15 de junho de 2018

Warner

— Como está James?
Sou eu quem quebra o silêncio. É uma sensação estranha. Nova para mim.
Kent assente em resposta, seus olhos focados nas próprias mãos, unidas à sua frente. Estamos no telhado, cercados por frio e concreto, sentados um ao lado do outro em um canto silencioso para o qual às vezes me retiro. Daqui consigo ver todo o setor. O oceano no horizonte. O sol do meio-dia se movimentando preguiçosamente no alto do céu. Civis parecendo soldadinhos de brinquedo marchando de um lado para o outro.
— James está bem — Kent, enfim, responde. Sua voz sai tensa. Ele veste apenas uma camiseta e parece não se incomodar com o frio cortante. Respira fundo. — Quero dizer… ele está bem, entende? Está ótimo. Superbem.
Faço que sim com a cabeça.
Kent ergue o rosto, solta uma espécie de risada nervosa e curta, e desvia o olhar.
— Isso é loucura? — indaga. — Nós somos loucos?
Ficamos um minuto em silêncio, enquanto o vento sopra com mais força do que antes.
— Não sei — respondo, por fim.
Kent bate o punho na perna. Solta o ar pelo nariz.
— Sabe, eu nunca disse isso a você. Antes. — Ergue o rosto, mas não me olha nos olhos. — Naquela noite. Eu não falei, mas queria que soubesse que aquilo significou muito para mim. O que você disse.
Aperto os olhos em direção ao horizonte.
É algo realmente impossível de se fazer, desculpar-se por tentar matar alguém. Mesmo assim, eu tentei. Disse a ele que entendia o que fizera na época. Sua dor. Sua raiva. Suas ações. Disse que ele tinha sobrevivido à criação dada por nosso pai e se tornado uma pessoa muito melhor do que eu jamais seria.
— Eram palavras sinceras — reafirmo.
Kent agora bate o punho fechado na boca. Pigarreia.
— Sabe, eu também sinto muito. — Sua voz sai rouca. — As coisas deram muito errado. Tudo. Está uma bagunça.
— Sim — concordo. — É verdade.
— Então, o que fazer agora? — Kent finalmente se vira para olhar para mim, mas ainda não estou pronto para encará-lo. — Como… como podemos consertar isso? Será que dá para consertar? As coisas foram longe demais?
Passo a mão por meus cabelos recém-raspados.
— Não sei — respondo baixo. — Mas gostaria de consertar.
— É?
Confirmo, acenando com a cabeça.
Kent assente várias vezes ao meu lado.
— Ainda não me sinto preparado para contar a James.
Surpreso, hesito.
— Ah, é?
— Não por sua causa — apressa-se em explicar. — Não é com você que me preocupo. É que… explicar sobre você implica explicar uma coisa muito, muito maior. E não sei como contar que o pai dele era um monstro. Por enquanto, não. Eu realmente achava que James nunca fosse precisar saber.
Ao ouvir suas palavras, ergo o olhar.
— James não sabe? De nada?
Kent nega com a cabeça.
— Ele era muito pequeno quando nossa mãe morreu e eu sempre consegui mantê-lo longe quando nosso pai aparecia. Ele acha que nossos pais morreram em um acidente de avião.
— Impressionante — digo. — É muita generosidade de sua parte.
Ouço a voz de Kent falhar quando ele volta a falar:
— Meu Deus, por que fico tão transtornado por causa dele? Por que me importo?
— Não sei — admito, negando com a cabeça. — Estou tendo o mesmo problema.
— Ah, é?
Assinto.
Kent solta a cabeça nas mãos.
— Ele fodeu mesmo com a nossa cabeça, cara.
— Sim, é verdade.
Ouço Kent fungar duas vezes, duas duras tentativas de manter suas emoções sob controle, e, ainda assim, invejo sua capacidade de ser tão aberto sobre seus sentimentos. Puxo um lenço do bolso interno da jaqueta e o entrego a ele.
— Obrigado — agradece, com a garganta apertada.
Assinto novamente.
— Então, hum… O que rolou com o seu cabelo?
Fico tão surpreso com a pergunta que quase tremo. Considero de verdade a hipótese de contar a história toda a Kent, mas tenho medo que me pergunte por que deixei Kenji tocar em meus cabelos, e então eu teria de explicar os inúmeros pedidos de Juliette para que eu me tornasse amigo daquele idiota. E não acho que Juliette seja um assunto seguro para nós dois ainda. Então, apenas respondo:
— Um pequeno acidente.
Kent arqueia as sobrancelhas. Dá risada.
— Entendi.
Surpreso, olho em sua direção.
Ele fala:
— Tudo bem, sabe.
— O quê?
Kent agora está sentado com a coluna ereta, encarando a luz do sol. Começo a ver sombras de meu pai em seu rosto. Sombras de mim mesmo.
— Você e Juliette — esclarece.
As palavras me fazem congelar.
Ele me encara.
— Sério, tudo bem.
Atordoado, não consigo me segurar e acabo dizendo:
— Não sei se estaria tudo bem se fosse comigo, se nossos papéis fossem inversos.
Kent oferece um sorriso, mas parece triste.
— Eu fui um grande idiota com ela no final — admite. — Então, acho que recebi o que merecia. Mas não foi por causa dela, sabe? Nada daquilo. Nada foi culpa dela. — Ele me olha de soslaio. — Para ser sincero com você, eu vinha afundando já há algum tempo. Estava realmente infeliz e muito estressado e então… — Ele dá de ombros, desvia o olhar. — Para ser honesto, descobrir que você é meu irmão quase me matou.
Mais uma vez surpreso, pisco os olhos.
— Pois é. — Ele ri, balançando a cabeça. — Sei que parece estranho agora, mas na época eu só… Sei lá, cara, pensei que você fosse um sociopata. Fiquei muito preocupado com a possibilidade de você descobrir que éramos irmãos e, quer dizer… Sei lá… Pensei que você tentaria me matar ou algo assim.
Ele hesita. Olha para mim.
Aguarda.
E só então percebo — mais uma vez, surpreso — que ele quer que eu negue sua suspeita. Quer que eu diga que não era nada disso.
Mas posso entender sua preocupação. Então, respondo:
— Bem, eu tentei matá-lo uma vez, não tentei?
Kent arregala os olhos.
— É cedo demais para fazer piada com isso, cara. Essa merda ainda não tem graça.
Desvio o olhar ao dizer:
— Eu não estava tentando ser engraçado.
Posso sentir os olhos de Kent sobre mim, estudando-me, acho que tentando me entender ou entender minhas palavras. Talvez as duas coisas. Mas é difícil saber o que se passa em sua cabeça. É frustrante ter um dom sobrenatural que me permite saber as emoções de todos, exceto as dele. Isso faz que eu me sinta fora de prumo perto de Kent. Como se eu tivesse perdido a visão ou algo assim.
Por fim, ele suspira.
Parece que passei em um teste.
— Enfim — diz, mas agora soa um tanto incerto —, eu tinha certeza de que você viria atrás de mim. E só o que conseguia pensar era que, se eu morresse, James morreria. Eu sou tudo o que ele tem no mundo, entende? Se você me matasse, você o mataria. — Olha para suas mãos. — Passei a não dormir mais à noite. Parei de comer. Estava ficando louco. Não conseguia mais aguentar nada daquilo, e você estava, tipo… vivendo com a gente? E então tudo o que aconteceu com Juliette… Eu só… Sei lá… — Suspira demorada e tremulamente. — Fui um idiota. Acabei descontando tudo nela. Culpei-a por tudo. Por eu ter me afastado das únicas coisas que acreditava serem certas na minha vida. É tudo culpa minha, na verdade. Questões pessoais do passado. Eu ainda tenho muita coisa para resolver — enfim, admite. — Tenho problemas com a ideia de as pessoas me deixarem para trás.
Por um momento, fico sem palavras.
Nunca imaginei que Kent seria capaz de reunir pensamentos tão complexos. Minha capacidade de perceber emoções e sua capacidade de anular dons sobrenaturais sem dúvida nos tornam uma dupla muito peculiar. Sempre fui forçado a concluir que ele era desprovido de pensamentos e emoções. No fim das contas, Kent é muito mais emocionalmente preparado do que eu poderia esperar. E sincero, também.
Contudo, é estranho ver alguém com o mesmo DNA que eu falando tão abertamente. Admitindo em voz alta seus medos e limitações. É franco demais, como olhar direto para o sol. Preciso desviar o olhar.
Por fim, digo apenas:
— Eu entendo.
Kent pigarreia.
— Então… sim — ele diz. — Acho que só queria dizer que Juliette estava certa. No fim das contas, nós dois acabamos nos afastando. Tudo isso — aponta para nós dois — me fez perceber muitas coisas. E ela estava certa. Sempre vivi desesperado por alguma coisa, algum tipo de amor ou afeição ou alguma coisa. Não sei… — Nega com a cabeça. — Acho que eu queria acreditar que ela e eu tínhamos algo que, na verdade, não tínhamos. Eu estava numa sintonia diferente. Caramba, eu era uma pessoa diferente. Mas agora sei quais são as minhas prioridades.
Fito-o com uma pergunta nos olhos.
— Minha família — esclarece, olhando-me nos olhos. — É só o que me importa agora.

12 comentários:

  1. — Minha família — esclarece, olhando-me nos olhos. — É só o que me importa agora. owwwwwwww

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  2. Ahhhh meu coração ❤❤❤ adorei o jeito q o adam esclareceu tudo, Dele colocar o james em primeiro lugar.. Sinto uma futura amizade nascendo ❤ entre o Warner e o Adam.

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  3. Ai gente, são os irmãos lacração misericordia <#

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  4. Caramba, no fim da dos outros livros, tipo, eu tava detestando o Adam, ai, o cara vem e faz isso... Aff!

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  5. E o ranço do Adam começa a diminuir <3

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  6. Vomitando arco-íris...

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  7. MINHA REAÇÃO:
    LIVRO 1: GENTE OLHA ESSE ADAM AMO ELE <3
    LIVRO 2: KKK JULIETTE E ADAM... E WARNER. AMOS OS TRÊS. ESSES DOIS NUNCA SE DARÃO BEM.
    LIVRO 3: KKK JULIETTE E WARNER... AMO ELES <3 GENTE OLHA ESSE ADAM... UGHHH, ODEIO ELE!!
    LIVRO 4: KKK OLHA ESSES DOIS DE NOVO... MAS QUE MERD@ ESTÁ ACONTECENDO?!?!?!?
    ~POLLY~

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  8. Adam tá crescendo que fofo kkkkkkkkk finalmente né kiridu!

    Flavia

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  9. ADAM EU NUNCA TE JULGUEI E FALEI QUE VOCÊ ERA UM BABACA QUE DEVIA FICAR CALADINHA NO SEU CANTO E NEM QUE DEVIA LEVAR UMA BOMBA EM LOCAIS ONDE O SOL N BATE!?
    Ass: É VDD ESSE BILHETE

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Boa leitura, E SEM SPOILER!