15 de junho de 2018

Juliette

Há algo fervendo dentro de mim.
Algo em que jamais ousei tocar, algo que sinto medo de reconhecer. Parte de mim se arrasta para se libertar da jaula na qual a prendi, bate às portas do meu coração enquanto implora para sair.
Implora para se desprender.
Todo dia sinto que estou revivendo o mesmo pesadelo. Abro a boca para gritar, para lutar, para sacudir os punhos, mas minhas cordas vocais foram cortadas, meus braços parecem pesados, presos em cimento úmido, e estou gritando, mas ninguém me ouve, ninguém me alcança, e me sinto presa. E essa situação está me matando.
Sempre tive de me colocar no papel de submissa, subserviente, retorcida como um esfregão suplicante e passivo só para deixar todos os outros se sentirem seguros e à vontade. Minha existência se transformou em uma luta para provar que sou inofensiva, que não sou uma ameaça, que sou capaz de viver em meio a outros seres humanos sem feri-los.
E estou tão cansada estou tão cansada estou tão cansada e às vezes fico tão furiosa
Não sei o que está acontecendo comigo.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

Pousamos em uma árvore.
Não tenho ideia de onde estamos — nem sei se já estive em algum lugar tão alto assim ou tão próximo da natureza —, mas Nazeera simplesmente parece não se importar.
Respiro bruscamente enquanto me viro para encará-la, adrenalina e descrença colidindo, mas ela não está olhando para mim. Parece calma, até mesmo feliz, enquanto observa o céu, um pé apoiado em um galho e o outro pendurado, balançando para a frente e para trás na brisa fresca. Seu braço esquerdo descansa no joelho e a mão permanece relaxada, quase casual demais, enquanto segura e solta alguma coisa que não consigo ver. Inclino a cabeça, separo os lábios para fazer uma pergunta, mas ela logo me interrompe.
— Sabe de uma coisa? — ela de repente arrisca. — Eu nunca, nunca mesmo, tinha mostrado para ninguém o que era capaz de fazer.
Sou pega de surpresa.
— Ninguém? Nunca? — pergunto, espantada.
Nazeera nega com a cabeça.
— Por que não? — indago.
Ela passa um instante em silêncio antes de dizer:
— A resposta para essa pergunta é um dos motivos pelos quais eu queria conversar com você. — Leva uma mão distraída ao piercing de diamante no lábio, bate a ponta do dedo na pedra brilhante. — Então, você sabe de algo verdadeiro sobre o seu passado?
E a dor chega num átimo, como aço gelado, como facadas no peito. Lembretes dolorosos das revelações de hoje.
— Sei de algumas coisas — enfim respondo. — Para ser sincera, descobri a maioria delas hoje de manhã.
Nazeera assente.
— E foi por isso que saiu correndo daquele jeito?
Viro-me para encará-la.
— Você estava me espionando?
— Estava de olho em você, sim.
— Por quê?
Nazeera sorri, mas demonstra cansaço.
— Você realmente não lembra, não é?
Confusa, eu a encaro.
Ela suspira. Balança as duas pernas e olha para o horizonte.
— Deixe para lá — conclui.
— Não, espere aí… O que quer dizer com isso? Era para eu me lembrar de você?
Ela faz um gesto negativo com a cabeça.
— Não estou entendendo — digo.
— Esqueça — insiste. — Não é nada. Você só tem uma aparência muito familiar e, por uma fração de segundo, pensei que já tivéssemos nos conhecido antes.
— Ah — respondo. — Está bem.
Mas Nazeera se recusa a olhar para mim. Tenho a estranha sensação de que está escondendo alguma coisa.
Mesmo assim, continua sem dizer nada.
Parece perdida em pensamentos, mordisca o lábio enquanto fita o horizonte, e não fala nada durante um bom tempo.
— Hum, com licença? Você me colocou em uma árvore — enfim, digo. — Que diabos estou fazendo aqui? O que você quer?
Ela se vira para me encarar. É então que percebo que o objeto que segura é, na verdade, um saquinho de doces. Estende a mão, indicando com a cabeça que eu deveria aceitar um.
Porém, não confio em Nazeera.
— Não, obrigada — recuso.
Ela dá de ombros. Desembrulha um dos doces coloridos e o leva à boca.
— Então… o que Warner contou a você hoje?
— Por que quer saber?
— Ele contou que você tem uma irmã?
Sinto um nó de raiva se formando em meu peito. Não respondo.
— Vou entender essa reação como uma afirmativa — conclui. Morde o docinho duro. Mastiga baixinho ao meu lado. — Ele contou mais alguma coisa?
— O que você quer comigo? — exijo saber. — Quem é você?
— O que ele contou sobre seus pais? — Nazeera continua, ignorando-me mesmo enquanto me observa de canto de olho. — Contou que você foi adotada? Que seus pais biológicos ainda estão vivos?
Apenas a encaro.
Ela inclina a cabeça e me analisa.
— Warner contou qual é o nome deles?
Meus olhos ficam automaticamente arregalados.
Nazeera sorri, e o movimento ilumina seu rosto.
— Aí está — continua, acenando triunfantemente com a cabeça. Desembrulha outro doce e o leva à boca. — Hum.
— Aí está o quê?
— O momento em que a raiva termina e a curiosidade começa — responde.
Irritada, suspiro.
— Você sabe o nome dos meus pais?
— Eu nunca disse que sabia.
De repente, sinto-me exausta. Impotente.
— Será que todo mundo sabe mais do que eu mesma a respeito da minha vida?
Ela me encara. Desvia o olhar.
— Nem todo mundo. Aqueles de nós que temos posições altas no Restabelecimento sabemos muito, de fato. É nossa tarefa saber. Especialmente nós. — Olha-me nos olhos por um segundo. — Quero dizer, nós, os filhos. Nossos pais esperam que assumamos o poder um dia. Mas não, nem todo mundo sabe de tudo. — Ela sorri para alguma piada interna compartilhada apenas consigo mesma e prossegue: — Para dizer a verdade, a maioria das pessoas não sabe de merda nenhuma. — E franze a testa antes de concluir: — Mas me parece que Warner sabe mais do que pensei que soubesse.
— Então você conhece Warner há muito tempo?
Nazeera empurra o capuz um pouco para trás, de modo que eu possa ver seu rosto. Encosta em um galho e suspira.
— Ouça… — fala baixinho. — Eu só sei o que meu pai nos contou sobre vocês. Mas agora sou inteligente o bastante para sair atrás de informações, e acabei descobrindo que a maioria das coisas que ouvi eram bobagens. Enfim…
Ela hesita. Morde o lábio e hesita.
— Diga logo — peço, balançando a cabeça. — Eu já ouvi tantas pessoas me chamarem de louca por ter me apaixonado por ele. Você não seria a primeira.
— O quê? Não. Não acho que seja louca. Quero dizer, entendo por que as pessoas podem pensar que Warner seja sinônimo de problema, mas ele é parte do meu povo, entende? Conheci seus pais. Para ser sincera, Anderson fazia meu pai parecer um cara legal. Nós todos somos problemáticos, isso é verdade, mas Warner não é uma pessoa ruim. Só está tentando encontrar uma maneira de sobreviver a essa loucura, como o restante de nós.
— Ah! — exclamo, surpresa.
— Enfim — ela prossegue, dando de ombros. — Sério, eu entendo por que gosta dele. Mesmo se não entendesse… Quer dizer, não sou cega. — Ergue uma sobrancelha para mim, indicando que realmente compreende. — Entendo seus motivos, garota.
Continuo impressionada. Essa talvez seja a primeira vez que ouço uma pessoa defender Warner. Nazeera prossegue:
— Veja, estou tentando dizer que acho que pode ser um bom momento para você se concentrar um pouco em si mesma. Dar uma respirada. Além disso, Lena vai chegar a qualquer momento, então é melhor você ficar longe dessa situação pelo máximo de tempo que puder. — Lança outro olhar compreensivo para mim. — Não me parece que precise de mais drama na sua vida, e toda essa… — gesticula no ar — coisa está fadada a, você entende, ficar muito feia.
— O quê? — Franzo a testa. — Que coisa? Que situação? Quem é Lena?
A surpresa de Nazeera é tão repentina e tão sincera que não consigo deixar de me preocupar imediatamente. Meu pulso acelera quando ela se vira decidida para mim e diz, muito, muito lentamente:
— Lena. Lena Mishkin. É a filha da comandante suprema da Europa.
Encaro-a. Balanço a cabeça.
Nazeera fica de olhos arregalados.
— Você está de brincadeira, garota?
— O quê? — pergunto, agora assustada. — Quem ela é?
— Quem ela é? Está falando sério? É a ex-namorada de Warner.
Quase caio da árvore.
Engraçado, pensei que sentiria mais do que isso.
A Juliette de antigamente teria chorado. A Juliette submissa teria rachado no meio com o impacto repentino das muitas revelações de partir o coração, com o tamanho das mentiras de Warner, com a dor de se sentir tão profundamente traída.
Porém, essa nova versão minha se recusa a reagir; em vez disso, meu corpo se desliga.
Sinto os braços se afrouxarem enquanto Nazeera me apresenta detalhes do antigo relacionamento de Warner — detalhes que quero e não quero ouvir. Ela diz que Lena e Warner eram muito importantes para o mundo do Restabelecimento, e de repente três dedos na minha mão direita começam a se repuxar sem a minha permissão. Nazeera conta que a mãe de Lena e o pai de Warner ficaram animados com uma aliança entre as famílias, com um laço que só deixaria o regime mais forte, e sinto correntes elétricas percorrerem minhas pernas, dando choque e me paralisando ao mesmo tempo.
Nazeera conta que Lena se apaixonou por Warner — realmente se apaixonou por ele —, mas que Warner partiu seu coração, que nunca a tratou com nenhuma afeição real, que ela passou a odiá-lo por isso, que “Lena teve ataques de raiva depois de ouvir que ele se apaixonou por você, especialmente porque você, supostamente, teria acabado de sair de um hospício, e parece que isso foi um golpe pesadíssimo no ego dela”, e ouvir isso não me ajuda em nada a me acalmar.
Na verdade, faz com que me sinta estranha e diferente, como um espécime em um tanque, como se minha vida nunca tivesse sido minha, como se eu não passasse de uma atriz em uma peça dirigida por desconhecidos, e sinto um golpe de ar polar no peito, uma brisa amarga envolve meu coração e fecho meus olhos enquanto os golpes frios aliviam a dor, o ar gelado se fechando ao redor das feridas em minha carne.
Só então
Só então finalmente respiro, desfrutando do desligamento gerado por essa dor. Ergo o rosto, sentindo-me abatida e novinha em folha, olhos frios e inexpressivos enquanto pisco lentamente e digo:
— Como você sabe de tudo isso?
Nazeera puxa uma folha de um galho ao seu lado e a dobra entre os dedos. Dá de ombros.
— Vivemos em um círculo minúsculo e incestuoso. Conheço Lena desde sempre. Ela e eu nunca fomos exatamente próximas, mas vivemos no mesmo mundo. — Dá de ombros outra vez. — Ela realmente ficou louca por causa dele. Só sabia falar disso. E conversava com qualquer pessoa sobre esse assunto.
— Quanto tempo eles passaram juntos?
— Dois anos.
Dois anos.
A resposta é tão inesperadamente dolorosa que perfura minhas recém-adquiridas defesas.
Dois anos? Dois anos com outra garota e ele não me contou nada. Dois anos com outra. E quantas outras? Um choque de dor tenta se apossar de mim, tenta envolver meu coração gelado, mas consigo combatê-lo. Mesmo assim, algo quente e horrível se enterra em meu peito.
Não é ciúme.
Inferioridade. Inexperiência. Ingenuidade.
Quantas coisas mais vou descobrir sobre ele? Quantas outras coisas Warner escondeu de mim? Como posso voltar a confiar nele?
Fecho os olhos e sinto o peso da perda e da resignação se instalarem profundamente em meu interior. Meus ossos se mexem, se rearranjam para abrir espaço para essas novas dores.
Espaço para essa nova onda de raiva.
— Quando eles terminaram? — indago.
— Acho que… há uns oito meses?
Dessa vez paro de fazer perguntas.
Quero me transformar em uma árvore. Em um fiapo de grama. Quero me transformar em terra ou ar ou nada. Nada. Isso. Quero me transformar em nada.
Sinto-me uma total idiota.
— Não entendo por que Warner nunca contou a você — Nazeera continua falando, mas quase não consigo ouvi-la. — Não faz sentido. Foi uma notícia bombástica em nosso mundo.
— Por que você tem me seguido?
Mudo de assunto sem a menor sutileza. Meus olhos estão entreabertos; os punhos, fechados. Não quero mais falar sobre Warner. Nunca mais. Quero arrancar meu coração do peito e jogá-lo em nosso mar sujo de urina por tudo que me causou.
Não quero sentir mais nada.
Surpresa, Nazeera se endireita.
— Há muita coisa acontecendo agora. Há muita coisa que você não sabe, tantos absurdos que só agora está descobrindo. Quero dizer… nossa! Alguém tentou matá-la ainda ontem. — Balança a cabeça. — Só fiquei preocupada com você.
— Você nem me conhece. Por que se preocupa comigo?
Dessa vez, Nazeera não responde. Só me encara. Lentamente, desembrulha outro doce. Leva-o à boca e desvia o rosto.
— Meu pai me forçou a vir aqui — revela baixinho. — Eu não queria ser parte de nada disso. Nunca quis. Odeio tudo que o Restabelecimento representa. Mas disse a mim mesma que, se eu tivesse de vir para cá, cuidaria de você. Então, é isso que estou fazendo agora. Estou cuidando de você.
— Bem, não desperdice seu tempo — retruco, sentindo-me indiferente. — Não preciso de sua pena ou sua proteção.
Nazeera fica em silêncio. Por fim, suspira.
— Ouça, eu realmente sinto muito. Pensei que você soubesse sobre Lena, de verdade.
— Não estou nem aí para Lena — minto. — Tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar.
— Certo — ela responde. Pigarreia. — Eu sei. Mesmo assim, peço desculpas.
Não digo nada.
— Ei — ela me chama. — Sério, não queria chatear você. Só quero que saiba que não estou aqui para causar nenhum mal. Estou tentando cuidar de você.
— Não preciso que cuide de mim. Estou me saindo bem.
Ela revira os olhos.
— Eu não acabei de salvar sua vida?
Resmungo alguma besteira bem baixinho.
Nazeera nega com a cabeça.
— Você precisa se recompor, garota, ou não vai sair dessa com vida. Não tem ideia do que está acontecendo nos bastidores ou do que os outros comandantes estão reservando para você. — Não respondo, o que a faz prosseguir: — Lena não vai ser a última de nós a chegar, sabia? E ninguém está vindo aqui para fazer papel de bonzinho.
Ergo o rosto em sua direção. Meus olhos não transmitem nenhum sentimento.
— Ótimo — retruco. — Que venham.
Ela ri, mas é uma risada sem vida.
— Então você e Warner brigaram e agora você não se importa com mais nada? Quanta maturidade!
Uma chama se acende em mim. Sinto meus olhos se intensificarem.
— Se estou chateada agora é porque acabo de descobrir que todas as pessoas mais próximas andam mentindo para mim! — exclamo, furiosa. — Meus pais continuam vivos, e aparentemente não são nem um pouco melhores que os monstros abusivos que me adotaram. Tenho uma irmã sendo ativamente torturada pelo Restabelecimento. E eu nunca sequer soube que ela existia. Estou tentando aceitar o fato de que nada vai ser como era antes para mim, nunca mais, e não sei em quem confiar ou quem devo deixar no passado. Então, sim… — Agora estou quase gritando. — Neste momento, não me importo com nada. Porque não sei mais o que estou combatendo. E não sei quem são meus amigos. Neste momento, todos são meus inimigos, inclusive você.
Nazeera não se abala.
— Você pode lutar pela sua irmã — propõe.
— Eu nem sei quem ela é.
Olha-me de soslaio, tomada pela descrença.
— O fato de sua irmã ser uma garota inocente sendo torturada não é o bastante? Pensei que estivesse lutando por um bem maior.
Dou de ombros. Viro o rosto.
— Quer saber? Você não precisa se importar — ela continua. — Mas eu me importo. Eu me importo com o que o Restabelecimento fez e ainda faz com pessoas inocentes. Eu me importo com o fato de que nossos pais são todos uns psicopatas. Eu me importo muito com o que o Restabelecimento fez, em especial com aqueles de nós que têm habilidades especiais. E, para responder à pergunta que você fez um pouco antes: eu nunca contei a ninguém sobre meus poderes porque vi o que eles fizeram com pessoas como eu. Vi que as trancafiaram, torturaram, abusaram. — Olha-me nos olhos. — E não quero ser o próximo experimento.
Alguma coisa dentro de mim fica oca. Derrete para fora. De repente, sinto-me vazia e triste.
— Eu me importo — enfim, retruco. — Provavelmente me importo demais. — E a raiva de Nazeera diminui. Ela suspira. — Warner falou que o Restabelecimento quer me levar de volta — relato.
Ela assente.
— É provável que seja verdade.
— Para onde querem me levar?
— Isso eu não sei. — Dá de ombros. — Pode ser que queiram simplesmente matá-la.
— Obrigada pelas palavras de incentivo.
— Ou então… — continua, abrindo um leve sorriso. — Podem levá-la a outro continente. Novo codinome. Nova instalação.
— Outro continente? — pergunto, curiosa, mesmo contra minha vontade. — Eu nunca na vida pisei em um avião.
Por algum motivo, falei a coisa errada.
Nazeera parece quase arrasada por um segundo. A dor vem e vai no brilho de seus olhos e ela desvia o olhar. Pigarreia. Mas quando volta a me estudar, seu rosto carrega outra vez uma expressão neutra.
— É… Bem, você não está perdendo muita coisa.
— Você viaja muito? — pergunto.
— Viajo.
— De onde você é?
— Setor 2. Continente asiático. — E então me olha nos olhos. — Mas nasci em Bagdá.
— Bagdá — repito. O nome me soa familiar; tento me lembrar, tento localizar onde fica no mapa, até que ela esclarece
— Iraque.
— Ah! Nossa! — exclamo.
— Muita informação para absorver, não é?
— Sim — concordo baixinho. E então, odiando-me ainda mais por pronunciar essas palavras, não consigo deixar de perguntar: — De onde Lena é?
Nazeera ri.
— Pensei tê-la ouvido dizer que não se importava com Lena.
Fecho os olhos. Morrendo de vergonha, faço que não com a cabeça.
— Ela nasceu em Peterhof, no subúrbio de São Petersburgo.
— Rússia — afirmo, aliviada por finalmente conhecer uma dessas cidades. — Guerra e Paz.
— Excelente livro — Nazeera elogia. — Uma pena que continue na lista das obras para queimar.
— Lista das obras para queimar?
— Obras que devem ser destruídas — esclarece. — O Restabelecimento tem um plano ambicioso de recriar a língua, a literatura e a cultura. Querem formar um novo tipo de… — faz um gesto aleatório com a mão — humanidade universal.
Horrorizada, assinto. Eu já sabia disso. O primeiro a me contar foi Adam, logo depois que foi designado como meu companheiro de cela no hospício. E a ideia de destruir a arte, a cultura, tudo o que faz os seres humanos serem diversos e lindos…
Isso me dá náuseas.
— Enfim — ela prossegue —, obviamente é um experimento grotesco e asqueroso, mas temos que seguir o protocolo. Recebemos listas de livros para analisar e os lemos, fazemos relatórios, decidimos o que manter e o que jogar fora. — Suspira. — Finalmente terminei de ler a maioria dos clássicos há alguns meses, mas, no começo do ano passado, fomos forçados a ler Guerra e Paz em cinco línguas porque queriam analisar como a cultura exerce um papel na manipulação das traduções de um mesmo texto. — Hesita, lembrando. — Sem dúvida, a versão mais divertida de ler foi a francesa. Mas me pareceu que a melhor de todas é a russa. Em todas as traduções, em especial nas de língua inglesa, fica faltando aquela… toska necessária. Entende?
Fico ligeiramente boquiaberta.
É o jeito como ela fala — como se não fosse nada de mais, como se estivesse falando de algo perfeitamente corriqueiro, como se qualquer um pudesse ler Tolstói em cinco línguas diferentes e guardar os livros no fim da tarde. É sua confiança tranquila e natural que faz meu coração murchar. Precisei de um mês para ler Guerra e Paz. Em inglês.
— Certo — digo, virando o rosto. — É… Que… hum, interessante.
Está se tornando familiar demais, essa sensação de inferioridade. Poderosa demais. Toda vez que penso que fiz algum avanço na vida, algo parece me fazer lembrar do quanto ainda tenho que progredir. Mas não acho que seja culpa de Nazeera o fato de ela e os outros filhos terem sido criados para se tornarem gênios violentos.
— Então — ela fala, unindo as mãos —, há algo mais que queira saber?
— Sim — respondo. — Qual é a do seu irmão?
Nazeera parece surpresa.
— Haider? — Ela hesita. — O que quer saber a respeito dele?
— Quer dizer… — Franzo o cenho. — Ele é leal a seu pai? Ao Restabelecimento? É digno de confiança?
— Não sei se o chamaria de digno de confiança — responde, parecendo pensativa. — Mas acho que todos nós temos uma relação complicada com o Restabelecimento. Haider quer fazer parte de tudo isso tanto quanto eu quero.
— Sério?
Nazeera assente.
— Warner provavelmente não considera nenhum de nós seus amigos, mas Haider sim. Sabe, meu irmão passou por um período muito sombrio no ano passado. — Nazeera fica em silêncio. Puxa outra folha de um galho próximo. Dobra-a e a redobra entre os dedos enquanto diz: — Meu pai o vinha pressionando demais, forçando-o a passar por um treinamento realmente intensivo, cujos detalhes Haider ainda não se sente pronto para dividir comigo. Algumas semanas depois, ele entrou em uma espiral. Começou a demonstrar tendências suicidas. Automutilação. E eu fiquei com muito medo. Procurei Warner porque sabia que Haider o ouviria. — Balança a cabeça. — Warner não disse uma única palavra. Apenas embarcou em um avião e passou algumas semanas conosco. Não sei o que ele disse a Haider. Não sei o que ou como fez para ajudar meu irmão. — Olha para o horizonte, dá de ombros. — É difícil esquecer algo assim. E tudo isso enquanto nossos pais trabalhavam para nos colocar uns contra os outros. Eles querem evitar que nos tornemos sentimentais demais. — Nazeera ri. — Mas isso é uma bobagem gigantesca.
Impressionada, sinto o mundo à minha volta girar.
Há tanto a desvendar aqui e nem sei por onde começar. Não sei se quero começar. Todos os comentários de Nazeera sobre Warner parecem perfurar meu coração. E me fazem sentir saudade dele.
E me fazem querer perdoá-lo.
Mas não posso deixar as emoções me controlarem. Não agora. Nem nunca. Então, forço esses sentimentos a se calarem, a abandonarem minha cabeça, e apenas digo:
— Nossa, e eu pensando que Haider era um idiota…
Nazeera sorri. Acena distraidamente com a mão.
— Ele está trabalhando para melhorar.
— Haider tem alguma… habilidade sobrenatural?
— Nenhuma que eu conheça.
— Ah.
— Sim.
— Mas você pode voar — comento.
Nazeera assente.
— Que interessante.
Ela abre um sorriso enorme e se vira para me encarar. Seus olhos são enormes, brilham lindamente sob a luz filtrada pelos galhos e folhas. Sua animação é tão pura que faz alguma coisa em meu interior se recolher e morrer.
— Voar é tão mais do que apenas interessante — declara.
E é então que sinto uma pontada de algo novo:
Ciúme.
Inveja.
Indignação.
Minhas habilidades sempre foram uma maldição, uma fonte de dores e conflitos infinitos. Tudo em mim é projetado para matar e destruir, e essa é uma verdade que nunca fui capaz de aceitar plenamente.
— Deve ser legal — concordo.
Ela vira o rosto outra vez, sorrindo para o vento.
— E a melhor parte? É que também posso fazer isso…
De repente, Nazeera fica invisível.
Eu me afasto bruscamente.
E então ela volta, com um sorriso enorme estampado no rosto.
— Não é incrível? — diz, os olhos brilhando de animação. — Nunca pude compartilhar isso com ninguém.
— Ah… sim. — Rio, mas é um riso que soa falso, alto demais. — Muito legal. — E acrescento mais baixo: — Kenji vai ficar irritadíssimo.
Nazeera para de sorrir.
— O que ele tem a ver com isso?
— Bem… — Olho na direção dela. — Quer dizer, isso que você acabou de fazer? É uma coisa do Kenji, e ele não costuma gostar de dividir os holofotes.
— Eu não sabia que existia outra pessoa com o mesmo poder — diz, visivelmente decepcionada. — Como isso é possível?
— Não sei — respondo, de repente sentindo uma vontade enorme de rir. Nazeera se mostra tão determinada a não gostar de Kenji que já começo a me perguntar o motivo por trás disso. E então, imediatamente me lembro das revelações horríveis de hoje e o sorriso se desfaz em meu rosto. — Sabe... — apresso-me em dizer. — Devemos voltar para a base? Ainda tenho muitas coisas a descobrir, inclusive como lidar com esse simpósio ridículo que acontecerá amanhã. Não sei se dar cano ou…
— Não dê cano — ela me interrompe. — Se você não for, eles podem pensar que você sabe de alguma coisa. Não deixe as pessoas saberem sobre você. Ainda não. Apenas siga os protocolos até conseguir concluir seus planos.
Encaro-a. Estudo-a. Enfim, digo:
— Está bem.
— E, quando decidir o que quer fazer, converse comigo. Sempre posso ajudar a evacuar as pessoas, cuidar das coisas. Lutar. O que for preciso. Apenas fale comigo.
— O quê? — Franzo o cenho. — Evacuar pessoas? Do que está falando?
Ela sorri enquanto me oferece um aperto de mão.
— Garota, você ainda não entendeu, não é? Por que acha que estamos aqui? O Restabelecimento planeja destruir o Setor 45. — Olha com seriedade para mim. — E isso inclui todas as pessoas dentro do setor.

10 comentários:

  1. Ele realmente omitiu muito dela. Não é surpreendente que ela não tenha gostado, poxa...
    Mas a Juliette tem uma noção de como ele já foi. Deve ser realmente difícil pra ele entender os lances básicos dos relacionamentos sociais quando o amor é algo que ele nunca aprendeu. Ele não fez nada por mal.

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  2. a Nazeera já se tornou um dos meus personagens favoritos!!!

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  3. Eu disse que a Nazeera é a Rainha do lacre <3

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  4. Não sei pq mais não gostei de Lena kkkk

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  5. Amei Nazeera, já shippo ela com kenji

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  6. Pq ela ta tão bolada por o Warner ter tido outras namoradas??
    Ela achou que ele so passou a ter vida dps q se conheceram? Serio?
    Bem.., seu eu fosse ela voltaria pra base, mesmo q não voltasse cm Warner, ia me arrumar e pisar nessa tal de Lena cm um super salto agulha de diamante. Kkkkk

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  7. Ela está começando a sustar de novo. Esses trechos do diário dela só mostram como ela é meio instável. Eu acho que é mais insegurança do que quakquer coisa. Afinal, ela tem 17 anos e passou 12 deles isolada do mundo e outras pessoas.

    A Nazeera é o Kenji são os melhores. Shippei desde o primeiro encontro S2

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  8. Sabia que eu tinha um motivo pra adorar a Nazeera logo de cara! É tão diva lacradora essa moça ❤

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  9. Ah Ju. .. vai lá. ... Se impõe pra essa Lena, mostra que o mozão é seu. Perdoa ele vai. E poxa. ... vc se iludiu que foi a primeira namorada dele é! Não basta ouvir que ele não sentia nada pela outra?

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!