26 de junho de 2018

Capítulo 10


— Eu estava pensando que você podia ir comigo — disse Gansey cuidadosamente, duas horas mais tarde. Ele pressionou o telefone contra a orelha com um ombro enquanto desenrolava um rolo enorme de papel sobre o chão da Indústria Monmouth. As inúmeras luminárias baixas espalhadas pelo aposento formavam uma plêiade de holofotes sobre o papel. — Para a festa da minha mãe. Pode surgir uma oportunidade de estágio lá, se você se sair bem.
Do outro lado do telefone, Adam não respondeu imediatamente. Era difícil de dizer se ele estava pensando a respeito ou se estava irritado com a sugestão. Gansey continuou desenrolando o papel. Era uma impressão em alta resolução da linha ley como vista de um satélite casualmente interessado. Havia custado uma fortuna ter as imagens emendadas e então impressas em cores, mas tudo valeria a pena se ele encontrasse alguma coisa fora do padrão. No mínimo, eles poderiam usá-la para rastrear a exploração. Além de tudo, ela era bonita.
Do quarto de Ronan, ele ouviu a risada de Noah. Ele e Ronan estavam jogando vários objetos pela janela do segundo andar para o estacionamento lá embaixo. Houve um estrondo incrível.
— Eu teria que ver se daria para eu ser dispensado do trabalho — respondeu Adam. — Acho que consigo. Você acha que eu devia ir?
Aliviado, Gansey disse:
— Ah, sim. — Ele arrastou a cadeira da escrivaninha até o canto da impressão, mas esta teimava em enrolar de volta. Então ele colocou uma cópia de Trioedd Ynys Prydein no outro canto.
— Você tem notícia da Blue? — perguntou Adam.
— Hoje à noite? Ela tem que trabalhar, não tem? — Enrola, enrola, enrola. Ele segurou o papel com o pé para que ficasse reto. Era surpreendente a satisfação que dava ver acres e acres de floresta e montanhas e rios se desenrolando sobre as tábuas do assoalho. Se ele fosse um deus, pensou Gansey, era assim que criaria um mundo novo. Desenrolando-o como um tapete.
— Tem. Eu só... Ela disse alguma coisa a meu respeito?
— Tipo o quê?
Um longo silêncio.
— Sobre beijar, eu acho.
Gansey fez uma pausa no desenrolar do papel. Na realidade, Blue tinha confessado muita coisa a respeito de beijar. Por exemplo, que haviam dito a ela durante toda a vida que ela mataria o seu verdadeiro amor se o beijasse. Era estranho lembrar aquele momento. Ele duvidara dela, lembrou Gansey. Mas não teria duvidado agora. Blue era uma pessoa excêntrica mas sensata, como um ornitorrinco, ou um daqueles sanduíches cortados em círculos para um chá fino.
Ela também havia pedido para Gansey não contar a Adam sua confissão.
— Beijar? — ele repetiu evasivamente. — O que está acontecendo?
Outro estrondo veio do quarto de Ronan, seguido por uma risada diabólica. Gansey se perguntou se ele não deveria fazê-los parar antes que veículos com luzes piscando o fizessem.
— Sei lá. Ela não quer me beijar — disse Adam. — Eu não a culpo, eu acho. Não sei o que estou fazendo.
— Você perguntou para ela por que ela não quer te beijar? — perguntou Gansey, embora não quisesse ouvir a resposta. Ele estava abruptamente cansado da conversa.
— Ela disse que era nova demais.
— E provavelmente é.
Gansey não fazia ideia de quantos anos Blue tinha. Ele sabia que ela tinha terminado havia pouco o segundo ano. Talvez tivesse dezesseis. Talvez dezoito. Talvez tivesse vinte e dois, e fosse apenas muito baixa e atrasada.
— Sei lá, Gansey. As coisas são assim mesmo? Você já saiu com muito mais garotas do que eu.
— Não estou saindo com ninguém agora.
— Exceto Glendower.
Gansey não tinha como argumentar contra isso.
— Olha, Adam, acho que não tem a ver com você. Acho que ela não tem nenhum problema com você.
Mas Adam não gostou da resposta, pois não disse nada para retrucar. Isso deu a Gansey tempo suficiente para se lembrar do momento em que ele a abordara pela primeira vez no Nino’s em favor de Adam. Como havia sido desastroso.
Desde então, ele havia considerado uma dúzia de abordagens diferentes e melhores. O que era uma bobagem. Tudo tinha dado certo, não é? Ela estava com Adam agora.
Se Gansey tinha pagado ou não um mico de primeira quando eles se conheceram, isso não mudava nada.
— Não acredito, cara! — gritou Noah, mas ele não soava como se quisesse dizer isso. Suas palavras eram quase um riso. — Não acredito...
Gansey chutou com tanta força o rolo que ele oscilou torto até se desenrolar completamente, metros adiante, fora dos círculos de luz. Endireitando-se, ele caminhou até as janelas, a leste da fábrica. Apoiando um cotovelo na armação, pressionou a testa contra o vidro, para olhar para a paisagem vasta e escura de Henrietta lá embaixo.
Uma vez ele havia sonhado que encontrara Glendower. Não era o achado em si, mas o dia seguinte. Ele jamais esqueceria a sensação do sonho. Não fora de alegria, mas de ausência de dor. Ele não conseguia esquecer aquela leveza. A liberdade.
— Não quero que as coisas fiquem feias — disse Adam por fim.
— Elas estão feias?
— Não. Acho que não. Mas de certa maneira elas sempre parecem ficar assim.
Gansey observou as luzinhas dos carros sumindo à medida que deixavam Henrietta, e isso o fez se lembrar de sua versão em miniatura da cidade. Fogos de artifício ilícitos, fora de hora, espocaram no primeiro plano.
— Bom, ela não é bem uma garota. Quer dizer, claro que ela é uma garota. Mas não é como quando eu estava saindo com alguém. É a Blue. Você pode simplesmente perguntar para ela. Nós a vemos todos os dias. Quer que eu fale com ela?
Isso era algo que, com toda a certeza de seu coração, ele definitivamente não tinha interesse em fazer.
— Eu me atrapalho todo quando vou falar as coisas, Gansey — disse Adam, sinceramente. — E você é muito bom nisso. Talvez... talvez se o assunto surgir naturalmente?
Os ombros de Gansey despencaram; sua respiração embaçou os óculos e então desapareceu.
— É claro.
— Obrigado. — Adam fez uma pausa. — Eu só quero descomplicar as coisas.
Eu também, Adam. Eu também.
A porta do quarto de Ronan se escancarou. Segurando-se no marco da porta, Ronan se inclinou para fora para espiar além de Gansey. Ele estava daquele jeito em que parecia ao mesmo tempo o Ronan perigoso de agora e o Ronan mais alegre que havia sido quando Gansey o encontrara pela primeira vez.
— O Noah está aí?
— Segura um pouco — Gansey disse a Adam. Então, para Ronan: — Por que ele estaria aqui?
— Por nada. Nada mesmo.
Ronan bateu a porta, e Gansey perguntou a Adam:
— Desculpe. Você ainda tem aquele terno para a festa?
A resposta de Adam foi encoberta pelo som da porta do segundo andar sendo aberta.
Noah entrou se arrastando. Com um tom de voz magoado, ele disse:
— Ele me jogou pela janela!
A voz de Ronan cantou por detrás da porta fechada:
— Você já está morto!
— O que está acontecendo aí? — perguntou Adam.
Gansey olhou para Noah. Ele não parecia nem um pouco machucado.
— Não faço ideia. Vem pra cá.
— Não hoje à noite — respondeu Adam.
Estou perdendo ele, pensou Gansey. Estou perdendo ele para Cabeswater. Ele tinha achado que, ficando longe da floresta, não perderia o velho Adam — apagando as consequências do que quer que tivesse acontecido aquela noite quando tudo começou a dar errado. Mas talvez isso não importasse. Cabeswater o levaria de qualquer jeito.
— Tudo bem, só não esquece de colocar uma gravata vermelha — disse Gansey.

2 comentários:

  1. "— Ele me jogou pela janela!
    A voz de Ronan cantou por detrás da porta fechada:
    — Você já está morto!"

    Cá está o motivo pra eu amar tanto esse livro <3 (tem outras coisas tb, mas essa é a mais engraçada)

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  2. Adam é meu crush, eu to preocupado que algo possa acontecer com ele

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Boa leitura, E SEM SPOILER!