26 de junho de 2018

Capítulo 12

Na manhã seguinte, Blue lia atentamente o livro que a escola havia estabelecido como tarefa de verão quando sua tia Jimi passou por seu quarto com um prato cheio de composto orgânico fumegante. Jimi, mãe de Orla, era tão alta quanto a filha, mas muitas vezes mais larga. Ela também tinha toda a graça de Orla, o que significava que batia os quadris em cada móvel no quarto de Blue. Toda vez que ela o fazia, dizia coisas como “filha da ponta!” e “forra-se tudo”, que soavam pior que os palavrões de verdade.
Blue ergueu os olhos embaçados da página, as narinas irritadas com a fumaça.
— O que você está fazendo?
— Fumegando — respondeu Jimi. Ela segurou o prato na frente das árvores de lona que Blue havia grudado nas paredes e assoprou as ervas na beirada do prato para direcionar a fumaça para a arte. — Aquela mulher terrível deixou muita energia ruim.
Aquela mulher terrível era Neeve, meia-tia de Blue, que havia desaparecido no início daquele ano após praticar magia negra no sótão. E fumegar era a prática de usar a fumaça de ervas do bem para limpar a energia negativa.
Pessoalmente, Blue sempre pensara que deviam existir outras maneiras de conseguir a influência positiva de uma planta além de botar fogo nela.
Agora Jimi acenava a lavanda e a sálvia no rosto de Blue.
— Fumaça sagrada, limpe a alma desta jovem à minha frente e dê a ela um pouco de juízo.
— Ei! — protestou Blue, sentando-se. — Acho que sou muito sensata, obrigada! Não tem artemísia aí, tem? Porque eu tenho coisas para fazer!
Jimi dizia que artemísia melhorava sua clarividência. Ela não parecia se importar com os efeitos temporariamente psicoativos. Taciturnamente soando como Orla, ela disse:
— Não, sua mãe não deixaria.
Blue agradeceu silenciosamente a sua mãe. Gansey e Adam deveriam aparecer, e a última coisa que ela queria era ser responsável por deixá-los ligeiramente chapados. Se bem que Adam poderia se beneficiar de algo que tirasse um pouco de sua tensão, ela pensou, com mais do que um ligeiro desconforto. Ela se perguntou se ele pediria desculpas.
— Nesse caso — ela disse — você faria o meu doset também?
Jimi franziu o cenho.
— A Neeve já esteve lá?
— Com a Neeve — respondeu Blue —, nunca se sabe.
— Vou fazer uma rezinha extra ali.
A rezinha acabou sendo um pouco mais longa do que Blue havia esperado, e ela fugiu da fumaça após alguns minutos. No corredor, notou que Jimi já havia aberto a porta do sótão para começar a defumar os velhos aposentos de Neeve. Parecia um convite.
Com um olhar de relance para o corredor, ela colocou o pé no patamar da escada e subiu. Imediatamente, o ar esquentou e começou a cheirar mal. O cheiro encardido de assa-fétida, de um dos encantos que Neeve havia usado, ainda permeava o espaço, e o calor de verão do sótão não fazia nada para melhorá-lo.
No topo da escada, ela hesitou. A maioria das coisas de Neeve ainda estava lá em cima, mas em montes e caixas sobre o colchão coberto para ser removidas mais tarde. Todas as máscaras e símbolos tinham sido tirados das paredes inclinadas e em construção, e as velas tinham sido cuidadosamente empacotadas com o castiçal para baixo em uma caixa plástica. Mas os espelhos de Neeve não tinham sido mexidos — dois espelhos de corpo inteiro apontados diretamente um para o outro. E havia uma tigela funda e preta no chão ao lado deles. A tigela de adivinhação de Neeve.
A base estava lisa com o resquício de um líquido recente, apesar de Neeve não ter estado naquele quarto por quase um mês. Blue não tinha certeza de quem mais o usaria.
Ela sabia que Maura, Persephone e Calla geralmente desaprovavam o ritual. A técnica era teoricamente simples: a clarividente olhava para um espelho ou uma tigela escura cheia de líquido, deixava a mente derivar para um espaço fora de si e via o futuro ou outro lugar no reflexo.
Na prática, Maura havia dito a Blue que aquilo era imprevisível e perigoso. “A alma”, ela dissera, “é vulnerável quando está fora da mente.”
Da última vez em que Blue vira aquela tigela, Neeve estava usando suas visões em algum lugar escondido na linha ley. Possivelmente em algum lugar em Cabeswater. E, quando Blue a interrompera, encontrara Neeve possuída por uma estranha criatura sombria que ela descobrira lá.
Agora, no calor sufocante do sótão, Blue tremia. Era fácil esquecer o terror que havia acompanhado sua caçada por Cabeswater. Mas o círculo reluzente na base da tigela divinatória trouxera tudo de volta em um segundo.
Quem está usando você?, Blue se perguntou. E, é claro, aquela era apenas a primeira metade da questão.
A outra metade era: E o que você está procurando agora?


Ronan Lynch acreditava no céu e no inferno.
Uma vez ele vira o diabo. Havia sido uma manhã opressiva e lenta nos estábulos, durante a qual o sol havia queimado a neblina, então queimado o frio, e então queimado a superfície do solo, até que tudo tremeluzisse de calor. Nunca esquentava tanto naqueles campos protegidos, mas, naquela manhã, o ar suava de calor. Ronan nunca vira o gado ofegante antes. Todas as vacas se moviam com dificuldade, com a língua de fora, enquanto espumavam com o calor. Sua mãe mandou Ronan colocá-las na sombra do estábulo.
Ronan fora até o portão de metal escaldante e, ao chegar ali, vira seu pai de relance, já no estábulo. A quatro metros dele havia um homem vermelho. Ele não era verdadeiramente vermelho, mas de um laranja queimado, como uma formiga-de-fogo. E não era verdadeiramente um homem, porque tinha chifres e cascos. Ronan se lembrou da estranheza da criatura, como ela havia sido real. Todas as fantasias no mundo haviam se equivocado; todos os desenhos em todos os quadrinhos.
Todos haviam esquecido que o diabo é um animal. Olhando para o homem vermelho, Ronan se espantara com a complexidade do corpo, com a quantidade de peças milagrosas se movendo suavemente em harmonia, nem um pouco diferentes das suas.
Niall Lynch tinha uma arma na mão — os Lynch tinham um número enorme de armas de todos os tamanhos — e, assim que Ronan abriu o portão, seu pai atirara na coisa umas treze vezes na cabeça. Com uma sacudida dos chifres, o diabo, ileso, mostrara a genitália para Niall Lynch antes de sumir dali. Era uma imagem que ainda não deixara Ronan.
E assim Ronan se tornou um evangelizador ao contrário. A verdade irrompeu e cresceu dentro dele, e lhe foi imposto que não a compartilhasse com ninguém. Ninguém deveria ver o inferno antes de chegar lá. Ninguém deveria ter de conviver com o diabo. Tantas homilias sobre a fé caíam por terra a partir do momento em que você não precisava mais delas para crer.
Agora era domingo, e, como em todos os domingos, ele estava indo para a Santa Inês. Gansey não o acompanhava — ele pertencia a alguma religião que exigia que ele fosse à igreja apenas no Natal —, mas Noah ia junto. Ele não havia sido católico em vida, mas, recentemente, decidira encontrar uma religião. Ninguém na igreja o notava, e era possível que Deus também não, mas Ronan, como alguém que Deus possivelmente ignorava também, não se importava com a companhia.
Naquele dia, Ronan passou obstinado pelas portas grandes e antigas da igreja e enfiou a mão na pia de água benta, enquanto os membros do coro estreitavam os olhos ao vê-lo passar. Ele perscrutou os bancos à procura de Declan. Era o diabo que o levava à igreja todos os domingos, mas era seu irmão Matthew que o levava até o banco ao lado de Declan.
Seu irmão mais velho estava sentado no último banco, o calombo da testa repousando sobre a madeira e os olhos fechados. Como sempre, ele havia se vestido para ir à igreja: camisa social, branca como a inocência, nó da gravata apertado e santificado, calça obedientemente passada. Naquela semana, entretanto, Declan exibia hematomas como os de um zumbi debaixo dos olhos, de um tom terrivelmente vermelho, um corte suturado sobre a maçã do rosto e o nariz decididamente quebrado.
O humor de Ronan melhorou. Ele jogou água benta sobre o rosto de Declan, dos dedos ainda úmidos.
— Que diabos aconteceu com você?
As duas mulheres sentadas três bancos à frente sussurraram uma com a outra. O órgão murmurou ao fundo.
Declan não abriu os olhos.
— Roubo.
Ele sussurrou com o menor esforço humanamente possível, abrindo a boca apenas o suficiente para a palavra escapar.
Ronan e Noah trocaram um olhar.
— Ah, fala sério — disse Ronan. Para começo de conversa, era Henrietta. E, para fim de conversa, era Henrietta. Ninguém era roubado e, se fosse, não apanhava. Se alguém fosse apanhar, não seriam os irmãos Lynch. Havia muito pouca gente pior que Ronan em Henrietta, e o que havia de pior estava ocupado demais correndo pela cidade em um Mitsubishi branco para roubar os Lynch restantes. — O que roubaram?
— Meu computador. E um pouco de dinheiro.
— E o seu rosto.
Declan apenas inspirou em resposta, lenta e cuidadosamente. Ronan escorregou no banco, e Noah se sentou ao lado dele, bem na ponta. Enquanto ele baixava o genuflexório, sentiu o cheiro pronunciado e antisséptico de hospital em seu irmão.
Desorientado, teve de prender a respiração por um momento. Ronan se ajoelhou e baixou a cabeça nos braços. A imagem atrás de seus olhos era a de uma chave de roda ensanguentada ao lado da cabeça de seu pai. Eu não cheguei a tempo, desculpa, desculpa. Por que, apesar de tudo que eu consigo fazer, não consigo mudar... Enquanto conversas sussurradas iam e vinham em volta deles, ele se concentrou na imagem do rosto de seu irmão mais velho e tentou sem sucesso imaginar a pessoa que poderia ter batido em Declan. A única pessoa que já tivera sucesso um dia em bater em um irmão Lynch fora outro irmão Lynch.
Após ter exaurido essa linha de pensamento, Ronan cedeu ao breve privilégio de odiar a si mesmo, como ele sempre fazia na igreja. Havia algo que lhe dava satisfação a respeito do reconhecimento desse ódio, algo que o aliviava a respeito desse pequeno presente que ele se dava a cada domingo.
Após um minuto, o genuflexório vergou quando Matthew se juntou a eles.
Mesmo sem isso, Ronan teria percebido sua presença pela forte dose de colônia que Matthew sempre parecia pensar que a igreja exigia.
— Oi, parceiro — sussurrou Matthew. Ele era a única pessoa que tinha a liberdade de chamar Ronan de parceiro. Matthew Lynch era um urso de garoto, largo, sólido e diligente. A cabeça era coberta por cachos macios e dourados, completamente diferentes dos de qualquer um dos membros de sua família. E, nesse caso, os dentes Lynch perfeitos eram emoldurados por um sorriso fácil, e com covinha. Ele tinha dois tipos de sorriso: um que era precedido por um encolher tímido do queixo, uma covinha e então bam, o sorriso. E aquele que provocava, um momento antes do bam, uma risada contagiante. Mulheres de todas as idades o achavam adorável. Homens de todas as idades o achavam camarada. Matthew fracassava em muito mais coisas que qualquer um de seus irmãos mais velhos, mas, diferentemente de Declan ou de Ronan, sempre tentava o seu melhor.
Ronan tivera mil pesadelos com ele.
Matthew havia deixado inconscientemente espaço para Noah, mas não o cumprimentou. Ronan havia perguntado uma vez a Noah se ele escolhia ser invisível, e este, magoado, respondera enigmaticamente:
— Continue insistindo nisso, por que não?
— Você viu o rosto do Declan? — sussurrou Matthew para Ronan.
O órgão tocava dolorosamente.
Declan manteve a voz em um tom baixo o suficiente para se fazer ouvir na igreja.
— Eu estou aqui.
— Roubo — disse Ronan. Realmente, era como se a verdade fosse uma doença que Declan achava que poderia matar.
— Às vezes, quando ligo para você — murmurou Declan, ainda com a voz baixa, estranha, que resultava de ele tentar não mexer a boca enquanto falava —, eu realmente preciso que você atenda o telefone.
— Nós estamos conversando? — perguntou Ronan. — É isso que está acontecendo?
Noah sorriu afetadamente. Ele não parecia muito devoto.
— Aliás, Joseph Kavinsky não é alguém que eu gosto de ver perto de você — acrescentou Declan. — Não ria. Estou falando sério.
Ronan só o encarou, com o olhar mais desdenhoso que conseguiu exibir. Uma senhora estendeu o braço sobre Noah para fazer um carinho na cabeça de Matthew antes de continuar andando pelo corredor. Ela não parecia se importar que ele tivesse quinze anos, o que estava bem, pois ele também não se importava.
Tanto Ronan quanto Declan observaram aquela interação com a expressão satisfeita de pais quando observam seu prodígio em ação.
— Tipo, é perigoso — repetiu Declan.
Às vezes, Declan parecia achar que ser um ano mais velho lhe dava um conhecimento especial do lado mais sombrio de Henrietta. O que ele queria dizer era: Ronan fazia ideia de que Kavinsky cheirava cocaína?
Em seu ouvido, Noah sussurrou:
— Crack é a mesma coisa que pedra?
Ronan não respondeu. Ele não achava que fosse uma conversa muito apropriada para ter na igreja.
— Eu sei que você se acha um punk — disse Declan —, mas você não é nem de perto tão durão quanto acha que é.
— Ah, vá pro inferno — disparou Ronan, bem quando os coroinhas entravam todos juntos pelas portas dos fundos.
— Pessoal — suplicou Matthew. — Sejam virtuosos.
Tanto Declan quanto Ronan caíram no silêncio. Eles ficaram em silêncio durante todo o cântico de abertura, o qual Matthew acompanhou alegremente, durante as leituras, as quais Matthew acompanhou sorrindo agradavelmente, e durante toda a homilia, em que Matthew dormiu tranquilamente. E também ficaram em silêncio na hora da comunhão, enquanto Noah permaneceu no banco, Declan mancou pelo corredor e aceitou a hóstia, Ronan fechou os olhos para ser abençoado — Por favor, Deus, o que sou eu, me diga o que eu sou — e Matthew balançou a cabeça para o vinho. E, por fim, em silêncio durante o último cântico, enquanto o padre e os coroinhas saíam por trás da igreja.
Eles encontraram a namorada de Declan, Ashley, esperando na calçada, junto às portas principais. Ela estava vestida com o que quer que tenha aparecido na capa da People ou da Cosmopolitan, e o cabelo pintado com qualquer que tenha sido o tom de loiro que combinava com aquilo. Ashley usava três minúsculos brincos de ouro em cada lóbulo. Ela parecia desconhecer as traições de Declan, e Ronan a odiava. Para ser justo, ela também o odiava.
Ronan forçou um sorriso para ela.
— Você tem medo de pegar fogo se entrar?
— Eu me recuso a participar de uma cerimônia que não dá, tipo assim, privilégios espirituais iguais para as mulheres — ela disse, sem olhar Ronan nos olhos e ignorando Noah completamente, embora ele tivesse dado um risinho impreciso.
— Vocês dois tiram suas opiniões políticas do mesmo catálogo? — ele perguntou.
— Ronan... — começou Declan.
Ronan puxou as chaves do carro do bolso.
— Eu já estava de saída. — Ele deixou que Matthew fizesse um cumprimento fraternal que eles tinham inventado quatro anos atrás, e então aconselhou Declan: — Fique longe dos assaltantes.
Não era tão fácil como seria de esperar para Ronan Lynch correr nas ruas. A maioria das pessoas obedecia aos limites de velocidade. Apesar de toda a cobertura da imprensa que a ira no trânsito recebia, os motoristas ou eram conscientes demais a respeito de sua segurança, ou tímidos demais, ou com princípios demais, ou desligados demais para ser provocados. Mesmo aqueles que poderiam considerar a possibilidade de alguns minutos de brincadeira arrancando forte quando o sinal abria, geralmente tinham consciência de que seu veículo não era adequado para a tarefa. Você não encontrava rachas simplesmente esperando por você nas ruas. Eles tinham de ser cultivados.
Então era assim que Ronan Lynch encontrava confusão para si.
Um carro de cores vivas, para começo de conversa. Ronan havia passado horas de sua vida como o único carro preto em um jogo curto e direto de veículos confeitados. Ele procurava por hatchs, cupês. Quase nunca um conversível. Ninguém queria estragar o cabelo. Essa seria a lista de desejos de um corredor de rua: peças de reposição em qualquer tipo de carro, canos de escapamento enormes, efeitos como se o carro raspasse o asfalto, capôs cavernosos, faróis escurecidos, chamas diferentes pintadas nos para-lamas. Qualquer carro que viesse com um aerofólio. Quanto mais parecesse uma alça para levantar o carro, melhor. A silhueta de uma cabeça com o cabelo raspado ou um boné virado de lado era um sinal promissor, assim como um braço pendurado para fora da porta. Uma mão bronzeada segurando o espelho era melhor. O baixo pulsante era o grito de guerra. E também as placas personalizadas, desde que não fossem coisas como QRIDA ou BISC8. Adesivos no para-choque eram um balde de água fria, a não ser que fossem de rádios alternativas. Ah, e a potência do carro não contava nada. Muitas vezes, os melhores carros esportivos eram pilotados por banqueiros de meia-idade, temerosos do que poderia existir por baixo do capô.
Ronan costumava evitar carros com muitos passageiros também, raciocinando que o motorista sozinho tinha mais chance de queimar borracha no semáforo. Mas agora ele sabia que o tipo certo de passageiro instigaria um motorista normalmente calmo. Não havia nada que Ronan gostasse mais do que um garoto magro e bronzeado meio para fora de um Honda vermelho, com o som alto e rodando devagar, com o carro lotado de amigos.
E era assim que começava: desdenhe do semáforo. Cruze com o olhar do motorista. Desligue o ar-condicionado para dar ao carro potência extra. Aumente o giro do motor. Sorria como o perigo.
Era assim que Ronan encontrava confusão para si, exceto quando a confusão era Kavinsky. Porque então ela o encontrava.
Após a igreja, Ronan e Noah seguiram na direção do loteamento caro e infernal onde Kavinsky morava com a mãe. Ronan pensara vagamente que poderia deixar os óculos escuros do sonho na caixa de correio de Kavinsky ou enfiá-los nos limpadores de para-brisa do Mitsubishi. O ar-condicionado do BMW estava funcionando a todo vapor sob o sol do meio-dia. Cigarras se esganiçavam. Não havia sombra em lugar nenhum.
— Companhia — disse Noah.
Kavinsky encostou ao lado do BMW em um cruzamento. Acima deles, o semáforo ficou verde, mas a rua estava vazia e nenhum carro se mexeu. As palmas de Ronan ficaram subitamente suadas. Kavinsky baixou a janela, e Ronan fez o mesmo.
— Veado — disse Kavinsky, pisando no acelerador. O Mitsubishi lamentou e estremeceu um pouco. Era uma obra gloriosa e odiosa.
— Russo — respondeu Ronan, pisando no acelerador também. O BMW rosnou, um pouco mais baixo.
— Ei, não vamos fazer feio agora.
Abrindo o console central, Ronan tirou os óculos escuros que tinha sonhado na noite anterior e os jogou pela janela aberta, no assento do passageiro de Kavinsky.
A luz ficou amarela e então vermelha. Kavinsky pegou os óculos e os estudou. Ele baixou os que estava usando até o meio do nariz e os estudou um pouco mais. Ronan se sentiu contente ao ver como o novo par lembrava o que Kavinsky usava. A única coisa em que errara fora a lente, um pouco mais escura.
Certamente Kavinsky, um mestre falsificador, iria gostar deles.
Finalmente, Kavinsky escorregou o olhar para Ronan. Seu sorriso era dissimulado, satisfeito porque Ronan reconhecia o jogo.
— Muito bem, Lynch. Onde você encontrou isso aqui?
Ronan sorriu brevemente e desligou o ar-condicionado.
— É assim que vai ser? Para valer?
A luz para quem vinha pelo cruzamento ficou amarela.
— Sim — disse Ronan.
O semáforo acima deles ficou verde. Rapidamente, os dois carros deram um salto, numa explosão de marcas. Por dois segundos o Mitsubishi rosnou à frente, mas então Kavinsky errou a marcha da terceira para a quarta.
Ronan não.
No momento em que Ronan dobrava uma esquina em alta velocidade, Kavinsky deu dois toques na buzina e fez um gesto rude. Então Ronan sumiu, acelerando de volta para a Indústria Monmouth.
No espelho retrovisor, ele se permitiu o mais breve sorriso.
Era assim que a felicidade parecia.

2 comentários:

  1. "Em seu ouvido, Noah sussurrou:
    — Crack é a mesma coisa que pedra?"

    Dá pra ver o esforço dele pra se tornar religioso

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  2. "No espelho retrovisor, ele se permitiu o mais breve sorriso.
    Era assim que a felicidade parecia."

    Fico imaginando o sorriso dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!