15 de junho de 2018

Warner

Não tenho nem tempo de descer.
Mal tive um segundo para vestir a camisa quando ouço alguém bater à minha porta.
— Foi mal, mesmo, irmão — ouço Kenji gritar. — Mas ela se recusa a me ouvir…
E então…
— Abra a porta, Warner. Eu juro que só vai doer um pouquinho.
Sua voz continua a mesma. Suave. Enganosamente macia. Mas sempre com um toque áspero.
— Lena — digo. — Que bom ter notícias suas.
— Abra a porta, seu idiota.
— Você nunca segurou os elogios.
— Eu mandei abrir a porta
Com muito cuidado, eu a abro.
Em seguida, fecho os olhos.
Lena me dá um tapa na cara tão forte que sinto os ouvidos zumbindo. Kenji grita, mas é um grito rápido, e eu respiro fundo para me estabilizar. Ergo o olhar na direção dela, mas sem levantar a cabeça.
— Terminou?
Lena fica de olhos arregalados, enfurecida e ofendida, e então percebo que a provoquei demais. Ela golpeia sem pensar; mesmo assim, o soco é perfeitamente executado. O impacto poderia, no mínimo, quebrar meu nariz, mas não posso mais sustentar suas ilusões de me causar dor física. Meus reflexos são mais ágeis que os dela — sempre foram — e consigo segurar seu punho poucos instantes antes do impacto. Seu braço vibra com a intensidade da energia contida e ela salta para trás, gritando para se libertar.
— Seu filho de uma puta! — exclama, arfando.
— Não posso deixar que me dê um soco na cara, Lena.
— Eu faria coisa pior com você.
— E ainda pergunta por que nossa relação não deu certo.
— Sempre tão frio — retruca, e sua voz falha quando diz isso. — Sempre tão cruel.
Esfrego a mão atrás da cabeça e sorrio, infeliz, para a parede.
— Por que veio ao meu quarto? Por que apareceu em meu ambiente privado? Sabe que tenho pouca coisa a lhe dizer.
— Você nunca disse nada para mim — berra, de repente. Seu peito pulsa quando ela continua: — Dois anos! Dois anos e você deixou uma mensagem com a minha mãe pedindo para ela me avisar que nosso relacionamento tinha acabado!
— Você não estava em casa — retruco, fechando os olhos bem apertados. — Pensei que assim seria mais eficiente…
— Você é um monstro
— Sim — confirmo. — Sim, eu sou. E queria que você me esquecesse.
Em um instante seus olhos ficam marejados, pesados com as lágrimas não derramadas. Sinto-me culpado por não sentir nada. Só consigo encará-la, cansado demais para brigar. Ocupado demais cuidando das minhas próprias feridas.
Sua voz é, ao mesmo tempo, furiosa e triste quando ela diz:
— Cadê sua namorada nova? Estou morrendo de vontade de conhecê-la.
Desvio o olhar enquanto sinto o coração se partindo no peito.
— É melhor você se acalmar — advirto. — Nazeera e Haider também estão aqui, em algum lugar. Vocês certamente terão muito o que conversar.
— Warner…
— Por favor, Lena — peço, agora me sentindo realmente exausto. — Você está chateada, eu entendo. Mas não é culpa minha que se sinta assim. Não amo você. Nunca amei. E nunca a fiz pensar que a amava.
Ela fica tanto tempo em silêncio que finalmente a encaro, percebendo tarde demais que, de alguma maneira, consegui piorar a situação. Outra vez. Lena parece paralisada, os olhos redondos, lábios separados, mãos ligeiramente trêmulas na lateral do corpo.
Suspiro.
— Tenho que ir — falo, baixinho. — Kenji vai mostrar o prédio a você.
Olho para Kenji, que assente. Só uma vez. Seu rosto parece inesperadamente austero.
Lena continua sem dizer nada.
Dou um passo para trás, pronto para fechar a porta, quando ela avança na minha direção com um grito repentino, as mãos se fechando na minha garganta tão inesperadamente que quase me derruba. Está gritando bem diante do meu rosto, empurrando-me para trás, e tento ao máximo me manter calmo. Às vezes, meus instintos são aguçados demais. Para mim, é difícil não reagir a ameaças físicas.
Ainda assim, forço-me a me movimentar quase em câmera lenta enquanto afasto as mãos dela do meu pescoço. Lena continua se debatendo, dando vários chutes em minhas canelas até que, finalmente, consigo conter seus braços e puxá-la mais para perto de mim.
De súbito, ela para.
Aproximo os lábios de seu ouvido e pronuncio seu nome uma vez, muito docemente.
Lena engole em seco ao me olhar nos olhos, toda fogo e fúria. Mesmo assim, sinto sua esperança. Seu desespero. Consigo senti-la se perguntando se mudei de ideia.
— Lena — falo outra vez, agora com ainda mais doçura. — Sério, você precisa entender que suas ações não me levam a gostar mais de você.
Ela enrijece o corpo.
— Por favor, vá embora — insisto, e rapidamente fecho a porta.
Solto o corpo na cama novamente, tenso enquanto ela chuta a porta do quarto com violência. Apoio a cabeça nas mãos. Tenho de suprimir um impulso repentino e inexplicável de quebrar alguma coisa. Meu cérebro parece prestes a sair do crânio.
Como foi que vim parar aqui?
Desamparado. Desgrenhado e distraído.
Quando foi que isso aconteceu comigo?
Não tenho foco, não tenho controle. Sou mesmo toda a decepção, todo o fracasso, toda a inutilidade que meu pai sempre afirmou que eu era. Sou um fraco. Um covarde. Deixo minhas emoções vencerem com muita facilidade, e agora…
Agora perdi tudo. Tudo está se desfazendo. Juliette está em perigo. Agora, mais do que nunca, eu e ela precisávamos estar juntos. Preciso conversar com ela. Preciso alertá-la. Preciso protegê-la… Mas ela foi embora. Juliette me despreza outra vez.
E aqui estou eu de novo.
No abismo.
Lentamente me dissolvendo no ácido das emoções.

2 comentários:

  1. Aiii, tadinho😡
    Vem aqi meu amo q faço vc melhorar rapidinho.
    Adoro o Warner!!!

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  2. Só eu sinto um pouco de medo quando os personagens ficam desejando não ter emoções?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!