15 de junho de 2018

Warner

Estou sentado sozinho na sala de conferências, passando a mão distraidamente por meu novo corte de cabelo, quando Delalieu chega. Traz um carrinho de café e o sorriso tépido e trêmulo no qual aprendi a me apoiar. Nos últimos tempos, nossos dias de trabalho têm sido mais corridos do que nunca. Por sorte, jamais usamos nosso tempo juntos para discutir os detalhes desconcertantes dos eventos recentes, e duvido que em algum momento passaremos a fazê-lo.
Sinto uma espécie de gratidão por as coisas se manterem assim.
Aqui, com Delalieu, tenho um espaço seguro onde posso fingir que as coisas mudaram muito pouco na minha vida.
Continuo sendo o comandante-chefe e regente dos soldados do Setor 45; e continua sendo minha obrigação organizar e liderar aqueles que nos ajudarão a enfrentar o resto do Restabelecimento. E, com esse papel, também vem a responsabilidade. Temos muitas coisas a reestruturar enquanto coordenamos nossos próximos passos; Delalieu tem se mostrado fundamental para esses esforços.
— Bom dia, senhor.
Faço um gesto para cumprimentá-lo enquanto serve uma xícara de café para cada um de nós. Um tenente na posição dele não precisaria servir seu próprio café da manhã, mas nós dois preferimos a privacidade.
Tomo um gole do líquido preto — recentemente, aprendi a desfrutar de seu toque amargo — e solto o corpo na cadeira.
— Alguma informação nova?
Delalieu pigarreia.
— Sim, senhor — confirma, apoiando apressadamente a xícara no pires e derrubando um pouco de café com o movimento. — Esta manhã recebemos algumas informações, senhor.
Inclino a cabeça na direção dele.
— A construção da nova estação de comando está correndo bem. Esperamos concluir todos os detalhes nas próximas duas semanas, mas os aposentos privados já mudarão amanhã.
— Ótimo. — Nossa nova equipe, supervisionada por Juliette, agora é composta por muitas pessoas, com inúmeros departamentos para administrar e — à exceção de Castle, que criou um pequeno escritório para si no andar superior — até o momento todos estão usando minhas instalações pessoais de treinamento como quartel-general central. Embora, a princípio, essa tenha parecido ser uma ideia prática, só é possível ter acesso às minhas instalações de treinamento depois de passar por meus aposentos pessoais. Agora que o grupo vive andando livremente pela base, com frequência entram e saem dos meus aposentos sem sequer serem anunciados.
É evidente que essa situação está me deixando louco.
— O que mais?
Delalieu bate o olho em sua lista e responde:
— Finalmente conseguimos proteger os arquivos do seu pai, senhor. Demoramos todo esse tempo para localizar e reaver os lotes de documentos, mas deixamos as caixas no seu quarto, senhor, para que possa abri-las quando quiser. Pensei que… — Ele pigarreia. — Pensei que talvez quisesse ver as últimas propriedades pessoais dele antes que sejam herdadas por nossa nova comandante suprema.
Um terror pesado e gelado se espalha por meu corpo.
— Receio que sejam muitos documentos — Delalieu prossegue. — Todos os registros diários dele, todos os relatórios por ele produzidos. Conseguimos encontrar até mesmo alguns diários pessoais. — Delalieu hesita. E então, em um tom que só eu seria capaz de decifrar, conclui: — Espero que as notas dele lhe sejam úteis de alguma forma.
Ergo o rosto e olho nos olhos de Delalieu. Percebo tensão ali. Preocupação.
— Obrigado — agradeço baixinho. — Eu tinha quase me esquecido.
Um silêncio desconfortável se instala e, por um instante, nenhum de nós sabe o que dizer. Ainda não discutimos esse assunto, a morte de meu pai. A morte do genro de Delalieu. Do marido horrível da sua finada filha, minha mãe. Nunca conversamos sobre o fato de Delalieu ser meu avô. De ele ter passado a ser a única figura paterna que me restou neste mundo.
Não é isso o que fazemos.
Por isso, é com uma voz hesitante e nada natural que ele tenta dar continuidade à conversa.
— A Oceania, como você certamente ouviu falar, senhor, afirmou que participaria de um encontro organizado por nossa nova senhora, nossa Senhora Suprema…
Assinto.
— Mas os outros não vão responder antes de conversarem com o senhor — diz, as palavras agora saindo apressadas.
Ao ouvir isso, meus olhos ficam perceptivelmente arregalados.
— Eles são… — Delalieu pigarreia outra vez. — Bem, senhor, como o senhor sabe, são todos amigos da família e eles… bem, eles…
— Sim — sussurro. — Claro.
Desvio o olhar, encaro a parede. De repente, a frustração parece fazer meu maxilar travar. No fundo, eu já esperava que isso fosse acontecer. Mas, depois de duas semanas de silêncio, realmente comecei a ter esperança de que continuassem se fingindo de mortos. Não recebemos nenhuma comunicação desses antigos amigos de meu pai, nenhuma oferta de condolências, nenhuma rosa branca, nenhum tipo de compaixão. Nenhuma correspondência, como costumávamos fazer diariamente, por parte das famílias que conheci quando criança, famílias responsáveis pelo inferno em que vivemos agora. Pensei que, felizmente, com todo prazer, tivesse sido excluído desse grupo.
Mas parece que não.
Parece que traição não é um crime grave o suficiente para alguém ser deixado em paz. Parece que as várias missivas diárias de meu pai expondo minha “obsessão grotesca por um experimento” não foram suficientes para me excluir do grupo. Ele adorava reclamar em voz alta, meu pai, adorava dividir seus muitos desgostos e desaprovações com seus velhos amigos, as únicas pessoas vivas que o conheciam pessoalmente. E todos os dias me humilhava bem diante daqueles que conhecíamos. Fazia meu mundo, meus pensamentos e meus sentimentos parecerem pequenos. Patético. E todos os dias eu contava as cartas se empilhando em minha caixa de correio, ladainhas enormes de seus velhos amigos implorando para que eu usasse a razão, conforme eles definiam. Para que eu me lembrasse de quem realmente era. Para deixar de constranger minha família. Para ouvir meu pai. Para crescer, ser homem e parar de chorar por minha mãe doente.
Não, esses laços são profundos demais.
Fecho os olhos bem apertado para afastar a sequência de rostos, lembranças da minha infância, enquanto peço:
— Diga a eles que entrarei em contato.
— Não será necessário, senhor — Delalieu afirma.
— Perdão?
— Os filhos de Ibrahim já estão a caminho.
Acontece muito rápido: uma paralisia repentina e breve dos meus membros.
— O que quer dizer com isso? — pergunto, já quase no limite, prestes a perder a calma. — A caminho de onde? Daqui?
Delalieu confirma com um gesto.
Uma onda de calor se espalha tão rapidamente por meu corpo que sequer percebo que estou de pé antes de ter que escorar as mãos na mesa em busca de apoio.
— Como se atrevem? — prossigo, de alguma forma ainda conseguindo me manter no limite da compostura. — O completo desprezo deles… Essa mania insuportável de acharem que têm o direito de fazer qualquer coisa…
— Sim, senhor. Eu entendo, senhor — Delalieu afirma, agora também parecendo aterrorizado. — É só que… como sabe… é o jeito de agir das famílias supremas, senhor. Uma tradição que vem de longa data. Uma recusa de minha parte teria sido interpretada como um ato declarado de hostilidade… E a Senhora Suprema me instruiu a ser diplomático enquanto for possível, então pensei que… Eu… Eu pensei que… Ah, sinto muito, muito mesmo, senhor…
— Ela não sabe com quem está lidando — digo bruscamente. — Não existe diplomacia com essa gente. Nossa nova comandante suprema não teria como saber, mas você… — Agora adoto um tom mais de aborrecimento do que de raiva. — Você devia ter imaginado. Valeria a pena enfrentar uma guerra para evitar isso.
Não ergo o olhar para mirá-lo diretamente quando ele diz, com a voz trêmula:
— Sinto muito. Sinto muito mesmo, senhor.
Uma tradição de longa data, sim, de fato.
O direito de ir e vir foi uma prática acordada há muito tempo. As famílias supremas sempre foram bem-vindas nas terras das demais, em qualquer momento, sem a necessidade de um convite. Enquanto o movimento era novo e os filhos eram jovens, nossas famílias se agarraram a esses princípios. E agora essas famílias — e seus filhos — governam o mundo.
Essa foi a minha vida durante muito tempo. Na terça-feira, a criançada reunida na Europa; na sexta, um jantar na América do Sul. Nossos pais eram loucos, todos eles.
Os únicos amigos que conheci tinham famílias ainda mais loucas que a minha.
Não quero voltar a ver nenhum deles, nunca mais.
E ainda assim…
Meu Deus, preciso avisar Juliette.
— Quanto a… Quanto à questão dos civis… — Delalieu continua tagarelando. — Andei conversando com Castle, conforme… conforme seu pedido, senhor, sobre como proceder durante a transição para fora dos… para fora dos complexos…

Mas o restante da reunião da manhã passa como um borrão.

Quando finalmente consigo me desprender da sombra de Delalieu, vou direto ao meu alojamento. Juliette costuma estar aqui a essa hora do dia, portanto, espero encontrá-la para poder avisá-la antes que seja tarde demais.
Logo sou interceptado.
— Ah, hum… oi…
Distraído, ergo o rosto e, no mesmo instante, paro onde estou. Meus olhos ficam ligeiramente arregalados.
— Kent — constato em voz baixa.
Uma breve avaliação é tudo de que preciso para saber que ele não está nada bem. Aliás, sua aparência está terrível. Mais magro do que nunca; olheiras escuras e enormes. Totalmente acabado.
E me pergunto se ele me vê da mesma forma.
— Estive pensando… — diz e vira o rosto, um semblante tenso. Pigarreia. — Estive… — Pigarreia outra vez. — Estive pensando se poderíamos conversar.
Sinto meu peito apertar. Observo-o por um momento, registrando seus ombros tensos, os cabelos desgrenhados, as unhas roídas. Kent vê que o estou encarando e rapidamente enfia as mãos nos bolsos. Quase não consegue me olhar nos olhos.
— Conversar — consigo repetir.
Ele assente.
Expiro silenciosamente, lentamente. Não trocamos uma palavra sequer desde que descobri que éramos irmãos, há quase três semanas. Pensei que a implosão emocional daquela noite tivesse terminado tão bem quanto se poderia esperar, mas muita coisa aconteceu desde então. Não tivemos a oportunidade de reabrir essa ferida.
— Conversar — repito mais uma vez. — É claro.
Ele engole em seco. Olha para o chão.
— Legal.
E de repente sou levado a fazer a pergunta que deixa a nós dois desconfortáveis:
— Você está bem?
Impressionado, ele ergue o rosto. Seus olhos azuis estão arredondados, avermelhados. Seu pomo de adão mexe na garganta.
— Não sei com quem mais falar sobre esse assunto — sussurra. — Não sei quem mais entenderia.
E eu entendo. Imediatamente.
Eu entendo.
Entendo quando vejo seus olhos abruptamente vidrados, tomados por emoção; quando vejo seus ombros tremerem, mesmo enquanto ele tenta se manter imóvel.
Sinto meus próprios ossos sacudirem.
— É claro — digo, surpreendendo a mim mesmo. — Venha comigo.

10 comentários:

  1. Aaa esses dois 😍❤️

    Vitória kellyn

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  2. Ai gente, tomara q eles se tornem super amigos.

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  3. acho queé um começo de uma amizade...

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  4. É, finalmente chegou o dia que achei que nunca chegaria ;-; :D
    ~polly~

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  5. Embora o Adam tenha sido bem babaca no último livro, acaba que eu gosto um pouco dele ainda.

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  6. ATENÇÃO POVO!
    "— Os filhos de Ibrahim já estão a caminho."

    Sinto que novos crush's estão na área!

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  7. Adam e Warner conversando. ... Quem diria!

    Flavia

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  8. quando comecaram a falar de tradição que acontece sempre, comecei a imaginar tipo um comandante que se casa com outro, ou seja, o carinha vai vim para cá e vai casar com a juju, já pensaram nisso? kkkkkkkk
    ia ser top de ++++++

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  9. Eu super shippo esse brotp.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!