15 de junho de 2018

Juliette

Hoje é mais um dia frio, daqueles em que todas as ruínas cinza e cobertas de neve mostram sua decadência. Acordo todas as manhãs na esperança de encontrar pelo menos um raio de sol, mas o ar gelado permanece implacável ao afundar os dentes em nossa carne. Finalmente deixamos para trás o pior do inverno, mas até mesmo essas primeiras semanas de março parecem desumanamente congelantes.
Ajeito meu casaco em volta do pescoço e nele busco algum calor.
Kenji e eu estamos no que se tornou nossa caminhada diária pelas extensões de terra esquecidas em volta do Setor 45. É ao mesmo tempo estranho e libertador poder andar tranquilamente ao ar livre. Estranho porque não posso deixar a base sem uma pequena tropa para me proteger, e libertador porque é a primeira vez que sou capaz de me familiarizar com nossa terra. Nunca tive a oportunidade de andar calmamente por esses complexos; nunca tive a oportunidade de ver, em primeira mão, o que exatamente havia acontecido com esse mundo. E agora sou capaz de vagar livremente, sem ser interrogada…
Bem, mais ou menos.
Olho por sobre o ombro para os seis soldados acompanhando cada um de nossos movimentos, armas automáticas pressionadas contra o peito enquanto marcham. A verdade é que ninguém sabe o que fazer comigo ainda; Anderson utilizava um sistema muito diferente na posição de comandante supremo — nunca mostrou o rosto a ninguém, exceto àqueles que estava prestes a matar, e nunca se deslocou a lugar algum sem sua Guarda Suprema. Mas eu não tenho regras para nada disso e, até decidir como exatamente quero governar, minha situação é a seguinte:
Preciso ter babás me acompanhando toda vez que coloco os pés para fora. Tentei explicar que essa proteção é desnecessária; tentei lembrar a todos do meu toque literalmente letal, da minha força sobre-humana, da minha invencibilidade funcional…
— Mas seria muito útil aos soldados se você pelo menos mantivesse o protocolo — Warner me explicou. — Vivemos de acordo com regras, regulamentos e disciplina constantes no meio militar, e os soldados precisam de um sistema do qual depender o tempo todo. Faça isso por eles — pediu. — Mantenha o fingimento. Não podemos mudar tudo de uma só vez, meu amor. Seria desorientador demais.
Então, aqui estou eu.
Sendo seguida.
Warner tem sido meu guia constante nessas últimas semanas. Tem me ensinado todos os dias sobre as muitas coisas que seu pai fazia e sobre tudo aquilo pelo que ele próprio é responsável. Há um número infinito de atividades que Warner precisa cumprir todos os dias para cuidar de seu setor, isso sem mencionar a bizarra — e aparentemente infinita — lista de obrigações que eu tenho de cumprir para liderar todo um continente.
Estaria mentindo se não dissesse que, às vezes, tudo isso parece impossível. Tive 1 dia, só 1 dia, para respirar e aproveitar o alívio depois de ter derrubado Anderson e tomado o controle do Setor 45. 1 dia para dormir, 1 dia para sorrir, 1 dia para me dar ao luxo de imaginar um mundo melhor.
Foi no final do Dia 2 que encontrei um Delalieu aparentemente muito nervoso parado do outro lado da minha porta.
Ele parecia frenético.
— Senhora Suprema — falou, com um sorriso ensandecido no rosto. — Imagino que deva estar sobrecarregada nesses últimos tempos. São tantas coisas para fazer! — Baixou o olhar. Balançou as mãos. — Mas receio que… que seja… acho que…
— O que foi? — indaguei. — Algum problema?
— Bem, senhora… Eu não queria incomodá-la… A senhora passou por tanta coisa e precisava de tempo para se ajustar…
Ele olhou para a parede.
Eu esperei.
— Perdoe-me — prosseguiu. — É só que… quase trinta e seis horas se passaram desde que assumiu o controle do continente e a senhora ainda não visitou seu quartel nem uma vez — ele expôs, todo apressado. — E já recebeu tantas cartas que nem sei mais onde guardá-las…
— O quê?
Nesse momento, ele congelou. Finalmente olhou-me nos olhos.
— O que quer dizer com essa história de meu quartel? Eu tenho um quartel?
Estupefato, Delalieu piscou repetidamente.
— É claro que tem, senhora. O comandante supremo conta com seu próprio quartel em cada setor do continente. Temos toda uma ala aqui dedicada aos seus escritórios. É onde o falecido comandante supremo Anderson costumava ficar sempre que visitava nossa base. E todos sabem que a senhora transformou o Setor 45 em sua residência permanente, então é para cá que enviam todas as suas correspondências, sejam elas físicas ou digitais. É onde os briefings produzidos pelo sistema de inteligência serão entregues todas as manhãs. É para onde outros líderes de setores enviam seus relatórios diários…
— Você não pode estar falando sério — retruquei, espantada.
— Seriíssimo, senhora. — Delalieu parecia desesperado. — Preocupo-me com a mensagem que a senhora possa estar transmitindo ao ignorar todas as correspondências nesse estágio inicial de seu trabalho. — Ele desviou o olhar. — Perdoe-me, eu não quis ir longe demais. Eu só… Eu sei que a senhora gostaria de fazer um esforço para fortalecer suas relações internas… Mas temo as consequências que a senhora pode vir a enfrentar por não respeitar tantos acordos continentais…
— Não, não, claro. Obrigada, Delalieu — respondi, com a cabeça confusa. — Obrigada por me avisar. Fico muito… Fico muito grata por você intervir. Eu não tinha a menor ideia de que isso estava acontecendo… — Naquele momento, bati a mão na testa. — Mas, talvez amanhã cedo? Amanhã cedo você poderia me encontrar depois da caminhada matinal e me mostrar onde fica esse tal quartel?
— É claro que sim — respondeu, com uma leve reverência. — Será um prazer, Senhora Suprema.
— Obrigada, tenente.
— Sem problemas, senhora. — Ele pareceu tão aliviado. — Tenha uma noite agradável.
Atrapalhei-me ao me despedir dele, tropeçando em meus próprios pés, tamanho o meu entorpecimento.

Pouca coisa mudou.
Meus tênis batem no concreto, tocam uns nos outros no momento em que me espanto e me arrasto de volta ao presente. Dou um passo mais determinado para a frente, dessa vez me preparando para mais um golpe repentino e gelado de vento. Kenji me lança um olhar cheio de ansiedade. Olho em sua direção, mas sem realmente prestar atenção nele. Na verdade, estou concentrada no que há atrás dele, estreitando meus olhos para nada em particular. Minha mente segue seu curso, zumbindo no mesmo tom do vento.
— Está tudo bem, mocinha?
Ergo a vista, olhando de soslaio para Kenji.
— Estou bem, sim.
— Nossa, que convincente!
Consigo sorrir e franzir a testa ao mesmo tempo.
— Então… — Kenji diz, exalando a palavra. — Sobre o que Castle queria conversar com você?
Desvio o rosto, imediatamente irritada.
— Não sei. Castle anda meio esquisito.
Minhas palavras atraem a atenção de Kenji. Castle é como um pai para ele — certamente, se tivesse que escolher entre Castle e mim, escolheria Castle —, e Kenji claramente expõe sua lealdade ao dizer:
— Como assim? Que história é essa de Castle andar meio esquisito? Ele me pareceu normal hoje cedo.
Dou de ombros.
— Ele só me deu a impressão de ter ficado muito paranoico de uma hora para a outra. E falou algumas coisas sobre Warner que só… — Interrompo a mim mesma. Balanço a cabeça. — Não sei.
Kenji para de andar.
— Espere. Que coisas são essas que ele falou sobre Warner?
Ainda irritada, dou de ombros outra vez.
— Castle acha que Warner está escondendo coisas de mim. Tipo, não exatamente escondendo coisas de mim… Mas parece que há muita coisa sobre ele que eu desconheço. Então, falei: “Ora, se você sabe tanto sobre Warner, por que não me conta o que preciso saber a respeito dele?”. E Castle respondeu: “Não, blá-bláblá, o próprio senhor Warner deve contar a você, blá-blá-blá”. — Reviro os olhos. — Basicamente, ele me disse que é estranho eu não saber muito sobre o passado de Warner. Mas isso nem é verdade — continuo, agora olhando diretamente para Kenji. — Sei de muita coisa do passado de Warner.
— Tipo?
— Tipo, por onde começar? Sei tudo a respeito da mãe dele.
Kenji dá risada.
— Você não sabe coisa nenhuma sobre a mãe dele.
— É claro que sei.
— Até parece, J. Você não sabe nem o nome da mulher.
As palavras dele me fazem hesitar. Busco a informação em minha mente, Warner certamente citou o nome da sua mãe em algum momento… e não encontro a resposta.
Sentindo-me diminuída, olho outra vez para Kenji.
— Ela se chamava Leila — ele conta. — Leila Warner. E eu só sei disso porque Castle faz suas pesquisas. Tínhamos arquivos de todas as pessoas de interesse lá em Ponto Ômega. Mesmo assim, eu nunca soube que ela tinha poderes que a fizeram adoecer. Anderson foi muito bom em esconder essas informações.
— Ah — é tudo que consigo dizer.
— Então era por isso que Castle estava agindo esquisito? — Kenji quer saber. — Porque ele ressaltou, corretamente, diga-se de passagem, que você não sabe nada sobre a vida do seu namorado.
— Não seja cruel — peço baixinho. — Eu sei de algumas coisas.
Mas a verdade é que realmente não sei muito.
O que Castle me falou hoje cedo de fato me incomodou. Estaria mentindo se dissesse que não pensei o tempo todo sobre como era a vida de Warner antes de nos conhecermos. Aliás, com frequência penso naquele dia — aquele dia horrível, terrível —, em uma bela casinha azul em Sycamore, a casa onde Anderson atirou em meu peito.
Estávamos totalmente sozinhos, Anderson e eu.
Nunca contei a Warner o que seu pai me falou naquele dia, mas também não me esqueci de suas palavras. Em vez disso, tentei ignorá-las, tentei me convencer de que Anderson estava investindo em joguinhos psicológicos para me confundir e me imobilizar. Porém, independentemente de quantas vezes eu tenha repassado essa conversa em minha cabeça — tentando desesperadamente diminui-la e ignorá-la —, nunca fui capaz de afastar a sensação de que, talvez, só talvez, nem tudo fosse provocação. Talvez Anderson estivesse me revelando a verdade.
Ainda consigo ver o sorriso em seu rosto enquanto pronunciava as palavras. Ainda consigo ouvir a cadência em sua voz. Estava se divertindo. Atormentando-me. Ele contou a você quantos outros soldados queriam assumir o controle do Setor 45? Quantos excelentes candidatos tínhamos para escolher? Ele só tinha dezoito anos! Ele alguma vez contou a você o que teve de fazer para provar seu valor?
Meu coração acelera quando lembro. Fecho os olhos, meus pulmões queimando…
Ele alguma vez contou pelo que eu o fiz passar para merecer o que tem?
Não.
Suspeito que ele tenha preferido não citar essa parte, ou estou errado? Aposto que não quis contar essa parte de seu passado, não é?
Não.
Ele nunca contou. E eu nunca perguntei.
Acho que nunca quis e continuo sem querer saber.
Não se preocupe, Anderson me disse na ocasião. Eu não vou estragar a graça para você. Melhor deixar ele mesmo compartilhar esses detalhes.

E agora, hoje pela manhã, ouço a mesma frase da boca de Castle.
— Não, senhorita Ferrars — ele falou, recusando-se a olhar em meus olhos. — Não, não. Contar seria me intrometer em um espaço que não me cabe. O senhor Warner quer ser aquele que vai lhe contar as histórias de sua vida. Não eu.
— Não estou entendendo — respondi, frustrada. — Qual é a relevância disso? Por que de uma hora para a outra você passou a se preocupar com o passado de Warner? E o que isso tem a ver com a resposta da Oceania?
— Warner conhece esses outros comandantes. Ele conhece as outras famílias supremas. Sabe como o Restabelecimento funciona internamente. E ainda tem muita coisa a lhe revelar. — Castle sacudiu a cabeça. — A resposta da Oceania é extremamente incomum, senhorita Ferrars, pelo simples fato de ser a única que a senhorita recebeu. Tenho certeza de que os movimentos desses comandantes não são apenas coordenados, mas também intencionais, e começo a me sentir mais preocupado a cada instante com a possibilidade de realmente existir outra mensagem implícita naquela correspondência, uma mensagem que ainda estou tentando traduzir.
Naquele momento, eu senti. Senti minha temperatura subindo, meu maxilar tensionando conforme a raiva tomava conta de mim.
— Mas foi você quem disse para entrar em contato com todos os comandantes supremos! Foi ideia sua! E agora está com medo da resposta de um deles? O que…
E então, imediatamente, entendi o que estava acontecendo.
Minhas palavras saíram leves e atordoadas quando voltei a falar:
— Ah, meu Deus, você pensou que eu não receberia resposta alguma, não é?
Castle engoliu em seco. Não falou nada.
— Você pensou que ninguém responderia? — insisti, minha voz mais aguda a cada sílaba.
— Senhorita Ferrars, a senhorita precisa entender que…
— Por que está fazendo joguinhos comigo, Castle? — Fechei as mãos em punhos. — Aonde quer chegar com isso?
— Não estou fazendo joguinhos com a senhorita — ele respondeu, as palavras saindo apressadas. — Eu só… pensei que… — gaguejou, gesticulando intensamente. — Foi um exercício. Uma experiência…
Senti golpes de calor acendendo como fogo atrás dos meus olhos. A raiva entalou em minha garganta, vibrou ao longo da minha espinha. Eu podia sentir a ira ganhando força em meu interior e precisei reunir todas as minhas forças para domá-la.
— Eu não sou mais experiência de ninguém — retruquei. — E preciso saber que droga está acontecendo.
— A senhorita deve conversar com o senhor Warner — afirmou. — Ele vai explicar tudo. Você ainda tem muito a descobrir sobre este mundo e sobre o Restabelecimento, e o tempo é um fator essencial. — Olhou-me nos olhos. — A senhorita precisa estar preparada para o que está por vir. Precisa saber mais e precisa saber já. Antes que os problemas se intensifiquem.
Desviei o olhar, as mãos tremendo com o acúmulo de energia não extravasada. Eu queria — eu precisava — quebrar alguma coisa. Qualquer coisa. Em vez disso, falei:
— Quanta bobagem, Castle! Quanta bobagem!
E ele parecia o homem mais triste do mundo quando falou:
— Eu sei.

Desde então, estou andando de um lado para o outro com uma dor de cabeça insuportável.
E não me sinto melhor quando Kenji cutuca meu ombro, trazendo-me de volta à realidade para anunciar:
— Eu já disse isso antes e vou repetir: vocês dois têm um relacionamento estranho.
— Não, não temos — retruco, e as palavras saem como um reflexo, petulantes.
— Sim — Kenji rebate. — Vocês têm, sim.
Ele sai andando, deixando-me sozinha nas ruas abandonadas, saudando-me com um chapéu imaginário enquanto se distancia.
Jogo um dos meus sapatos nele.
O esforço, todavia, é inútil; Kenji pega o sapato no ar. Agora está me esperando, dez passos à frente, com o calçado na mão enquanto vou saltando numa perna só em sua direção. Não preciso me virar para ver o sorriso no rosto dos soldados atrás de nós. Tenho certeza de que todos me acham uma piada como comandante suprema. E por que não achariam?
Mais de duas semanas se passaram e continuo me sentindo perdida.
Parcialmente paralisada.
Não tenho orgulho da minha incapacidade de liderar as pessoas; não me orgulho da revelação de que, no fim das contas, não sou inteligente o bastante, rápida o bastante ou perspicaz o bastante para governar o mundo. Não tenho orgulho de, nos meus piores momentos, olhar para tudo o que tenho a fazer em um único dia e me impressionar, espantada, com como Anderson era organizado. Como era habilidoso. Como era terrivelmente talentoso.
Não tenho orgulho de pensar isso.
Ou de, nas horas mais silenciosas e solitárias da manhã, ficar deitada, acordada, ao lado do filho de Anderson, um homem torturado até quase a morte, e desejar que o pai ressuscitasse e levasse consigo a carga que tirei de seus ombros.
Então surge esse pensamento, o tempo todo, o tempo todo:
Que talvez eu tenha cometido um erro.
— Olá-á? Terra chamando princesa?
Confusa, ergo o olhar. Hoje estou mesmo perdida em pensamentos:
— Você falou alguma coisa?
Kenji balança a cabeça enquanto me devolve o sapato. Ainda estou me esforçando para calçá-lo, quando ele diz:
— Então você me forçou a sair para caminhar nessa terra horrível e congelada de merda só para me ignorar?
Arqueio uma única sobrancelha para ele.
Ele arqueia as duas em resposta, esperando, ansioso.
— Qual é, J? Isto aqui… — E aponta para o meu rosto. — Isto é mais do que toda a carga de esquisitice que você recebeu de Castle hoje de manhã. — Ele inclina a cabeça na minha direção e percebo uma preocupação sincera em seus olhos quando indaga: — E então? O que está acontecendo?
Suspiro, e a expiração faz meu corpo enfraquecer.
A senhorita deve conversar com o senhor Warner. Ele vai explicar tudo.
Mas Warner não é exatamente conhecido por suas habilidades comunicativas. Não gosta de conversa fiada. Não divide detalhes de sua vida. Não fala de coisas pessoais. Sei que me ama — posso sentir em cada interação quanto se importa comigo —, mas, mesmo assim, só me ofereceu informações vagas sobre sua vida.
Warner é um cofre ao qual só tenho acesso ocasionalmente, e com frequência me pergunto quanto ainda me resta descobrir sobre ele. Às vezes, isso me assusta.
— Eu só estou… Não sei — finalmente respondo. — Estou muito cansada. Estou com muita coisa na cabeça.
— Teve uma noite difícil?
Encaro Kenji, protegendo o rosto dos raios gelados do sol.
— Se quer saber, eu quase nem durmo mais — admito. — Acordo às quatro da manhã todos os dias e ainda não consegui ler as correspondências da semana passada. Não é uma loucura?
Surpreso, Kenji me olha de soslaio.
— E tenho que aprovar um milhão de coisas todos os dias. Aprovar isso, aprovar aquilo. E muitas coisas nem são assim tão importantes — relato. — São coisinhas ridículas, como, como… — Puxo uma folha de papel amassada do bolso e sacudo-a na direção do céu. “Como essa bobagem aqui: o Setor 418 quer aumentar o horário do almoço de uma hora para uma hora e três minutos e precisam da minha aprovação. Três minutos? Quem se importa com isso?
Kenji tenta disfarçar um sorriso; enfia as mãos nos bolsos.
— Todos os dias. O dia todo. Não consigo fazer nada de verdade. Pensei que eu fosse fazer algo realmente relevante, sabe? Pensei que seria capaz de, sei lá, unificar os setores e promover a paz ou algo assim. Em vez disso, passo o dia todo tentando evitar Delalieu, que aparece na minha frente a cada cinco minutos porque precisa que eu assine alguma coisa. E estou falando só das correspondências.
Aparentemente, não consigo mais parar de falar, por fim confessando a Kenji todas as coisas que sinto nunca poder dividir com Warner por medo de decepcioná-lo. É libertador, mas também parece perigoso. Como se talvez eu não devesse contar a ninguém que me sinto assim, nem mesmo a Kenji.
Então hesito, espero um sinal.
Ele não está mais olhando para mim, mas ainda parece me ouvir. Sustenta a cabeça inclinada e um sorriso na boca quando, depois de um instante, pergunta:
— Isso é tudo?
Nego com a cabeça com veemência, aliviada e grata por poder continuar reclamando:
— Eu tenho que registrar tudo, o tempo todo. Tenho que preencher relatórios, ler relatórios, arquivar relatórios. Existem quinhentos e cinquenta e quatro outros setores na América do Norte, Kenji. Quinhentos e cinquenta e quatro. — Encaro-o. — Isso quer dizer que preciso ler quinhentos e cinquenta e quatro relatórios todo santo dia.
Impassível, ele também me encara.
— Quinhentos e cinquenta e quatro!
Cruza os braços.
— Cada relatório tem dez páginas!
— Aham.
— Posso contar um segredo?
— Manda.
— Esse trabalho é um saco.
Agora Kenji ri alto. Mesmo assim, não diz nada.
— O que foi? — pergunto. — Em que está pensando?
Ele bagunça meus cabelos e diz:
— Ah, J.
Afasto a cabeça da mão dele.
— Isso é tudo o que recebo? Só um “ah, J” e nada mais?
Kenji dá de ombros.
— O que foi? — exijo saber.
— Sei lá — responde, um pouco constrangido com suas palavras. — Você pensou que seria… fácil?
— Não — falo baixinho. — Só pensei que seria melhor do que isso.
— Melhor em que sentido?
— Acho que… Quer dizer, pensei que seria… mais legal?
— Pensou que estaria matando um monte de caras malvados agora? Fazendo política na base da porrada? Como se fosse só matar Anderson e então, de repente, tchã-rã, paz mundial?
Não consigo encará-lo porque estou mentindo, mentindo muito, quando digo:
— Não, é claro que não. Não pensei que seria assim.
Kenji suspira.
— É por isso que Castle sempre se mostrou tão apreensivo, sabia? Em Ponto Ômega, o negócio era ser devagar e constante. Era uma questão de esperar o momento certo. De conhecer nossos pontos fortes… e também nossos pontos fracos. Havia muita coisa acontecendo em nossas vidas, mas sempre soubemos, e Castle sempre falou que não podíamos derrubar Anderson antes de nos sentirmos prontos para sermos líderes. Foi por isso que não o matei quando tive a oportunidade. Nem mesmo quando ele já estava quase morto e parado bem diante de mim. — Kenji fica em silêncio por um instante. — Simplesmente não era a hora certa.
— Então… Você acha que cometi um erro?
Kenji franze a testa, ou quase isso. Desvia o rosto. Olha para mim novamente, deixa um breve sorriso brotar, mas só de um lado da boca.
— Bem, acho você ótima.
— Mas acha que cometi um erro.
Ele dá de ombros com um movimento lento e exagerado.
— Não, eu não disse isso. Só acho que precisa de um pouco mais de treinamento, entende? Acho que o hospício não a preparou para esse trabalho.
Estreito meus olhos na direção dele.
Ele ri.
— Olha, você é boa com as pessoas. Você fala bem. Mas esse trabalho vem acompanhado de muita burocracia e também de um monte de besteiras. E de muitas ocasiões em que precisa se fazer de boazinha. Muito puxa-saquismo. Veja bem, o que estamos tentando fazer agora mesmo? Estamos tentando ser legais. Certo? Estamos tentando, tipo, assumir o controle, mas sem provocar uma completa anarquia. Estamos tentando não entrar em guerra neste momento, certo?
Não respondo rápido o bastante e ele cutuca meu ombro.
— Certo? — insiste. — Não é esse o objetivo? Manter a paz por enquanto? Apostar na diplomacia antes de explodirmos a merda toda?
— Sim, certo — apresso-me em responder. — Sim. Evitar uma guerra. Evitar mortes. Fazer papel de bonzinhos.
— Está bem — diz, desviando o olhar. — Então você precisa se controlar, mocinha. Porque, sabe o que acontece se começar a perder o controle agora? O Restabelecimento vai comê-la viva. E é precisamente isso o que eles querem. Aliás, provavelmente é o que esperam… Esperam que você destrua sozinha toda essa merda para eles. Então, não pode deixá-los perceber isso. Não pode deixar as fissuras aparecerem.
Encaro-o, sentindo-me de repente assustada.
Ele passa um braço pelos meus ombros.
— Você não pode se estressar assim por causa de um trabalho burocrático. — Ele nega com a cabeça. — Todo mundo está de olho em você agora. Todos estão esperando para ver o que está por vir. Ou entraremos em guerra com os outros setores… Quer dizer, com o resto do mundo… Ou conseguimos manter o controle e negociar. Você precisa se manter calma, J. Mantenha-se calma.
Mas não sei o que dizer.
Porque a verdade é que ele está certo. Encontro-me em uma situação tão complicada que nem sei por onde começar. Nem me formei no colegial. E agora esperam que eu tenha toda uma vida de conhecimentos em relações internacionais?
Warner foi projetado para essa vida. Tudo o que faz, tudo o que é, emana… Ele foi feito para liderar.
Já eu?
Meu Deus, no que foi que me meti?, reflito.
Onde eu estava com a cabeça quando pensei que seria capaz de governar um continente inteiro? Por que me permiti imaginar que uma capacidade sobrenatural de matar coisas com a minha pele de repente me traria um conhecimento abrangente em ciências políticas?
Fecho os punhos com força excessiva e…
dor, dor pura
… enquanto minhas unhas cravam a carne.
Como eu achava que as pessoas governavam o mundo? Imaginei mesmo que seria tão simples? Que eu poderia controlar todo o tecido social a partir do conforto do quarto do meu namorado?
Só agora começo a perceber a amplitude dessa teia delicada, intrincada, composta por pessoas, posições e poderes já existentes. Eu disse que aceitava a tarefa. Eu, uma ninguém de 17 anos e com pouquíssima experiência de vida; eu me voluntariei para essa posição. E agora, basicamente do dia para a noite, tenho que acompanhar o ritmo por ela imposto. E não tenho a menor ideia do que estou fazendo.
E o que acontece se eu não aprender a administrar essas muitas relações? Se eu, pelo menos, não fingir ter uma vaga ideia de como vou governar o mundo?
O resto dele poderia facilmente me destruir.

E às vezes não tenho certeza de que sairei viva dessa situação.

6 comentários:

  1. Jaqueline de Melo Gianerini25 de junho de 2018 11:34

    tente manter a calma Juliette

    ResponderExcluir
  2. “Como essa bobagem aqui: o Setor 418 quer aumentar o horário do almoço de uma hora para uma hora e três minutos e precisam da minha aprovação. Três minutos? Quem se importa com isso?"

    kkkkkkkk o Setor 418 é tipo "Fds se acabou o horário de almoço, eu ainda vou comer nem que seja por três minutos!!" ~polly~

    ResponderExcluir
  3. Kenji é o cara meu! Aquele que fala pouco mas quando fala,da cada tapa que a pessoa voa longe com tamanha porrada de realidade!

    ResponderExcluir
  4. Amo o Kenji. Melhor amigo que a Ju podia ter. E essa tacada de sapato me lembrou outro livro kkkkkkk

    sobre Warner, por enquanto prefiro não falar nada, só observando! Vacila não que eu te tiro da terceira posição vai. .. tô de olho! Kkkkkkk

    Flavia

    ResponderExcluir
  5. Realmente muto coisa para ela toma de conta, mas precisa manter-se no controle e nada de se desesperar agora.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!