sem cair), Kitty usa uma camiseta larga, e eu me sinto feliz de estar frio o bastante para eu botar o meu pijama vermelho de flanela. Papai é o único que ainda está de roupa do dia a dia.
Para o jantar, nós pedimos duas pizzas grandes, uma de mozarela (para Kitty) e outra com tudo que temos direito. Estamos no sofá da sala, enfiando fatias de pizza com queijo derretido na boca, quando papai diz de repente:
— Meninas, quero conversar com vocês sobre um assunto. — Ele pigarreia, como costuma fazer quando fica nervoso. Kitty e eu nos entreolhamos, curiosas. — Eu gostaria de pedir Trina em casamento.
Coloco as mãos sobre a boca.
— Ah, meu Deus!
Os olhos de Kitty se arregalam, a boca fica frouxa, ela larga a pizza de lado e solta um grito tão alto que Jamie Fox-Pickle dá um pulo. Ela se joga no papai, que ri. Eu pulo e abraço as costas dele.
Não consigo parar de sorrir. Até olhar para Margot, cujo rosto está impassível. Papai também está olhando para ela, os olhos esperançosos e nervosos.
— Margot? Ainda está aí? O que você acha, querida?
— Acho fantástico.
— Sério?
Ela assente.
— Sem dúvida. Acho Trina ótima. E, Kitty, você a adora, não é? — Kitty está ocupada demais gritando e pulando no sofá com Jamie para responder. Em voz baixa, Margot diz: — Fico feliz por você, papai. De verdade.
É o sem dúvida que a entrega. Papai está aliviado demais para reparar, mas eu reparo. Claro que é estranho para Margot. Ela ainda não está acostumada a ver a sra. Rothschild na nossa cozinha. Não teve oportunidade de ver todas as formas como a sra. Rothschild e papai fazem sentido juntos. Para Margot, ela ainda é só nossa vizinha que usava shortinho curto e biquíni cortininha para cortar a grama.
— Preciso da ajuda de vocês com o pedido — diz papai. — Lara Jean, você deve ter algumas ideias para me dar, não é?
— Ah, se tenho — respondo, confiante. — O pessoal está fazendo os convites para o baile de formatura, então tive muita inspiração recentemente.
Margot se vira para mim e ri, e quase parece real.
— Tenho certeza de que papai vai querer algo melhor do que “Quer casar comigo?” escrito com creme de barbear no capô do carro, Lara Jean.
— Os convites estão mais sofisticados agora do que na sua época, Gogo.
Estou brincando também, provocando-a para que ela possa se sentir normal de novo depois da bomba que papai soltou.
— Minha época? Só sou dois anos mais velha que você. — Ela tenta falar com leveza, mas consigo ouvir a tensão em sua voz.
— Dois anos são como anos de cachorro quando o assunto é o ensino médio, não é, Kitty?
Eu a puxo e abraço com força. Kitty se contorce para se soltar.
— É, vocês duas são seres pré-históricos — diz ela. — Posso participar do pedido também, papai?
— Claro. Não posso me casar sem vocês. — Ele parece prestes a chorar. — Nós somos uma equipe, não somos?
Kitty está pulando como uma criancinha.
— Somos! — Ela está feliz da vida, e Margot também vê como isso é importante para ela.
— Quando vai fazer o pedido? — pergunta Margot.
— Hoje! — sugere Kitty.
Eu faço cara feia para ela.
— Não! Não dá tempo de pensar no jeito perfeito. Precisamos de uma semana, pelo menos. Além do mais, você nem tem anel. Espere aí, tem?
Papai tira os óculos e seca os olhos.
— Claro que não. Eu queria falar com vocês primeiro. Quero que vocês três estejam aqui para o pedido, então vou deixar para quando você voltar no verão, Margot.
— Falta muito — protesta Kitty.
— É, não espere tanto, papai — diz Margot.
— Bom, vocês vão ter que me ajudar a escolher a aliança — diz papai.
— Lara Jean tem o olho melhor para esse tipo de coisa — comenta Margot serenamente. — Além do mais, eu não conheço a sra. Rothschild direito. Não me sinto confiante para escolher uma aliança de que ela gostaria.
Uma sombra surge no rosto de papai. Foi o eu não conheço a sra. Rothschild direito que a fez surgir.
Eu me apresso para fazer minha melhor voz de Hermione.
— “Não me sinto confiante”? — provoco. — Ei, você sabe que ainda é americana, não é, Gogo? Nós não falamos com toda essa classe nos Estados Unidos.
Ela ri; nós todos rimos. Depois, como acho que ela também reparou naquela sombra, ela diz:
— Não deixem de tirar um monte de fotos, para eu poder ver.
— Nós vamos — responde papai, grato. — Vamos filmar, seja qual for a resposta. Deus, espero que ela diga sim!
— Ela vai dizer sim, com certeza — todas nós dizemos.

* * *

Margot e eu estamos embrulhando fatias de pizza em plástico e depois em papel-alumínio.
— Eu falei que duas pizzas era muito — diz ela.
— Pode ficar para o lanche da tarde de Kitty — retruco. — Peter também vai querer comer. — Eu olho para a sala, onde Kitty e papai estão aconchegados no sofá, vendo tevê. E sussurro para Margot: — O que você acha de verdade sobre o papai pedir a sra. Rothschild em casamento?
— Acho loucura — sussurra ela. — Ela mora do outro lado da rua, pelo amor de Deus. Eles podem namorar como dois adultos. Qual é o sentido de se casar?
— Talvez queiram oficializar a coisa toda. Talvez seja por Kitty.
— Eles nem estão namorando há tanto tempo! Faz o quê, seis meses?
— Um pouco mais do que isso. Mas, Gogo, eles se conhecem há anos.
Ela empilha as fatias embrulhadas de pizza.
— Você consegue imaginar como vai ser estranho ela vir morar aqui?
A pergunta dela me faz hesitar. A sra. Rothschild passa bastante tempo aqui em casa, mas não é o mesmo que morar aqui. Ela tem o jeito dela de fazer as coisas, e nós também. Ela usa sapatos dentro de casa, mas nós não usamos aqui, então ela os tira quando vem nos visitar. E, agora que estou pensando, ela nunca dormiu aqui; sempre volta para casa no fim da noite. Isso pode ser meio estranho. Além do mais, ela guarda pão na geladeira, coisa que eu odeio, e, para ser sincera, a cadela dela, Simone, solta muito pelo e acho que gosta de fazer xixi no tapete.
Mas a questão é que como eu não vou para a UVA, não vou ficar aqui por muito mais tempo, vou morar no alojamento da faculdade.
— Mas nenhuma de nós vai morar aqui em tempo integral — digo. — Só Kitty, e ela está feliz da vida.
Margot não responde imediatamente.
— Sim, elas parecem bem próximas. — Ela vai até o freezer abrir espaço para a pizza e, de costas para mim, diz: — Não esqueça, temos que ir comprar seu vestido do baile antes de eu ir embora.
— Ah, vai ser ótimo! — Parece que foi ontem que saímos para comprar o vestido do baile de Margot, e agora é a minha vez.
Papai, que eu não percebi que tinha entrado na cozinha, diz:
— Será que Trina pode ir com vocês?
Ele me olha com esperança. Mas não é para mim que ele devia estar olhando. Eu já adoro a sra. Rothschild. É Margot que ela precisa conquistar. Olho para Margot, que está me encarando com os olhos arregalados e em pânico.
— Hum… — digo. — Acho que só deviam ir garotas Song desta vez.
Papai assente, como se entendesse.
— Ah. Tudo bem. — Em seguida, fala para Margot: — Nós dois podemos ter um tempo de pai e filha antes de você ir embora? Talvez pegar as bicicletas para fazer uma trilha?
— Parece ótimo — responde ela.
Quando ele vira as costas, Margot diz com movimentos labiais: Obrigada. Eu me sinto desleal com a sra. Rothschild, mas Margot é minha irmã. Tenho que ficar do lado dela.

* * *

Acho que Margot está se sentindo um pouco culpada por deixar a sra. Rothschild de fora do passeio, porque fica tentando fazer com que o evento pareça mais do que é. Quando vamos ao shopping no dia seguinte depois da aula, ela anuncia que cada uma de nós vai escolher dois vestidos, e que vou ter que experimentar todos para darmos notas a eles. Ela até imprimiu emojis de “curti” e “não curti” e fez plaquinhas.
O provador está lotado, e há vestidos por toda parte. Margot dá a Kitty a função de pendurar novamente as roupas, mas Kitty já desistiu e passou a jogar Candy Crush no celular de Margot.
Margot me entrega uma das escolhas dela primeiro, um vestido preto esvoaçante com mangas curtas.
— Você pode prender o cabelo se usar esse vestido.
Sem nem olhar, Kitty diz:
— Eu iria de cabelo solto e ondulado.
Margot faz uma careta para ela no espelho.
— Mas preto combina comigo? — pergunto.
— Você devia usar preto com mais frequência — diz Margot. — Fica bem em você.
Kitty cutuca um machucado na perna.
— Quando chegar o meu baile de formatura, eu vou usar um vestido de couro justíssimo — diz ela.
— Pode ficar quente na Virgínia em maio — digo enquanto Margot fecha meu zíper. — Mas você pode usar um vestido de couro no baile de volta às aulas, que é em outubro.
Nós olhamos meu reflexo no espelho. O corpete do vestido está grande, e o preto me deixa com cara de bruxa, mas uma bruxa com um vestido desajustado.
— Acho que você precisa de peitos maiores para esse vestido — diz Kitty. Ela levanta a plaquinha de “não curti”.
Eu franzo a testa para ela pelo espelho. Mas está certa.
— É, acho que sim.
— Mamãe tinha peitos grandes? — pergunta Kitty de repente.
— Hum… Acho que estavam mais para pequenos — diz Margot. — Tipo bojo 38?
— Que tamanho você usa? — pergunta ela.
— 40.
Olhando para mim, Kitty diz:
— Então os de Lara Jean são pequenos como os da mamãe.
— Ei, eu tenho quase o tamanho 40! — protesto. — Sou um 38 grande. Quase 40. Alguém pode abrir meu zíper?
— Tri tem peitos grandes — comenta Kitty.
— São naturais? — pergunta Margot enquanto abre o zíper.
Eu tiro o vestido e o entrego para Kitty pendurar.
— Acho que são.
— São. Eu a vi de biquíni, e eles se espalham quando ela se deita, e é assim que a gente descobre. Os falsos ficam no lugar como bolas de sorvete. — Kitty pega o celular de Margot de novo. — Além disso, eu perguntei.
— Se fossem falsos, duvido que ela fosse dizer — diz Margot.
Kitty franze a testa para ela.
— Tri não mente para mim.
— Não estou dizendo que ela mentiria; estou dizendo que ela pode querer guardar segredo sobre uma cirurgia plástica! O que é direito dela!
Kitty só dá de ombros tranquilamente.
Visto depressa o vestido seguinte para encerrar o assunto dos peitos da sra. Rothschild.
— O que vocês acham deste?
As duas balançam a cabeça e pegam a plaquinha de “não curti” ao mesmo tempo. Pelo menos, elas estão unidas em não gostar do meu vestido.
— Onde está o que eu escolhi? Experimente o meu agora. — Kitty pega um vestido branco apertado com decote nos ombros que eu não usaria nem em um milhão de anos, e ela sabe disso.
— Só quero ver como fica em você.
Tento agradá-la, e Kitty insiste que é o melhor vestido de todos, porque ela quer escolher o vencedor. No final, nenhum dos vestidos tem o meu estilo, mas isso não me incomoda. Ainda falta mais de um mês para o baile, e quero olhar alguns brechós antes de decidir comprar algo de uma loja normal. Gosto da ideia de um vestido usado, um vestido que tem um passado, que passou por muitas coisas, um vestido que uma garota como Stormy pode ter usado em um baile.
Quando Margot parte para a Escócia na manhã seguinte, ela me faz prometer mandar fotos de vestidos em potencial, para ela poder palpitar. Ela não diz mais nada sobre a sra. Rothschild, e não diria mesmo, porque não é do feitio dela.

2 comentários:

  1. — Ela vai dizer sim, com certeza — todas nós dizemos.

    ACHO Q N

    E tbm seria melhor se eles só namorassem, PÔ, eles já são vizinhos, n precisam casar e morar juntos ಠ_ಠ (AMO ESSA CARINHA👄)

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  2. sinceramente acho injusto o que a GOGo esta fazendo com a Tri
    qual é dá uma chance para a coitada ela é tao legal e faz seu pai e sua irma felizes
    ASS:Janielli

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Boa leitura, E SEM SPOILER!