15 de junho de 2018

Juliette

Isso de não conhecer a paz é muito estranho. Isso de saber que, não importa aonde você vá, não existe nenhum santuário à espera. Que a ameaça da dor se encontra sempre a um sussurro de distância. Não estou segura trancafiada em meio a essas quatro paredes. Nunca estive segura ao sair de casa e tampouco senti qualquer segurança nos 14 anos que vivi em casa. O hospício mata as pessoas dia após dia, o mundo já aprendeu a ter medo de mim e minha casa é o mesmo lugar onde meu pai me trancava no quarto toda noite e minha mãe gritava comigo porque eu era a abominação que ela fora forçada a criar.
Dizia que era meu rosto. Havia algo no meu rosto, alegava, que ela não suportava. Algo em meus olhos, no jeito como eu a olhava, no fato de eu simplesmente existir. Sempre me dizia para parar de olhar pra ela. Sempre gritava isso. Como se eu pudesse atacá-la. Pare de olhar para mim, gritava. Pare já de olhar para mim, gritava. Certa vez, colocou minha mão no fogo. Só para ver se queimava, explicou. Só para ter certeza de que era uma mão normal, insistiu.
Eu tinha 6 anos quando isso aconteceu.
Lembro porque foi no dia do meu aniversário.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

— Esquece — é tudo o que digo quando Kenji aparece à porta dos meus aposentos.
— Esquece o quê? — Ele estica a perna para segurar a porta, que já está se fechando. Então, consegue passar. — O que está acontecendo?
— Deixa pra lá, não quero conversar com nenhum de vocês. Por favor, vão embora. Ou talvez possam ir direto para o inferno. Para ser sincera, não estou nem aí.
Kenji parece chocado, como se eu tivesse lhe dado um tapa na cara.
— Você está… Espere aí… está falando sério?
— Nazeera e eu vamos sair para o simpósio em uma hora. Preciso me arrumar.
— O quê? O que está acontecendo, J? Qual é o seu problema?
Viro-me para encará-lo.
— O que está acontecendo comigo? Ah, claro. Como se você não soubesse!
Kenji passa a mão pelos cabelos.
— Bem, eu soube o que aconteceu com Warner, é verdade, mas tenho certeza de que vi vocês dois dando uns amassos no corredor, então fiquei, hum… Fiquei muito confuso.
— Ele mentiu para mim, Kenji. Mentiu para mim esse tempo todo. Mentiu sobre tantas coisas. Castle também. E você também…
— Espere, como é que é? — Kenji agarra meu braço quando olho para o outro lado. — Espere. Não menti para você sobre merda nenhuma. Não me envolva nesse rolo. Eu não tive nada a ver com o que aconteceu. Droga, até agora não sei o que dizer a Castle. Não acredito que ele manteve tudo isso escondido de mim.
De repente, fico paralisada, meus punhos se fechando, agarrando-se a uma esperança repentina conforme a raiva vai ganhando força.
— Você não fez parte de tudo isso com Castle? — indago.
— Não. Nem ferrando. Eu não tinha ideia dessa loucura toda até ontem, quando Warner me contou.
Hesito.
Kenji revira os olhos.
— Bem, e por que eu deveria acreditar em você? — pergunto, minha voz aguda como a de uma criança. — Todo mundo andou mentindo para mim…
— J… — chama, negando com a cabeça. — Qual é? Você me conhece. Sabe que não curto essas besteiras. Não é meu estilo.
Engulo em seco, de repente me sentindo pequena. De repente, sentindo meu interior se desfazer. Meus olhos ardem enquanto tento sufocar o impulso das lágrimas.
— Você jura?
— Ei! — fala baixinho. — Venha cá, mocinha.
Discretamente dou um passo à frente e ele me abraça, caloroso e forte e seguro e nunca me senti tão grata por essa amizade, pela existência constante dele em minha vida.
— Vai ficar tudo bem — sussurra. — Eu juro.
— Mentiroso — fungo.
— Ué, tem cinquenta por cento de chance de eu estar certo.
— Kenji?
— Sim?
— Se eu descobrir que está mentindo para mim sobre qualquer coisa em tudo isso, juro por Deus que vou arrebentar cada ossinho do seu corpo.
Ele dá uma risada rápida.
— Sim, tudo bem.
— Estou falando muito sério.
— Claro. — E dá tapinhas de leve na minha cabeça.
— Vou mesmo.
— Eu sei, princesa. Eu sei.
Alguns segundos mais de silêncio.
E então
— Kenji — chamo-o, baixinho.
— Sim?
— Eles vão destruir o Setor 45.
— Quem vai?
— Todo mundo.
Kenji empurra o corpo para trás. Arqueia uma sobrancelha.
— Todo mundo quem?
— Todos os comandantes supremos — respondo. — Nazeera me contou tudo.
O rosto de Kenji é inesperadamente estampado por um sorriso enorme.
— Ah, então Nazeera é do time do bem, é? Ela está do nosso lado? Tentando ajudar?
— Ah, meu Deus, Kenji, por favor, foco…
— Só estou dizendo… — começa, erguendo a mão. — A garota é o máximo, é só isso que estou dizendo.
Reviro os olhos. Tento não rir enquanto seco as lágrimas errantes.
— Então… — Ele acena com a cabeça para mim. — O que está rolando? Preciso de detalhes. Quem está vindo? Quando? Como? O que mais?
— Não sei — respondo. — Nazeera ainda está tentando descobrir. Ela acha que devem chegar na próxima semana, mais ou menos. Os filhos estão aqui para me monitorar e transmitir informações a seus pais, mas compareceram ao simpósio especificamente porque parece que os comandantes querem saber como os outros líderes dos setores vão reagir ao me verem. Nazeera comentou que acha que as informações que eles vão enviar podem servir para ajudar a planejar os próximos passos. Ao que me parece, pode ser uma questão de dias.
Em pânico, Kenji fica de olhos arregalados.
— Puta merda!
— Pois é, mas além de acabar com o Setor 45, eles também planejam me levar como prisioneira. O Restabelecimento quer me prender outra vez, ao que tudo indica. Seja lá o que isso significa.
— Prender você outra vez? — Kenji franze a testa. — Por qual motivo? Para mais testes? Tortura? Fazer o que querem com você?
Balanço a cabeça de um lado para o outro.
— Não sei. Não tenho ideia de quem sejam essas pessoas. Minha irmã… — Ainda sinto estranheza ao pronunciar essas palavras. — Ela parece ainda estar sendo vítima de testes e sendo torturada em algum lugar por aí. Tenho certeza de que não vão me levar para um grande reencontro de família, entende?
— Uau! — Kenji esfrega a mão na testa. — Isso é um drama que alcança todo um novo patamar.
— Pois é.
— Mas… o que vamos fazer?
Hesito.
— Não sei, Kenji. Eles virão matar todo mundo do Setor 45. Não acho que eu tenha escolha.
— O que quer dizer com isso?
Ergo o olhar.
— Quero dizer que tenho certeza de que terei de matá-los primeiro.

6 comentários:

  1. Nossa Juli!! Empala esses cara feiosos ai, eles merecem viver na chama do infernooo...
    Desculpa mas tive que comentar isso kkk
    Karina sua linda sou grande fã sua!😉

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  2. iruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
    - Thalita G.

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  3. ela ta cagando pra irma dela, nem procura saber onde ela ta e tudo mais, so ta preocupada com o próprio romancezinho dela!! que garota ridícula, espero que ela volte ser a ju valente que todos gosta!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!