15 de junho de 2018

Juliette

Tenho curiosidade de saber o que estão pensando. Meus pais. Tenho curiosidade de saber onde estão. Tenho curiosidade de saber se estão bem agora, se estão felizes agora, se enfim conseguiram o que queriam. Tenho curiosidade de saber se minha mãe terá outro filho. De saber se alguém será bondoso o bastante para me matar e de saber se o inferno é melhor do que este lugar. Tenho curiosidade de saber como meu rosto está agora. Tenho curiosidade de saber se voltarei a respirar ar puro.
Tenho curiosidade de saber tantas coisas.
Às vezes, passo dias acordada, apenas contando tudo o que consigo encontrar. Conto as paredes, as rachaduras nas paredes, meus dedos das mãos, meus dedos dos pés. Conto as molas da cama, os fios do cobertor, os passos necessários para cruzar este espaço e voltar para onde eu estava antes. Conto meus dentes e os fios de cabelo e quantos segundos consigo segurar a respiração.
Às vezes, fico tão cansada que esqueço que não posso desejar mais nada, e então me pego desejando aquilo que sempre quis. Aquilo com que sempre sonhei.
O tempo todo desejo ter um amigo.
Sonho com isso. Imagino como seria. Sorrir e receber um sorriso. Ter uma pessoa em quem confiar, alguém que não jogue coisas em mim ou coloque minha mão no fogo ou me espanque por ter nascido. Alguém que ouça que fui jogada no lixo e tente me encontrar, que não tenha medo de mim.
Alguém que entenderia que eu jamais tentaria feri-lo.
Estou curvada em um canto deste quarto e enterro a cabeça nos joelhos e embalo meu corpo para a frente e para trás para a frente e para trás para a frente e para trás e desejo e desejo e desejo e sonho com coisas impossíveis e choro até dormir.
Tenho curiosidade de saber como seria ter um amigo.
E então, me pergunto quem mais está preso neste hospício. E fico me perguntando de onde vêm os outros gritos.
E fico me perguntando se estão vindo de mim.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

Sinto-me estranha nesta manhã.
Sinto-me lenta, como se andasse na lama, como se meus ossos estivessem preenchidos com chumbo e minha cabeça, ai…
Estremeço.
Minha cabeça nunca esteve mais pesada.
Indago se esses seriam os últimos sinais do veneno ainda assombrando minhas veias, mas alguma coisa em mim parece errada hoje. As lembranças do meu tempo no hospício de repente se tornam presentes demais — empoleiradas bem na frente da minha mente. Pensei que conseguiria afastar essas lembranças da minha cabeça, mas não, elas estão aqui outra vez, arrastadas para fora da penumbra. Em total isolamento por 264 dias. Quase 1 ano sem acesso ou escapatória ao mundo exterior. A outro ser humano.
Tanto tempo, tanto tempo, tanto mas tanto tempo sem o calor do contato humano.
Tremo involuntariamente. Empurro o corpo para a frente.
O que há de errado comigo?
Sonya e Sara devem ter ouvido meus movimentos, porque agora estão paradas diante de mim, suas vozes claras, mas, de alguma maneira, vibrando. Ecoando pelas paredes. Meus ouvidos não param de zumbir. Aperto os olhos para tentar enxergar melhor seus rostos, mas de repente me sinto zonza, desorientada, como se meu corpo estivesse de lado ou como se talvez estirado no chão ou talvez eu precise estar no chão ou aiai,
acho que vou vomitar…

— Obrigada pelo balde — agradeço, ainda com náusea. Tento me sentar, mas, por algum motivo, não me lembro o que tenho que fazer para me sentar. Minha pele começou a suar frio. — O que aconteceu comigo? — indago. — Pensei que vocês curassem… curassem…
Apago outra vez.
Cabeça girando.
Olhos fechados para protegê-los da luz. A janela que vai do chão ao teto parece não conseguir bloquear o sol de invadir a sala e não consigo evitar os pensamentos de quando vi o sol brilhar tão forte. Ao longo da última década, nosso mundo sofreu um colapso; a atmosfera tornou-se imprevisível, o tempo muda em picos agudos e dramáticos. Neva quando não devia nevar; chove onde não devia chover; as nuvens estão sempre cinza; os pássaros sumiram de uma vez por todas do céu. As folhas, que no passado eram verdes e viçosas nas árvores e jardins, agora são sem vida, apodrecendo. Estamos em março e, mesmo enquanto a primavera se aproxima, o céu não mostra qualquer sinal de mudança. A terra continua fria, congelada, continua escura e turva.
Ou pelo menos tudo estava assim ainda ontem.
Alguém coloca um pano fresco em minha testa, e esse toque frio é bem-vindo; minha pele parece inflamada mesmo quando tremo. Meus músculos relaxam paulatinamente. Mesmo assim, queria que alguém fizesse algo para evitar esse sol forte. Estou apertando os olhos, mesmo enquanto eles permanecem fechados, o que só faz minha enxaqueca piorar.
— A ferida está totalmente curada — ouço alguém dizer. — Mas parece que o veneno não foi expurgado do organismo.
— Não consigo entender — responde outra voz. — Como isso é possível? Por que vocês não puderam curá-la completamente?
— Sonya? — consigo dizer. — Sara?
— Sim? — as gêmeas respondem ao mesmo tempo, e posso sentir seus passos apressados, duros como batidas de tambores em minha cabeça conforme se aproximam da minha cama.
Tento apontar para as janelas.
— Podem fazer alguma coisa para evitar o sol? — pergunto. — Está forte demais.
Elas me ajudam a sentar e sinto minha vertigem começando a estabilizar. Pisco, e abrir os olhos requer um grande esforço, mas consigo fazer isso antes de alguém me entregar um copo de água.
— Beba isso — Sonya instrui. — Seu corpo está seriamente desidratado.
Engulo a água rapidamente, surpresa com o tamanho da minha sede. Elas me entregam outro copo. Continuo bebendo. Tenho de engolir 5 copos de água antes de conseguir sustentar minha cabeça sem uma enorme dificuldade.
Quando finalmente me sinto mais normal, olho em volta. Olhos arregalados. Tenho uma dor de cabeça insuportável, mas os demais sintomas começam a ficar para trás.
Primeiro, vejo Warner.
Está parado em um canto do quarto, olhos vermelhos, as roupas de ontem amarrotadas no corpo. Encara-me com um olhar de medo declarado, o que me surpreende. Totalmente diferente de como ele costuma ser. Warner raramente mostra suas emoções em público.
Queria poder dizer alguma coisa, mas agora não parece ser a hora apropriada.
Sonya e Sara continuam me observando atentamente, seus olhos amendoados brilhando em contraste com a pele. Porém, alguma coisa nelas parece diferente.
Talvez seja porque nunca as olhei tão de perto assim em nenhum lugar que não fosse o subsolo, mas a luz forte do sol reduz suas pupilas ao tamanho de uma ponta de alfinete, fazendo seus olhos parecerem diferentes. Maiores. Novos.
— A luminosidade está tão estranha hoje — não consigo evitar comentar. — Alguma vez já esteve tão claro assim?
Sonya e Sara olham pela janela, olham outra vez para mim, franzem o cenho uma para a outra.
— Como está se sentindo? — perguntam. — Sua cabeça ainda dói? Está com tontura?
— Minha cabeça está me matando — respondo, e tento rir. — O que tinha naquelas balas? — Uso o indicador e o polegar para apertar o espaço entre meus olhos. — Sabem se essa dor de cabeça vai passar logo?
É Sara quem responde:
— Sinceramente… não sabemos o que está acontecendo com você.
— Seu ferimento cicatrizou — Sonya explica —, mas parece que o veneno está afetando sua mente. Não temos como saber ao certo se ele foi capaz de causar danos permanentes antes de conseguirmos prestar os primeiros socorros.
Ao ouvir as palavras, ergo o olhar. Sinto a coluna enrijecer.
— Danos permanentes? — indago. — Ao meu cérebro? Isso é possível?
Elas assentem.
— Vamos monitorá-la de perto nas próximas semanas, só para ter certeza. As alucinações que você está tendo talvez não sejam nada grave.
— O quê? — Olho em volta. Olho para Warner, que continua sem dizer nada. — Que alucinações? Eu só estou com dor de cabeça. — Aperto outra vez os olhos, virando o rosto para evitar a janela. — Nossa! Desculpe — digo, estreitando os olhos contra a luz. — Faz tempo que não temos um dia assim. — Dou risada. — Acho que estou mais acostumada à escuridão. — Uso a mão para formar uma espécie de viseira, de modo a proteger os olhos. — Precisamos arrumar umas persianas para essas janelas. Alguém me lembre de pedir isso a Kenji.
Warner fica pálido. Sua pele parece congelada.
Sonya e Sara compartilham um olhar de preocupação.
— O que foi? — pergunto, sentindo um frio no estômago enquanto olho para os três. — Qual é o problema? O que estão escondendo de mim?
— Não há sol hoje — Sonya responde baixinho. — Está nevando outra vez.
— Escuro e nublado, como todos os outros dias — Sara complementa.
— O quê? Do que estão falando? — retruco, rindo e franzindo a testa ao mesmo tempo. Consigo sentir o calor do sol tocando meu rosto. Percebo que provoca um impacto direto nos olhos delas, que suas pupilas se dilatam quando vão para algum canto com menos luminosidade. — Vocês estão brincando comigo, não estão? O sol está muito claro, mal consigo olhar pela janela.
Sonya e Sara negam com a cabeça.
Warner olha para a parede, mantém as mãos entrelaçadas na nuca.
Sinto meu coração começando a acelerar.
— Então estou vendo coisas? — pergunto. — Estou tendo alucinações?
Todos assentem.
— Por quê? — indago, esforçando-me para não entrar em pânico. — O que está acontecendo comigo?
— Não sabemos — Sonya responde, olhando para as próprias mãos — mas temos esperança de que esses efeitos sejam apenas temporários.
Tento apaziguar minha respiração. Tento permanecer calma.
— Certo. Bem, eu preciso ir. Estou liberada? Tenho mil coisas a fazer…
— Talvez devesse ficar mais um tempo aqui — sugere Sara. — Deixe-nos cuidar de você por mais algumas horas.
Mas já estou negando com a cabeça.
— Eu preciso tomar um pouco de ar. Preciso ir lá fora…
— Não… — É a primeira coisa que Warner diz desde que acordei, e ele quase grita a palavra na minha direção. Mantém a mão erguida em um apelo silencioso. — Não, meu amor — ele diz, soando estranho. — Você não pode voltar a sair. Não… Ainda não. Por favor.
A expressão em seu rosto é suficiente para partir meu coração.
Tento me acalmar, sinto meu pulso acelerado voltando ao normal e o encaro.
— Desculpe — falo. — Desculpe por ter assustado todo mundo. Foi um momento de burrice e tudo foi culpa minha. Baixei a guarda só por um segundo. — Suspiro. — Acho que alguém andou me observando, à espera do momento certo. De todo modo, não vai voltar a acontecer.
Tento sorrir, mas ele não se mexe. Sequer retribui o sorriso.
— Sério — tento outra vez. — Não se preocupe. Eu devia ter imaginado que existem pessoas por aí esperando para me matar assim que eu parecesse vulnerável, mas… — Dou uma risada. — Acredite, tomarei mais cuidado da próxima vez. Vou até pedir uma guarda maior para me acompanhar.
Ele nega com a cabeça.
Estudo-o, analiso seu terror. Continuo sem entender.
Faço um esforço para me colocar de pé. Estou usando meias e uma camisola hospitalar, e Sonya e Sara se apressam para me entregar um robe e chinelos. Agradeço a elas por tudo o que fizeram por mim e as duas apertam minhas mãos.
— Estaremos ali fora se precisarem de alguma coisa — Sonya e Sara avisam ao mesmo tempo.
— Obrigada mais uma vez — digo, mantendo um sorriso no rosto. — Eu as manterei informadas de como vão indo as... hum… — Aponto para minha cabeça. — As visões estranhas.
Elas assentem e vão embora.
Dou um passo na direção de Warner.
— Oi — falo com delicadeza. — Vai ficar tudo bem, de verdade.
— Você poderia ter sido assassinada.
— Eu sei — respondo. — Ando tão desligada ultimamente… Eu não esperava nada disso. Mas foi um erro que não voltarei a cometer. — Uma risadinha rápida. — Sério.
Por fim, ele suspira. Libera a tensão em seus ombros. Passa a mão no rosto, na nuca.
Nunca o vi assim antes.
— Sinto muito por tê-lo assustado — digo.
— Por favor, não peça desculpas, meu amor. Não precisa se preocupar comigo — responde, balançando a cabeça. — Estava preocupado com você. Como está se sentindo?
— Você quer dizer, tirando as alucinações? — Abro um leve sorriso. — Estou bem. Precisei de um instante para voltar a mim hoje cedo, mas me sinto muito melhor agora. Tenho certeza de que as visões logo ficarão para trás. — Agora abro um sorriso enorme, mais para tentar tranquilizá-lo do que por qualquer outro motivo. — Enfim, Delalieu quer que eu me encontre com ele o mais rápido possível para discutir meu discurso no simpósio, então acho que talvez eu deva resolver isso. Nem acredito que já é amanhã. — Balanço a cabeça. — Não posso me dar ao luxo de perder mais tempo. Porém… — Olho para baixo, para o meu próprio corpo. — Talvez primeiro eu deva tomar um banho, não acha? Vestir algumas roupas de verdade?
Tento sorrir outra vez para Warner, tento convencê-lo de que estou me sentindo bem, mas ele parece incapaz de falar. Apenas olha para mim, seus olhos vermelhos e intensos. Se eu não o conhecesse direito, pensaria que andou chorando.
Estou prestes a perguntar qual é o problema, quando ele fala:
— Meu amor.
e, por algum motivo, seguro a respiração.
— Preciso conversar com você — prossegue.
Na verdade, está sussurrando.
— Está bem — respondo, deixando o ar sair dos meus pulmões. — Converse comigo.
— Não aqui.
Sinto o estômago revirar. Meus instintos me dizem que devo entrar em pânico.
— Está tudo bem?
Ele demora muito para responder:
— Não sei.
Confusa, estudo-o.
Ele retribui o gesto, seus olhos verde-claros refletindo a luz de tal forma que, por um momento, nem sequer parecem humanos. E não diz mais nada.
Respiro fundo. Tento me acalmar.
— Está bem — respondo. — Está bem. Mas, se vamos voltar para o quarto, posso pelo menos tomar um banho antes? Quero muito me livrar dessa areia e sangue ressecado que ainda estão grudados no meu corpo.
Ele assente. Ainda sem emoção.
E agora eu realmente começo a entrar em pânico.

4 comentários:

  1. Esse livro tá muito diferente dos outrosss. Nem pra melhor e nem pra pior, mas tá sendo bem curioso ver outras preocupações centrais no livro

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  2. espera ai todo mundo? por quê todo mundo fez cara de defunto quando se falou de kenji? onde está meu Kenji? será que ele morreu? estou precisando de mais informações sobre meu Kenji... acho que vou chorando enquanto aguardo notícias de Kenji!!!
    Anna!!!

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    1. Eu entendi que a preocupação foi pelas alucinações e não por Kenji...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!