15 de junho de 2018

Warner

Estou andando pra lá e pra cá no corredor em frente ao quarto, esperando impacientemente que Juliette termine seu banho. Minha cabeça está um turbilhão.
A irritação vem me perturbando há horas. Não tenho a menor ideia do que ela vai dizer. De como reagirá ao que tenho a lhe contar. E me sinto tão horrorizado com o que estou prestes a fazer que nem sequer ouço alguém chamando meu nome, até essa pessoa me tocar.
Dou meia-volta rápido demais, meus reflexos conseguem ser ainda mais acelerados do que minha mente. Prendo-o com os punhos para trás e encosto seu peito contra a parede, e só agora percebo que é Kent. Ele não reage; apenas ri e me pede para soltá-lo.
Faço isso.
Solto seu braço. Estou espantado. Balanço a cabeça para limpar a mente. Esqueço de me desculpar.
— Você está bem? — outra pessoa me pergunta.
É James. Ainda tem o tamanho de uma criança e, por algum motivo, isso me surpreende. Respiro com cuidado. Minhas mãos tremem. Nunca estive mais longe de me sentir bem, e estou perturbado demais pela minha ansiedade para me lembrar de mentir.
— Não — respondo. Dou um passo para trás, colidindo com a parede e batendo os pés no chão. — Não — repito, mas dessa vez nem sei mais com quem estou falando.
— Ah, quer conversar sobre o que está acontecendo? — James continua tagarelando.
Não entendo por que Kent não o manda calar a boca.
Faço um sinal negativo com a cabeça.
Mas essa minha resposta só parece encorajá-lo. James se senta ao meu lado.
— Por que não? Acho que você deveria conversar sobre o que está acontecendo — insiste.
— Cara, por favor! — Kent finalmente diz a ele. — Talvez fosse melhor dar um pouco de privacidade a Warner.
Mas James não se convence. Estuda meu rosto.
— Estava chorando?
— Por que vocês fazem tantas perguntas? — esbravejo, soltando a cabeça em uma das mãos.
— O que aconteceu com seu cabelo?
Olho espantado para Kent.
— Pode, por favor, levá-lo embora daqui?
— Você não deveria responder perguntas com outras perguntas — James diz para mim, apoiando a mão em meu ombro.
Quase salto para fora do meu próprio corpo.
— Por que está tocando em mim?
— Parece que um abraço lhe faria bem — ele responde. — Quer um abraço? Abraços sempre fazem eu me sentir melhor quando estou triste.
— Não — retruco duramente. — Não quero abraço nenhum. E não estou triste.
Kent parece rir. Está a alguns passos de nós, de braços cruzados, sem fazer nada para melhorar a situação. Lanço um olhar furioso em sua direção.
— Você parece bem triste, sim — James insiste.
— Neste exato momento, só sinto irritação — rebato com dureza.
— Mas se sente melhor, não? — James sorri. Dá tapinhas em meu braço. — Está vendo? Eu falei que conversar sobre o assunto ajuda.
Surpreso, pisco. Encaro-o.
Sua teoria não está exatamente correta, mas, por mais estranho que pareça, de fato me sinto melhor. Frustrar-me com ele ainda há pouco… digamos que ajudou a afastar o pânico e a focar os pensamentos. Minhas mãos se estabilizaram. Sinto-me um pouquinho mais fortalecido.
— Bem, obrigado por ser irritante — respondo.
— Ei! — Ele franze a testa. Fica na ponta dos pés, passa as mãos nas calças como se quisesse limpá-las. — Eu não sou irritante.
— Sem dúvida, é irritante — rebato. — Especialmente para uma criança do seu tamanho. Por que até hoje ainda não aprendeu a ficar quieto? Quando tinha a sua idade, eu só falava quando alguém falava comigo.
James cruza os braços.
— Espere aí, o que você quer dizer com essa história de criança do meu tamanho? Qual é o problema com o meu tamanho?
Aperto os olhos para ele.
— Quantos anos você tem? Nove?
— Estou quase completando onze!
— É muito pequeno para alguém de onze anos.
E então ele me dá um soco. Forte. Na coxa.
— Aaaaaai! — grita, exagerando em sua reação. Sacode os dedos. Fecha a cara para mim. — Por que sua perna parece feita de pedra?
— Dá próxima vez, melhor escolher alguém do seu tamanho — provoco. Ele estreita os olhos para mim. — Mas não se preocupe. Tenho certeza de que logo vai estar mais alto. Eu só passei a crescer bastante depois que fiz doze ou treze anos, então, se você for parecido comigo…
Kent pigarreia com força, e eu foco a atenção.
— Isto é, se você for como, hã, seu irmão, tenho certeza de que vai ficar bem.
James olha outra vez para Kent e sorri. Aparentemente, o soco desajeitado já foi esquecido.
— Espero mesmo que eu seja como meu irmão — responde, agora com um sorriso enorme no rosto. — Adam é o melhor, não é? Espero ser exatamente como ele.
Sinto um sorriso brotar também em meu rosto. Esse menininho… também é meu, meu irmão, e talvez nunca venha a saber disso.
— Não é? — James insiste, ainda sorridente.
Fico meio perdido na conversa.
— Perdão?
— Adam — ele explica. — Adam é o melhor, não é? É o melhor irmão mais velho do mundo.
— Ah… sim — respondo, engolindo o nó na garganta. — Sim, claro. Adam é, hum, o melhor. Ou algo perto disso. Seja como for, você é muito sortudo por tê-lo ao seu lado.
Kent lança um olhar na minha direção, mas não fala nada.
— Eu sei — James responde, inabalado. — Eu tive mesmo muita sorte.
Concordo com a cabeça. Sinto alguma coisa revirar em meu estômago. Levanto-me.
— Sim. Agora… se me der licença.
— Sim, já entendi — Kent assente. Acena para se despedir. — A gente se vê por aí, né?
— Sem dúvida.
— Tchau! — James se despede enquanto Kent o acompanha pelo corredor. — Fico feliz por estar se sentindo melhor!
Mas, no fundo, eu só me sinto pior.

Volto ao quarto, agora não tão em pânico quanto antes, mas, por algum motivo, mais melancólico. E tão distraído que, ao entrar, quase não percebo Juliette saindo do banheiro.
Não usa nada além de uma toalha.
Suas bochechas estão rosadas por causa da água quente. Os olhos, enormes e iluminados quando ela sorri para mim. É tão linda. Tão inacreditavelmente linda.
— Preciso pegar roupas limpas — diz, ainda sorrindo. — Você se importa?
Nego com a cabeça. Só consigo encará-la.
Por algum motivo, minha reação é insuficiente. Juliette hesita. Franze a testa ao me olhar. E finalmente vem na minha direção.
Sinto meus pulmões prestes a pararem.
— Ei! — chama a minha atenção.
Mas só consigo pensar no que tenho a lhe contar e em como ela pode reagir.
Existe uma esperança pequena e desesperada em meu coração, mas essa esperança só representa uma tentativa de ser otimista quanto ao resultado.
Talvez Juliette entenda.
— Aaron? — insiste, aproximando-se, diminuindo a distância que nos separa. — Você disse que queria conversar comigo, certo?
— Sim — respondo em um sussurro. — Sim. — Sinto-me entorpecido.
— Dá para esperar? — ela pergunta. — Só o tempo de eu me trocar.
Não sei o que toma conta de mim.
Desespero. Desejo. Medo.
Amor.
Mas me atinge com uma força dolorida, esse lembrete. De quanto a amo. Meu Deus, eu a amo por completo. Suas impossibilidades, suas exasperações. Eu amo o modo como ela é carinhosa quando estamos sozinhos. Como sabe ser delicada e gentil em nossos momentos a sós. O fato de ela nunca hesitar em me defender.
Eu a amo.
E ela está parada bem à minha frente com uma pergunta nos olhos, e eu não consigo pensar em nada além de quanto a quero em minha vida. Para sempre.
Mesmo assim, não digo nada. Não faço nada.
E Juliette não vai embora.
Espantado, percebo que ela continua aguardando uma resposta.
— Sim, claro — apresso-me em responder. — Claro que dá para esperar.
Mas ela está tentando decifrar meu semblante.
— Qual é o problema? — pergunta.
Faço que não com a cabeça enquanto seguro sua mão. Com doçura, com muita doçura. Ela dá um passo mais para perto e minhas mãos se fecham levemente sobre seus ombros nus. É um movimento singelo, mas sinto suas emoções se transformarem. Juliette treme quando a toco, minhas mãos deslizando por seus ombros, e sua reação alcança os meus sentidos. E me mata toda vez, me deixa sem ar toda vez que ela reage a mim, ao meu toque. Saber que Juliette sente algo por mim… Que me deseja…
Talvez ela vá entender, penso. Nós dois já passamos por tantas coisas juntos. Superamos tantos obstáculos. Talvez esse também seja transponível.
Talvez ela vá entender.
— Aaron?
O sangue avança em minhas veias, quente e rápido. Sua pele é macia e tem cheiro de lavanda e eu me afasto só um centímetro. Só para olhar para ela. Passo o polegar por seu lábio inferior antes de minha mão deslizar na direção de suas costas.
— Oi? — respondo.
E ela me encontra aqui, nesse momento, por um instante.
Beija-me livremente, sem hesitar, passando os braços em volta do meu pescoço. E sou arrebatado, pego-me perdido em uma enxurrada de emoções…
E a toalha desliza.
Cai no chão.
Surpreso, dou um passo para trás, conseguindo vê-la por completo. Meu coração bate furiosamente no peito. Nem consigo me lembrar do que estava tentando fazer.
Então ela dá um passo adiante, fica na ponta dos pés e me puxa para perto, toda calor e doçura, e eu a trago para junto de mim, entorpecido pelo contato, perdido na inocência de sua pele. Ainda estou totalmente vestido. Juliette, nua em meus braços. E, por algum motivo, essa diferença entre nós só deixa esse momento mais surreal. Ela está me empurrando para trás com cuidado, mesmo enquanto continua me beijando, mesmo enquanto usa a mão para explorar meu corpo por entre o tecido. E eu caio na cama, arfando.
Juliette monta em cima de mim.

Acho que perdi completamente a cabeça.

4 comentários:

  1. Esse dois ficam se distraindo... Vai dar meda, mano, vai dar merda!

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  2. Caramba! Saber como a Juliette vai reagir é um mistério. Tô com dó do Warner

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Boa leitura, E SEM SPOILER!