15 de junho de 2018

Juliette

Corra, falei a mim mesma.
Corra até seus pulmões entrarem em colapso, até o vento chicotear e rasgar suas roupas já surradas, até se tornar uma mancha que se mistura com o fundo.
Corra, Juliette, corra mais rápido, corra até seus ossos fraturarem e sua canela quebrar e seus músculos atrofiarem e seu coração desfalecer porque ele sempre foi grande demais para o seu peito e bate rápido demais por tempo demais e corra.
Corra corra corra até não ouvir os pés deles batendo atrás de você. Corra até eles baixarem os punhos e seus gritos se dissolverem no ar. Corra de olhos abertos e boca fechada e represe o rio que corre por trás de seus olhos. Corra, Juliette.
Corra até cair morta.
Certifique-se de que seu coração pare antes de eles a alcançarem. Antes que consigam tocar em você.
Corra, eu falei.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

Meus pés batem contra o chão duro e batido, cada passada firme enviando choques de dor elétrica perna acima. Meus pulmões queimam, a respiração é rápida e intensa, mas eu me esforço para superar a exaustão, os músculos trabalhando mais assiduamente do que há muito tempo, e continuo em movimento.
Nunca fui boa nisso. Sempre tive dificuldade para respirar. Mas passei a fazer bastante cardio e musculação desde que me mudei para a base, e fiquei muito mais forte.
Hoje, colho os resultados desses treinos.
Já percorri pelo menos alguns quilômetros, pânico e raiva me impulsionando a seguir em frente, mas agora tenho que ir além da minha resistência para manter o embalo. Não posso parar. Não vou parar.
Ainda não estou pronta para começar a pensar.
Hoje é um dia perturbadoramente lindo; o sol brilha alto e forte; os pássaros, que eu pensava nem existirem mais, cantam felizes nas árvores que já florescem, batem as asas no céu azul e vasto. Estou usando uma blusa de algodão fino. Calça jeans escura. Outro par de tênis. Meus cabelos, soltos e longos, formam ondas atrás de mim, envolvidos em uma batalha contra o vento. Sinto o sol aquecer meu rosto; sinto gotas de suor escorrendo por minhas costas.
Será que tudo isso é real? — pergunto-me.
Alguém atirou em mim de propósito com aquelas balas envenenadas? Para tentar me comunicar alguma coisa?
Ou minhas alucinações nada têm a ver com isso?
Fecho os olhos e empurro as pernas com mais força, insistindo para que me levem mais rápido. Ainda não quero pensar. Não quero parar de me movimentar. Se eu parar, minha mente pode me matar.
Um golpe repentino de vento atinge meu rosto. Abro novamente os olhos, lembro-me de respirar. Estou outra vez no território não regulamentado, meus poderes totalmente ligados, a energia zumbindo em meu interior mesmo agora, em movimento constante. As ruas do antigo mundo são pavimentadas, mas também pontuadas por buracos e poças d’água. Os prédios estão abandonados, altos e frios; fios elétricos se espalham no horizonte como a partitura de uma composição não concluída, balançando levemente sob a luz da tarde. Corro por debaixo de uma ponte decadente e por uma escada de concreto ladeada por palmeiras malcuidadas e postes com lâmpadas queimadas. O corrimão de ferro forjado se mostra desgastado, a tinta já descascando. Entro e saio de algumas ruas laterais e então estou cercada, por todos os lados, pelo esqueleto de uma antiga rodovia de 12 pistas, com uma enorme estrutura de metal parcialmente em colapso ali no meio. Aproximo-me e conto três igualmente impressionantes placas verdes, sendo que apenas duas continuam penduradas. Leio as palavras…
405 SOUTH LONG BEACH
… e paro.
Dobro o corpo para a frente, cotovelos nos joelhos, mãos unidas atrás da cabeça, e enfrento a necessidade de cair no chão.
Inspiro.
Expiro.
Várias e várias vezes.
Ergo o olhar, analiso o que há à minha volta.
Avisto um velho ônibus não muito longe de onde estou, suas rodas atoladas em uma poça enorme de água parada, apodrecendo, enferrujando, como uma criança abandonada pisando em sua própria sujeira. Placas de trânsito, vidros estilhaçados, borracha em farrapos e um para-choque esquecido emporcalham o que restou do asfalto destruído.
O sol me encontra e brilha na minha direção, um holofote para a garota cansada parada no meio do nada, e sou capturada por seus raios de calor concentrados, derretendo lentamente de dentro para fora, entrando em colapso enquanto minha mente tenta acompanhar o ritmo do corpo, como um asteroide caindo na Terra.
E então me dou conta…
Os lembretes são como reverberações
As memórias são como mãos se fechando ao redor da minha garganta
Lá está
Lá está ela
outra vez estilhaçada.
Curvo o corpo, encostando-o contra a parte traseira do ônibus imundo, e deixo a mão tapar a boca para calar meus gritos, mas suas tentativas desesperadas de escapar por meus lábios enfrentam uma maré de lágrimas não derramadas que não posso deixar escorrerem e…
respire
Meu corpo treme com a emoção represada. O vômito sobe pelo esôfago.
Vá embora, sussurro, mas só na minha cabeça
vá embora, digo
Por favor, morra
Eu acorrentei a menininha aterrorizada do meu passado em alguma masmorra desconhecida dentro de mim, onde ela e seus medos foram cuidadosamente mantidos, isolados do mundo.
Suas lembranças, sufocadas.
Sua raiva, ignorada.
Não converso com ela. Não me atrevo a olhar para ela. Eu a odeio.
Mas, nesse exato momento, eu a ouço chorar.
Nesse momento, posso vê-la, essa outra versão de mim mesma. Posso vê-la esfregando as unhas sujas nas câmaras do meu coração, arrancando sangue. E se eu pudesse alcançar meu interior e extirpá-la de mim usando minhas próprias mãos, faria justamente isso.
Arrebentaria seu corpinho no meio.
Arremessaria seus membros mutilados no mar.
Eu me livraria completamente dela, apagaria suas marcas da minha alma para sempre. Mas ela se recusa a morrer. Continua dentro de mim, um eco. Assombra os corredores do meu coração e da minha mente, e embora eu ficasse feliz em matá-la em busca de uma chance de ser livre, não consigo. É como tentar sufocar um fantasma.
Então, fecho os olhos e imploro a mim mesma para ser corajosa. Respiro fundo, várias vezes. Não posso deixar a menina alquebrada que existe dentro de mim absorver tudo o que me tornei. Não vou me estilhaçar, não outra vez, no rastro de um terremoto emocional.
Mas por onde posso começar?
Como faço para encarar tudo o que está acontecendo? As últimas semanas já foram demais para mim; demais para enfrentar; demais para lidar. Tem sido complicado admitir que não sou qualificada, que estou envolvida demais em uma situação difícil, mas cheguei lá. Estava disposta a reconhecer que tudo isso — essa nova vida, esse novo mundo — requereria tempo e experiência. Estava disposta a me dedicar horas a confiar em minha equipe, a ser diplomática. Mas agora, à luz de tudo isso…
Toda a minha vida foi um experimento.
Tenho uma irmã. Uma irmã. E pai e mãe diferentes, pais biológicos, que não me trataram diferente dos adotivos, que doaram meu corpo para pesquisas como se eu não fosse nada além de uma experiência científica.
Anderson e os outros comandantes supremos sempre souberam quem eu era. Castle sempre soube a verdade a meu respeito. Warner sabia que eu fora adotada.
E agora, reconhecer que aqueles em quem mais confiei mentiram para mim, me manipularam…
Que todo mundo estava me usando
Rasgando meus pulmões, sai o grito repentino. Liberta-se do meu peito sem aviso, sem permissão, e é um grito tão alto, tão duro e violento, que me deixa de joelhos. Minhas mãos empurram o asfalto, a cabeça inclinada entre as pernas. O barulho da minha agonia se perde no vento, é levado pelas nuvens.
Mas aqui, entre meus pés, o chão se abriu.
Surpresa, levanto-me com um salto e olho para baixo, giro. De repente não consigo mais me lembrar se essa rachadura já estava ou não aqui.
A força da minha frustração e confusão me leva de volta ao ônibus, onde solto a respiração e me apoio na porta traseira, na esperança de encontrar um lugar para descansar a cabeça. Mas minhas mãos e minha cabeça rasgam as paredes do veículo como se fossem feitas de papel de seda, e caio no chão imundo, mãos e joelhos batendo direto no metal.
Por algum motivo, isso me deixa ainda mais furiosa.
Meu poder está descontrolado, alimentado por minha mente descuidada, por meus pensamentos ferozes. Não consigo focar minha energia como Kenji me ensinou e ela se espalha por todos os lugares, por toda a minha volta, dentro e fora de mim, e o problema é que a essa altura não estou mais nem aí.
Não me importo, não neste momento.
Sem pensar, estendo a mão e arranco um dos bancos do ônibus e o lanço com força no para-brisa. Vejo vidro voar por todos os lados; um enorme caco me atinge no olho e vários outros voam em minha boca aberta e nervosa. Ergo a mão e encontro cacos na manga da blusa, cacos que brilham como minúsculos pingentes de gelo. Cuspo os pedaços que estão na minha boca. Tiro outros da blusa. E então puxo um fragmento de vidro de três centímetros de dentro da pálpebra e o jogo fora. Ele cai com um leve tinido no chão.
Meu peito lateja.
Enquanto arranco mais um banco, penso: o que eu faço agora? Jogo-o direto em uma janela, estilhaçando mais um vidro e rasgando mais uma parte metálica do ônibus. Meu instinto força meu braço a se erguer para proteger os olhos dos cacos voando, mas não consigo nem tremer. Estou furiosa demais para me importar. Nesse momento, sou poderosa demais para sentir dor. O vidro bate em meu corpo e ricocheteia. Fiapos de aço parecidos com lâminas batem contra minha pele e caem no chão. Quase tenho vontade de sentir alguma coisa. Qualquer coisa.
O que eu faço?
Soco a parede e não encontro alívio no gesto; minha mão passa direto pelo metal. Chuto um banco e não me sinto mais reconfortada; meu pé atravessa o estofamento barato. Volto a gritar, em parte furiosa, em parte magoada, e dessa vez observo uma longa e perigosa fenda se abrir no teto.
Isso é novidade para mim.
E mal tive tempo de pensar quando o ônibus dá um chacoalhão inesperado, escancarando-se com um tremor repentino e se partindo ao meio.
As duas metades desmoronam, uma de cada lado, fazendo-me tropeçar para trás. Caio em uma pilha de metal e vidro molhado e sujo e, perplexa, forço-me a ficar de pé.
Não sei o que acabou de acontecer.
Eu sabia que era capaz de projetar minhas habilidades — minha força, essa sim eu sabia —, porém, não sabia que podia projetar força com a minha voz. Velhos impulsos me fazem desejar ter alguém com quem debater sobre esse assunto. Mas não tenho mais ninguém com quem conversar.
Warner, fora de questão.
Castle é cúmplice.
E Kenji… o que pensar de Kenji? Será que também sabia da existência de meus pais, da minha irmã? Castle certamente contou a ele, não?
O problema é que não posso mais ter certeza de nada.
Não resta ninguém em quem confiar.
Mas essas palavras — esse simples pensamento — de repente trazem à tona uma lembrança. É algo nebuloso, que tenho de buscar na memória. Agarro-a e puxo-a.
Uma voz? Uma voz feminina, agora lembro. Dizendo-me para…
Fico boquiaberta.
Era Nazeera. Ontem à noite. Na ala médica. Era ela. Agora me recordo de sua voz… Lembro-me de estender minha mão e tocar a dela, lembro-me de ter sentido o metal que ela sempre usa nos nós dos dedos, lembro-me de ouvi-la dizendo para mim que…
… as pessoas em quem você confia estão mentindo para você… e os outros comandantes supremos só querem matá-la…
Viro-me rápido demais, buscando alguma coisa que sou incapaz de nomear. Nazeera estava tentando me alertar. Ontem à noite… Ela mal me conhecia e ainda assim estava tentando me contar a verdade muito antes de qualquer um dos outros…
Mas por quê?
E então, alguma coisa dura e barulhenta pousa pesadamente na estrutura de concreto parcialmente destruída que bloqueia a estrada. As velhas placas da rodovia tremem e balançam.
Mantenho o olhar focado no que está acontecendo. Acompanho em tempo real, cena a cena e, mesmo assim, fico tão impressionada com o que vejo que esqueço de falar.
É Nazeera, a 15 metros do chão, calmamente sentada sobre a placa que anuncia…
10 EAST LOS ANGELES
… e ela está acenando para mim. Usa um capuz de couro marrom folgado na cabeça, preso a um coldre que passa por seu ombro. O capuz de couro cobre os cabelos e esconde os olhos, de modo que apenas a parte inferior de seu rosto está visível de onde estou. O piercing de diamante abaixo do lábio inferior parece se incendiar ao receber a luz do sol.
Ela parece uma visão saída de uma época desconhecida.
Naturalmente, não sofre do mesmo problema que eu.
— Já se sente pronta para conversar? — me pergunta.
— Como… como foi que você…
— Sim?
— Como veio parar aqui? — Olho à minha volta, analisando meus arredores.
Como ela sabia que eu estava aqui? Estão me seguindo?
— Voando.
Viro-me para encará-la.
— Onde está sua aeronave?
Ela ri e salta da placa. É uma queda longa e arriscada, que feriria qualquer pessoa normal.
— Espero realmente que esteja brincando — responde e, então, me segura pela cintura e salta, subindo aos céus.

4 comentários:

  1. será que todos os comandantes tem filhos com poderes?

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  2. Não sei se a Nazeera é mesmo a irmã da Juliete, afinal se parece fisicamente combo Haider. Mas se for, entendi que ela serve ao restabelecimento.
    Isso vai dar mta treta...

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  3. Tenho grandes dúvidas se confio ou não na Nazeera!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!