15 de junho de 2018

Warner

Então isso…
Isso é o que chamam de agonia.
É a isso que se referem quando falam em coração partido. Pensei que soubesse o significado da expressão antes. Pensava saber, com perfeita clareza, como é ter o coração partido, mas agora… Agora finalmente entendo.
Antes? Quando Juliette não conseguia escolher entre mim e Kent? Aquela dor?
Aquilo era brincadeira de criança.
Mas isso.
Isso é sofrimento. É uma tortura completa, absoluta. E não posso culpar ninguém senão a mim mesmo por essa dor, o que me impossibilita de canalizar minha raiva para outro lugar que não para dentro de mim mesmo. Se não soubesse de nada, pensaria estar sofrendo um ataque cardíaco de verdade. A sensação é a de que um caminhão passou por cima de mim, quebrando cada osso em meu peito, e agora está parado em cima do meu corpo, com seu peso amassando meus pulmões. Não consigo respirar. Não consigo sequer enxergar direito. Meu coração lateja nos ouvidos. O sangue avança rápido demais pela cabeça, deixando-me com calor, atordoado. Estou estrangulado em mudez, entorpecido em meus ossos. Não sinto nada além de uma pressão imensa e absurda me estilhaçando. Solto o corpo para trás, com força. A cabeça bate na parede. Tento me acalmar, acalmar minha respiração. Tento ser racional.
Não é um ataque cardíaco, digo a mim mesmo. Não é um ataque cardíaco.
Sei que não é.
Estou tendo um ataque de pânico.
Já aconteceu comigo outra vez e a dor se materializou como se saísse de um pesadelo, como se saísse do nada, sem qualquer aviso. Acordei no meio da noite tomado por um terror violento que não conseguia expressar, convencido, sem qualquer sombra de dúvida, de que estava morrendo. O episódio enfim passou, mas a experiência seguiu me assombrando.
E agora isso…
Pensei que estivesse pronto. Pensei estar preparado para o possível resultado da conversa de hoje. Mas estava errado.
Sinto que me devora.
Essa dor.
Ao longo da vida, sofri de ansiedades ocasionais, mas geralmente conseguia administrar o problema. No passado, minhas experiências sempre foram associadas a esse trabalho. A meu pai. Mas conforme fui ficando mais velho também fui me tornando menos impotente, e encontrei maneiras de administrar os desencadeadores da ansiedade; encontrei locais seguros em minha mente; informei-me sobre terapia cognitivo-comportamental; e, com o tempo, aprendi a superar. A ansiedade passou a surgir com menor intensidade e frequência. Muito raramente, porém, ela se transforma em outra coisa. Alguma coisa que foge completamente do meu controle.
E dessa vez não sei o que fazer para salvar a mim mesmo.
Não sei se sou forte o bastante para combatê-la, não agora que nem sei mais pelo que estou lutando. E acabei de cair de costas no chão, minha mão pressionada contra a dor no peito, quando, de repente, a porta se abre.
Sinto o coração pegar no tranco.
Ergo a cabeça um centímetro e espero. A esperança nas alturas.
— Ei, cara, que merda, onde você está?
Bufo ao soltar a cabeça. Tinha que ser justamente ele…
— Olá? — Passos. — Sei que está aí. E por que esse quarto está esta zona? Por que tem caixas e lençóis espalhados para todo lado?
Silêncio.
— Cadê você, irmão? Acabei de encontrar Juliette e ela estava surtando, mas não me contou o motivo. Sei que você está se escondendo aqui como um…
E pronto, aqui está ele.
O coturno bem ao lado da minha cabeça.
Encarando-me.
— Oi — cumprimento. É tudo o que consigo dizer nesse momento.
Kenji baixa o olhar na minha direção, embasbacado.
— Que porra está fazendo aí no chão? E por que não está vestido? — E, em seguida: — Espere um pouco… Estava chorando?
Fecho os olhos, rezo para morrer.
— O que está acontecendo? — De repente, a voz dele chega mais perto do que eu a percebi antes, e me dou conta de que Kenji deve estar agachado ao meu lado. — Qual é o problema, cara?
— Não consigo respirar — sussurro.
— Que história é essa de não conseguir respirar? Ela atirou em você de novo?
Essa lembrança me atravessa. Mais uma dor excruciante.
Meu Deus, como odeio esse cara.
Engulo em seco, forte.
— Por favor. Vá embora.
— É, não. — Ouço o barulho de seus movimentos quando ele se senta ao meu lado. — O que é isso? — pergunta, apontando para o meu corpo. — O que está acontecendo com você agora?
Enfim, desisto. Abro os olhos.
— Estou tendo um ataque de pânico, seu cuzão sem consideração. — Tento respirar. — E gostaria de ter um pouco de privacidade.
Kenji arqueia as sobrancelhas.
— Você está tendo um o quê?
— Ataque… — Ofego. — De pânico.
— Que merda é essa?
— Tem remédios. No banheiro. Por favor.
Ele me olha de um jeito estranho, mas faz o que peço. Volta em um instante com o frasco certo, e me sinto aliviado.
— É este?
Balanço a cabeça em um gesto afirmativo. Na verdade, nunca tomei esse medicamento antes, mas o guardei a pedido do meu médico. Para situações de emergência.
— Quer água para engolir o remédio?
Balanço a cabeça. Com mãos trêmulas, arranco o frasco dele. Não me lembro qual é a dosagem, mas, como muito raramente tenho um ataque tão grave assim, faço uma suposição. Enfio três comprimidos na boca e os mastigo com violência, sentindo o gosto amargo e horrível na língua.
Apenas alguns poucos minutos depois, quando o remédio começa a fazer efeito, o caminhão metafórico enfim é arrancado do meu peito. Minhas costelas magicamente se reajustam. Os pulmões se lembram de fazer seu trabalho.
E então me sinto mole. Exausto.
Lento.
Forço-me a ficar de pé.
— Será que agora pode me contar o que está acontecendo aqui? — Kenji continua me encarando, braços cruzados na altura do peito. — Ou devo ir em frente e partir do pressuposto de que você fez alguma coisa horrível e lhe dar umas boas porradas?
De uma hora para a outra, sinto-me tão cansado.
Uma risada brota em meu peito, mas não sei de onde vem. Consigo evitá-la, mas não consigo esconder um sorriso idiota e inexplicável quando digo:
— Você deveria simplesmente me espancar.
E percebo que falei merda.
A expressão de Kenji muda. Seus olhos me estudam, sinceramente preocupados, e acho que falei demais. Esse remédio está me deixando lento, entorpecendo meus sentidos. Levo a mão aos lábios, imploro para que fiquem fechados. Espero não ter exagerado no remédio.
— Ei — Kenji fala com cuidado. — O que aconteceu?
Faço que não com a cabeça. Fecho os olhos.
— O que aconteceu? — repito as palavras dele, agora realmente rindo. — O que aconteceu, o que aconteceu… — Abro os olhos tempo suficiente para dizer: — Juliette terminou comigo.
— O quê?
— Isto é, acho que terminou. — Fico em silêncio. Franzo a testa. Bato o dedo no queixo. — Imagino que seja por isso que ela saiu daqui correndo e gritando.
— Mas… Por que Juliette terminaria com você? Por que ela estava chorando?
Ao ouvir suas palavras, volto a rir.
— Por que eu — aponto para mim mesmo — sou um monstro.
Kenji parece confuso.
— E qual é a novidade nisso?
Dou risada. Ele é engraçado, eu acho. Cara engraçado.
— Onde eu deixei a camisa? — Tateio, de repente sentindo uma letargia que me é completamente nova. Cruzo os braços. Fecho os olhos. — Hum, você viu minha camisa por aí?
— Você está bêbado, irmão?
— O quê? — Dou um tapa no ar. Caio na risada. — Acho que não. Meu pai é alcoólatra, sabia? Eu não chego nem perto de álcool. Não, espere aí… — Ergo um dedo. — Era alcoólatra. Meu pai era alcoólatra. Agora ele está morto. Mortinho.
E então ouço Kenji ofegando. Ofegando alta e estranhamente antes de sussurrar:
— Puta merda. — E suas palavras são o bastante para aguçar meus sentidos por um instante.
Dou meia-volta para encará-lo.
Ele parece aterrorizado.
— O que aconteceu com as suas costas?
— Ah. — Desvio o olhar, agora irritado. — Isto… — As muitas cicatrizes que desfiguram as minhas costas. Respiro fundo. Solto o ar. — São só… você sabe, presentes de aniversário do meu velho pai.
— Presentes de aniversário do seu pai? — Kenji pisca, rápido. Olha em volta, fala com o ar: — Em que tipo de novela eu acabei de me enfiar? — Passa a mão nos cabelos e diz: — Por que é que sempre acabo envolvido nas merdas pessoais dos outros? Por que não consigo cuidar da minha própria vida? Por que não consigo ficar de boca fechada?
— Sabe… — respondo, inclinando ligeiramente a cabeça. — Sempre me perguntei a mesma coisa.
— Cale a boca.
Abro um sorriso enorme. Iluminado como uma lâmpada.
Kenji fica de olhos arregalados, surpreso, e em seguida dá risada. Assente ao ver meu rosto e fala:
— Que fofo, você tem covinhas. Eu não sabia. Que gracinha.
— Cale a boca! — Franzo a testa. — Vá embora.
Ele ri mais intensamente.
— Acho que você exagerou nesses remédios aí. — Recolhe o frasco que deixei no chão. Lê o rótulo. — Aqui diz que você deve tomar um a cada três horas. — Ri outra vez, agora mais alto. — Porra, cara, se eu não soubesse que você está sofrendo para valer, filmaria esta cena.
— Estou muito cansado. Por favor, vá direto para o inferno.
— Nem ferrando, sua aberração. Não vou perder esta cena por nada. — Apoia o corpo na parede. — E mais: não vou a lugar algum até sua versão entorpecida me dizer por que vocês dois terminaram.
Nego com a cabeça. Finalmente consigo encontrar a camisa e vesti-la.
— Isso mesmo, vista isso aí — Kenji fala.
Lanço um olhar fulminante a ele e caio na cama. Fecho os olhos.
— Então? — Ele se senta bem ao meu lado. — Posso buscar a pipoca? O que está rolando?
— Informação sigilosa.
Kenji emite um barulho que deixa clara sua descrença.
— O que é sigiloso? O motivo do término é sigiloso? Ou vocês terminaram por alguma informação sigilosa?
— Sim.
— Dê alguma pista, cara.
— Nós terminamos — respondo, puxando um travesseiro sobre os olhos — por causa de uma informação que compartilhei com ela… Uma informação, como eu disse, sigilosa.
— O quê? Por quê? Não faz o menor sentido. — Um instante de silêncio. — A não ser que…
— Ah, ótimo. Posso praticamente ouvir as engrenagens minúsculas do seu cérebro minúsculo trabalhando.
— Você contou alguma mentira a ela? Alguma coisa que devesse ter contado antes? Alguma coisa sigilosa… envolvendo ela?
Aceno com a mão para nada em particular.
— Que cara mais genial! — ironizo.
— Ah, merda!
— Sim — concordo. — Uma merda enorme, mesmo.
Ele expira demorada e duramente.
— A situação me parece bem séria.
— Eu sou um idiota.
Ele pigarreia.
— Então quer dizer que dessa vez você ferrou mesmo as coisas?
— Bem por aí, imagino.
Silêncio.
— Espere um pouco, explique outra vez por que esses lençóis estão todos no chão.
Ao ouvir isso, afasto o travesseiro do rosto.
— Por que você acha que estão no chão?
Um segundo de hesitação e:
— Ah, espere aí… qual é, cara, que droga. — Kenji pula para fora da cama, parecendo enojado. — Por que me deixou sentar aqui? — Caminha a passos largos até o outro lado do quarto. — Vocês dois são… Puta merda! Isso não é nada legal
— Cresça, cara.
— Eu já sou adulto. — Ele fecha a cara para mim. — Mas Juliette é tipo minha irmã, cara. Não quero pensar nessa porra…
— Olha, não se preocupe. Tenho certeza de que não vai voltar a acontecer.
— Está bem, está bem, rainha do drama, acalme-se. E me fale mais sobre esse negócio sigiloso.

17 comentários:

  1. — Ah, espere aí… qual é, cara, que droga. — Kenji pula para fora da cama, parecendo enojado. — Por que me deixou sentar aqui? — Caminha a passos largos até o outro lado do quarto. — Vocês dois são… Puta merda! Isso não é nada legal…
    — Cresça, cara.
    — Eu já sou adulto. — Ele fecha a cara para mim. — Mas Juliette é tipo minha irmã, cara. Não quero pensar nessa porra…
    — Olha, não se preocupe. Tenho certeza de que não vai voltar a acontecer.
    — Está bem, está bem, rainha do drama, acalme-se. E me fale mais sobre esse negócio sigiloso.

    JESUS MELHOR DIÁLOGO

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    Respostas
    1. Jennifer !!!😂😂😂❤️❤️❤️❤️❤️😂😂

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    2. Kenji!!!😂😂😂❤️❤️❤️❤️❤️😂😂

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    3. Pelo amor de Deus ignorem a Jeniffer 😂😂😂

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    4. Já ia peguntar o que foi isso kkkkk

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  2. Por isso que amo esses livros, em um capítulo você chora e no outro vc quase morre de rir...

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  3. Kenji😍😍😍😍

    Como não amar?

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  4. o warner dopado é o melhor kkkkkk e essa conversa -nossa

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  5. Tomara q kenj consiga remediar as coisas e eles voltam a ficar juntos.
    Torcida fervorosa pelo casal. Chipei desde o primeiro encontro. J e W forever.

    #team Warnette

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  6. Kenji é a melhor pessoa desses livros...S2

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  7. Tá bom, o Kenji é minha sempre presente esperança de eu não chorar em cenas que tinham um potencial destruidor de coração

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  8. Ai Gente fala q Kenji n é um anjo ?? As coisas dá péssimo e ele lá pra resolver td <3 <3

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  9. Pressinto uma amizade nascendo. Aaaah ❤❤

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  10. — Que fofo, você tem covinhas. Eu não sabia. Que gracinha.

    Melhor comentário. Kkkkkk

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  11. Kenji seu babaca que me lembra muito o deadpool cheio das ironia!

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  12. Meu Deus gnt... Murri... tem como vc começar o capítulo tenso e ainda sim chorar de rir??? Kkkkk como eles são hilários 😅 o Warner sofrendo horrores e Kenji ainda consegue fazer piada 🤦‍♀️😂😂😂😂 ai ai.... mad tomara q esse casal naum se ajeitem só no final 😢 eles são tão lindos juntos 💕❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!