20 de junho de 2018

Capítulo 10

Whelk não estava dormindo.
No passado, quando ele fora um estudante em Aglionby, o sono vinha fácil — e por que não viria? Assim como Czerny e o resto de seus colegas, ele dormia duas, quatro ou seis horas em dias da semana, vivia acordado até tarde e levantava cedo, e então realizava maratonas de sono no fim de semana. E, quando dormia, eram horas de sono fácil, sem sonhos. Não, ele sabia que isso era falso. Todo mundo sonhava, só que alguns esqueciam.
Agora, no entanto, Whelk raramente fechava os olhos por mais que algumas horas seguidas. Ele rolava nos lençóis. De uma hora para outra, sentava-se ereto, acordado por sussurros. Whelk cochilava no sofá de couro, o único móvel que o governo não havia lhe tomado. Seus padrões de sono e energia pareciam ditados por algo maior e mais poderoso que ele mesmo, indo e vindo como uma maré incerta. Tentativas de mapeá-lo o deixavam frustrado: ele parecia mais acordado na lua cheia e após tempestades, mas, fora isso, era difícil prever. Em sua mente, Whelk imaginava que era o pulso magnético da própria linha ley, de certa maneira convidada para o seu corpo pela morte de Czerny.
A carência de sono tornava sua vida algo imaginário, seus dias, uma fita flutuando sem destino na água.
A lua estava quase cheia e não fazia muito que chovera, então Whelk estava acordado.
Ele estava sentado de camiseta e cueca samba-canção na frente da tela do computador, operando o mouse com a produtividade desorganizada e incerta dos fatigados. Subitamente, vozes incontáveis lhe invadiram a mente, sussurrando e sibilando. Soavam como a estática que zunia sobre as linhas telefônicas nas proximidades da linha ley. Como o vento antes de uma tempestade, como as próprias árvores conspirando. Como sempre, Whelk não conseguia distinguir nenhuma palavra e não conseguia entender a conversa. Mas compreendeu uma coisa: algo estranho tinha acontecido havia pouco em Henrietta, e as vozes não conseguiam parar de falar sobre o assunto.
Pela primeira vez em anos, Whelk buscou os velhos mapas do condado, guardados no pequeno armário embutido no corredor. Ele não tinha mesa, e o balcão estava cheio de embalagens abertas de lasanha congelada e pratos com cascas de pão dormido, de maneira que ele abriu os mapas no banheiro. Uma aranha deslizou quando ele aplanou um mapa contra a superfície da banheira.
Czerny, acho que você está em um lugar melhor do que eu.
Mas ele não acreditava realmente nisso. Whelk não fazia ideia do que havia acontecido com a alma ou com o espírito de Czerny, ou como quer que se queira chamar o que Czerny fora. Contudo, se Whelk havia sido amaldiçoado com vozes sussurrantes por sua parte no ritual, o destino de Czerny devia ter sido pior.
Whelk se afastou e cruzou os braços, estudando as dezenas de marcas e anotações que havia feito nos mapas ao longo de sua pesquisa. A caligrafia impossível de Czerny, sempre em vermelho, apontava níveis de energia ao longo do caminho possível da linha ley. Na época, havia sido um jogo, uma caça ao tesouro. Um jogo pela glória. Fora verdade? Não importava. Era um exercício caro em estratégia, com a costa leste como o campo de jogo. Procurando por padrões, Whelk havia meticulosamente traçado círculos em torno de áreas de interesse em um dos mapas topográficos. Um círculo em torno de um antigo capão de freixos onde os níveis de energia eram sempre altos. Um círculo em torno de uma igreja arruinada que a vida selvagem parecia evitar. Um círculo em torno do lugar em que Czerny havia morrido.
É claro, ele havia desenhado o círculo antes de Czerny morrer. O lugar, um grupo sinistro de carvalhos, havia sido notado graças a palavras antigas gravadas em um dos troncos. Latim. A mensagem parecia incompleta e difícil de traduzir, e o melhor palpite de Whelk foi “o segundo caminho”. Os níveis de energia pareciam promissores ali, embora inconsistentes. Então, certamente aquilo estava na linha ley.
Czerny e Whelk tinham retornado uma meia dúzia de vezes, fazendo leituras (próximos do círculo, havia seis números diferentes anotados por Czerny), cavando a terra em busca de artefatos e fazendo vigílias durante a noite por sinais de atividades sobrenaturais. Whelk havia construído sua varinha de radiestesia mais complicada e sensível até então: dois cabos de metal curvados em um ângulo de noventa graus e inseridos em tubo de metal, de maneira que pudessem oscilar livremente.
Mas ela seguia irregular, entrando e saindo de sintonia como uma estação de rádio distante. As linhas precisavam ser despertas, ter as frequências aprimoradas, o volume aumentado. Czerny e Whelk fizeram planos para tentar o ritual no bosque de carvalhos. No entanto, não tinham muita certeza do processo. Tudo que Whelk pôde descobrir foi que a linha adorava reciprocidade e sacrifício, mas isso era frustrantemente vago. Como nenhuma outra informação se apresentou, eles seguiram protelando. Durante as férias de inverno. Nas férias de primavera. No fim do ano letivo.
Então a mãe de Whelk ligou e disse a ele que seu pai havia sido preso por práticas ilegais nos negócios e sonegação de impostos. O que se descobriu foi que a empresa estivera negociando com criminosos de guerra, um fato que sua mãe conhecia, que Whelk havia presumido e que o FBI vinha investigando havia anos. Da noite para o dia, a família perdeu tudo.
A história estava nos jornais no dia seguinte, a quebra catastrófica da fortuna da família Whelk. As duas namoradas de Whelk o deixaram. Bem, a segunda era tecnicamente de Czerny, então talvez não contasse. O caso se tornou absolutamente público. O playboy da Virgínia, herdeiro da fortuna Whelk, subitamente expulso do dormitório em Aglionby, excluído da vida social, liberto de qualquer esperança de futuro em uma universidade tradicional, observando seu carro ser guinchado e seu quarto ser esvaziado das caixas de som e dos móveis.
A última vez em que Whelk olhara para aquele mapa fora parado em seu dormitório, percebendo que a única coisa que sobrara era uma nota de dez dólares no bolso. Nenhum dos cartões de crédito servia para mais nada.
Czerny havia chegado em seu Mustang vermelho. Ele não saíra do carro.
— Agora você é um pobretão? — perguntara. Czerny não tinha realmente senso de humor. Às vezes ele simplesmente dizia coisas que por acaso eram engraçadas.
Whelk, parado em meio às ruínas de sua vida, não riu dessa vez.
A linha ley não era mais um jogo.
— Abra a porta — Whelk havia dito para ele. — Vamos fazer o ritual.

3 comentários:

  1. Não gosto da narrativa do Whelk, ele tem muito espírito de perdedor. Só li a narrativa dele nas duas primeiras vezes, pq era necessário pra entender a história.

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    1. bom... pq eu to lendo tudo e não tô entendendo nada .

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  2. Aquele momento que vc já leu 10 capítulos e não entendeu nada mas tbm não quer largar a leitura

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Boa leitura, E SEM SPOILER!