15 de junho de 2018

Juliette

Kenji e eu estamos no quarto de Warner — que passou também a ser o meu quarto —, parados no meio do cômodo onde fica o guarda-roupa, enquanto lanço roupas na direção dele, tentando decidir o que usar.
— O que acha desta? — indago, jogando uma peça brilhante em sua direção. — Ou desta? — E lanço outra bola de tecido.
— Você não sabe nada sobre roupas, sabe?
Dou meia-volta, inclino a cabeça.
— Ah, desculpa, mas quando foi que tive oportunidade de aprender sobre moda, Kenji? Enquanto crescia sozinha e torturada por pais horríveis? Ah, não… Talvez enquanto apodrecia em um hospício?
Minhas palavras o deixam em silêncio.
— Então, o que acha? — insisto, apontando com o queixo. — Qual?
Ele segura as duas peças que lancei em sua direção e franze a testa.
— Você está me fazendo escolher entre um vestido curto e brilhante e calças de pijama? Bem, digamos que… acho que eu escolheria o vestido? Mas não sei se vai ficar bom com esses tênis surrados que você sempre usa.
— Oh. — Olho para meus tênis. — Bom, não sei. Warner escolheu essas coisas para mim há muito tempo, antes de sequer me conhecer. Só tenho eles — admito, olhando para cima. — Essas roupas são sobras do que recebi logo que cheguei ao Setor 45.
— Por que não usa a roupa que fizeram para você? — Kenji questiona, apoiando o corpo na parede. — O traje novo que Alia e Winston confeccionaram para você?
Nego com a cabeça.
— Eles ainda não concluíram os últimos ajustes. E ainda há manchas de sangue de quando atirei no pai de Warner. Além disso… — Respiro fundo e prossigo: — Eu era diferente. Usava aqueles trajes que me cobriam da cabeça aos pés quando pensava ter de proteger as pessoas da minha pele. Mas agora eu sou diferente. Posso desligar o meu poder. Posso ser… normal. — Tento sorrir. — Portanto, quero me vestir como uma pessoa normal.
— Mas você não é uma pessoa normal.
— Eu sei disso. — Uma onda de calor produzido pela frustração aquece minhas bochechas. — Eu só… acho que gostaria de me vestir como uma pessoa normal. Talvez só por um tempo? Nunca pude agir como alguém da minha idade e só quero me sentir um pouco…
— Eu entendo — Kenji admite, erguendo uma das mãos para me interromper. Olha-me de cima a baixo. E prossegue: — Bem, digamos que, se é isso que está buscando, acho que já está com uma aparência normal agora. Essas roupas funcionam. — E aponta na direção do meu corpo.
Estou usando calça jeans e um suéter rosa. Meus cabelos, presos em um rabo de cavalo alto. Sinto-me à vontade e normal — mas também me sinto como uma menina de 17 anos desacompanhada e fingindo ser algo que não é.
— Mas eu supostamente sou a comandante suprema da América do Norte — insisto. — Acha normal eu me vestir assim? Warner sempre está com ternos refinados, sabe? Ou roupas bem legais. Sempre parece tão equilibrado… tão intimidador…
— A propósito, onde ele está? — Kenji me interrompe. — Quero dizer, sei que você não quer ouvir isso, mas concordo com Castle. Warner deveria estar aqui para esse encontro.
Respiro fundo. Tento me manter calma.
— Sei que Warner sabe de tudo, está bem? Sei que ele é o melhor em praticamente tudo, que nasceu para essa vida. O pai dele o preparou para liderar o mundo. Em outra vida, outra realidade? Esse papel deveria ser dele. Sei muito bem disso. Sei, mesmo.
— Mas?
— Mas este não é o trabalho de Warner, é? — respondo, furiosa. — É o meu trabalho. E estou tentando não depender dele o tempo todo. Quero tentar fazer algumas coisas sozinhas. Assumir o controle.
Kenji não parece convencido.
— Não sei, J. Acho que talvez essa seja uma daquelas situações em que você ainda devesse contar com a ajuda dele. Warner conhece esse mundo melhor do que a gente e, além do mais, é capaz de dizer quais roupas você deveria usar. — Kenji dá de ombros. — Moda realmente não é minha área de expertise.
Pego o vestido curto e brilhante e o examino.
Há pouco mais de duas semanas enfrentei sozinha centenas de soldados. Apertei a garganta de um homem com minhas próprias mãos. Enfiei duas balas na testa de Anderson, e fiz isso sem hesitar ou me arrepender. Mas aqui, diante de um armário cheio de roupas, estou intimidada.
— Talvez eu devesse mesmo chamar Warner — admito, olhando por sobre o ombro, na direção de Kenji.
— Exato! — Ele aponta para mim. — Boa ideia.
Mas então,
— Ah, não… Esqueça — contrario a mim mesma. — Está tudo bem. Eu vou me sair bem, não vou? Quero dizer, qual é o problema? O cara é só um descendente, não é? Só o filho de um comandante supremo. Não é um comandante supremo de verdade. Certo?
— Ahhh… Tudo isso é assunto de gente grande, J. Os filhos dos comandantes são, tipo, outros Warners. Basicamente, são mercenários. E foram preparados para tomar o lugar de seus pais…
— É… não… eu sem dúvida devo enfrentar sozinha essa situação. — Estou me olhando no espelho agora, arrumando meu rabo de cavalo. — Certo?
Kenji faz uma negativa com a cabeça.
— Sim. Exato — insisto.
— É… bem… não… Acho essa uma péssima ideia.
— Eu sou capaz de fazer algumas coisas sozinha, Kenji — esbravejo. — Não sou nenhuma sem noção.
Ele suspira.
— Como quiser, princesa.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!