26 de junho de 2018

Capítulo 11

Naquela noite, Ronan sonhou com árvores.
Era uma floresta antiga, enorme, carvalhos e plátanos se elevando através do solo montanhoso e frio. Folhas se espalhavam na brisa. Ronan podia sentir o tamanho da montanha debaixo de seus pés. A longevidade dela. Bem abaixo, havia uma batida de coração que abraçava o mundo, mais lenta, mais forte e mais inexorável que a própria batida de Ronan.
Ele estivera ali antes, muitas vezes. Ele crescera com esse sonho recorrente da floresta. Suas raízes estavam emaranhadas em suas veias.
O ar se movia à sua volta, e, nele, ele ouviu o seu nome.
Ronan Lynch Ronan Lynch Ronan Lynch.
Não havia ninguém lá, a não ser Ronan, as árvores e as coisas que as árvores sonhavam.
Ele dançava sobre a linha tênue entre a consciência e o sono. Quando ele sonhava desse jeito, era um rei. O mundo era seu para dobrar. Seu para queimar.
Ronan Lynch, Greywaren, tu es Greywaren.
A voz vinha de toda parte e de lugar nenhum. A palavra Greywaren fazia sua pele formigar.
— Garota?
E lá estava ela, espiando precavidamente por detrás de uma árvore. Quando Ronan sonhara com ela pela primeira vez, ela tinha um longo cabelo em tom louro-mel, mas, após alguns anos, mudara para um corte curto, na maior parte escondido por um barrete branco. Embora ele tivesse envelhecido, ela não tinha.
Por alguma razão, para Ronan, ela lembrava as velhas fotos preto e branco dos trabalhadores em Nova York. Ela tinha o mesmo tipo de olhar órfão, desamparado. A presença dela tornava mais fácil tirar as coisas de seus sonhos.
Ele estendeu a mão para ela, mas ela não saiu imediatamente de onde estava. Em vez disso, espiou em volta com certo temor. Ronan não podia culpá-la. Havia coisas aterrorizantes em sua cabeça.
— Vamos lá. — Ele não sabia ainda o que queria tirar do sonho, mas sabia que estava tão vivo e consciente que seria fácil. Porém a Garota Órfã seguiu fora de seu alcance, seus dedos agarrados à casca da árvore.
— Ronan, manus vestras! — ela disse. Ronan, suas mãos!
Ele sentiu a pele se arrepiar e formigar, e então viu que ela estava tomada por marimbondos, os mesmos que tinham matado Gansey todos aqueles anos atrás.
Não havia muitos dessa vez, apenas algumas centenas. Às vezes, ele sonhava com carros cheios deles, casas cheias deles, mundos cheios deles. Às vezes, esses marimbondos matavam Ronan também, em seus sonhos.
Mas não naquela noite. Não quando ele era a coisa mais venenosa naquelas árvores.
Não quando o seu sono era argila em seus dedos.
Não são marimbondos, ele pensou.
E não eram. Quando Ronan levantou as mãos, seus dedos estavam cobertos de joaninhas carmesins, cada uma viva como uma gota de sangue. Elas rodopiavam no ar com sua fragrância acre de verão. Cada asa era uma voz zunindo em uma língua simples.
A Garota Órfã, sempre medrosa, emergiu somente após eles terem ido embora.
Ela e Ronan foram de uma parte da floresta para a seguinte. Ela cantarolou baixinho repetidamente o refrão de uma canção pop, enquanto as árvores murmuravam acima.
Ronan Lynch, loquere pro nobis.
Fale por nós.
Subitamente, ele estava diante de uma rocha estriada quase tão alta quanto ele. Espinhos e amoras cresciam na sua base. Ela era familiar de uma maneira que era sólida demais para ser um sonho, e Ronan sentiu um frêmito de incerteza. Será que aquele era um sonho ou seria apenas uma lembrança? Aquilo estava realmente acontecendo?
— Você está dormindo — a garota o lembrou, em inglês.
Ele se prendeu às palavras dela, um rei novamente. De frente para a rocha, ele sabia o que deveria fazer — o que ele já tinha feito. Ele sabia que doeria.
A garota virou o rosto estreito para o lado enquanto Ronan pegava os espinhos e as amoras. Cada picada do espinho era como a ferroada de um marimbondo, ameaçando acordá-lo. Ele os esmagou até que seus dedos estivessem escuros de suco e sangue, escuros como a tinta em suas costas. Então ele traçou lentamente as palavras na rocha: Arbores locjui latine. As árvores falam latim.
— Você já fez isso antes — ela disse.
O tempo era um círculo, uma rotina, uma fita gasta que Ronan nunca se cansava de tocar.
As vozes sussurram para ele: Gratias tibi ago. Obrigado.
— Não esqueça os óculos! — disse a garota.
Ronan seguiu o olhar dela. Entre as flores, as vinhas quebradas e as folhas caídas, havia um objeto branco reluzente. Quando ele o pegou, os óculos escuros de Kavinsky o encararam de volta, sem olhos. Ele correu o polegar sobre a superfície lisa do plástico e embaçou as lentes coloridas com sua respiração. E o fez até poder sentir inclusive o círculo delineado do parafuso minúsculo na haste.
Do sonho para memória e para realidade.
Ele ergueu os olhos para a garota. Ela parecia com medo. Ela sempre parecia com medo ultimamente. O mundo era um lugar assustador.
— Me leva com você — ela disse.
E ele acordou.


Naquela noite, o Homem Cinzento sonhou que estava sendo esfaqueado.
Num primeiro momento, ele sentiu cada ferimento individual. Particularmente o primeiro. Ele estava inteiro e ileso, e então a completude foi roubada por aquela ladra, a faca. Por isso aquela estocada foi a pior. Um centímetro acima da clavícula esquerda, prendendo-o ao chão por meia respiração.
Então novamente, mas mais próxima da articulação do ombro, raspando a clavícula. E então cinco centímetros abaixo do umbigo. A palavra entranha era um verbo e um substantivo. Outro corte e mais outro. Traiçoeiro.
Então o Homem Cinzento era o agressor. O punho da faca era sulcado e permanente em sua mão. Ele estivera esfaqueando aquele pedaço de carne por uma vida inteira. Ele havia nascido quando isso começou e morreria quando tivesse terminado. Era a ferida que o mantinha vivo: o momento que a faca partia uma faixa nova de pele. A resistência e então nada. Pegar e soltar.
Então o Homem Cinzento era a faca. Ele era uma lâmina no ar, ofegante, e então ele era uma arma por dentro, segurando a respiração. Ele era voraz, mastigando, jamais satisfeito. A fome era uma espécie, e ele era o melhor dessa raça.
O Homem Cinzento abriu os olhos.
Olhou para o relógio.
Rolou para o lado e voltou a dormir.


Naquela noite, Adam não sonhou.
Encolhido no colchão, ele cobriu o rosto com o braço quente do verão. Algumas vezes, se tampasse a boca e o nariz até quase sufocar, o sono o vencia.
Mas tanto o arrependimento quanto a memória da breve aparição não deixavam a sonolência o levar. O caráter equivocado e inerte da mulher ainda pairava no ambiente do quarto. Ou talvez dentro dele. O que eu fiz?
Ele estava desperto o suficiente para pensar em sua casa — Não era sua casa, nunca foi sua casa, aquelas pessoas nunca existiram e, se existiram, não significavam nada para você — e no rosto de Blue quando ele perdeu a cabeça.
Ele estava suficientemente desperto para se lembrar precisamente do cheiro da floresta enquanto se sacrificava. Ele estava desperto o suficiente para se perguntar se vinha tomando decisões equivocadas a vida inteira. Se ele mesmo não fora uma decisão equivocada, até antes de ter nascido.
Ele gostaria que o verão tivesse terminado. Pelo menos, quando estava na Aglionby, ele podia entregar suas provas para ver as notas, a comprovação concreta de seu sucesso em algo.
Ele estava acordado o suficiente para pensar no convite feito por Gansey. Pode surgir uma oportunidade de estágio lá. Adam sabia que era um favor. Isso o tornava errado?
Ele havia dito não por tanto tempo que não sabia quando dizer sim.
E talvez, disse uma parte minúscula e alerta de sua mente, talvez não adiante nada de qualquer forma. Quando eles sentirem o cheiro de terra de Henrietta por debaixo das unhas da sua mão.
Ele odiava a maneira cuidadosa com que Gansey lhe havia perguntado a respeito. Na ponta dos pés, bem como Adam tinha aprendido a andar quando estava perto do pai. Ele precisava de um botão de reiniciar. Apenas apertar o botão em Adam Parrish e iniciá-lo novamente.
Adam não dormiu e, quando o fez, não sonhou.

Um comentário:

  1. "Adam sabia que era um favor. Isso o tornava errado?"

    O cara é tão tapado que capaz que alguém ofereça um trabalho super legal pra ele e ele recuse pensando que é pena ou caridade, não pera, ele já fez isso ¬¬' Ele perde um monte de oportunidade de crescer por pura arrogância, orgulho

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Boa leitura, E SEM SPOILER!