15 de junho de 2018

Warner


Passei a noite toda acordado.
Vejo infinitas caixas à minha frente, os conteúdos que elas guardavam espalhados pelo quarto. Papéis empilhados nas mesas, abertos no chão. Estou cercado de arquivos. Muitos milhares de páginas de burocracia. Os velhos relatórios de meu pai, seu trabalho, os documentos que governaram sua vida…
Li todos eles.
Obsessivamente. Desesperadamente.
E o que encontrei nessas páginas não ajuda a me acalmar…
Sinto-me angustiado.
Estou sentado aqui, com as pernas cruzadas, no chão do meu escritório, sufocado por todos os lados pela imagem de uma fonte familiar e os garranchos ilegíveis de meu pai. Minha mão direita está presa atrás da cabeça, desesperada por alguns centímetros de fios de cabelo para poder puxá-los para fora do crânio, mas sem encontrá-los. É muito pior do que eu temia, e não sei por que fiquei tão surpreso.
Não foi a primeira vez que meu pai guardou segredos de mim.
Foi depois que Juliette escapou do Setor 45, depois que fugiu com Kent e Kishimoto e meu pai veio aqui para arrumar a bagunça… Foi então que descobri que meu pai tinha conhecimento do mundo deles. De outras pessoas com habilidades especiais.
Ele manteve essa informação escondida de mim por muitíssimo tempo. Eu ouvia rumores, é claro — dos soldados, dos civis —, ouvia falar de muitas imagens e histórias incomuns, mas achava que tudo não passava de uma grande bobagem. As pessoas precisam encontrar um portal mágico para escapar da dor.
Mas ali estava, tudo verdade.
Depois da revelação de meu pai, minha sede por informação se tornou insaciável. Eu precisava saber mais — quem eram essas pessoas, de onde vinham, quanto sabiam…
E descobri verdades que todos os dias passei a desejar não ter descoberto.
Existem hospícios, exatamente iguais aos de Juliette, espalhados por todo o mundo. Os não naturais, conforme o Restabelecimento passou a chamá-los, eram presos em nome da ciência e das descobertas. Mas agora, finalmente, começo a entender como tudo começou. Aqui, nestas pilhas de papéis, estão as respostas horríveis que eu buscava.
Juliette e sua irmã foram as primeiríssimas não naturais encontradas pelo Restabelecimento. A descoberta das habilidades incomuns dessas garotas levou-os a encontrar outras pessoas como elas em todo o mundo. O Restabelecimento passou a capturar todos os não naturais que conseguisse encontrar; alegou aos civis que estavam limpando o antigo mundo e suas doenças, aprisionando-os em campos para analises médicas mais cuidadosas.
A verdade, entretanto, era muito mais complicada.
O Restabelecimento rapidamente separou os não naturais úteis dos inúteis. E fez isso por interesse próprio. Aqueles com as mais relevantes habilidades foram absorvidos pelo sistema, espalhados ao redor do mundo pelos comandantes supremos, para seu uso próprio no trabalho de perpetuar a ira do Restabelecimento. Os outros foram jogados no lixo. Isso, por fim, levou à ascensão do Restabelecimento e, com ela, ao surgimento dos muitos hospícios que passaram a abrigar os não naturais pelo globo. Para que mais estudos fossem realizados, alegavam. Para experimentos.
Juliette ainda não tinha manifestado suas habilidades quando seus pais a doaram ao Restabelecimento. Não. Foi sua irmã quem começou tudo. Emmaline.
Foram os dons sobrenaturais de Emmaline que deixaram todos à sua volta espantados; foi Emmaline, a irmã de Juliette, que, sem querer, atraiu atenção para si própria e para sua família. Os pais, cujos nomes continuam desconhecidos por mim, sentiram medo das demonstrações frequentes e incríveis de psicocinese da filha.
Também eram fanáticos.
Os arquivos de meu pai trazem informações limitadas sobre a mãe e o pai que, de livre e espontânea vontade, entregaram suas filhas para a realização de experiências. Analisei cada documento e só consegui descobrir pouquíssimas informações sobre seus motivos, e acabei recolhendo, em várias notas e detalhes extras, uma descrição assustadora dessas personagens. Parece que os dois tinham uma obsessão doentia pelo Restabelecimento. Os pais biológicos de Juliette eram devotos da causa muito antes de essa causa sequer ganhar força como um movimento internacional, e acreditavam que entregar a filha para ser estudada poderia ajudar a lançar luz sobre o mundo atual e suas muitas doenças. Sua teoria era a seguinte: se aquilo estava acontecendo com Emmaline, talvez também estivesse acontecendo com outras pessoas. E talvez, de alguma maneira, as informações encontradas pudessem ser usadas para ajudar a melhorar o mundo.
Rapidamente, o Restabelecimento obteve a custódia de Emmaline.
Juliette foi levada por precaução.
Se a irmã mais velha tinha se mostrado capaz de feitos incríveis, o Restabelecimento acreditava que o mesmo poderia valer para a mais nova. Juliette tinha só cinco anos e foi mantida sob vigilância.
Depois de um mês em uma instalação do Restabelecimento, ela não mostrou nenhum sinal de qualquer habilidade especial. Injetaram-lhe uma droga que destruiria partes fundamentais de sua memória antes de enviá-la para viver sob supervisão do meu pai, no Setor 45. Emmaline manteve seu nome verdadeiro, mas a irmã mais nova, solta no mundo real, precisaria de um nome falso. Passaram a chamá-la de Juliette, plantaram memórias falsas em sua cabeça e lhe encontraram pais adotivos que, felizes demais com a oportunidade de levarem uma filha para casa, já que não tinham filhos, seguiram a instrução de nunca contar a ninguém que a menina fora adotada. Também não sabiam que estavam sendo monitorados.
Todos os outros não naturais inúteis foram, em geral, mortos, mas o Restabelecimento escolheu monitorar Juliette em um ambiente mais neutro. Esperavam que uma vida em uma casa comum inspiraria a habilidade latente dentro da menina. Por ter laços de sangue com a talentosíssima Emmaline, Juliette era considerada valiosa demais para simplesmente se livrarem dela tão rápido.
É a próxima parte da vida de Juliette que me era mais familiar.
Eu sabia de seus problemas em casa, de suas muitas mudanças. Sabia das visitas de sua família ao hospital. Dos telefonemas que eles faziam à polícia. Ela ficou em centros de reabilitação para menores. Viveu na região que no passado fora o sul da Califórnia antes de se instalar em uma cidade que se tornou parte do que hoje é o Setor 45, sempre dentro dos domínios de meu pai. Sua criação entre pessoas comuns foi consistentemente documentada em relatórios policiais, queixas de professores e arquivos médicos, em uma tentativa de entender em que ela estava se transformando. Por fim, depois de finalmente descobrirem os perigos do toque letal de Juliette, as pessoas maldosas escolhidas para serem seus pais adotivos passaram a abusar dela — pelo resto da adolescência — e, por fim, acabaram devolvendo-a ao Restabelecimento, que se mostrou de braços abertos para recebê-la outra vez.
Foi o Restabelecimento — meu próprio pai — que colocou Juliette de volta no isolamento. Para que fossem feitos mais testes. Para mais vigilância.
E foi então que nossas histórias se cruzaram.
Esta noite, nestes arquivos, finalmente fui capaz de compreender algo ao mesmo tempo terrível e alarmante:
Os comandantes supremos do mundo sempre souberam de Juliette Ferrars. Passaram esse tempo todo observando-a crescer. Ela e a irmã foram entregues por seus pais insanos, cuja aliança com o Restabelecimento reinava acima de tudo. Explorar essas meninas — entender seus poderes — foi o que ajudou o Restabelecimento a dominar o mundo. Foi por meio da exploração de outros não naturais inocentes que o Restabelecimento conseguiu conquistar e manipular pessoas e lugares com tanta rapidez.
Foi por isso, agora me dou conta, que se mostraram tão pacientes com uma garota de dezessete anos que se proclamou governante de todo um continente. Foi por isso que permaneceram tão silenciosos sobre o fato de ela ter assassinado um dos outros comandantes.
E Juliette não tem ideia de nada disso.
Não tem ideia de que está sendo peça de um jogo, uma presa. Nem imagina que não tem nenhum poder real no meio de tudo isso. Nenhuma chance de mudar nada. Nem a menor chance de fazer a diferença no mundo. Ela foi, e sempre será, nada além de um brinquedo para eles — uma experiência científica para se observar com atenção, para ter certeza de que a mistura não vai ferver rápido demais.
Mas ferveu.
Pouco mais de um mês atrás, Juliette não passou nos testes deles, e meu pai tentou matá-la por isso. Tentou matá-la porque chegou à conclusão de que ela tinha se tornado um empecilho. Essa não natural, dessa vez, havia se transformado em adversária.

O monstro que criamos tentou matar meu próprio filho. Depois, atacou-me como um animal feroz, atirando em minhas duas pernas. Nunca vi tamanha selvageria — uma raiva tão cega e desumana. Sua mente se transforma sem emitir qualquer aviso. Ela não mostrou nenhum sinal de psicose ao chegar na casa, mas pareceu dissociada de qualquer estrutura de pensamento racional enquanto me atacava. Depois de ver com meus próprios olhos sua instabilidade, fiquei mais certo do que precisava ser feito. Agora escrevo isto na cama do hospital, como um decreto, e como precaução para meus colegas comandantes. No caso de eu não me recuperar desses ferimentos e ser incapaz de dar sequência ao que precisa ser feito, vocês, que estão lendo isto agora, precisam reagir. Terminar o que eu não consegui terminar. A irmã mais nova é um experimento fracassado. Vive, conforme temíamos, alheia à humanidade.
Pior: tornou-se um empecilho para Aaron. Ele ficou — em uma guinada muito infeliz dos eventos — terrivelmente interessado por ela, aparentemente sem se importar sequer com sua própria segurança. Eu não tenho ideia do que ela provocou na mente dele. Só sei que jamais devia ter alimentado minha curiosidade e permitido que ele a trouxesse para a base. É uma pena, mesmo, que ela em nada se pareça com a irmã mais velha. Pelo contrário: Juliette Ferrars se transformou em um câncer incurável, que devemos extirpar de nossas vidas de uma vez por todas.
— EXCERTO DOS REGISTROS DIÁRIOS DE ANDERSON

Juliette ameaçou o equilíbrio do Restabelecimento.
Ela foi um experimento que deu errado. E se transformou em um estorvo.
Precisava ser expurgada da terra.
Meu pai tentou com afinco destruí-la.
E agora vejo que seu fracasso foi de grande interesse para os demais comandantes. Os registros diários de meu pai foram compartilhados; todos os comandantes supremos dividiam seus registros uns com os outros. Era a única maneira de os seis se manterem informados, o tempo todo, dos acontecimentos na vida de cada um.
Portanto, eles conheciam essa história. Sabiam de meus sentimentos por ela.
E todos receberam a ordem de meu pai para matar Juliette.
Mas estão esperando. E só posso imaginar que haja mais coisa escondida por trás de tudo isso — alguma outra explicação para o fato de estarem há tanto tempo hesitando. Talvez estejam pensando que podem reabilitá-la. Talvez estejam se perguntando se Juliette não poderia continuar a servir a eles e à causa, basicamente como sua irmã tem servido.
A irmã de Juliette.
Sou imediatamente atormentado pela lembrança.
Cabelos castanhos, magra. Tremendo descontroladamente debaixo d’água. Longas mechas castanhas suspensas como enguias furiosas ao redor de seu rosto. Fios elétricos enfiados debaixo de sua pele. Vários tubos permanentemente ligados ao pescoço e ao tronco. Ela vivia submersa há tanto tempo que, quando a vi pela primeira vez, mal parecia uma pessoa. Sua pele era leitosa e enrugada, a boca aberta em um “O” grotesco em volta de um aparelho que forçava o ar para dentro de seus pulmões. É apenas um ano mais velha que Juliette. E foi mantida em cativeiro por doze anos.
Ainda está viva, mas por pouco.
Eu não fazia ideia de que aquela garota era irmã de Juliette. Aliás, não tinha ideia sequer de que aquela garota era uma pessoa. Quando recebi minha tarefa, ela não tinha nome. Só me foram passadas instruções, ordens para seguir. Não sabia o que ou quem me havia sido atribuído. Só entendi que era uma prisioneira e sabia que estava sendo torturada — mas não sabia, ali, naquele momento, que havia algo sobrenatural naquela garota. Eu era um idiota. Uma criança.
Bato a parte de trás da cabeça na parede. Uma vez. Com força. Fecho os olhos bem apertado.
Juliette não faz ideia de que já teve uma família de verdade — uma família horrível, insana, mas mesmo assim uma família. E se pudermos acreditar no que Castle diz, o Restabelecimento está atrás dela. Para matá-la. Para explorá-la. Então, precisamos agir. Temos de alertá-la, e preciso fazer isso quanto antes.
Mas como… como posso começar a contar isso a ela? Como faço para contar sem explicar o meu papel nisso tudo?
Sempre soube que Juliette era filha adotiva, mas nunca lhe contei essa verdade simplesmente porque pensei que pioraria as coisas. Para mim, seus pais biológicos estavam mortos há muito tempo. Para mim, contar a ela que tinha pais biológicos mortos não tornaria sua vida melhor.
Mas isso não muda o fato de que eu sabia.
E agora tenho que confessar. Não só isso, mas toda a verdade envolvendo sua irmã. Preciso contar que Emmaline continua viva e sendo torturada pelo Restabelecimento. Que eu contribui para essa tortura.
Ou então:
Que sou um verdadeiro monstro, completamente, totalmente indigno de seu amor.

Fecho os olhos, tapo a boca com as costas da mão e sinto meu corpo se desfazer. Não sei como me desenredar da sujeira criada por meu próprio pai. Uma sujeira da qual, sem querer, fui cúmplice. Uma sujeira que, ao ser revelada, destruirá cada fragmento da felicidade que a muito custo consegui criar em minha vida.
Juliette nunca, nunca mesmo, vai me perdoar.

Eu vou perdê-la.
E isso vai me matar.

4 comentários:

  1. Tadinho do Aaron, mas a verdade sempre é a melhor saída, mesmo q isso destrua a pessoa. Se ela descobrir por outra pessoa, ai realmente ela nunca mais vai querer saber dele.
    To cm pena, adoro o Aaron 💖

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  2. Tadinho, não tem como não amar esse garoto, em pensar que no primeiro livro eu o odiava...

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  3. Conte toda a verdade para ela , antes que outra pessoa conte e você a perca para sempre, Warner.

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  4. Ja sao 4 da manhã e nao dormir, porque quero saber mais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!