15 de junho de 2018

Juliette

Sou uma ladra.
Roubei este caderno e esta caneta de um dos meus médicos quando ele não estava olhando, subtraí de um dos bolsos de seu jaleco, e guardei em minha calça. Isso foi pouco antes de ele dar ordens para aqueles homens virem me buscar. Os homens com ternos estranhos e máscaras de gás com uma área embaçada de plástico protegendo seus olhos. Eram alienígenas, lembro-me de ter pensado. Lembro-me de ter pensado que deviam ser alienígenas porque não podiam ser humanos aqueles que me algemaram com as mãos para trás, que me prenderam em meu assento. Usaram Tasers em minha pele várias e várias vezes por nenhum motivo que não sua vontade de me ouvir gritar, mas eu não gritava. Cheguei a gemer, mas em momento algum pronunciei uma palavra sequer. Senti as lágrimas descerem pelas bochechas, mas não estava chorando.
Acho que os deixei furiosos.
Eles me bateram para eu acordar, muito embora meus olhos estivessem abertos quando chegamos. Alguém me soltou do assento sem tirar minhas algemas e chutou meu joelho antes de dar ordens para que eu me levantasse. E eu tentei. Eu tentava, mas não conseguia, e finalmente seis mãos me puxaram pela porta e meu rosto passou algum tempo sangrando no asfalto. Não consigo lembrar direito do momento em que me empurraram para dentro.
Sinto frio o tempo todo.
Sinto o vazio, um vazio como se não houvesse nada dentro de mim, nada além desse coração partido, o único órgão que restou nesta casca. Sinto o palpitar dentro de mim, sinto as batidas reverberando em meu esqueleto. Eu tenho um coração, afirma a ciência, mas sou um monstro, afirma a sociedade. E é claro que sei disso. Sei o que fiz. Não estou pedindo comiseração. Mas às vezes penso — às vezes reflito: se eu fosse um monstro, é claro que já teria sentido a essa altura, não?
Eu me sentiria nervosa e violenta e vingativa. Conheceria a raiva cega, o desejo por sangue, a necessidade de vingança.
Em vez disso, sinto um abismo em meu interior, um abismo tão grande, tão sombrio, que sequer consigo enxergar dentro dele; sou incapaz de ver o que ele guarda. Não sei o que sou ou o que pode acontecer comigo.
Não sei o que posso fazer outra vez.
— EXCERTO DOS DIÁRIOS DE JULIETTE NO HOSPÍCIO

Estou outra vez sonhando com pássaros.
Queria que fossem embora logo. Estou cansada de pensar neles, de ter esperança neles. Pássaros, pássaros, pássaros… por que não vão embora?
Balanço a cabeça como se tentasse limpá-la, mas imediatamente percebo meu erro. Minha mente ainda está densa, pesada, nadando em confusão. Abro os olhos muito lentamente, sondando, mas não importa quanto eu os force a abrir, não consigo absorver nenhuma luz. Levo tempo demais para entender que acordei no meio da noite.
Uma arfada brusca.
Sou eu, minha voz, minha respiração, meu coração batendo acelerado. Onde está minha cabeça? Por que pesa tanto? Meus olhos se fecham rapidamente, sinto areia nos cílios, grudando-os. Tento afastar o entorpecimento, tento lembrar do que aconteceu, mas partes de mim ainda parecem sem vida, como meus dentes, os dedos dos pés e os espaços entre as costelas, e dou risada, de repente, e nem sei por quê…
Fui baleada.
Abro os olhos num ímpeto, minha pele deixa escapar um suor frio e repentino.
Meu Deus, eu fui baleada, fui baleada fui baleada
Tento me sentar e não consigo. Sinto-me tão pesada, tanto peso produzido por sangue e ossos, e de repente estou congelando, minha pele se transforma em borracha fria e úmida contra a mesa de metal na qual me encontro e de um instante
para o outro
quero gritar
e de repente me vejo outra vez no hospício, o frio e o metal e a dor e o delírio, tudo me confunde e então estou chorando, em silêncio, lágrimas quentes escorrendo por minhas bochechas e não consigo falar, mas tenho medo e ouço suas vozes, eu ouço
os outros
gritando
Carne e osso se rompendo na noite, vozes apressadas, abafadas — gritos suprimidos —, os colegas de prisão que nunca vi…
Quem eram eles?, indago.
Não penso neles há muito tempo. O que aconteceu com aquelas pessoas? De onde vinham? Quem deixei para trás?
Meus olhos estão grudados; os lábios, separados em um terror silencioso. Não me sinto tão assombrada assim desde muito tempo muito tempo muito tempo atrás
São os medicamentos, imagino. Tinha veneno naquelas balas.
É por isso que consigo ver os pássaros?
Sorrio. Dou risada. Conto-os. Não só os brancos, os brancos com faixas douradas como coroas em suas cabeças, mas também os azuis e os pretos e os amarelos. Vejo-os quando fecho os olhos, mas também os vi hoje, na praia, e pareciam tão reais, tão reais
Por quê?
Por que alguém tentaria me matar?
Mais um tranco repentino em meus sentidos e então estou mais alerta, mais como eu sou, o pânico afastando o veneno por um único momento de clareza e consigo me levantar, apoiar-me nos cotovelos, cabeça girando, olhos desvairados que analisam a escuridão e estou prestes, muito prestes a me deitar, exausta, quando vejo alguma coisa e…
— Você está acordada?
Inspiro bruscamente, confusa, tentando decifrar o som. As palavras são caóticas, como se eu as ouvisse debaixo d’água, então nado em sua direção, tentando, tentando, meu queixo caindo contra o peito enquanto perco a batalha.
— Você viu alguma coisa hoje? — a voz quer saber de mim. — Alguma coisa… estranha?
— Quem… onde… onde você está? — pergunto, estendendo cegamente a mão no escuro, olhos só entreabertos agora. Sinto uma resistência e a seguro em meus dedos. Uma mão? Mão estranha. É uma mistura de metal e pele, um punho com um toque forte de aço.
Não gosto disso.
Solto.
— Você viu alguma coisa hoje? — insiste.
E dou risada ao lembrar. Eu consegui ouvi-los — ouvir seus grasnados enquanto voavam sobre o mar, ouvir suas patinhas pisando na areia. Eram tantos. Asas e penas, bicos e garras afiadas.
Tanto movimento.
— O que você viu? — a voz insiste em saber, e me faz sentir-me estranha.
— Estou com frio — digo, antes de me deitar outra vez. — Por que faz tanto frio?
Um breve silêncio. Um farfalhar de movimento. Sinto um pesado cobertor sendo estendido sobre o lençol simples que já cobria meu corpo.
— Você devia saber que não estou aqui para feri-la — a voz afirma.
— Eu sei — respondo, embora eu não entenda por que falei isso.
— Mas as pessoas nas quais você confia estão mentindo para você — a voz alerta. — E os outros comandantes supremos só querem matá-la.
Abro um sorriso enorme enquanto me lembro dos pássaros.
— Olá — digo.
Alguém bufa.
— Vou vê-la pela manhã. Conversaremos em outro momento — anuncia a voz. — Quando se sentir melhor.
Estou tão aquecida agora, aquecida e cansada e outra vez me afogando em sonhos caóticos e memórias distorcidas. Sinto-me nadando em areia movediça, e quanto mais tento sair, mais rapidamente sou devorada e só consigo pensar que
aqui
nos cantos escuros e empoeirados da minha mente
sinto um alívio estranho
aqui sempre sou bem-vinda
em minha solidão, em minha tristeza
neste abismo existe um ritmo do qual me lembro. As lágrimas caindo em compasso, a tentação de recuar, a sombra do meu passado
a vida que escolhi esquecer
nunca
jamais
me esquecerá

4 comentários:

  1. Acho q a Nazeera é a irmã da juliete, sei la ela é muito estranha, parece que ela quebrou osso do cara lá que queria matar juliete

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  2. Ela é especial, mas não acho que seja a irmã dela.

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  3. Nazeera pode nao ser irma da j. Então ela fica com o keiji. (Min esqueci como se escreve)kkk. Então a irmã verdade ira de Juliette vai ficar com. Adam

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Boa leitura, E SEM SPOILER!