3 de junho de 2018

Capítulo 10

Que garotinho mais fofo
Botinhas nos pés
E sorrisinho assassino

O NOME CALÍGULA lhes diz alguma coisa, queridos leitores?
Se não, considerem-se pessoas de sorte.
Por toda a Cisterna, dríades de cactos dispararam seus espinhos. A parte inferior de Mellie se dissolveu e se transformou em neblina. Até o bebê Chuck cuspiu um pedaço de isopor.
— Calígula? — O olho do treinador Hedge deu uma tremidinha de nervoso, a mesma tremidinha de quando Mellie ameaçou apreender as armas ninja dele. — Você tem certeza?
Quisera eu não ter. Quisera eu poder anunciar que o terceiro imperador era o velho e gentil Marco Aurélio, ou o nobre Adriano, ou o estabanado Cláudio.
Mas Calígula…
Até para os que sabiam pouco sobre ele, o nome Calígula invocava imagens das mais sombrias e terríveis. Seu reinado foi mais sangrento e mais famoso do que o de Nero, que desde criança era fascinado pelo tio-bisavô perverso, Caio Júlio César Germânico.
Calígula: sinônimo de assassinato, tortura, loucura, excesso. Calígula: o tirano pérfido com o qual todos os outros tiranos pérfidos eram comparados. Calígula: um imperador com um posicionamento de marca que deixava bastante a desejar.
Grover estremeceu.
— Sempre odiei esse nome. O que significa, afinal? Assassino de sátiro? Sugador de sangue?
— Botinhas — falei.
O cabelo castanho e desgrenhado de Josué se eriçou todo, o que Meg pareceu achar encantador.
— Botinhas? — perguntou ele, confuso, talvez se perguntando se não tinha entendido a piada, embora ninguém estivesse rindo.
— Isso mesmo. Vocês tinham que ver como o pequeno Calígula ficava fofo com sua roupinha de legionário quando acompanhava o pai, Germânico, em campanhas militares.
Por que os sociopatas sempre são tão adoráveis quando crianças?
— Era assim que os soldados do pai o chamavam quando ele era criança — expliquei. — Ele usava minibotas de legionário, caligae, e eles achavam hilário. Por isso, o chamavam de Calígula, que significa Botinhas ou Sapatinhos. Escolham a tradução que preferirem.
Figo-da-índia fincou o garfo em uma enchilada.
— Não me interessa se o nome do sujeito é Gatinho de Botinhas. Como a gente vence esse imperador aí e faz tudo voltar ao normal?
Os outros cactos resmungaram e assentiram. Eu começava a desconfiar que os figos-da-índia eram os encrenqueiros do mundo dos cactos. Se houvesse muitos deles, era capaz de fazerem uma revolução e dominarem o reino animal.
— Temos que tomar cuidado — avisei. — Calígula é mestre em criar emboscadas para seus inimigos. Conhecem a velha expressão Dar corda para alguém se enforcar? Foi criada para Calígula. Ele adora a reputação de maluco, mas é só um disfarce. De maluco ele não tem nada. Só que é completamente amoral, ainda pior do que…
Não completei a frase. Estava prestes a dizer pior do que Nero, mas não tinha coragem de fazer uma declaração dessas na frente de Meg, cuja infância inteira fora envenenada por Nero e por seu alter ego, Besta.
Cuidado, Meg, ele sempre dizia. Não se comporte mal, ou vai acordar o Besta. Eu amo muito você, mas o Besta… Bom, eu odiaria ver você fazer alguma coisa errada e se machucar.
Como quantificar tamanha maldade?
— Enfim — concluí —, Calígula é inteligente, paciente e paranoico. Se esse Labirinto de Fogo for alguma armadilha elaborada, parte de algum plano maior do imperador, não vai ser fácil destruí-lo. Vencê-lo, ou até mesmo encontrá-lo, vai ser um desafio.
Fiquei tentado a acrescentar: Talvez a gente não queira encontrá-lo. Talvez a gente só devesse fugir. Isso não funcionaria para as dríades. Elas estavam literalmente enraizadas na terra em que cresciam. Transplantes como Reba eram raros. Poucos espíritos da natureza podiam sobreviver sendo envazados e transportados para um novo ecossistema. Mesmo que a maioria das dríades conseguisse fugir das chamas, milhares de outras ficariam e morreriam queimadas.
— Se metade das coisas que eu ouvi sobre Calígula forem verdade… — disse Grover, aterrorizado.
Ele fez uma pausa, provavelmente se dando conta de que todos no recinto o encaravam com receio, avaliando as reações do sátiro para decidirem quanto deveriam se desesperar. Eu só sabia que estar numa sala cheia de cactos histéricos gritando e correndo de um lado para o outro não era uma ideia que me agradava muito.
Felizmente, Grover manteve a calma.
— Ninguém é invencível — declarou ele. — Nem os titãs, nem os gigantes, nem os deuses… e definitivamente não um imperador romano chamado Botinhas. Esse cara está fazendo o sul da Califórnia murchar e morrer. Está por trás das secas, do calor, dos incêndios. Nós temos que encontrar uma forma de detê-lo. Apolo, como Calígula morreu da primeira vez?
Tentei lembrar. Como sempre, meu cérebro de disco rígido mortal estava cheio de buracos, mas me veio à mente um túnel escuro cheio de guardas pretorianos em volta do imperador, as facas brilhando e cintilando de sangue.
— Os guardas dele o mataram — falei —, o que com certeza o deixou ainda mais paranoico. Macro mencionou que o imperador vivia mudando os membros de sua guarda pessoal. Primeiro, autômatos substituíram os pretores. Depois, ele os substituiu pelos mercenários e pelas estriges e… orelhudos? Não sei o que isso quer dizer.
Uma das dríades bufou, indignada. Deduzi que era Cholla, porque parecia um cacto cholla, com cabelo branco ralo, barbinha branca e orelhas grandes cobertas de espinhos.
— Nenhuma pessoa orelhuda decente trabalharia para um vilão desses! E quais são as outras fraquezas do imperador? Ele tem que ter alguma!
— Exatamente! — disse o treinador Hedge. — Ele tem medo de bodes?
— É alérgico a seiva de cacto? — perguntou Aloe Vera, esperançosa.
— Não que eu saiba — falei.
As dríades pareceram decepcionadas.
— Você disse que recebeu uma profecia em Indiana, não foi? — perguntou Josué. — Alguma pista nela?
O tom dele era cético, o que eu compreendia. Uma profecia de um oráculo em Indiana não tinha o mesmo impacto de uma obtida em Delfos.
— Eu tenho que encontrar o palácio ocidental — expliquei. — Lá deve ser o esconderijo de Calígula.
— Ninguém sabe onde isso fica — resmungou Fig.
Talvez eu estivesse imaginando coisas, mas pensei ter visto Mellie e Gleeson se entreolharem, tensos. Esperei que dissessem alguma coisa, mas eles não deram um pio.
— Segundo a profecia — continuei —, eu também tenho que arrancar os ditos do falante de palavras cruzadas. Acho que isso quer dizer que preciso libertar a Sibila Eritreia do controle do imperador.
— Essa Sibila gosta de palavras cruzadas? — perguntou Reba. — Eu gosto.
— O oráculo dava suas profecias em forma de enigmas — expliquei. — Como palavras cruzadas. Ou acrósticos. A profecia também fala sobre Grover nos trazer aqui, e sobre um monte de coisas terríveis que vão acontecer no Acampamento Júpiter nos próximos dias…
— Na lua nova — murmurou Meg. — Que vai acontecer logo, logo.
— Pois é.
Tentei conter minha irritação. Parecia que Meg achava que eu tinha que estar em dois lugares ao mesmo tempo, o que não seria problema para Apolo, o deus. Como Lester, o humano, eu mal conseguia estar no mesmo lugar na hora que deveria.
— Tem outro verso — lembrou Grover. — Percorrendo o caminho com as botas inimigas? Será que isso tem algo a ver com as botinhas de Calígula?
Imaginei meus pés enormes de adolescente enfiados em sandálias de couro pequeninas. Meus dedos começaram a latejar.
— Espero que não — falei. — Mas se conseguirmos libertar a Sibila do Labirinto, tenho certeza de que ela nos ajudaria. Seria ótimo receber algumas orientações antes de confrontar Calígula pessoalmente.
Outras coisas que seriam ótimas no momento: ter de volta meus poderes divinos, colocar o departamento de armas de fogo inteiro da Maluquice Militar do Macro nas mãos de um exército semideus, receber uma carta de desculpas do meu pai prometendo nunca mais me transformar em humano e tomar um banho.
Mas, como dizem, tudo é impossível aos olhos de Zeus, então eu não estava em posição de escolher nada.
— Isso nos leva para onde começamos — disse Josué. — Você precisa libertar o oráculo. Nós precisamos que o fogo acabe. Para fazer isso, temos que entrar no Labirinto, mas ninguém sabe como.
Gleeson Hedge limpou a garganta.
— Talvez alguém saiba.
Nunca na história tantos cactos encararam um sátiro.
Cholla coçou a barba branca.
— E quem é esse alguém?
Hedge se virou para a esposa como quem diz: É com você, querida.
Mellie passou alguns microssegundos refletindo sobre o céu da noite e possivelmente sobre sua vida de solteira.
— A maioria de vocês sabe que estávamos morando com os McLean — disse ela.
— A família de Piper McLean — expliquei —, filha de Afrodite.
Eu me lembrava dela, uma das sete semideusas que navegaram no Argo II. Na verdade, estava cogitando seriamente fazer uma visitinha a ela e ao namorado, Jason Grace, que moravam no sul da Califórnia, para ver se eles tinham interesse em derrotar o imperador e libertar o oráculo por mim.
Opa. Ignorem o que eu disse. Me confundi. O que eu quis dizer foi, é claro, que eu cogitava seriamente pedir a ajuda deles para fazer essas coisas.
Mellie assentiu.
— Eu era assistente pessoal do sr. McLean. Gleeson ficava cuidando de Chuck em tempo integral e fazia um ótimo trabalho…
— Eu era um paizão, não era? — disse Gleeson, dando a corrente do nunchaku ao filho, que imediatamente começou a mordê-la.
— Até que tudo deu errado — disse Mellie, com um suspiro.
— Como assim? — perguntou Meg.
— É uma longa história — disse a ninfa das nuvens em um tom que insinuava Eu poderia contar, mas aí teria que virar uma nuvem de tempestade e chorar muito e lançar vários raios em você e dar um fim à sua existência. — A questão é que, algumas semanas atrás, Piper sonhou com o Labirinto de Fogo. Ela achou que tivesse encontrado uma forma de chegar ao centro. Então foi explorar o lugar com… aquele garoto, Jason.
Aquele garoto. Meus sentidos apurados me disseram que Mellie não simpatizava muito com Jason Grace, filho de Júpiter.
— Quando eles voltaram… — Mellie hesitou, a parte inferior do corpo rodopiando em um liquidificador de nuvem. — Eles disseram que fracassaram, mas acho que não foi bem isso. Piper deu a entender que tinham encontrado alguma coisa lá embaixo que… os deixou muito abalados.
As paredes de pedra da Cisterna pareceram estalar e se mover no ar fresco da noite, como se vibrando em solidariedade à palavra abalados. Pensei no sonho que tive com a Sibila, a mulher presa com correntes em brasa, pedindo desculpas a alguém depois de dar notícias terríveis. Sinto muito. Eu pouparia vocês, se pudesse. Eu pouparia.
Ela estava falando com Jason, Piper, ou com os dois? Se era isso, e eles realmente encontraram o oráculo…
— Precisamos falar com esses semideuses — concluí.
Mellie baixou a cabeça.
— Não posso levar você lá. Voltar… partiria meu coração.
Hedge passou o bebê Chuck para o outro braço.
— Talvez eu pudesse…
Mellie fuzilou o marido com olhar.
— É, eu também não posso ir — murmurou Hedge.
— Eu levo você — ofereceu Grover, embora parecesse mais exausto do que nunca. — Sei onde os McLean moram. Mas, hã, podemos esperar até de manhã?
Uma sensação de alívio tomou conta das dríades ali presentes. Seus espinhos relaxaram. A clorofila voltou à pele delas. Grover podia não ter solucionado os problemas delas, mas lhes deu esperança — ou pelo menos a sugestão de que alguma coisa poderia ser feita.
Observei o círculo laranja no céu acima da Cisterna. Pensei nos incêndios ardendo a oeste e no que poderia estar acontecendo ao norte, no Acampamento Júpiter. Sentado no fundo de um poço em Palm Springs, sem poder ajudar os semideuses romanos nem saber o que estava acontecendo com eles, eu me solidarizava com as dríades: presas em um lugar, assistindo com desespero aos incêndios descontrolados cada vez mais próximos.
Eu não queria destruir as novas esperanças das dríades, mas fui obrigado a dizer:
— Tem mais. O santuário de vocês pode estar correndo perigo.
Contei a elas o que Incitatus dissera a Calígula por telefone. E, não, eu nunca pensei que um dia relataria uma conversa entre um cavalo falante e um imperador romano morto.
Aloe Vera estremeceu, e vários espinhos triangulares medicinais balançaram em seu cabelo.
— C-como eles conhecem Aeithales? Ninguém nunca arranjou problema com a gente aqui.
Grover fez uma careta.
— Não sei, pessoal. Mas… o cavalo pareceu dar a entender que foi Calígula quem destruiu este lugar anos atrás. Ele disse alguma coisa do tipo: Sei que você acha que cuidou de tudo. Mas o lugar ainda é perigoso.
O rosto bronzeado de Josué ficou ainda mais sombrio.
— Não faz sentido. Nem a gente sabe o que existia aqui antes.
— Uma casa — disse Meg. — Uma casa enorme sobre palafitas. Essas cisternas… eram colunas de sustentação, resfriamento geotérmico, abastecimento de água.
As dríades se eriçaram novamente, mas não disseram nada, esperando que Meg continuasse. Ela tirou os pés da água e se encolheu toda, o que a deixou ainda mais parecida com um esquilo nervoso pronto para fugir. Então me dei conta de que, assim que chegamos, Meg quis ir embora e disse que aquele lugar não era seguro.
Lembrei um verso da profecia que ainda não tínhamos discutido: A filha de Deméter encontra raízes antigas.
— Meg — falei, com o máximo de delicadeza que consegui reunir —, como você conhece este lugar?
Seu rosto assumiu um ar ao mesmo tempo tenso e desafiador, como se ela não soubesse ao certo se deveria cair no choro ou me dar um soco.
— Aqui era a minha casa — disse ela. — Meu pai construiu Aeithales.

12 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 14:47

    nossa... que clima tenso.

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  2. Não estou gostando dessa história de Jason e Piper no labirinto!

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  3. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 00:42

    Estou curioso para ver como os romanos vão reagir ao saber que seus antigos e piores imperadores voltaram

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  4. Como assim a Mellir não gosta do Jason? Isso sequer é possível? E porque ela fica tão nervosa em relação a voltar...? Mano, que medo.
    P.s: meu crush no Josué só aumenta a cada segundo.

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  5. Essa história da Piper e do Jason tá é mal contada... acho ótimo a Mellie não gostar do Jason mas gostar da Piper, vivo o contrário...

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  6. Poxa que pena que os dois sobreviveram.Eu nao ia sentir a menor falta!

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    1. Eu também não sentiria falta nenhuma do Leo caso ele morresse. Não sei por que o Rick trouxe ele de volta.

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    2. Vá pra Helheim, pra Érebo e pro Abismo do Caos

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    3. Anônimo do dia 23 de junho vc me representa

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  7. Ai gente...
    Fico imaginando que no último livro vão juntar todo mundo de novo...
    Imagina todos eles Percy, Anabeth, Piper, Jason... e Apolo na "última guerra"!
    Ah como eu quero isso! kkkkkk

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  8. O melhor de tudo?
    A burra aq pegou spoiler e sabe oq acontece

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Boa leitura, E SEM SPOILER!