15 de junho de 2018

Warner

Quando Juliette nos encontra de manhã, está quase irreconhecível.
Fui forçado, apesar de todas as inclinações de me enterrar em outras tarefas, a me reunir com nosso grupo hoje por conta do que agora parece ter sido a chegada inevitável de nossos três últimos convidados. Os gêmeos do comandante supremo da América do Sul e o filho do comandante supremo da África. A comandante suprema da Oceania não tem filhos, então, suponho que esses sejam os últimos visitantes a comparecer. E todos chegaram a tempo de nos acompanhar ao simpósio. Muito conveniente.
Eu devia ter imaginado.
Eu tinha acabado de apresentar os três recém-chegados a Castle e a Kenji, que vieram cumprimentá-los, quando Juliette fez sua aparição pública do dia. Menos de trinta segundos se passaram desde que ela chegou e ainda estou tentando, sem sucesso, deixar de olhá-la.
Está deslumbrante.
Usa um suéter simples e preto, bem ajustado ao corpo; jeans apertados cinza-escuros e botas negras sem salto, com cano na altura dos tornozelos. Os cabelos parecem ao mesmo tempo ausentes e presentes; são como uma coroa macia e escura que combina com Juliette de uma maneira que eu jamais esperaria. Sem a distração dos fios longos, meus olhos não conseguem pousar em nenhum lugar que não seja diretamente em seu rosto. E essa garota tem o rosto mais incrível do mundo — com olhos grandes, hipnotizantes — e uma estrutura óssea que nunca se mostrou mais pronunciada.
Está impressionantemente diferente.
Forte.
Ainda linda, mas mais firme. Mais durona. Deixou de ser a menininha com rabo de cavalo e suéter rosa. Parece muito mais a garota jovem que assassinou meu pai e depois bebeu quatro dedos de seu bourbon mais caro.
Olha para mim e para a expressão atordoada de Kenji e de Castle antes de se concentrar na aparência confusa de nossos três convidados recém-chegados, e todos parecemos incapazes de articular uma única palavra.
— Bom dia — Juliette enfim cumprimenta, mas não sorri ao falar. Não há calor ou meiguice em seus olhos quando ela analisa os arredores, o que me leva a vacilar.
— Nossa, princesa, é mesmo você?
Juliette estuda Kenji rapidamente, mas não responde.
— Quem são vocês três? — pergunta, fazendo um gesto de cabeça aos recém-chegados.
Eles se levantam lentamente. Inseguros.
— Esses são nossos novos convidados — respondo, mas não consigo me forçar a olhar para ela. A encará-la. — Estava ainda agora apresentando-os a Castle e Kishimo…
— E não ia me incluir na lista? — anuncia uma voz que acaba de chegar. — Também quero conhecer a nova comandante suprema.
Viro-me e encontro Lena parada no vão da porta, a menos de um metro de Juliette, deslizando o olhar pela sala como se nunca tivesse se sentido mais satisfeita em toda sua vida. Sinto meu coração ganhar velocidade, a mente acelerar. Ainda não faço ideia se Juliette sabe quem Lena é — ou do que tivemos juntos.
E os olhos de Lena se iluminam, se iluminam demais; seu sorriso é enorme e feliz.
Meu sangue gela.
Com as duas paradas tão perto uma da outra, não consigo deixar de notar quão óbvias são as diferenças entre elas. Juliette é pequena; Lena é alta. Juliette tem cabelos escuros e olhos intensos; Lena é pálida de todas as maneiras possíveis. Seus cabelos são quase brancos, os olhos têm o mais leve tom de azul, a pele é quase transparente, à exceção das sardas que se espalham pelo nariz e pelas bochechas. Mas ela compensa essa carência de pigmentação com o peso de sua presença. Sempre foi espalhafatosa, agressiva, excessivamente impulsiva.
Juliette, em comparação, hoje está muda — quase a um nível extremo. Não entrega nenhuma emoção, nem o menor sinal de raiva ou ciúme. Fica parada e quieta, analisando silenciosamente a situação. Sua energia permanece recolhida. Pronta para saltar.
E quando Lena se vira para encará-la, sinto que todos os presentes ficam tensos.
— Oi — Lena cumprimenta bem alto. A felicidade falsa desfigura seu sorriso, transformando-a em algo cruel. Ela estende a mão e diz: — É um prazer, enfim, conhecer a namorada de Warner. — E, em seguida: — Ah, espere… Perdão. Eu quis dizer ex-namorada.
Estou segurando a respiração enquanto Juliette a analisa de cima a baixo. Leva o tempo que lhe é necessário, inclinando a cabeça conforme devora Lena com os olhos, e consigo perceber que a mão estendida de Lena já começa a mostrar sinais de cansaço, os dedos abertos começando a tremer.
Juliette não parece impressionada.
— Pode se dirigir a mim como comandante suprema da América do Norte — responde.
E sai andando.
Sinto uma risada quase histérica ganhando força em meu peito. Tenho que olhar para baixo, forçar-me a manter uma expressão inabalada. E recupero-me imediatamente ao me lembrar de que Juliette não é mais minha. Não é mais minha, não posso mais amá-la, adorá-la. Nunca, em todo o tempo que a conheço, me senti mais atraído por essa garota, e não há nada, nada mesmo, que eu possa fazer para resolver isso. Meu coração bate mais rápido quando ela entra de vez na sala — deixando uma Lena boquiaberta pelo caminho. Sou tomado pelo arrependimento.
Não consigo acreditar que consegui perdê-la. Duas vezes.
Que ela me amou. Uma vez.
— Por favor, identifiquem-se — ela exige de nossos três convidados.
Stephan é o primeiro a falar:
— Sou Stephan Feruzi Omondi — ele se apresenta, estendendo o braço para oferecer um aperto de mãos. — Estou aqui como representante do comandante supremo da África.
Stephan é alto e pomposo e extremamente formal e, embora tenha nascido e sido criado no que no passado fora Nairóbi, estudou inglês no exterior e se expressa com um sotaque britânico. Percebo que o olhar de Juliette se detém por algum tempo no rosto dele, que ela gosta da imagem à sua frente.
Alguma coisa se aperta em meu peito.
— Seus pais também o enviaram para me espionar, Stephan? — ela indaga, ainda encarando-o.
Ele responde com um sorriso — um movimento que anima todo o seu rosto — e de repente passo a odiá-lo.
— Viemos só para oferecer os cumprimentos. Só para uma reunião amigável.
— Aham. E vocês dois? — Juliette se volta para os gêmeos. — A mesma coisa?
Nicolás, o gêmeo que chegou ao mundo primeiro, apenas sorri para Juliette. Parece alegre.
— Sou Nicolás Castillo — apresenta-se —, filho de Santiago e Martina Castillo, e esta é minha irmã Valentina…
— Irmã? — Lena se intromete. Ela acaba de encontrar outra oportunidade para ser cruel, e eu nunca a odiei tanto. — Vocês continuam fazendo isso?
— Lena — chamo-a, com um tom de advertência na voz.
— O que foi? — Ela me encara. — Por que todo mundo continua fingindo que agir assim é normal? Um dia o filho de Santiago acorda e decide que quer ser menina e todos nós simplesmente… fingimos que não tem nada acontecendo?
— Vá à merda, Lena — é a primeira coisa que Valentina diz durante toda a manhã. — Eu devia ter cortado suas orelhas quando tive a oportunidade.
Juliette fica de olhos arregalados.
— Ah, perdão… — Kenji inclina a cabeça para o lado, usa a mão para acenar. — Estou perdendo alguma coisa?
— Valentina gosta de fingir — Lena retruca.
— Cállate la boca, cabrona — Nicolás esbraveja com ela.
— Não, quer saber? — Valentina diz, apoiando a mão no ombro de seu irmão. — Está tudo bem. Deixe-a falar. Lena acha que eu gosto de fingir, pero não vou fingir cuando cuelge su cuerpo muerto en mi cuarto.
Lena apenas revira os olhos.
— Valentina, não ligue para o que ela diz — aconselho. — Ella no tiene ninguna idea de lo que está hablando. Tenemos mucho que hacer y no debemos…
— Porra, cara! — Kenji me interrompe. — Você também fala espanhol, é? — Passa a mão pelos cabelos. — Vou ter que me acostumar a isso.
— Todos nós falamos muitas línguas — esclarece Nicolás, com um toque de irritação permeando a voz. — Temos que conseguir nos comuni…
— Ouçam, pessoal, estou pouco me lixando para seus dramas pessoais — Juliette anuncia de repente, pressionando a ponte do nariz. — Sinto uma dor de cabeça terrível e tenho um milhão de coisas para resolver, então quero começar logo.
— Por supuesto, señorita. — Nicolás faz uma pequena reverência com a cabeça.
— O quê? — ela pergunta, piscando para ele. — Não sei o que significa isso.
Nicolás apenas sorri.
— Entonces deberías aprender a hablar español.
Quase rio, mesmo enquanto balanço a cabeça. Nicolás está dificultando a situação, e de propósito.
— Basta ya — censuro-o. — Dejala sola. Sabes que ella no habla español.
— O que vocês dois estão falando? — Juliette exige saber.
O sorriso de Nicolás só cresce no rosto, seus olhos azuis brilhando em deleite.
— Nada que tenha muita importância, Senhora Suprema. Só que é um prazer conhecê-la.
— Tenho a informação de que todos participarão do simpósio hoje, certo? — ela pergunta.
Mais uma leve reverência.
— Claro que sí.
— Ele disse que sim — traduzo para ela.
— Que outras línguas você fala? — Juliette se mostra curiosa ao se virar para me encarar, e fico tão surpreso por ela se dirigir a mim em público que me esqueço de responder.
É Stephan quem diz:
— Nós aprendemos muitas línguas desde muito novos. É fundamental que os comandantes e todos de suas famílias saibam se comunicar uns com os outros.
— Mas eu pensei que o Restabelecimento quisesse se livrar de todas as línguas — ela comenta. — Pensei que estivessem trabalhando para criar uma única língua universal…
— , Senhora Suprema — Valentina assevera, concordando discretamente com a cabeça. — É verdade. Mas primeiro precisávamos ser capazes de conversar uns com os outros, não?
Juliette parece fascinada. Esqueceu sua raiva tempo suficiente para ficar mais uma vez impressionada com a vastidão do mundo; posso ver em seus olhos. Posso sentir seu desejo de fugir.
— De onde vocês são? — quer saber, seu tom de voz repleto de inocência, admiração. Alguma coisa se parte em meu coração. — Antes de o mundo ser reorganizado, qual era o nome de seus países?
— Nascemos na Argentina — Nicolás e Valentina falam ao mesmo tempo.
— Minha família é do Quênia — responde Stephan.
— E vocês já visitaram uns aos outros? — ela indaga, virando-se para analisar nossos rostos. — Vocês viajam uns aos continentes dos outros?
Confirmamos com um gesto.
— Nossa! — exclama baixinho, mais pra si mesma do que para o restante da sala. — Deve ser incrível!
— Também deve ir nos visitar, Senhora Suprema — convida um Stephan sorridente. — Adoraríamos recebê-la. Afinal, agora é uma de nós.
O sorriso de Juliette desaparece. Cedo demais também se vai seu olhar distante, reflexivo. Ela não diz nada, mas posso sentir a raiva e a tristeza fervendo em seu interior.
De repente, chama:
— Warner, Castle, Kenji?
— Sim?
— Sim, senhorita Ferrars?
Eu só a encaro.
— Se tivermos terminado aqui, eu gostaria de conversar a sós com vocês três, por favor.

11 comentários:

  1. Juliette não parece impressionada.
    — Pode se dirigir a mim como comandante suprema da América do Norte — responde.
    QUE LINDA MINHA JULIETTE LACRANDO COM BONDADE

    Até então, pensei que Lena fosse apenas uma mulher com coração partido. Mas agora, com esse comentário preconceituoso ridículo e com essa atitude infantil pra cima da Juliette, vejo que ela é mó otária akjshaksjh Gostei não

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  2. Juliette não parece impressionada.
    — Pode se dirigir a mim como comandante suprema da América do Norte — responde.
    E sai andando.


    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk MDs ,estou amando essa nova fase da Juliette ,fada que é fada mata com bondade kkkkkkkkkk

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  3. Pisa nessa vaca cm salto 15 gata!!!!
    E sapateia cm vontade nessa pira... arrogante, mimada, presunçosa, invejosa homofobica.

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  4. Juliette não parece impressionada.
    — Pode se dirigir a mim como comandante suprema da América do Norte — responde.
    Bem feito Lena sua preconceituosa

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  5. A VALENTINA É UMA MULHER TRANS PUTA QUE PARIU

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  6. Também não gostei dessa Lena, mas num mundo onde todas as diferenças são combatidas, acho que atitudes como a dela seriam bem comuns... Triste..

    Acho surpreendente que Valentina tenha uma família capaz de defende-la assim, acho que ainda há esperança para os filhos dos comandantes...

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  7. Melhor parte do livro!

    Juju divaa, lindaaa, maravilhosaaa😍

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  8. — Pode se dirigir a mim como comandante suprema da América do Norte — responde.
    Melhor frase da Juliette até agora!! Se ela não tivesse raspado o cabelo, ela teria o jogado para dar ênfase? Kk

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  9. Já não gostava da Lena antes, mas aquele comentário preconceituoso me fez odiá-la. Como o Aaron pôde namorar alguém tão desprezível quanto ela?

    E, caramba, que fora foi aquele??! Juliette lacrando mais uma vez!!!

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  10. Adorei a Juju 2.0 kkkkkkkkkkk

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!