15 de junho de 2018

Juliette

Estou tomando café da manhã desacompanhada — sozinha, mas não solitária.
O salão do café está repleto de rostos familiares, todos nós botando o papo em dia a respeito de alguma coisa: sono, trabalho, conversas não concluídas. Os níveis de energia aqui sempre dependem da quantidade de cafeína que consumimos e, nesse momento, tudo ainda está bem silencioso.
Volto minha atenção para Brendan, que está bebericando do mesmo copo de café a manhã toda, e ele acena para mim. Aceno de volta. É o único entre nós que realmente não precisa de cafeína. Seu dom de criar eletricidade também funciona como um gerador reserva para todo o seu corpo. Ele é a exuberância personificada. Aliás, seus cabelos totalmente brancos e olhos azuis da cor do gelo parecem emanar uma energia própria, mesmo estando do outro lado da sala. Começo a pensar que, com o copo de café, Brendan está tentando manter as aparências em grande parte por solidariedade a Winston, que parece não conseguir sobreviver sem a bebida. Os dois se tornaram inseparáveis ultimamente — embora Winston às vezes se ressinta da vivacidade natural de Brendan.
Eles já passaram por muita coisa juntos. Todos passamos.
Brendan e Winston estão sentados com Alia, que mantém seu caderno de desenho aberto ao lado, sem dúvida esboçando alguma ideia nova e impressionante para nos ajudar na batalha. Estou cansada demais para sair do lugar, senão me levantaria para me unir ao grupo. Então, em vez disso, apoio o queixo em uma das mãos e estudo o rosto de cada um de meus amigos, sentindo gratidão. Porém, as cicatrizes no rosto de Brendan e no de Winston me levam de volta a um momento que eu preferiria esquecer — de volta a um momento em que pensamos tê-los perdido. Quando perdemos outros dois. E de repente meus pensamentos são pesados demais para o café da manhã. Então desvio o olhar. Tamborilo os dedos na mesa.
Era para eu encontrar Kenji no café da manhã — é assim que começamos nossos dias de trabalho —, e esse é o único motivo pelo qual ainda não peguei meu prato de comida. Infelizmente, seu atraso já começa a fazer meu estômago roncar. Todos na sala já estão atacando suas pilhas de panquecas macias que, por sinal, parecem deliciosas. Tudo é tentador: os pequenos frascos de maple syrup, os montes perfumados de batatas, as tigelinhas de frutas frescas. No mínimo, matar Anderson e assumir o Setor 45 nos trouxe opções muito melhores de café da manhã. Mas acho que talvez sejamos os únicos que apreciam essa melhoria.
Warner nunca toma seu café conosco. Basicamente, ele nunca para de trabalhar, nem mesmo para comer. O café da manhã é só mais uma reunião para ele, e o toma habitualmente com Delalieu, os dois sozinhos, e mesmo assim não sei se ele come alguma coisa. Warner parece nunca sentir prazer com os alimentos. Para ele, comida é combustível — necessária e, na maior parte do tempo, um estorvo —, algo de que seu corpo precisa para funcionar. Certa vez, quando estava intensamente envolvido em um trabalho burocrático durante o jantar, coloquei um biscoito em um prato à sua frente, só para ver o que acontecia. Ele olhou para mim, olhou outra vez para seus papéis, sussurrou um discreto “obrigado” e comeu o biscoito com garfo e faca. Sequer pareceu desfrutar do sabor. Desnecessário dizer que isso o torna o exato oposto de Kenji, que ama devorar tudo o tempo todo e que depois me confessou ter sentido vontade de chorar ao ver Warner comendo o biscoito.
Por falar em Kenji, o fato de ele ter furado comigo hoje de manhã é bastante estranho, então começo a me preocupar. Estou prestes a olhar o relógio pela terceira vez quando, de repente, Adam surge ao lado da minha mesa, parecendo desconfortável.
— Oi — cumprimento-o um pouco alto demais. — Está… tudo bem?
Adam e eu interagimos algumas vezes nas últimas duas semanas, mas sempre por acaso. Claro que é incomum vê-lo parado de propósito na minha frente, então, por um momento, fico tão surpresa que quase não percebo o óbvio.
Sua aparência está péssima.
Desleixado. Abatido. Visivelmente exausto. Aliás, se não o conhecesse, juraria que andou chorando. Não pelo fim do nosso relacionamento, espero.
Mesmo assim, antigos impulsos me atormentam, mexendo com sentimentos profundos.
Falamos ao mesmo tempo:
— Você está bem…? — pergunto.
— Castle quer falar com você — ele diz.
— Castle mandou você vir me procurar? — indago, deixando de lado os sentimentos.
Adam dá de ombros.
— Imagino que eu tenha passado pela sala dele bem na hora certa.
— Ah, entendi — tento sorrir. Castle está sempre tentando melhorar minha relação com Adam; ele não gosta de tensão. — Ele falou se quer me ver agora?
— É. — Adam enfia as mãos nos bolsos. — Agorinha mesmo.
— Tudo bem — respondo, e a situação toda parece desconcertante. Adam fica ali parado enquanto reúno minhas coisas, e quero dizer-lhe para ir embora, para parar de me encarar, que isso é estranho, que terminamos há uma eternidade e que foi estranho e que você deixou a situação tão estranha, mas então percebo que ele não está me encarando. Está olhando para o chão, como se estivesse preso ou perdido em algum lugar da sua própria cabeça.
— Ei… Você está bem? — pergunto outra vez, agora com mais delicadeza.
Espantado, ele ergue o olhar.
— O quê? — gagueja. — O que, é… ah… eu, sim, estou bem. Ei, você sabe, é… — Ele limpa a garganta, olha em volta. — Você, é… hum…
— Eu o quê?
Adam fica irrequieto, percorrendo outra vez a sala com o olhar.
— Warner nunca aparece aqui no café da manhã, né?
Minhas sobrancelhas se arqueiam até invadirem a testa.
— Você está procurando por Warner?
— O quê? Não. Eu só… só fiquei curioso. Ele nunca está aqui. Sabe? É esquisito.
Encaro-o.
Ele não diz nada.
— Não é tão esquisito assim — respondo lentamente, estudando seu rosto. — Warner não tem tempo para tomar café com a gente. Está sempre trabalhando.
— Ah! — exclama Adam, e a palavra parece deixá-lo sem ar. — Que pena.
— É? — Franzo a testa.
Mas Adam parece não me ouvir. Ele chama James, que está devolvendo a bandeja do café da manhã. Os dois se encontram no meio da sala e depois desaparecem.
Não tenho ideia do que fazem o dia todo. Nunca perguntei.

O mistério da ausência de Kenji é solucionado assim que passo pela porta de Castle: os dois estão ali, pensando juntos.
Bato à porta em um gesto de pura educação.
— Olá — cumprimento-os. — Queriam me ver?
— Sim, sim, senhorita Ferrars — responde um Castle ansioso. Levanta-se e gesticula, convidando-me para entrar. — Sente-se, por favor. E, por gentileza… — Aponta para algo atrás de mim. — Feche a porta.
No mesmo instante, fico nervosa.
Dou um passo com cuidado para dentro do escritório improvisado de Castle e observo Kenji, cujo rosto apático não ajuda a aliviar meus medos.
— O que está acontecendo? — pergunto. Em seguida, falo apenas para Kenji: — Por que não foi tomar café da manhã?
Castle gesticula para que eu me sente.
Faço justamente isso.
— Senhorita Ferrars — fala com urgência. — Recebeu as notícias da Oceania?
— Perdão?
— A resposta. Recebeu sua primeira resposta, não recebeu?
— Sim, recebi — confirmo lentamente. — Mas ninguém deveria saber sobre isso… Eu planejava contar a Kenji durante o café da manhã de hoje.
— Bobagem — Castle me interrompe. — Todo mundo sabe. O senhor Warner certamente sabe. Assim como o Tenente Delalieu.
— O quê? — Olho para Kenji, que dá de ombros. — Como isso é possível?
— Não fique assim tão em choque, senhorita Ferrars. Obviamente, toda a sua correspondência é monitorada.
Meus olhos se arregalam.
— Como é que é?
Castle faz um gesto frustrado com a mão.
— Tempo é essencial, então, se puder, eu preferiria…
— Tempo é essencial para quê? — questiono, irritada. — Como posso ajudar se nem sei do que estão falando?
Castle aperta a ponte do nariz.
— Kenji — fala abruptamente —, pode nos deixar a sós, por favor?
— Claro. — Kenji fica rapidamente em pé e simula uma saudação de deboche.
Vai andando a caminho da porta.
— Espere — peço, agarrando seu braço. — O que está acontecendo?
— Não tenho ideia, filha. — Ele ri e solta o braço. — Essa conversa não me diz respeito. Castle me chamou aqui mais cedo para conversar sobre vacas.
— Vacas?
— Sim, você sabe… — Arqueia a sobrancelha. — Gado. Ele vem me pedindo para fazer o reconhecimento de várias centenas de acres de fazendas que o Restabelecimento tem mantido escondidas. Muitas e muitas vacas.
— Que empolgante.
— Na verdade, é sim. — Seus olhos se iluminam. — O metano facilita muito o trabalho de rastreamento. O que nos leva a questionar por que não fizeram nada pra evitar…
— Metano? — indago, confusa. — Isso não é um gás?
— Percebo que você não sabe muito sobre estrume de vaca.
Ignoro o comentário dele. Em vez disso, digo:
— Então, foi por isso que você não foi tomar café hoje cedo? Porque estava analisando cocô de vaca?
— Basicamente isso.
— Bem, pelo menos isso explica o cheiro.
Kenji demora um instante para entender meu gracejo, mas, quando o faz, estreita os olhos. Encosta um dedo em minha testa.
— Você vai direto para o inferno, sabia?
Abro um sorriso enorme.
— A gente se vê mais tarde? Ainda quero fazer aquela nossa caminhada matinal.
Ele bufa, sem se comprometer.
— Qual é? — digo. — Dessa vez vai ser divertido. Garanto.
— Ah, sim, superdivertido. — Kenji revira os olhos enquanto dá meia-volta e lança mais uma saudação para Castle. — Até mais tarde, senhor.
Castle assente para se despedir, mantendo um sorriso radiante no rosto.
Kenji leva um minuto para finalmente passar pela porta e fechá-la, mas, nesse minuto, o rosto de Castle se transforma. O sorriso tranquilo e os olhos animados desaparecem. Agora que ele e eu estamos totalmente sozinhos, parece um pouco abatido, um pouco mais sério. Talvez até… com medo?
E vai direto ao ponto.
— Quando a resposta chegou, o que dizia? Percebeu algo fora de comum na mensagem?
— Não. — Franzo a testa. — Não sei. Se todas as minhas correspondências estão sendo monitoradas, você já não teria a resposta para essa pergunta?
— É claro que não. Não sou eu quem monitora suas correspondências.
— Quem faz isso, então? Warner?
Castle apenas olha para mim.
— Senhorita Ferrars, há algo extremamente incomum nessa correspondência. — Hesita. — Especialmente sendo sua primeira e, até agora, única resposta.
— Certo — falo, confusa. — O que tem de incomum nela?
Castle olha para as próprias mãos. Para a parede.
— Quanto sabe sobre a Oceania?
— Muito pouco.
— Pouco quanto?
Dou de ombros.
— Consigo apontar no mapa.
— Mas nunca esteve lá?
— Está falando sério? — Lanço um olhar incrédulo para ele. — É óbvio que não. Nunca estive em lugar nenhum, lembra? Meus pais me tiraram da escola. Entregaram-me ao sistema. No fim, me jogaram em um hospício.
Castle respira fundo. Fecha os olhos ao dizer com todo o cuidado do mundo:
— Não havia mesmo nada fora do comum na mensagem do comandante supremo da Oceania?
— Não — respondo. — Acho que não.
— Você acha que não?
— Talvez fosse um pouco informal? Mas não me pareceu…
— Informal como?
Desvio o olhar para tentar lembrar.
— A mensagem era realmente curta — conto. — Dizia mal posso esperar para vê-la, sem assinatura nem nada.
— Mal posso esperar para vê-la? — De repente, Castle parece confuso.
Faço um gesto de confirmação.
— Não era mal posso esperar para encontrá-la, mas para vê-la? — questiona.
Confirmo outra vez.
— Como disse, um pouco informal. Mas pelo menos era educado. O que me pareceu um sinal muito positivo, considerando tudo.
Castle suspira pesadamente enquanto gira na cadeira. Agora está encarando a parede, dedos reunidos sob o queixo. Estou estudando os ângulos pronunciados de seu perfil quando ele fala baixinho:
— Senhorita Ferrars, o que exatamente o senhor Warner lhe contou sobre o Restabelecimento?

10 comentários:

  1. Hummmm algo de errado não está certo ...

    Vitória Kellyn

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  2. Nao acredito, sou realmente a primeira a comentar??
    Que babado..., sera q a que pessoa por traz da resposta conhece ela???

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  3. Meio suspeito isso...

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  4. Por que será que eu não consigo imaginar alguem falando as palavras daquela carta de forma simpatica?

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  5. Aí tem coisa...

    Jaqueline

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  6. Já estou imaginando milhões de coisas!!! Será que Paris Anderson não morreu? Será que um de seus pais é o líder Supremo?
    Anna!!!

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  7. Parece que a Ferrars se ferrou...
    ~polly~

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  8. Tô ficando nervosa velho, socorro

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Boa leitura, E SEM SPOILER!