15 de junho de 2018

Warner

Juliette está dormindo.
Saiu do chuveiro, subiu no meu colo e quase imediatamente caiu no sono, encostada em meu pescoço; durante todo o tempo, murmurou coisas das quais tenho certeza de que se arrependerá ao amanhecer. Uso cada gota do meu autocontrole para separar seu corpo suave e quente do meu. De alguma forma, consigo. Ajeitei-a na cama e saí. A dor de me sentir distante dela não é diferente do que imaginei, é como arrancar a pele do meu próprio corpo. Juliette me implorou para ficar, mas fingi não ouvir. Falou que me amava e não consegui responder.
Ela chorou, mesmo de olhos fechados.
Mas não posso confiar que Juliette saiba o que está fazendo ou dizendo nesse estado alterado de consciência; não, sei que é melhor não. Juliette não tem experiência com álcool, mas só posso imaginar que, quando seu bom senso voltar, pela manhã, ela não vai querer ver a minha cara. Não vai querer saber que se mostrou tão vulnerável para mim. Aliás, a essa altura me pergunto se vai sequer se lembrar do que aconteceu.
Quanto a mim, sou um caso perdido.
Já passam das três da manhã e sinto como se não dormisse há dias. Mal suporto fechar os olhos; não consigo ficar sozinho com minha mente ou minhas muitas fragilidades. Sinto-me estilhaçado, preso nesse corpo apenas por necessidade.
Já tentei, em vão, articular a bagunça de emoções se empilhando em minha mente — tentei articular para Kenji, que quis saber o que aconteceu depois que ele foi embora; para Castle, que me encurralou há menos de três horas, exigindo saber o que eu havia dito a ela; até mesmo para Kent, que conseguiu parecer só um pouco contente ao descobrir que meu relacionamento recente com Juliette já havia implodido.
Quero me afundar na terra.
Não posso voltar ao nosso quarto — ao meu quarto —, onde a prova da existência de Juliette ainda está fresca demais, viva demais; e não posso mais escapar para as câmaras de simulação, pois os soldados continuam instalados lá.
Não tenho como fugir das consequências de minhas ações.
Não tenho onde encostar a cabeça por mais do que um instante antes de ser encontrado e devidamente castigado.
Lena, rindo alto bem na minha cara quando passei por ela no corredor. Nazeera, balançando a cabeça enquanto eu dava boa-noite ao seu irmão. Sonya e Sara, lançando olhares pesarosos para mim após me encontrarem agachado em um canto da ala médica que ainda não está pronta. Brendan, Winston, Lily, Alia e Ian, passando a cabeça pela porta de seus novos quartos, parando-me enquanto eu tentava ir embora, fazendo tantas perguntas — tão altas e forçosas que até mesmo um James sonolento veio atrás de mim, puxando-me pela camisa e perguntando várias e várias vezes se Juliette estava ou não estava bem.
De onde veio essa vida? Quem são essas pessoas com as quais de repente me vejo em dívida?
Todos andam tão justificadamente preocupados com Juliette — com o bem-estar de nossa comandante suprema —, que eu, por ser cúmplice de seu sofrimento, não estou protegido em lugar algum dos olhares à espreita, das expressões questionadoras, dos semblantes de pena. É alarmante ver tantas pessoas preocupadas com minha vida privada. Quando as coisas iam bem entre nós, eu precisava responder menos perguntas; estava sujeito a menos interesse. Juliette era quem mantinha essas relações; eles não se preocupavam comigo. Nunca quis nada disso. Não queria essa responsabilidade. Não me importo com a responsabilidade ligada a amizades. Eu só queria Juliette. Queria seu amor, seu coração, seus braços me envolvendo. E isso era parte do preço que eu pagava por sua afeição: essas pessoas. Suas perguntas. Seu claro escárnio por minha existência.
Portanto, tornei-me um fantasma.
Ando por esses corredores silenciosos. Fico pelos cantos e me mantenho parado na penumbra, esperando alguma coisa. O quê? Isso não sei.
Perigo.
Esquecimento.
Qualquer coisa que guie meus próximos passos.
Quero um novo propósito, um trabalho a executar. Então, imediatamente me lembro de que sou o comandante-chefe e regente do Setor 45, que tenho um número infinito de coisas para cuidar e negociar — e, por algum motivo, isso não funciona mais para mim. Minhas tarefas cotidianas não bastam para distrair a mente; minha rotina profundamente regimentada foi desmantelada; Delalieu se empenha para manter o ritmo sob o peso da minha erosão emocional e não consigo não pensar em meu pai repetidas e repetidas vezes…
Em como estava certo no que dizia a meu respeito.
Sempre esteve certo.
As emoções me arruinaram, várias vezes. Foram elas que me levaram a aceitar qualquer trabalho — a qualquer custo — para ficar perto da minha mãe. Foram elas que me levaram a encontrar Juliette, a encontrá-la na busca de uma cura para minha mãe. Foram elas que me levaram a me apaixonar, a levar um tiro e perder a cabeça, a me tornar outra vez um garoto abalado — um menino que cai de joelhos e implora a um pai indigno e monstruoso para poupar a garota que ele ama. Foram as emoções, minhas frágeis emoções, que me custaram tudo.
Não tenho paz. Não tenho propósito.
Quem me dera ter arrancado esse coração do peito há muito tempo.
Mesmo assim, há trabalho a ser feito.
O simpósio está agora a menos de doze horas e em momento algum tive a oportunidade de cuidar dos detalhes ao lado de Juliette. Não previ que as coisas tomariam esse rumo. Jamais imaginei que os negócios continuariam como de costume depois da morte de meu pai. Pensei que uma guerra maior fosse iminente; pensei que os outros comandantes supremos certamente viriam atrás de nós antes de sequer termos a chance de fingir estarmos no controle do Setor 45. Não me ocorreu que tinham em mente planos mais sinistros. Não me ocorreu a ideia de passar mais tempo preparando Juliette para as tediosas formalidades — aquelas rotinas monótonas — que envolvem a estrutura do Restabelecimento. Mas eu devia ter imaginado. Devia ter esperado. Eu podia ter evitado isso.
Pensei que o Restabelecimento fosse desmoronar.
Mas estava errado.
Nossa comandante suprema tem poucas horas para se preparar antes de se dirigir a uma sala com 554 outros regentes e comandantes-chefes na América no Norte. Espera-se que ela se mostre uma líder. Que negocie os muitos detalhes da diplomacia doméstica e internacional. Haider, Nazeera e Lena estarão todos ansiosos por transmitir notícias a seus pais assassinos. E devo estar ao lado de Juliette, ajudando-a e guiando-a e protegendo-a. Contudo, não tenho ideia de qual Juliette vai sair dos aposentos de meu pai ao amanhecer. Não tenho ideia do que esperar dela, de como vai me tratar ou de onde sua cabeça estará.
Não tenho a menor ideia do que está prestes a acontecer.
E não posso culpar ninguém senão eu mesmo.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!