15 de junho de 2018

Warner

Sinto um enorme medo de me afogar no oceano do meu próprio silêncio.
No tamborilar contínuo que acompanha a quietude, minha mente é cruel comigo. Penso demais. E sinto, talvez muito mais do que deveria. Seria apenas um leve exagero dizer que meu objetivo na vida é vencer a minha mente, as minhas lembranças.
Então, tenho que continuar me empenhando.
Costumava me recolher ao subsolo quando queria um momento de distração. Costumava encontrar conforto em nossas câmaras de simulação, nos programas criados para preparar os soldados para o combate. Porém, como recentemente fizemos um grupo de soldados se mudarem para o subsolo em meio a todo o caos da nova construção, não consigo encontrar alívio. Não tenho escolha senão subir.
Entro no hangar a passos rápidos que ecoam pelo vasto espaço enquanto caminho, quase instintivamente, na direção do helicóptero militar na extremidade da ala direita. Os soldados me veem e se apressam em sair do meu caminho, seus olhos entregando a confusão mesmo enquanto batem continência para mim. Faço um gesto breve na direção deles, sem oferecer explicações enquanto subo na aeronave. Coloco os fones no ouvido e falo baixinho no rádio, avisando aos controladores de tráfego aéreo que tenho intenção de levantar voo, e aperto o cinto no banco da frente. O leitor de retina me identifica automaticamente. Tudo pronto. Ligo o motor e o rugido é ensurdecedor, mesmo com os fones que abafam o ruído. Sinto meu corpo começando a relaxar.
E logo estou no ar.

Meu pai me ensinou a atirar quando eu tinha nove anos. Quando completei dez, ele rasgou a parte traseira da minha perna e me ensinou a suturar meus próprios ferimentos. Quando tinha onze, ele quebrou meu braço e me abandonou na natureza por duas semanas. Aos doze, aprendi a fazer e desarmar minhas próprias bombas. Ele começou a me ensinar a pilotar aeronaves quando completei treze anos.
Meu pai nunca me ensinou a andar de bicicleta. Tive de aprender sozinho. Quando estou a milhares de pés do chão, o Setor 45 parece um jogo de tabuleiro parcialmente montado. A distância faz o mundo parecer pequeno e transponível, um comprimido fácil de engolir. Mas sei muito bem que essa ideia é ilusória, e é aqui, acima das nuvens, que finalmente entendo Ícaro. Também me sinto tentado a voar perto demais do Sol. É apenas minha incapacidade de não ser prático que me mantém amarrado à  Terra. Então, respiro para me acalmar e volto ao trabalho.
Hoje estou fazendo meu voo mais cedo que de costume, por isso as imagens lá embaixo são diferentes daquelas que aprendi a esperar todos os dias. Em um dia comum, eu estaria aqui em cima no fim da tarde, verificando os civis que saem do trabalho e trocam seu dinheiro nos Centros de Abastecimento. Em geral, voltam apressados a seus complexos logo em seguida, cansados, levando para casa os produtos básicos recém-adquiridos e a ideia desanimadora de que terão de fazer tudo outra vez no dia seguinte. Agora todos ainda estão no trabalho, deixando a Terra sem as formigas operárias. A paisagem é bizarra e bela quando vista de longe, com o vasto oceano, azul, de tirar o fôlego. Mas conheço muito bem a superfície marcada do nosso mundo. Essa realidade estranha e triste que meu pai ajudou a criar.
Fecho os olhos com força enquanto minha mão agarra o acelerador.
Simplesmente há coisas demais para enfrentar hoje.
Em primeiro lugar, a tranquilizadora ideia de que tenho um irmão cujo coração é tão complicado e problemático quanto o meu.
Em segundo lugar, e talvez o mais desagradável: a chegada iminente de assuntos ligados ao meu passado, e a ansiedade que os acompanha.
Ainda não conversei com Juliette sobre a chegada iminente de nossos convidados e, para ser sincero, nem sei mais se quero falar sobre isso. Nunca discuti muito a minha vida com ela. Nunca contei histórias de meus amigos de infância, seus pais, a história do Restabelecimento e meu papel dentro dele. Nunca tive tempo. Nunca chegou o momento certo. Juliette é comandante suprema já há dezessete dias, e nosso relacionamento tem só dois dias a mais do que isso.
Nós dois andamos ocupados.
E mesmo assim superamos tantas coisas — todas as complicações que surgiram entre nós, toda a distância e a confusão, todos os mal-entendidos. Ela passou tanto tempo sem confiar em mim. Sei que a culpa é só minha pelo que aconteceu entre nós, mas tenho medo de as coisas ruins do passado gerarem em Juliette um instinto de desconfiança em mim; provavelmente, já estou acostumado a isso a essa altura da vida. E tenho certeza de que lhe contar mais sobre a minha vida execrável só vai piorar as coisas logo no início de um relacionamento que quero tão desesperadamente manter. Proteger.
Então, por onde começo?
No ano em que completei dezesseis anos, nossos pais, os comandantes supremos, decidiram que deveríamos nos alternar em atirar uns nos outros. Não para matar, só para ferir. Queriam que soubéssemos qual era a sensação de ser atingido por uma bala. Queriam que entendêssemos o processo de convalescência. Acima de tudo, queriam que soubéssemos que nossos amigos podiam nos atacar a qualquer momento.
Sinto a boca repuxar em um sorriso infeliz.
Suponho que tenha sido uma lição importante. Afinal, agora meu pai está sete palmos abaixo da terra e seus velhos amigos parecem não dar a mínima. Mas o problema naquele dia foi ter sido ensinado por meu pai, um atirador de excelência. Pior ainda: eu já praticava todos os dias há cinco anos — dois anos a mais que os outros — e, como resultado, era mais rápido, mais cruel e mais treinado que meus companheiros. Não hesitei. Atirei em todos antes que eles sequer conseguissem pegar suas armas.
Aquele foi o primeiro dia em que senti, com algum grau de certeza, que meu pai tinha orgulho de mim. Havia passado tanto tempo buscando desesperadamente sua aprovação e, naquele dia, senti que finalmente a conquistara. Ele me olhou como eu sempre quis que me olhasse: como um pai que se importava comigo. Como um pai que via um pouquinho de si em seu filho. Perceber isso me fez ir para a floresta, onde logo vomitei no meio dos arbustos.
Só fui atingido por uma bala uma vez na vida.
A memória ainda me mata de vergonha, mas não me arrependo de tê-la. Eu mereci. Por não entendê-la, por tratá-la mal, por estar perdido e confuso. Mas tenho tentado muito ser um homem diferente; ser, se não mais gentil, no mínimo melhor. Não quero perder o amor que consegui conquistar.
Não quero que Juliette saiba do meu passado.
Não quero dividir histórias da minha vida, histórias que só me enojam e revoltam, histórias que maculariam a impressão que ela tem de mim. Não quero que saiba como eu passava meu tempo quando criança. Ela não precisa saber quantas vezes meu pai me forçou a vê-lo arrancar a pele de animais mortos, não precisa saber que ainda sinto a vibração de seus gritos em meus ouvidos enquanto ele me chutava várias e várias vezes porque me atrevia a desviar o olhar.
Preferiria não ter de relembrar as horas que passei algemado em um quarto escuro, forçado a ouvir os barulhos fabricados de mulheres e crianças gritando desesperadas por ajuda. Tudo isso era para me tornar mais forte, ele dizia. Era para me ajudar a sobreviver.
Em vez disso, a vida com meu pai só me fez desejar a morte.
Não quero contar a Juliette que sempre soube que meu pai era infiel, que abandonara minha mãe há muito tempo, que eu sempre quis matá-lo, que sonhava que o matava, planejava sua morte, esperava um dia quebrar seu pescoço usando justamente as habilidades que ele próprio me fizera desenvolver.
Não quero contar que falhei. Todas as vezes.
Porque sou fraco.
Não tenho saudade dele. Não tenho saudade da vida dele. Não quero os seus amigos ou o seu impacto em minha alma. Mas, por algum motivo, seus velhos camaradas não vão me dar paz.
Eles estão vindo para cá para pegar o seu quinhão, e receio que dessa vez — como aconteceu em todas as outras vezes — acabarei pagando com meu coração.

8 comentários:

  1. Oh pobre Warner <3 q vontade de ir dar um bjão nele

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  2. Meu Deus, o pai dele era terrivel. Tomara que esteje queimando no inferno

    Jaqueline

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  3. Tadinho, não tem como deixar um passado desse pra trás tao fácil, caminho difícil à frente com certeza.

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  4. Me dá seu coração que eu te garanto que NINGUÉM mais rela hehehe

    ~D

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  5. Que pai é esse. .. Já foi tarde o demônio!

    Flavia

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  6. Não sei como ele não enlouqueceu...Isso tudo é insano demais. Desejando que ao menos consiga superar e seguir em frente. Deverá ser uma tarefa muito difícil, mas não impossível.

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  7. Como ele pôde se tornar meu personagem favorito em tão pouco tempo? Ele é tão complexo, tão machucado, tão...humano

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  8. Mano essa autora é um pouco (bem) dramática né......Gzuisss só tem desgraça na vida de todo mundo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!