15 de junho de 2018

Warner

Ultimamente, não tenho sido eu mesmo.
A verdade é que não sou eu mesmo há o que parece ser um bom tempo, tanto que comecei a me perguntar se eu, em algum momento, soube quem fui. Sem piscar, encaro o espelho enquanto o chiado da máquina de raspar cabelos ecoa pelo cômodo. Meu rosto só está levemente refletido na minha direção, mas é o bastante para eu perceber que perdi peso. Minhas bochechas estão afundadas; meus olhos, maiores; as maçãs do rosto, mais pronunciadas. Meus movimentos são ao mesmo tempo lúgubres e mecânicos enquanto raspo meus próprios cabelos, enquanto o que restava de minha vaidade cai aos meus pés.
Meu pai está morto.
Fecho os olhos, preparando-me para o desagradável peso no peito, a máquina ainda chiando em meu punho fechado.
Meu pai está morto.
Já se passaram pouco mais de duas semanas desde que ele foi assassinado com dois tiros na testa por alguém que eu amo. Ela estava me fazendo uma gentileza ao matá-lo. Foi mais corajosa que eu fui durante toda a vida, apertou um gatilho que eu nunca consegui apertar. Ele era um monstro. Merecia algo ainda pior.
E ainda assim…
Essa dor.
Respiro com dificuldade e forço meus olhos a se abrirem, grato pela primeira vez por estar sozinho; grato, de alguma maneira, pela oportunidade de extirpar alguma coisa, qualquer coisa, que seja parte da minha pele. Existe uma estranha catarse no que estou fazendo.
Minha mãe está morta, penso, enquanto deslizo a lâmina por meu crânio. Meu pai está morto, penso, enquanto os fios caem no chão. Tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que sou foi forjado pelas ações e inações deles.
Quem sou eu, indago, na ausência dos dois?
Cabeça raspada, máquina desligada, passo a mão pelo limite da minha vaidade e inclino o corpo, ainda tentando vislumbrar o homem que me tornei. Sinto-me velho e instável, coração e mente em guerra. As últimas palavras que disse a meu pai…
— Oi.
Meu coração acelera e dou meia-volta; imediatamente finjo indiferença.
— Oi — respondo, forçando minhas mãos a se acalmarem, a permanecerem estáveis enquanto espano os fios de cabelo caídos em meus ombros.
Ela me observa com olhos enormes, lindos e preocupados.
Lembro-me de sorrir.
— Como fiquei? Espero que não esteja horrível demais.
— Aaron — fala baixinho. — Está tudo bem com você?
— Tudo certo — respondo, e olho outra vez para o espelho. Passo a mão pelos míseros centímetros de fios macios e espetados que me restaram e penso em como o corte me conferiu uma aparência mais durona, além de fria, do que antes. — Mas confesso que, sinceramente, não me reconheço — acrescento, tentando rir. Estou parado no meio do banheiro, usando apenas uma cueca boxer. Meu corpo nunca esteve tão magro, a linha marcada dos músculos nunca foram tão definidas; e a aparência terrível do meu físico agora está combinando com o corte de cabelo grosseiro de uma maneira que parece quase bárbara, tão diferente de mim que preciso desviar o olhar.
Juliette agora está bem diante de mim.
Suas mãos descansam em meus quadris e me puxam para a frente; tropeço um pouco para acompanhá-la.
— O que está fazendo? — começo a falar, mas quando nossos olhos se encontram, deparo-me com doçura e preocupação. Alguma coisa derrete dentro de mim. Meus ombros relaxam e eu a puxo para perto, respirando fundo durante meus movimentos.
— Quando vamos falar sobre esse assunto? — ela diz, encostada em meu peito. — Sobre tudo? Tudo o que aconteceu…
Estremeço.
— Aaron.
— Eu estou bem — minto para ela. — É só cabelo.
— Você sabe que não é disso que estou falando.
Desvio o olhar. Fito o vazio. Ficamos em silêncio, os dois, por um instante.
É Juliette quem, finalmente, rompe esse silêncio.
— Você está bravo comigo? — sussurra. — Por atirar nele?
Meu corpo fica paralisado.
Os olhos dela, arregalados.
— Não… não — respondo, pronunciando as palavras rápido demais, mas com sinceridade. — Não, é claro que não. Não se trata disso.
Juliette suspira.
— Não sei se você sabe, mas é normal ficar de luto pela perda do pai, mesmo que ele tenha sido uma pessoa terrível. Sabe? — Ela olha nos meus olhos. — Você não é um robô.
Engulo o nó se formando em minha garganta e, com delicadeza, desvencilho-me de seus braços. Beijo a bochecha dela e fico ali parado, contra sua pele, só por um segundo.
— Preciso tomar banho.
Ela parece inconsolável e confusa, mas não sei o que mais fazer. Adoro sua companhia, verdade seja dita, mas agora me sinto desesperado por um momento de solidão e não sei de que outra forma consegui-lo.
Então, tomo uma chuveirada. Tomo banhos de banheira. Faço longas caminhadas.

Faço muito isso.

Quando finalmente vou para a cama, ela já está dormindo.
Quero estender a mão em sua direção, puxar seu corpo macio e quente para perto do meu, mas estou paralisado. Esse sofrimento horrível faz que eu me sinta cúmplice na escuridão. Tenho medo de que a minha tristeza seja interpretada como um aval das escolhas dele — da sua própria existência — e, quanto a esse assunto, não quero ser mal interpretado, então não posso admitir que sinto dor por ele, que me importo com a perda desse homem tão monstruoso que me criou. E, na ausência de uma ação saudável, continuo inerte, uma pedra senciente, resultante da morte de meu pai.
Você está bravo comigo? Por atirar nele?
Eu o odiava.
Eu o odiava com uma intensidade violenta que nunca mais voltei a sentir. Mas o fogo do verdadeiro ódio, percebo, não pode existir sem o oxigênio da afeição. Eu não sentiria tanta dor ou tanto ódio se não me importasse.
E isso, minha afeição indesejada por meu pai, sempre foi minha maior fraqueza. Então fico deitado aqui, cozinhando em fogo lento uma dor sobre a qual nunca posso falar, enquanto o arrependimento corrói meu coração.
Sou órfão.
— Aaron? — ela sussurra, e sou arrastado de volta para o presente.
— Sim, meu amor?
Juliette se movimenta sonolenta, ajeita-se de lado e cutuca meu braço com a cabeça. Não consigo conter o sorriso enquanto acomodo o corpo para abrir espaço para ela se aconchegar em mim. Juliette rapidamente preenche o vazio, encostando o rosto em meu pescoço e envolvendo o braço em minha cintura. Meus olhos se fecham como se em oração. Meu coração volta a bater.
— Sinto sua falta — ela diz em um sussurro que quase não consigo captar.
— Estou bem aqui — respondo, tocando com carinho sua bochecha. — Estou bem aqui, meu amor.
Mas ela faz que não com a cabeça. Mesmo enquanto a puxo mais para perto de mim, mesmo enquanto volta a dormir, ela faz que não.

E eu me pergunto se não está errada.

16 comentários:

  1. Gente q dó do Aaron 💔😢

    Vitória Kellyn

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  2. Ah velho nao queria que o livro ja começasse com o warner desse jeito
    Quero ele como era antes

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  3. C-U-E-C-A boxer
    Só eu que imaginei essa cena???

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  4. Ai gente vou chorar
    N fica assim coração <3 <3

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  5. Que dó !!!!
    - Thalita

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  6. Cacete! Esperei tanto por esse livro... Warner, meu amor, para sempre!

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  7. E no segumds capítulo eu já tô chorando
    Vai ser tendo o negócio

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  8. Coitado '-' Está tão sensível e perdido...
    ~polly~

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  9. Parece que agora ele trocou de lugar com ela, nesse quesito sofrimento, tô com saudades do Aaron firme, entendo seu sofrimento, mas acho que é um bom momento para ele se aproximar dos irmãos, e descobrir que ele não rste sozinho.

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  10. Parece que agora ele trocou de lugar com ela, nesse quesito sofrimento, tô com saudades do Aaron firme, entendo seu sofrimento, mas acho que é um bom momento para ele se aproximar dos irmãos, e descobrir que ele não rste sozinho.

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  11. Gente, faz 4 anos desde que eu lu o último livro onde parou. Infelizmente esqueci muitas coisas. Tipo...eles estão namorando né? Pra estarem coladinhls cheios de intimidadd assim kkk Quando foi que se assumiram como casal? Eu realmente não lembro. Frustante. Alguém pode me dizer por favor?

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    1. Sim, começaram o relacionamento do terceiro livro

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  12. oh my god. já começou tenso pro lado dele

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Boa leitura, E SEM SPOILER!