15 de junho de 2018

Juliette

Fico pensando que preciso permanecer calma, que tudo isso é coisa da minha cabeça, que vai dar tudo certo e alguém vai abrir essa porta, alguém vai me tirar daqui. Fico pensando que isso vai acontecer. Fico pensando que alguma coisa desse tipo tem de acontecer, porque coisas assim simplesmente não acontecem. Isso não acontece. As pessoas não são esquecidas assim. Não são abandonadas assim.
Isso simplesmente não acontece.
Meu rosto está sujo de sangue de quando me jogaram no chão, e minhas mãos continuam trêmulas, mesmo enquanto escrevo estas palavras. Essa caneta é minha única válvula de escape, minha única voz, porque não tenho ninguém mais com quem conversar, nenhum pensamento além dos meus para me afogar, e todos os botes salva-vidas estão tomados e todos os coletes salva-vidas destruídos e não sei nadar e não consigo nadar e não posso nadar e está ficando tão difícil. Está ficando tão difícil. É como se houvesse um milhão de gritos presos em meu peito, mas tenho de mantê-los todos aqui porque para que gritar se você nunca vai ser ouvida e ninguém nunca vai me ouvir aqui.
Ninguém nunca mais vai me ouvir.
Aprendi a ficar olhando para as coisas.
Para as paredes. Minhas mãos. As rachaduras nas paredes. As linhas em meus dedos. Os tons de cinza do concreto. O formato das minhas unhas.
Escolho uma coisa e a analiso pelo que parecem ser horas. Tenho noção do tempo porque conto mentalmente os segundos. Tenho noção dos dias porque os anoto. Hoje é o dia 2. Hoje é o segundo dia. Hoje é 1 dia.
Hoje.
Está muito frio. Está muito frio, muito frio.
Por favor por favor por favor.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

Continuo encarando os três, esperando uma confirmação quando, de repente, um Kenji espantado responde:
— Ah, sim… É… sem problemas.
— Claro — concorda Castle.
Mas Warner não fala nada. Apenas me analisa como se enxergasse meu interior e, por um instante, só consigo me lembrar da minha imagem nua, implorando para que tomasse banho comigo; meu corpo em seus braços, chorando enquanto eu afirmava sentir saudades; meus lábios tocando os seus.
Sinto tanta vergonha que chego a tremer. Um antigo impulso toma conta do meu corpo, fazendo-me enrubescer.
Fecho os olhos, desvio o rosto, dou meia-volta duramente e saio da sala sem dizer uma palavra mais.
— Juliette, meu amor…
Já estou na metade do corredor quando sua mão toca minhas costas e enrijeço, o coração acelerando em um instante. Assim que me viro para ele, percebo a mudança em seu rosto, sua expressão indo do medo à surpresa em uma fração de segundo, e fico tão furiosa por ele ter essa habilidade, esse dom de ser capaz de sentir as emoções das outras pessoas, porque sempre sou tão transparente para ele, tão completamente vulnerável e isso é revoltante, revoltante.
— O quê? — retruco.
Tento falar com dureza, mas dá tudo errado. Minha voz sai esbaforida. Constrangedora.
— Eu só… — Mas suas mãos pendem nas laterais do corpo. Seus olhos capturam os meus e de repente me pego congelada no tempo. — Eu queria dizer a você que…
— O quê? — E agora minha voz sai baixa e nervosa e aterrorizada, tudo ao mesmo tempo. Dou um passo para trás para salvar minha própria vida e percebo Castle e Kenji se aproximando muito lentamente. Os dois mantêm distância de propósito, para nos oferecer espaço para conversar. — O que você quer dizer?
Mas agora os olhos de Warner estão se movimentando e me estudando. Analisam-me com tanta intensidade que me pergunto se ele tem noção do que está fazendo. Fico curiosa para saber se Warner se dá conta de que, quando me olha desse jeito, sinto tão fortemente quanto se sua pele nua estivesse pressionada à minha. Quero saber se ele tem ideia de que me provoca coisas ao me olhar assim, que me deixa louca porque odeio não conseguir controlar isso, odeio que esse laço entre nós não se desfaça, e ele enfim fala com doçura
alguma coisa
alguma coisa que não ouço porque estou olhando para seus lábios e sentindo minha pele queimar com lembranças dele e ainda ontem, ainda ontem ele era meu, senti sua boca em meu corpo, pude senti-lo dentro de mim
— O quê? — consigo dizer, piscando para o teto.
— Eu disse que gostei muito do que fez com seu cabelo.
Odeio Warner, odeio porque faz isso com meu coração, odeio meu corpo por ser tão fraco, por desejá-lo, por sentir sua falta apesar de tudo, e não sei se devo chorar ou beijá-lo ou lhe dar um chute nos dentes, então escolho falar, sem olhá-lo nos olhos:
— Quando ia me contar sobre Lena?
Warner fica parado, totalmente paralisado por um instante.
— Ah… — Ele pigarreia. — Não sabia que você já tinha ouvido falar de Lena.
Estreito os olhos para ele, incapaz de confiar em mim mesma para dizer qualquer coisa. Ainda estou decidindo o melhor curso de ação quando ele prossegue:
— Kenji estava certo. — Mas ele sussurra as palavras, como se falasse consigo mesmo.
— Como é?
Ergue o rosto.
— Desculpe — fala baixinho. — Eu devia ter contado antes. Agora entendo.
— Então, por que não falou nada?
— Ela e eu… Nós… Aquilo não foi nada. Foi um relacionamento por conveniência e companhia básica. Não significou nada para mim. De verdade… Você precisa saber… Se eu nunca falei nada sobre ela, foi porque nunca pensei nela tempo suficiente para sequer considerar contar.
— Mas vocês passaram dois anos juntos…
Warner nega com a cabeça antes de responder:
— Não foi bem assim. Não foram dois anos sérios. Aliás, não foram sequer dois anos de comunicação contínua. — Suspira. — Ela vive na Europa, meu amor. Nós nos víamos por períodos breves e pouco frequentes. Era puramente físico. Não era uma relação de verdade…
— Puramente físico… — ecoo, chocada. Cambaleio para trás, quase tropeço em meus próprios pés e sinto suas palavras rasgarem minha carne com uma dor física lancinante e inesperada. — Nossa. Nossa…
Agora não consigo pensar em nada além de seu corpo junto ao dela, os dois entrelaçados, os dois anos que Warner passou nu nos braços daquela garota…
— Não, por favor — ele pede. A urgência em sua voz me força a voltar ao presente. — Não foi isso que eu quis dizer. Eu só… Eu estou… Não sei explicar — continua, frustrado como nunca o vi antes. Nega fortemente com a cabeça. — Antes de conhecer você, tudo era diferente na minha vida. Estava perdido e totalmente solitário. Nunca me importei com ninguém. Nunca quis me aproximar de ninguém. Eu nunca… Você foi a primeira pessoa que…
— Pare — ordeno, balançando a cabeça em um gesto negativo. — Pare com isso, está bem? Estou muito cansada. Minha cabeça está me matando e não tenho energia para continuar ouvindo essas coisas.
— Juliette…
— Quantos segredos mais você guarda? — pergunto. — Quantas coisas mais vou descobrir sobre você? Sobre mim? Minha família? Minha história? Sobre o Restabelecimento e os detalhes da minha verdadeira vida?
— Juro que nunca quis magoá-la assim — afirma. — Não quero esconder nada de você, mas tudo isso é muito novo para mim, meu amor. Esse tipo de relacionamento é muito novo para mim e eu não… Eu não sei como…
— Você já manteve muita coisa escondida de mim — retruco, sentindo minha força falhar, sentindo o peso dessa terrível dor de cabeça desmontar minha armadura, sentindo demais, coisas demais de uma única vez quando prossigo: — Há tanto que não sei a seu respeito. Há tanto que não sei sobre seu passado. Ou sobre nosso presente. Não sei mais em que posso acreditar.
— Pergunte o que quiser. Eu respondo qualquer coisa que você queira saber.
— Qualquer coisa, menos a verdade a meu respeito? A respeito dos meus pais?
Warner, de repente, fica pálido.
— Você ia manter essas informações escondidas de mim para sempre — afirmo. — Não planejava me contar verdade nenhuma. Que fui adotada. Ou planejava?
Seus olhos ficam desvairados, iluminados pelos sentimentos.
— Responda à pergunta — insisto. — Só me responda isso. — Dou um passo adiante, fico tão próxima de Warner que consigo sentir sua respiração em meu rosto; tão próxima que quase consigo ouvir seu coração acelerar no peito. — Ia me contar?
— Não sei.
— Diga a verdade.
— Estou sendo sincero, meu amor — ele responde, balançando a cabeça. — É muito provável que sim. — De repente, suspira. A ação parece deixá-lo exausto. — Não sei o que fazer para convencê-la de que pensei estar poupando-a da dor dessa verdade em particular. De fato, pensei que seus pais biológicos estivessem mortos. Agora vejo que esconder as informações de você não foi a coisa certa a fazer, mas eu nem sempre faço a coisa certa — admite baixinho. — Mesmo assim, você precisa acreditar que nunca tive a intenção de magoá-la. Nunca quis mentir para você ou esconder informações. Acho que, com o tempo, eu teria lhe contado o que sabia ser verdade. Eu só estava tentando encontrar a hora certa.
De repente, não sei o que sentir.
Encaro-o, vejo-o cabisbaixo, vejo o momento em que sua garganta engole um nó de emoções. E alguma coisa se rompe dentro de mim. Alguma medida de resistência começa a desmoronar.
Warner parece tão vulnerável. Tão jovem.
Respiro fundo e deixo o ar escapar lentamente antes de erguer o rosto, olhá-lo nos olhos mais uma vez. E então percebo. Percebo o momento em que ele sente a mudança em meus sentimentos. Alguma coisa ganha vida em seus olhos. Dá um passo adiante e agora estamos tão próximos que sinto medo de falar. Meu coração bate forte demais no peito e não preciso fazer nada para ser lembrada de tudo, de cada momento, de cada toque que compartilhamos. Seu cheiro está em toda parte à minha volta. Seu calor. Seus suspiros. Seus cílios dourados e olhos verdes.
Toco seu rosto quase sem querer, com cuidado, como se ele pudesse ser um fantasma, como se tudo pudesse não passar de um sonho, e as pontas dos meus dedos roçam sua bochecha, deslizam pela linha de seu maxilar e paro quando ele prende a respiração, quando seu corpo treme quase imperceptivelmente e nos aproximamos como se estivéssemos em uma lembrança
olhos se fechando
lábios se tocando
— Me dê mais uma chance — sussurra, encostando sua cabeça à minha.
Meu coração dói, bate violentamente no peito.
— Por favor — implora suavemente, e de alguma maneira Warner fica ainda mais próximo, seus lábios tocam os meus enquanto fala e me sinto presa pelas emoções, incapaz de me mover enquanto ele pronuncia as palavras contra minha boca, suas mãos leves e hesitantes envolvendo meu rosto, e ele diz: — Juro pela minha vida que não vou decepcioná-la
e me beija
Ele me beija
bem ali, no meio de tudo, na frente de todos, e sou inundada, tomada por sentimentos, a cabeça girando enquanto ele me puxa contra o contorno firme de seu corpo, e não consigo me salvar de mim mesma, não consigo conter o ruído que emito quando ele separa meus lábios e me vejo perdida, perdida em seu sabor, perdida em seu calor, envolvida por seus braços e
preciso me afastar
afasto-me tão rapidamente que quase tropeço. Estou ofegando forte demais, meu rosto vermelho, meus sentimentos em pânico
E ele só consegue me olhar, seu peito subindo e descendo com tamanha intensidade que chego a sentir daqui, a mais de meio metro de distância, e não consigo pensar em nada certo ou racional para dizer sobre o que aconteceu ou o que estou sentindo exceto
— Isso não é justo — sussurro, enquanto as lágrimas ameaçam e pinicam meus olhos. — Não é justo.
Não espero para ouvir sua resposta antes de sair desesperada pelo corredor, correndo o restante do caminho até meus aposentos.

6 comentários:

  1. a própria autora disse que eles estão bem estressados nesse momento, com tudo que aconteceu, e que não terminaram de verdaaaade
    mas se a Juliette parar pra pensar, ela tem que lembrar que ele é mó noob na matéria da vida. O negócio é a falta de diálogo.

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  2. Quero que eles se acertem sim
    mas ela pode continuar a soberana do capítulo anterior que tava lindo de se ver :')

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  3. a armadura de pessoa madura e destemida tava tão boa.

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  4. Foi fod**a por 5 minutos aí chegou o cara do sexo oposto e já fez ela voltar a ser a garotinha dependente de novo 😒😒

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  5. Ah poxa Ju. .. tava tão orgulhosa de vc. Vc pode voltar pro mozão e continuar sendo a Juju 2.0 do capitulo anterior

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!