15 de junho de 2018

Juliette

Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca. Eu não sou louca.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO
Quando abro os olhos, tudo ressurge outra vez.
As evidências estão aqui, nessa dor de cabeça forte e latejante, nesse gosto amargo na boca e no estômago, nessa sede insuportável, como se todas as células do meu corpo estivessem desidratadas. É a mais estranha das sensações. É horrível.
Mas o pior, pior que tudo isso, são as lembranças. São distantes, mas permanecem intactas. Tomei o bourbon de Anderson; fiquei deitada de roupa íntima na frente de Kenji. E então, com uma arfada repentina e dolorosa…
Tirei a roupa no chuveiro. Chamei Warner para tomar banho comigo.
Fecho os olhos e uma onda de náuseas se apossa de mim, ameaça colocar para fora o pouco que tenho no estômago. A vergonha me invade com uma eficiência que quase me deixa sem fôlego, criando em mim uma sensação de ódio pleno por mim mesma. Sou incapaz de tremer. Por fim, relutante, abro novamente os olhos e percebo que alguém me deixou três garrafas de água e dois comprimidos pequenos.
Grata, engulo tudo.
Ainda está escuro no quarto, mas, por algum motivo, sei que já é dia. Sento-me rápido demais e meu cérebro chacoalha, balança no crânio como um pêndulo feroz. Pego-me cambaleando, mesmo enquanto permaneço parada, com as mãos afundando no colchão.
Nunca, penso. Nunca mais. Anderson era um idiota. Essa sensação é horrível.
E é só quando consigo chegar ao banheiro que lembro, com uma clareza perfurante e repentina, que raspei a cabeça.
Fico parada na frente do espelho, os restos dos fios longos e castanhos continuam no chão. Olho meu reflexo e fico impressionada. Horrorizada. Fascinada.
Acendo a luz e tremo quando as lâmpadas fluorescentes desencadeiam uma reação dolorosa em meu cérebro, preciso de vários minutos para me ajustar à luminosidade. Ligo o chuveiro, espero a água esquentar enquanto analiso minha nova imagem.
Com cautela, toco o pouco de cabelo que ficou. Com o passar dos segundos, vou ganhando coragem até me posicionar tão perto do espelho que meu nariz toca o vidro. É tão estranho, é muito estranho, mas logo minha apreensão vai ficando para trás. Não importa quanto tempo eu passe me olhando, sou incapaz de alimentar qualquer sensação de arrependimento. Choque, sim, mas…
Não sei.
Gostei muito, muito mesmo, do resultado.
Meus olhos sempre foram grandes e verde-azulados, miniaturas do globo que habitamos. Mas até então não os tinha achado particularmente interessantes. Agora, porém, pela primeira vez acho meu rosto interessante. Como se eu tivesse deixado para trás as sombras de meu próprio ser; como se, finalmente, a cortina que eu usava para me esconder tivesse sido aberta.
Estou aqui. Bem aqui.
Olhe para mim, pareço gritar em silêncio.
O vapor invade o banheiro em expirações lentas e cuidadosas que embaçam meu reflexo e por fim sou forçada a virar o rosto. Mas, quando noto, estou sorrindo.
Porque, pela primeira vez na vida, realmente gosto da minha aparência.

Ontem, pedi a Delalieu que trouxesse meu guarda-roupa para os aposentos de Anderson antes que eu chegasse — e agora me pego diante do armário, examinando-o com novos olhos. São as mesmas roupas que vejo todas as vezes que abro essas portas; mas, de repente, eu as vejo de modo diferente.
Mas também estou me sentindo diferente.
Antes, roupas me deixavam perplexa. Nunca consegui entender como criar um visual da maneira que Warner faz. Pensei se tratar de uma ciência que eu jamais conseguiria dominar; uma habilidade fora do meu alcance. Mas agora estou me dando conta de que o problema era eu não saber quem eu realmente era. Eu não sabia vestir a impostora que vivia dentro da minha pele.
Do que eu gostava?
Como queria ser percebida?
Por anos, meu objetivo foi me diminuir — dobrar-me e desdobrar-me em um polígono de nada, ser insignificante demais para ser lembrada. Eu queria parecer inocente. Queria ser vista como discreta e inofensiva; sempre me preocupei com a maneira como a minha existência aterrorizava as pessoas e fiz tudo o que estava ao meu alcance para me diminuir, diminuir minha luz, minha alma. Eu queria desesperadamente parecer ignorante. Queria muito agradar aos filhos da puta que me julgavam sem me conhecer, e acabei me perdendo nesse processo.
Mas agora?
Agora eu rio. Alto.
Agora estou pouco me fodendo.

13 comentários:

  1. achei tão massa que ela tenha cortado o cabelo, cara
    ela é mó mulherão de qualquer jeito <3

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    1. Teria sido ótimo se ela tivesse tomado essa decisão conscientemente...

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  2. "Queria muito agradar aos filhos da puta que me julgavam sem me conhecer, e acabei me perdendo nesse processo.
    Mas agora?
    Agora eu rio. Alto.
    Agora estou pouco me fodendo."


    Mulherão mesmo ,finalmente se encontrando ,pra mim foi um dos melhores momentos de Juliette não me canso de ve-la evoluindo ,amor próprio é tudo .#Proud .

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  3. MDS amando essa nova Juliete ... Não sei oq esperar dos próximos capítulos.


    Vitória Kellyn

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  4. Tá maravilhosa assim. Só vai pq vc é a supremíssima dona do mundo todooo
    (((Warner vai surtar, prevejo sofrimento hueheueh)))

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  5. "Queria muito agradar aos filhos da puta que me julgavam sem me conhecer, e acabei me perdendo nesse processo.
    Mas agora?
    Agora eu rio. Alto.
    Agora estou pouco me fodendo."
    Mulherão da porra

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  6. Finalmente ela parou de ligar pra esse povo que vive julgando ela

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  7. "Agora, porém, pela primeira vez acho meu rosto interessante. Como se eu tivesse deixado para trás as sombras de meu próprio ser; como se, finalmente, a cortina que eu usava para me esconder tivesse sido aberta."

    Aaaaah cortar o cabelo♡♡♡♡

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  8. Melhor capítulo!!!!

    j.

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  9. Mas agora?

    Agora eu rio. Alto.

    Agora estou pouco me fodendo.

    Adorei esse final Kkkkkkkkk Vai lá Juju rainha da p*** toda!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!