20 de junho de 2018

Capítulo 11

Uma hora e vinte e três minutos antes de o despertador de Blue tocar, ela foi acordada pelo barulho da porta da frente batendo. A luz cinza do amanhecer era filtrada pela janela do quarto, formando sombras difusas das folhas pressionadas contra o vidro. Ela tentou não se ressentir daquela uma hora e vinte e três minutos de sono perdidos.
Passos começaram a subir a escada. Blue ouviu a voz de sua mãe.
— ... estava acordada esperando você.
— Algumas coisas são mais bem feitas à noite. — Aquela era Neeve. Apesar de sua voz ser mais baixa que a de Maura, era mais clara, de certa maneira, e se projetava bem. — Henrietta é um lugar e tanto, não é?
— Eu não pedi para você olhar para Henrietta — respondeu Maura, em um sussurro exagerado, que soou... protetor.
— É difícil não olhar. A cidade clama por isso — disse Neeve. Suas palavras seguintes ficaram perdidas em meio ao ruído da escada rangendo.
A resposta de Maura ficou obscurecida à medida que ela também começou a subir a escada, mas soou como:
— Eu prefiro que você deixe a Blue fora disso.
Blue ficou imóvel.
Neeve disse:
— Eu só estou te contando o que estou descobrindo. Se ele desapareceu na mesma época que... É possível que eles tenham alguma conexão. Você não quer que ela saiba quem ele é?
Mais um degrau chiou. Blue pensou: Por que elas não conseguem conversar sem fazer a escada ranger toda hora?
Maura disparou:
— Não vejo como isso facilitaria as coisas.
Neeve murmurou uma resposta.
— Essa história está saindo do nosso controle — disse sua mãe. — Foi só digitar o nome dele em um site de busca, e agora...
Blue forçou os ouvidos. Ela tinha a impressão de que não ouvia a mãe usar um pronome masculino há bastante tempo, exceto para se referir a Gansey.
Era possível, Blue pensou após um bom tempo, que Maura se referisse ao pai dela. Nenhuma das conversas que a filha tentara ter com ela havia lhe rendido qualquer informação sobre ele, apenas respostas bem-humoradas e sem sentido (“Ele é o Papai Noel. Ele foi um ladrão de bancos. Ele está em órbita”), que mudavam toda vez que ela perguntava. Na cabeça de Blue, ele era uma figura heroica que tivera de desaparecer por causa de um passado trágico. Ela gostava de imaginá-lo olhando furtivamente sobre a cerca do quintal, observando orgulhosamente a filha estranha sonhando acordada debaixo da faia.
Blue tinha um carinho enorme pelo pai, levando-se em consideração que nunca o conhecera.
Em algum lugar nas profundezas da casa, uma porta se fechou, e então houve mais uma vez aquele tipo de silêncio da noite que é difícil de perturbar. Após um longo momento, Blue estendeu o braço para a caixa de plástico que servia como mesinha de cabeceira, pegou o diário e descansou uma mão sobre a capa de couro fria. A superfície lembrava a casca fria e suave da faia atrás da casa. Como quando a tocava, Blue se sentia ao mesmo tempo confortada e ansiosa, serena e motivada a agir.
“Henrietta é um lugar e tanto”, havia dito Neeve. O diário parecia concordar. Um lugar para o quê, ela não tinha certeza.


Blue não queria dormir, mas dormiu, por mais uma hora e doze minutos. Não foi o despertador que a acordou dessa vez também. Foi um único pensamento gritado no cérebro:
Hoje é o dia em que Gansey vem para a leitura.
Envolvida na rotina diária de se aprontar para a escola, a conversa entre Maura e Neeve pareceu mais habitual do que antes. Mas o diário continuava igualmente mágico. Sentada na beirada da cama, Blue tocou uma das anotações.

O rei ainda dorme sob uma montanha, e em torno dele estão reunidos seus guerreiros e seus rebanhos e suas riquezas. Ao lado da mão direita está o seu copo, cheio de possibilidades. No peito aninha-se a espada, esperando, também, para despertar. Afortunada é a alma que encontrar o rei e for brava o suficiente para acordá-lo, pois o rei conceder-lhe-á um favor, tão maravilhoso quanto possa ser imaginado por um mortal.

Ela fechou as páginas. Parecia que dentro dela havia uma Blue maior, terrivelmente curiosa, prestes a rebentar para fora da Blue menor, mais sensata, que a continha. Por um longo momento, ela deixou o diário repousar nas pernas, a capa fria contra as palmas.
Um favor.
Se ela tivesse direito a um favor, o que pediria? Não precisar se preocupar com dinheiro? Saber quem foi seu pai? Viajar pelo mundo? Ver o que sua mãe via?
O pensamento correu por seu cérebro novamente:
Hoje é o dia em que Gansey vem para a leitura.
Como será ele?
Talvez, se ela estivesse diante do rei adormecido, pediria para o rei salvar a vida de Gansey.
— Blue, espero que você esteja acordada! — gritou Orla do andar de baixo.
Blue precisava sair logo se quisesse fazer o caminho de bicicleta até a escola a tempo. Em poucas semanas, seria um deslocamento desconfortavelmente quente. Quem sabe ela pediria um carro ao rei adormecido.
Pena que eu não possa simplesmente faltar à aula hoje.
Não que Blue temesse a escola; era apenas como... um padrão que a conduzia. E não que ela sofresse bullying; ela não levara muito tempo para descobrir que, quanto mais esquisita fosse por fora — deixando que os outros alunos percebessem que ela não era como eles, logo de saída —, menor a probabilidade de que implicassem com ela ou a ignorassem. O fato era que, ao chegar ao ensino médio, ser estranha e ter orgulho disso era uma vantagem. Subitamente descolada, ela poderia ter quantos amigos quisesse. E ela tentara. Mas o problema de ser estranha era que o resto do mundo era normal.
Assim, as mulheres de sua família seguiam sendo suas amigas mais próximas, a escola seguia como um dever e Blue seguia secretamente esperançosa de que, em algum lugar no mundo, houvesse outras pessoas esquisitas como ela. Mesmo que pelo visto não estivessem em Henrietta.
Era possível, ela pensou, que Adam também fosse esquisito.
— Blue! — berrou Orla novamente. — Escola!
Com o diário seguro firmemente contra o peito, Blue se dirigiu para a porta pintada de vermelho no fim do corredor. No caminho, teve de passar pelo frenesi de atividades no Quarto do Telefone/Costura/Gato e travar a furiosa batalha pelo banheiro. O quarto da porta vermelha pertencia a Persephone, uma das duas melhores amigas de Maura. A porta estava entreaberta, mas mesmo assim Blue bateu suavemente. Persephone dormia pouco, mas com energia; seus gritos e chutes no meio da noite eram a garantia de que ela jamais teria de dividir o quarto com alguém. Isso também significava que ela procurava dormir quando podia; Blue não queria acordá-la.
A voz pequena e suspirada de Persephone disse:
— Está desocupada. Quer dizer, aberta.
Blue abriu a porta e encontrou Persephone sentada na mesa de cartas ao lado da janela. Ao serem questionadas, as pessoas costumavam se lembrar do cabelo de Persephone: uma juba longa e ondulada, quase branca, que lhe chegava à parte de trás das coxas. Se conseguissem passar do cabelo, às vezes se lembravam de seus vestidos — criações elaboradas e frívolas — ou blusas excêntricas. E, se conseguissem passar disso, sentiam-se perturbadas pelos olhos dela, verdadeiros espelhos negros, as pupilas escondidas na escuridão.
Persephone segurava um lápis com um aperto estranhamente infantil. Quando viu Blue, franziu o cenho de maneira questionadora.
— Bom dia — disse Blue.
— Bom dia — ecoou Persephone. — É cedo demais. Minhas palavras não começaram a trabalhar ainda, por isso só vou usar aquelas que eu sei que funcionam com você.
Ela girou uma mão de um modo vago. Blue tomou isso como um sinal para encontrar um lugar para se sentar. A maior parte da cama estava coberta por estranhas polainas bordadas e meias-calças quadriculadas disputando lugar, mas ela encontrou um espaço para recostar o traseiro na beirada. O quarto inteiro cheirava a algo familiar, como laranjas, ou talco de bebê, ou talvez um livro didático novo.
— Dormiu mal? — perguntou Blue.
— Mal — ecoou Persephone novamente. E depois: — Ah, hum... não é bem verdade. Terei de usar minhas próprias palavras no fim das contas.
— No que você está trabalhando?
Frequentemente, Persephone estava trabalhando em sua eterna tese de doutorado, mas como era um processo que parecia exigir músicas irritantes e lanches frequentes, ela raramente o fazia na correria da manhã.
— Apenas uma coisinha — disse Persephone tristemente. Ou talvez pensativamente. Era difícil dizer a diferença, e Blue não gostava de perguntar.
Persephone tinha um amante ou um marido que estava morto ou no exterior (era difícil saber detalhes quando se referia a Persephone), e ela parecia sentir saudades dele, ou pelo menos perceber que ele tivesse partido, o que era notável para ela. E, de novo, Blue não gostava de perguntar a respeito. De Maura, Blue havia herdado uma aversão em ver pessoas chorarem, de modo que nunca gostava de conduzir uma conversa que pudesse resultar em lágrimas.
Persephone virou o papel para cima para que Blue pudesse vê-lo. Ela tinha acabado de escrever a palavra “três” três vezes, em três caligrafias diferentes, e poucos centímetros abaixo havia copiado uma receita de torta de banana com creme.
— Coisas importantes acontecem em trios? — sugeriu Blue. Era um dos ditos favoritos de Maura.
Persephone sublinhou “colher de sopa” próximo da palavra “baunilha” na receita. Sua voz era distante e vaga.
— Ou em septetos. É muita baunilha. Talvez seja um erro de digitação.
— Talvez — repetiu Blue.
— Blue! — gritou Maura. — Você não foi ainda?
Ela não respondeu, pois Persephone não gostava de ruídos agudos, e gritar de volta parecia se qualificar como tal. Em vez disso, disse:
— Eu encontrei uma coisa. Se eu lhe mostrar, promete que não conta para ninguém?
Mas era uma pergunta boba. Persephone era reservada, mesmo quando não se tratava de um segredo.
Quando Blue lhe passou o diário, Persephone perguntou:
— Devo abrir?
Blue agitou uma mão. Sim, e rapidamente. Ela ficou irrequieta na cama enquanto Persephone o folheava, sem nenhuma expressão.
Por fim, Blue perguntou:
— E aí?
— É muito bacana — disse Persephone educadamente.
— Não é meu.
— Bem, isso eu sei.
— Alguém esqueceu no Ni... Espere. Por que você disse isso?
Persephone folheava o diário para frente e para trás. Sua voz infantil e delicada era tão suave que Blue tinha de segurar a respiração para ouvi-la.
— É claramente o diário de um garoto. Além disso, ele está levando uma eternidade para encontrar essa coisa. Você já teria encontrado.
— Blue! — vociferou Maura. — Não vou gritar de novo!
— O que você acha que eu devo fazer? — perguntou a garota.
Como Blue havia feito, Persephone correu os dedos sobre as diferentes texturas dos papéis. Ela percebeu que Persephone estava certa; se o diário tivesse sido seu, ela teria simplesmente copiado as informações de que precisava, em vez de todos aqueles recortes e colagens. Os fragmentos eram intrigantes, mas desnecessários; quem quer que tivesse produzido o diário devia amar a caçada em si, o processo de pesquisa. As propriedades estéticas do diário não podiam ser acidentais; era uma obra de arte acadêmica.
— Bem — disse Persephone. — Primeiro você precisa descobrir de quem é esse diário.
Os ombros de Blue desabaram. Era uma resposta incansavelmente apropriada, que ela teria esperado de Maura ou Calla. É claro, ela sabia que tinha de devolvê-lo para o dono. Mas então para onde iria a graça daquilo tudo?
Persephone acrescentou:
— Depois, acho bom você descobrir se isso é verdade, não é?

4 comentários:

  1. "— É claramente o diário de um garoto. Além disso, ele está levando uma eternidade para encontrar essa coisa. Você já teria encontrado."

    Eu simplesmente amo essa frase. E ela é muito verdadeira

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  2. Só eu q não consigo me acostumar com narração em terceira pessoa? Por mais q veja a vida das outras personagens Prefiro o personagem conduzindo a estória.

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  3. Tá estranho,porém suportável.

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  4. "Você ja teria encontrado" AAAAAAAHHHHHHHH amei ela, amei a frase, tô amando o livro!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!