20 de junho de 2018

Capítulo 12

Adam não estava esperando na fila de caixas de correio naquela manhã.
A primeira vez que Gansey fora buscar Adam, havia passado da entrada do bairro. Melhor dizendo, havia usado aquele trecho como retorno ao caminho por onde viera. A estrada não passava de dois sulcos ao longo de um campo — mesmo acesso era uma palavra muito grandiosa para ela —, e era impossível acreditar, à primeira vista, que levasse a uma única casa, ainda menos a um aglomerado delas.
Assim que Gansey encontrara a casa, as coisas pioraram ainda mais. Ao enxergar o blusão da Aglionby de Gansey, o pai de Adam abrira fogo, disparando todos os cilindros. Por semanas após o incidente, Ronan chamara Gansey de “R.F. de M.”, R de riquinho, F de frouxo e M de outra coisa.
Agora Adam encontrava Gansey onde o asfalto terminava.
Mas não havia ninguém esperando perto do aglomerado de caixas de correio.
Só havia um grande espaço vazio. Aquela parte do vale era interminavelmente plana em comparação ao outro lado de Henrietta, e, de certa maneira, aquele campo estava sempre mais seco e incolor que o resto do vale, como se tanto as principais estradas quanto a chuva o evitassem. Mesmo às oito da manhã, não havia uma sombra à vista.
Gansey olhou ao longo do acesso ressecado e tentou o telefone da casa, mas ele só tocou. Seu relógio dizia que ele tinha dezoito minutos para percorrer os quinze minutos de viagem até a escola.
Ele esperou. O motor balançava o carro com o Pig em ponto morto. Gansey observou a alavanca da marcha chacoalhar. Seus pés estavam assando em virtude da proximidade do V8. A cabine toda estava começando a feder a gasolina.
Ele ligou para a Indústria Monmouth. Noah atendeu, soando como se tivesse sido acordado.
— Noah — disse Gansey alto, para ser ouvido sobre o motor. Noah o havia deixado esquecer o diário no Nino’s, e a ausência daquele objeto era surpreendentemente perturbadora. — Você lembra do Adam dizer que tinha de trabalhar depois da escola hoje?
Nos dias em que Adam tinha de trabalhar, ele muitas vezes ia de bicicleta para a escola.
Noah resmungou negativamente.
Dezesseis minutos até a aula.
— Me liga se ele ligar — disse Gansey.
— Eu não vou estar aqui — respondeu Noah. — Já estou quase saindo.
Gansey desligou e tentou a casa novamente sem sucesso. A mãe de Adam talvez estivesse ali, mas não atendia, e ele não tinha realmente tempo para voltar para o bairro e investigar.
Ele podia faltar à aula.
Gansey jogou o telefone no banco do passageiro.
— Vamos lá, Adam.
De todos os lugares que Gansey havia estudado em regime de internato — e ele havia estudado em muitos em seus quatro anos de perambulação como menor de idade —, a Academia Aglionby era a favorita de seu pai, o que significava que era a que tinha a maior probabilidade de encaminhar os estudantes para uma universidade de prestígio. Ou para o Senado. Isso significava também, entretanto, que era a escola mais difícil em que Gansey já estudara. Antes de Henrietta, ele havia feito da busca por Glendower sua principal atividade, e a escola estivera em um distante segundo lugar. Gansey era inteligente e bom aluno, então não fora problema faltar às aulas ou empurrar as tarefas de casa para o fim da lista. Mas, em Aglionby, não havia como ter notas baixas. Se elas caíssem abaixo de B, você estava na rua. E Dick Gansey II havia deixado claro para o filho que, se ele não conseguisse se virar em uma escola particular, estaria fora do testamento. Ele havia dito isso de forma amigável, diante de um prato de fettucine.
Gansey não podia faltar à aula. Não após ter deixado de ir à escola no dia anterior. Esse era o cerne da questão. Catorze minutos para fazer a viagem de quinze minutos para a escola, e Adam não o estava esperando.
Ele sentiu o velho temor como um calafrio nos pulmões.
Não entre em pânico. Você estava errado sobre o Ronan na noite passada. Você precisa parar com isso. A morte não está tão próxima quanto você pensa.
Desanimado, Gansey tentou o telefone de casa uma vez mais. Nada. Ele precisava ir. Adam devia ter saído de bicicleta, devia ter de trabalhar, tinha seus afazeres e se esqueceu de avisá-lo. O acesso sulcado para o bairro ainda estava vazio.
Vamos lá, Adam.
Ele secou as mãos na calça, colocou-as de volta no volante e partiu para a escola.


Gansey não teve como ver se Adam tinha chegado a Aglionby até o terceiro período, quando ambos tinham latim. Essa era, inexplicavelmente, a única aula que Ronan nunca perdia. Ronan era o líder da turma em latim. Ele estudava de maneira pouco entusiasmada, mas incansavelmente, como se sua vida dependesse dessa matéria. Depois dele vinha Adam, o pupilo mais destacado de Aglionby, o primeiro em todas as outras matérias. Assim como Ronan, Adam estudava incansavelmente, porque seu futuro realmente dependia disso.
Gansey preferia francês. Ele dissera a Helen que havia muito pouco proveito em uma língua que não podia ser usada para traduzir um cardápio, mas, realmente, o francês era mais fácil para ele; sua mãe falava um pouco. Ele havia se resignado originalmente a estudar latim a fim de traduzir textos históricos para a pesquisa sobre Glendower, mas a proficiência de Ronan na língua lhe permitiu relaxar de qualquer urgência no estudo da disciplina.
As aulas de latim aconteciam na Borden House, uma construção de madeira pequena do outro lado do Welch Hall, o principal prédio acadêmico. Gansey caminhava apressado pelo gramado central quando Ronan apareceu, batendo em seu braço. Os olhos denunciavam noites e mais noites de insônia.
Ronan sussurrou:
— Onde está o Parrish?
— Ele não veio comigo hoje — disse Gansey, cada vez mais desanimado. Ronan e Adam tinham o segundo período juntos. — Você não o viu ainda?
— Ele não estava na aula.
Atrás de Gansey, alguém bateu em suas costas e disse:
— E aí, Gansey! — seguindo em frente. Ele ergueu três dedos sem muito entusiasmo, o sinal da equipe de remo.
— Eu tentei ligar para ele em casa — disse.
Ronan respondeu:
— Bem, o Garoto Pobre precisa de um celular.
Alguns meses antes, Gansey havia se oferecido para comprar um celular para Adam, e, ao fazer isso, começara a briga mais longa que eles já tiveram, uma semana de silêncio que se resolvera somente quando Ronan fez algo mais ofensivo do que qualquer um dos dois conseguiria fazer.
— Lynch!
Gansey olhou na direção da voz; Ronan não o fez. O dono da voz estava a meio caminho no gramado, difícil identificá-lo naquela profusão homogênea de uniformes.
— Lynch! — a chamada veio de novo. — Vou acabar com você.
Ainda assim Ronan não olhou. Ajustou a alça da mochila no ombro e continuou andando a passos largos pela grama.
— O que foi isso? — demandou Gansey.
— Algumas pessoas não sabem perder — respondeu Ronan.
— Era o Kavinsky? Não me diga que você andou tirando racha de novo.
— Não pergunte, então.
Gansey pensou se podia obrigar Ronan a seguir um toque de recolher. Ou se deveria largar o remo para passar mais tempo com ele às sextas-feiras — ele sabia que era quando Ronan se metia em confusões com o BMW. Talvez ele pudesse convencer Ronan a...
Ronan ajustou a alça no ombro de novo, e dessa vez Gansey a examinou mais atentamente. Aquela mochila era visivelmente maior que a que ele costumava usar, e Ronan a carregava com cuidado, como se pudesse escapar algo de dentro dela.
Gansey perguntou:
— Por que você está carregando essa mochila? Meu Deus, você está com aquele pássaro aí dentro, não é?
— Ele precisa ser alimentado de duas em duas horas.
— Como é que você sabe?
— Internet, Gansey. — Ronan abriu a porta para a Borden House; tão logo eles transpuseram a soleira, tudo em seu campo de visão estava coberto por um tapete azul-marinho.
— Se você for pego com essa coisa... — Mas Gansey não conseguiu pensar em uma boa ameaça. Qual era a punição por trazer escondido um pássaro vivo para as aulas? Ele não estava certo se havia um precedente, e concluiu: — Se ele morrer na sua mochila, eu proíbo você de jogar o corpo fora na sala de aula.
— Se ela morrer — corrigiu Ronan. — É fêmea.
— Eu acreditaria nisso se ele tivesse qualquer característica sexual definida. Espero que não tenha gripe aviária ou algo do gênero. — Mas ele não estava pensando no corvo de Ronan. Estava pensando em por que Adam não estava na aula.
Ronan e Gansey assumiram as carteiras de sempre, no fundo da sala de carpete azul-marinho. Na frente, Whelk escrevia verbos no quadro.
Quando Gansey e Ronan entraram, Whelk parara de escrever no meio de uma palavra: internac... Apesar de não haver razão para pensar que Whelk se preocupasse com a conversa deles, Gansey teve a estranha impressão de que o pedaço de giz levantado na mão de Whelk era por isso e que o professor de latim havia parado de escrever só para ouvi-los. A desconfiança de Adam estava começando a passar para ele.
Ronan percebeu o olhar de Whelk e o sustentou de maneira um tanto hostil. Apesar de seu interesse por latim, Ronan havia declarado seu professor um trapalhão socialmente desastrado no começo do ano, deixando claro que não gostava dele. Como desprezava todo mundo, Ronan não era um bom juiz de caráter, mas Gansey teve de concordar que havia algo desconcertante a respeito de Whelk. Algumas vezes, Gansey havia tentado conversar com ele sobre história romana, sabendo muito bem o efeito que uma conversa acadêmica entusiasmada podia ter sobre uma turma apática. Mas Whelk era jovem demais para ser um mentor e velho demais para ser um colega, e Gansey não conseguiu encontrar um ponto de vista.
Ronan seguiu encarando Whelk. Ele era bom em encarar pessoas. Havia alguma coisa em seu olhar fixo que tirava algo dos outros.
O professor de latim desviou o olhar rapidamente, embaraçado. Tendo lidado com a curiosidade de Whelk, Ronan perguntou:
— O que você vai fazer sobre o Parrish?
— Acho que vou passar lá depois da aula.
— Ele deve estar doente.
Eles olharam um para o outro. Já estamos inventando desculpas para ele, pensou Gansey.
Ronan espiou dentro da mochila de novo. No escuro, Gansey viu o bico do corvo apenas de relance. Normalmente, ele teria se deliciado mais uma vez com a improbabilidade de Ronan ter encontrado um corvo, mas, com Adam desaparecido, sua busca não parecia mágica — parecia mais anos passados juntando coincidências, e tudo que ele tinha feito com elas era um manto estranho, pesado demais para carregar, leve demais para oferecer proteção.
— Sr. Gansey, sr. Lynch?
Whelk havia conseguido se manifestar subitamente ao lado da carteira deles.
Os dois garotos olharam para o professor. Gansey, educado. Ronan, hostil.
— Você parece ter uma mochila extremamente grande hoje, sr. Lynch — disse Whelk.
— Você sabe o que dizem sobre homens com mochilas grandes — respondeu Ronan. — Ostendes tuum et ostendam meus.*
Gansey não fazia ideia do que o amigo tinha dito, mas ele estava certo, pelo sorriso afetado de Ronan, que não fora algo muito educado.
A expressão de Whelk confirmou a suspeita de Gansey, mas ele simplesmente deu uma batidinha na carteira de Ronan com os nós dos dedos e se afastou.
— Ser um merda em latim não é o caminho para um A — disse Gansey.
O sorriso de Ronan era dourado.
— No ano passado foi.
Na frente da sala, Whelk começou a aula.
Adam não apareceu.



Nota
* Em tradução livre: “Mostre o seu que eu mostro o meu”. (N. do T.)

3 comentários:

  1. — Era o Kavinsky?
    lembrei do peter de para todos os garotos que ja amei
    ASS:JanielliArmyBTS

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  2. Nao sei lidar com esse Ronan todo "papai-corvo" hahahaha

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  3. Quando adivinhei a tradução do Latim me senti a fodona kkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!