20 de junho de 2018

Bônus - Um pequeno conto de Natal dos Garotos Corvos

Não deveria haver coral, mas havia.
Não que Henrietta não fosse o tipo de lugar para produzir corais na véspera de Natal. Era uma daquelas pequenas cidades da Virgínia que expressavam espírito festivo entregando comida aos idosos e decorando caminhões de bombeiros para os pequenos e enchendo todos os locais públicos com programação sazonal. Durante um mês, o centro da cidade tornou-se festivo, com estrelas de linho antigas e desbotadas ligadas a placas de rua. “Bate o sino” tocava nos alto-falantes da farmácia. Grupos da igreja ofereciam gemada em cada turno. Não era necessário se inscrever em nenhuma apresentação de fim de ano. Henrietta era a performance do feriado; pessoas se voluntariavam para participar em virtude de respirar.
Os cantores de coral se encaixavam perfeitamente nessa visão geral do mundo.
Mas não parecia a Gansey que os cantores deviam estar aqui, do lado de fora no estacionamento abandonado das Indústrias Monmouth, e não parecia que eles achavam que deveriam. Apesar do fato de que seu velho Camaro laranja estava estacionado logo abaixo da janela, ele estava ali, e a antiga fábrica não parecia remotamente desabitada. E os cantores em Henrietta deveriam estar vestidos em suéteres de festa e gorros de Papai Noel. A van que os trouxe deveria ter sido estacionada nas proximidades. Eles deveriam estar cantando “O Come All Ye Faithful” ou “Santa Claus is Coming to Town”.
Mas não era isso. Esses cantores cantavam diligentemente ao lado da porta lateral da fábrica, certos de que havia alguém ali dentro para ouvi-los. Eles usavam chapéus estranhos e elaborados que aumentavam sua altura em vários centímetros: aqui uma pirâmide estranha feita de palha, ali uma máscara de aniagem retorcida com chifres fibrosos acima dela, acolá penas fixadas em volta de um crânio de veado amarelado. Sinos amarrados em torno de suas pernas balançavam a cada passo. Um violino e um tambor de pele trazia uma melodia rouca.
Gansey ficou no topo da escada e abriu a janela. O vidro já estava rachado e a janela estalou quando a rachadura se aprofundou. Manteve-se, no entanto. O painel provavelmente duraria mais um ano; ele teria tempo para consertar. O ar fresco e a música confusa do violino infiltraram-se em Monmouth, acompanhando dos odores comuns de asfalto molhado e o hambúrguer barato a poucos quarteirões de distância. Então o vento soprou e trouxe o cheiro de fumaça de madeira e folhas mortas de carvalho e musgo úmido. Este era o cheiro das montanhas que o haviam atraído aqui.
Ele tinha pensado que os cantores não eram reais.
A coisa era que sempre pareciam haver cantores.
Ele passara os últimos sete Natais em sete lugares diferentes, e isso se tornou uma piada particular. Alguns anos era mais óbvio: os cantores batiam à porta da casa de Malory ou tocavam do lado de fora da janela de um apartamento alemão. Alguns anos ele os ouviu e se virou bem a tempo de ver a extremidade de um violino ou um chifre retorcido ao redor da esquina de uma rua sul-americana. No ano passado, eles tinham ido à casa de seus pais em D.C. enquanto ele estava lá, para seu deleite. Os Ganseys adoravam qualquer coisa que pudesse ser livremente intitulado sabor regional.
Era difícil dizer de que região esses cantores vieram. Não daqui.
— Ah — disse Noah, de pé ao lado de Gansey.
Gansey pulou.
— Jesus. Eu não sabia que você tinha voltado.
— Eu sempre estive aqui — disse Noah.
— Certo.
Ambos os garotos assistiram o grupo. Um dos cantores começou a cantar. O som não era particularmente encantador. Era o desconfortável híbrido de uma música para beber e uma marcha fúnebre. A pele de Gansey se arrepiou agradavelmente.
— O que você acha que eles querem? — Noah perguntou.
Era uma questão peculiar, pensou Gansey. Ninguém perguntava o que os bombeiros que decoravam seus caminhões queriam. Ele estremeceu; estava mais frio do lado de fora do que ele pensara quando abriu a janela. Talvez eles quisessem dinheiro. Deveria-se dar gorjeta aos cantores? Ou... qual era o nome verdadeiro do que eles eram? Ele sabia disso; os viu no País de Gales. Algo mudo. Mímicos. Não. Perfomáticos. Ele gritou para eles:
— Qual é o nome dessa música?
O canto não parou, mas o crânio de veado virou-se para olhá-los na janela, as penas tremulando azuis e pretas ao redor do osso.
— Assustador — comentou Noah.
— Sabor regional — disse Gansey.
— “O Rei Corvo” — respondeu o crânio de veado. Talvez o crânio de cervo. Era difícil dizer quando todos estavam usando máscaras. Qualquer um deles poderia ter dito. Todos eles poderiam ter dito.
O coração de Gansey bateu em excitação. Meses antes, ele procurou Henrietta por uma pista em sua busca por Glendower e, lentamente, ele estava ficando sem material para mantê-lo aqui. Fazia semanas desde que tivera a menor sugestão de que estava no caminho certo. Se tivesse sido em qualquer outro lugar, ele já teria saído para buscar outra pista em algum outro estado, país ou hemisfério.
Mas ele não queria sair de Henrietta.
— Você disse Rei Corvo? — Gansey gritou pela janela. — Espera... Noah, diga a eles para ficarem, vou pegar meu diário e conversar com eles. Eu acho que...
Um tremendo estrondo o interrompeu: o som da suspensão de um carro esportivo sob pressão. Um BMW cinza carvão entrou no terreno à grande velocidade pela calçada. A música dos cantores se interrompeu quando o carro parou ao lado do Camaro, a porta do lado do motorista se abrindo. Todos os outros odores foram substituídos pelo cheiro de freios e embreagens após o tormento; o BMW tinha sido solicitado duramente.
Ronan saiu do carro. Mesmo do segundo andar, Gansey ainda podia ver as tatuagens escuras irradiando-se para cima e para baixo em seus antebraços.
Gansey estava cheio do conhecimento de que precisava fazer algo sobre Ronan Lynch antes que Ronan fizesse alguma coisa sobre Ronan Lynch. O Natal era uma época perigosa para ser uma coisa quebrada; o peso da tradição e da história poderia facilmente afundar um nadador letárgico.
No estacionamento abaixo, Ronan olhou para os cantores.
— Vão circulando, seus malucos. Não fiquem me olhando. Eu pareço estar brincando?
Não havia como Gansey ir até os cantores antes que Ronan os espantasse; não eram muitos que resistiriam a Ronan quando ele escolhia parecer malévolo. Gansey se satisfez puxando o celular para tirar uma foto de suas estranhas fantasias de partida. Ele mostraria a Adam depois. Coincidência, Adam diria, sabendo muito bem que Gansey não acreditava em coincidências.
— Eles me assustam — disse Noah.
— Eu gosto deles — respondeu Gansey. Ele gostava de estar assustado. O pelo arrepiado nos braços, a onda de antecipação em seu intestino. Ele gostava da sensação de que a magia estava vindo para ele, em vez do contrário. A porta abaixo bateu quando Ronan entrou no armazém. — Não suba, Lynch. Nós estamos saindo.
— Para fazer o quê?
— O que nós fazemos sempre? — Gansey devolveu. — Para encontrar um rei.


Tradução: Dandara

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Boa leitura, E SEM SPOILER!