15 de junho de 2018

Warner

Já vi muitas coisas estranhas na vida, mas nunca pensei que teria o prazer de ver Kishimoto calar a boca por mais do que cinco muitos. E aqui estamos nós. Em outra situação, talvez eu apreciasse um momento como esse. Infelizmente, porém, agora sou incapaz de desfrutar até mesmo desse pequeno prazer.
Seu silêncio é enervante.
Já se passaram cinco minutos desde que terminei de dividir com Kenji os mesmos detalhes que compartilhei com Juliette mais cedo, e ele não disse uma palavra sequer. Está sentado num canto, em silêncio, a cabeça encostada à parede, cenho franzido e se recusando a falar. Só encara o nada, olhos estreitados, focados em algum ponto invisível do outro lado do quarto.
De vez em quando, suspira.
Estamos aqui há quase duas horas, só nós dois. Conversando. E, de todas as coisas que eu previ para hoje, certamente não imaginei que elas envolveriam Juliette correndo para longe de mim ou eu me tornando amigo desse idiota.
Ah, para que servem os planos, não é mesmo?
Finalmente, depois do que parece ter sido uma enorme quantidade de tempo, ele se pronuncia:
— Não consigo acreditar que Castle não me contou — é a primeira coisa que diz.
— Todos nós temos nossos segredos.
Ele ergue o rosto e me olha nos olhos. Com ares nada agradáveis.
— Você tem mais algum segredo que eu deva saber?
— Nada que deva saber, não.
Ele ri, mas seu riso soa triste.
— Você nem se dá conta do que está fazendo, não é?
— Me dar conta de quê?
— De que está se enfiando em toda uma vida de dor, irmão. Não pode continuar vivendo assim. — Ele aponta para meu rosto antes de prosseguir: — Aquele… aquele você de antigamente? Aquele cara confuso que nunca se expressa e nunca sorri e nunca diz nada positivo e nunca deixa ninguém conhecê-lo de verdade… Você não pode ser esse cara se quiser manter qualquer tipo de relacionamento.
Arqueio uma sobrancelha.
Ele balança a cabeça.
— Não pode, cara, não dá. Não pode estar com alguém e guardar tantos segredos dela.
— Isso nunca me impediu de estar com alguém antes.
Nesse momento, Kenji hesita. Seus olhos ficam ligeiramente mais abertos.
— Que história é essa de “antes”?
— Antes — reitero. — Em outros relacionamentos.
— Então, hum, você teve outros relacionamentos? Antes de Juliette?
Inclino a cabeça para ele.
— Para você, é difícil acreditar.
— Ainda estou tentando processar o fato de que você tem sentimentos, então, sim, para mim é difícil acreditar.
Pigarreio muito discretamente. Desvio o olhar.
— Então, hum… você… é… — Ele ri com nervosismo. — Desculpe, mas tipo, Juliette sabe que você teve outros relacionamentos? Porque ela nunca comentou nada a respeito e acho que algo desse tipo seria, não sei… relevante?
Viro-me para encará-lo.
— Não.
— Não o quê?
— Não, ela não sabe.
— Por que não?
— Por que nunca perguntou.
Boquiaberto, Kenji me encara.
— Desculpe, mas você… Quer dizer, você realmente é tão idiota quanto parece? Ou só está me zoando?
— Tenho quase vinte anos — respondo, irritado. — Acha mesmo tão estranho assim eu já ter me envolvido com outras mulheres?
— Não. Pessoalmente, estou cagando e andando para quantas mulheres você já teve. O que acho estranho é você nunca ter contado à sua namorada que já se envolveu com outras mulheres. E, para ser totalmente sincero, isso me faz questionar se o relacionamento de vocês já não estava indo para o inferno.
— Você não tem a menor ideia do que está falando. — Meus olhos se fecham. — Eu a amo. Jamais faria qualquer coisa para magoá-la.
— Então, por que mentiria para ela?
— Por que você fica insistindo nisso? Quem se importa se já tive ou não outras mulheres? Elas não significaram nada para mim…
— Cara, você está com algum problema na cabeça.
Fecho os olhos, de repente me sentindo exausto.
— De tudo o que compartilhei com você hoje, essa é a questão que você mais quer discutir?
— Só acho que seja importante, sabe, se você e J querem reparar esse dano. Você precisa dar um jeito na sua vida.
— O que quer dizer com reparar esse dano? — indago, abrindo os olhos num ímpeto. — Eu já perdi Juliette. O dano já está feito.
Ao ouvir minhas palavras, Kenji parece surpreso.
— Então é isso? Você vai simplesmente sair andando com o rabo entre as pernas? Toda essa conversa de “eu amo Juliette blá-blá-blá” para isso?
— Ela não quer ficar comigo. Não vou tentar convencê-la de que está errada.
Kenji começa a rir.
— Caramba! — exclama. — Acho que você precisa apertar uns parafusos aí nessa sua cabeça.
— Perdão?
Ele se levanta.
— Que se dane, irmão. A vida é sua, o problema é seu. Eu gostava mais de você quando estava chapadão de remédio.
— Diga-me uma coisa, Kishimoto…
— O quê?
— O que me levaria a aceitar os seus conselhos de relacionamento? O que sabe sobre relacionamentos além do fato de que nunca teve um?
Um músculo se repuxa em seu maxilar.
— Nossa! — Assente, depois desvia o olhar. — Quer saber? — Ergue o dedo do meio para mim. — Não venha fingindo que sabe da minha vida, cara. Você não sabe merda nenhuma a meu respeito.
— Você também não me conhece.
— Mas sei que é um idiota.
De repente, inexplicavelmente, eu me toco.
Meu rosto fica pálido. Sinto-me instável. Não tenho mais força para brigar e nem interesse em me defender. Sou mesmo um idiota. Sei quem sou. As coisas terríveis que fiz. Sou indefensável.
— Você está certo — respondo, mas falando baixinho. — E também tenho certeza de que está certo quando diz que tem muita coisa que não sei a seu respeito.
Kenji parece relaxar um pouco.
Seus olhos demonstram compaixão quando ele diz:
— Realmente, não acho que tenha que perdê-la. Não assim. Não por causa disso. O que você fez foi… Sim, foi mais do que horrível. Torturar a irmã dela? Tipo… Sim… Claro… Assim, são dez em dez as chances de você ir para o inferno por causa do que fez.
Encolho-me.
— Mas isso aconteceu antes de você conhecê-la, não foi? Antes de tudo isso… — ele diz, agitando a mão no ar —, você sabe, antes de acontecer o que quer que tenha acontecido entre vocês. E eu conheço Juliette, sei o que ela sente por você. Pode ser que consigam salvar esta relação. Eu não perderia as esperanças ainda.
Quase abro um sorriso. Quase dou risada.
Mas não faço nem uma coisa nem outra.
Apenas falo:
— Lembro-me de Juliette ter me contado que você falou algo parecido a Kent pouco depois que eles terminaram. Que se colocou expressamente contra o que ela queria. Disse a Kent que ela ainda o amava, que queria voltar com ele… E disse exatamente o oposto do que ela sentia. Ela ficou furiosa.
— Era outra situação. — Kenji franze o cenho. — Era, tipo… você sabe… eu só estava… tentando ajudar? Porque a situação era muito complicada, logisticamente falando.
— Obrigado por tentar me ajudar, mas não vou implorar para ela voltar comigo. Não se não é isso o que ela quer. — Desvio o olhar. — Enfim, ela sempre mereceu alguém melhor. Talvez essa seja a chance dela.
— Ah, não. — Kenji arqueia uma sobrancelha. — Então se, tipo, amanhã ela resolver ficar com algum outro cara por aí, você vai simplesmente dar de ombros e tipo… sei lá. Trocar um aperto de mãos com o cara? Levar o casalzinho feliz para jantar? Sério?
É só uma ideia.
Um cenário hipotético.
Mas a possibilidade acende minha mente: Juliette se divertindo, rindo com outro homem…
E ainda pior: as mãos dele no corpo dela, ela com os olhos entreabertos e cheia de desejo…
De repente, sinto como se tivesse levado um soco no estômago.
Fecho os olhos. Tento me manter calmo.
Mas agora não consigo parar de imaginar a cena: outro homem conhecendo-a do jeito que a conheci, no escuro, nas horas silenciosas antes da alvorada — os beijos doces dela, os gemidos de prazer…
Não posso. Não consigo.
Estou sem ar.
— Ei, sinto muito… Foi só uma pergunta…
— Acho melhor você ir embora — peço, sussurrando as palavras. — Melhor você ir.
— Sim… Quer saber? Certíssimo. Excelente ideia. — Ele assente várias vezes. — Sem problema. — Mas não se mexe.
— O que foi? — esbravejo.
— Eu só… é… — De pé, ele balança para um lado e para o outro. — Eu estava me perguntando se você... se queria mais daqueles remedinhos. Antes de eu dar o fora daqui.
— Caia. Fora.
— Está bem, cara, sem problemas. É, eu só vou…
De repente, alguém começa a bater na porta do meu quarto.
Olho para cima. Olho em volta.
— Quer que eu… — Kenji me encara com um ponto de interrogação nos olhos. — Quer que eu atenda?
Lanço um olhar fulminante para ele.
— Está bem, eu atendo. — E corre em direção à porta.
É Delalieu, parece em pânico.
Preciso fazer um esforço hercúleo, mas consigo me recompor.
— Não podia ter ligado, tenente? Os telefones não servem para isso?
— Eu tentei, senhor. Faz mais de uma hora que estou tentando, mas ninguém atende, senhor…
Viro o pescoço e suspiro, alongando os músculos, mesmo enquanto eles voltam a ficar tensos.
Culpa minha.
Desliguei o telefone ontem à noite. Não queria distrações enquanto analisava os arquivos de meu pai e, com toda a loucura de hoje de manhã, esqueci de religar a linha. Já começava mesmo a me perguntar por que tinha passado tanto tempo sem ninguém me incomodar.
— Tudo bem — respondo, interrompendo-o. — Qual é o problema?
— Senhor… — Engole em seco. — Tentei entrar em contato com o senhor e com a Senhora Suprema, mas os dois passaram o dia todo sem poder atender e…
— O que foi, tenente?
— A comandante suprema da Europa enviou sua filha, senhor. Ela apareceu sem avisar há algumas horas, e me parece que está dando um escândalo, alegando que foi ignorada e eu não sabia ao certo o que fa-fazer…
— Bem, diga a ela para sentar aquele rabo e esperar — Kenji responde, irritado. — Que história é essa de fazer escândalo? Nós temos muita merda para resolver aqui.
Mas eu fiquei inesperadamente sólido. Como se o sangue em minhas veias tivesse coagulado.
— Certo? — Kenji continua, usando o braço para me cutucar. — Qual é o problema, cara? Delalieu… — ele chama, ignorando-me —, diga a ela que relaxe. Nós já descemos. Este cara aqui precisa tomar um banho e se vestir direito. Ofereça almoço ou alguma coisa para ela comer, está bem? Nós já vamos.
— Sim, senhor — Delalieu responde discretamente. Está falando com Kenji, mas lança um olhar de preocupação para mim.
Não respondo. Não sei o que dizer.
As coisas estão acontecendo rápido demais. Fissão e fusão em todos os lugares errados, tudo ao mesmo tempo.
Somente quando Delalieu já se foi e a porta está fechada é que Kenji finalmente fala:
— O que foi? Por que parece tão assustado?
Então, descongelo. Meus membros lentamente retomam as sensações. Viro-me para encará-lo.
— Você acha mesmo que preciso contar a Juliette sobre as outras mulheres com quem estive? — pergunto com cuidado.
— Ah, sim. Mas o que isso tem a ver com…
Encaro-o.
Ele me encara em resposta. Fica boquiaberto.
— Você quer dizer que… com essa garota… que está lá embaixo?
— As filhas dos comandantes supremos… — tento explicar, apertando os olhos enquanto falo. — Nós… nós basicamente crescemos juntos. Conheço a maioria dessas meninas desde muito novo. — Observo-o, enquanto tento parecer tranquilo. — Era inevitável, de verdade. Não deve ser nenhuma surpresa.
Mas as sobrancelhas de Kenji já estão lá no alto. Ele tenta evitar um sorriso enquanto me dá um tapa, forte demais, nas costas.
— Prepare-se para enfrentar um mundo de sofrimento, irmão. Um mundo. De. Sofrimento.
Nego com a cabeça.
— Não é necessário fazer tanto drama assim. Juliette não precisa saber. Ela não está nem falando comigo agora.
Kenji ri. Olha para mim com algo que parece ser comiseração.
— Você não sabe nada sobre mulheres, sabe? — Não respondo, o que o faz prosseguir: — Acredite em mim, cara, posso apostar qualquer coisa que, onde quer que esteja agora, em qualquer lugar por aí, ela já sabe. E se não souber ainda, não vai demorar a descobrir. As garotas conversam sobre tudo.
— Como isso é possível?
Ele dá de ombros.
Eu suspiro. Passo a mão pelos cabelos antes de dizer:
— Bem, que importância tem isso? Será que não temos assuntos mais relevantes a tratar do que os detalhes dos meus relacionamentos anteriores?
— Em uma situação de normalidade? Sim. Mas se a comandante suprema da América do Norte é sua ex-namorada, e considerando que já está bastante estressada porque você andou mentindo para ela? E então, de repente, sua outra ex-namorada aparece e Juliette nem sabe a respeito dela? E ela percebe que, tipo, você também mentiu sobre outras mil coisas…
— Eu nunca menti para ela sobre isso — interrompo-o. — Ela nunca perguntou…
— … e então, nossa comandante suprema poderosa pra caralho fica, tipo, super, superputa da vida? — Kenji dá de ombros. — Não sei não, cara, mas não vejo essa situação terminando bem.
Solto a cabeça nas mãos. Fecho os olhos.
— Preciso tomar banho.
— E… hum… essa é a minha deixa para ir embora.
De repente, ergo o olhar e pergunto:
— Tem algo mais que eu possa fazer para evitar que essa situação piore ainda mais?
— Ah, então agora você resolveu ouvir meus conselhos de relacionamento?
Engulo o impulso de revirar os olhos.
— Na verdade, não sei, cara — Kenji continua, e suspira. — Acho que dessa vez você vai ter de enfrentar as consequências da sua própria burrice.
Desvio o olhar, contenho uma risada e assinto várias vezes enquanto digo:
— Kishimoto, vá para o inferno.
— Estou logo atrás de você, irmão. — Ele pisca com um olho para mim. Só uma vez.
E vai embora.

8 comentários:

  1. Eles dois amigos sao uma graça
    Amei

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  2. Não tem nada mais lindo do que um bromance... Shipando "Kenner"
    kkkkkkk

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  3. Estou logo atrás de você kkkkkkk

    Ai credo, e eu aqui achando que Warner era td puro e pleno

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  4. Acho que alguém vai se encrencar

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  5. Amo esses dois kkk mano do céu !!
    - Thalita G.

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  6. Tô amando essa nova amizade!

    Flavia

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  7. Realmente entende tudo de relacionamento esse Kenji. Rsrsrs

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Boa leitura, E SEM SPOILER!