15 de junho de 2018

Warner

Pânico, terror, culpa. Medo descontrolado…
Mal consigo sentir meus pés quando tocam o chão, o coração batendo tão forte que chega a doer fisicamente. Estou correndo na direção da ala médica parcialmente construída no quinto andar e tentando não me afogar na escuridão dos meus próprios pensamentos. Tenho que lutar contra o instinto de fechar os olhos com força enquanto corro ao subir pelas escadas de dois em dois degraus porque, obviamente, o elevador mais próximo está temporariamente desligado em virtude dos reparos.
Nunca fui tão idiota.
No que eu estava pensando? No que estava pensando? Eu simplesmente me distanciei dela. Não paro de cometer erros. Não paro de fazer suposições. E nunca me senti tão desesperado pelo vocabulário vulgar de Kishimoto. Meu Deus, as coisas que eu poderia dizer agora. As coisas que sinto vontade de gritar. Nunca me senti tão furioso comigo mesmo. Tinha tanta certeza de que ela ficaria bem, total certeza de que Juliette jamais iria lá fora ao ar livre desprotegida…
Um golpe repentino de terror me esmaga.
Vai passar.
Vai passar, muito embora meu peito pulse com exaustão e indignação. É irracional sentir raiva da agonia — é inútil, eu sei, ficar com raiva dessa dor. Mesmo assim, aqui estou eu. Sinto-me impotente. Quero vê-la. Quero abraçá-la. Quero perguntar-lhe como pôde baixar a guarda enquanto andava sozinha em um espaço aberto
Algo em meu peito parece se rasgar quando chego ao último andar, meus pulmões queimando em virtude do esforço. Meu coração bombeia o sangue furiosamente. Mesmo assim, avanço pelo corredor. Desespero e terror alimentam minha necessidade de encontrá-la.
Paro abruptamente onde estou quando o pânico ressurge.
Uma onda de medo faz minhas costas se inclinarem e eu me dobro, as mãos nos joelhos, tentando respirar. É espontânea essa dor. Dilacerante. Sinto um formigar assustador atrás dos olhos. Pisco, com força, lutando contra o golpe de emoção.
Como foi que isso aconteceu?, quero perguntar a ela. Você não se deu conta de que alguém tentaria matá-la?
Estou quase tremendo quando chego ao quarto para o qual a levaram. Praticamente consigo sentir seu corpo mole e manchado de sangue sobre a mesa de metal. Aproximo-me correndo, intoxicado, e peço a Sonya e Sara para fazerem outra vez o que fizeram antes: me ajudarem a curá-la.
Só então percebo que o quarto está cheio.
Estou tirando o blazer quando noto a presença dos outros. Há pessoas encostadas nas paredes — pessoas que provavelmente conheço, mas que não perco tempo tentando reconhecer. Ainda assim, de alguma forma, ela se destaca ali.
Nazeera.
Eu poderia fechar minhas mãos em volta de sua garganta.
— Saia já daqui — arfo, com uma voz que não parece minha.
Nazeera parece mesmo em choque.
— Não sei como conseguiu fazer isso — acuso-a —, mas a culpa é sua... Sua e do seu irmão… Vocês fizeram isso com ela…
— Se quiser conhecer o homem responsável — Nazeera responde em um tom tranquilo e frio —, fique à vontade. Sua identidade ainda é desconhecida, mas as tatuagens em seu braço indicam que ele é de um setor vizinho. Seu corpo encontra-se guardado em uma cela no subsolo.
Meu coração para, e então acelera.
— O quê?
— Aaron? — É Juliette, Juliette, minha Juliette…
— Não se preocupe, meu amor — apresso-me em dizer. — Vamos resolver esta situação, está bem? As meninas estão aqui e vamos fazer isso de novo, como na última vez…
— Nazeera — ela pronuncia, olhos fechados, lábios se movimentando com dificuldade.
— Sim? — Congelo. — O que tem Nazeera?
— Salvou… — a boca de Juliette para no meio de um movimento, então ela engole em seco e prossegue: — a minha vida.
Olho para Nazeera. Estudo-a. Ela parece feita de pedra, não mexe um músculo em meio ao caos. Encara Juliette com um olhar curioso no rosto e simplesmente não consigo decifrá-la. Mas não preciso de nenhum poder sobre-humano para me dizer que tem algo errado com essa garota. Meu instinto humano básico deixa claro para mim que ela sabe de alguma coisa… Alguma coisa que se recusa a me contar. E isso me leva a desconfiar dela.
Então, quando Nazeera finalmente se vira para mim, ostentando um olhar profundo e firme e assustadoramente sério, sinto um golpe de pânico perfurar meu peito.

Juliette está dormindo agora.
Nunca me senti mais grato por minha habilidade cruel de roubar e manifestar as Energias de outras pessoas do que nesses momentos infelizes. Em várias ocasiões tivemos esperança de que, agora que Juliette aprendeu a ligar e desligar seu toque letal, Sonya e Sara seriam capazes de curá-la — seriam capazes de encostar suas mãos no corpo de Juliette em caso de emergência, sem terem de se preocupar com sua própria segurança. Mas Castle logo apontou que ainda existe a chance de que, uma vez que o corpo de Juliette comece a melhorar, seu trauma apenas parcialmente curado poderia instintivamente desencadear velhas defesas, mesmo sem permissão. Nesse estado de emergência, a pele de Juliette poderia acidentalmente se tornar outra vez letal. É um risco — um experimento — que esperávamos nunca mais ter de enfrentar. Mas agora?
E se não estivéssemos por perto? E se eu não tivesse esse estranho dom?
Não quero nem pensar nisso.
Então, fico aqui sentado, a cabeça enterrada nas mãos. Espero silenciosamente do outro lado da porta enquanto ela dorme para curar seus ferimentos. Nesse momento, as propriedades terapêuticas estão se espalhando por todo seu corpo. Até lá, continuarei sendo acometido pelas ondas de emoções.
É imensurável, essa frustração. Frustração com Kenji, por ter deixado Juliette sozinha. Frustração com seis soldados que perderam suas armas para esse único agressor não identificado. Mas, acima de tudo, meu Deus, acima de tudo, nunca me senti tão frustrado comigo mesmo.
Fui negligente.
Eu deixei isso acontecer. Meus descuidos. Minha ridícula obsessão por meu pai — o envolvimento excessivo com meus próprios sentimentos depois de sua morte —, os dramas patéticos do meu passado. Permiti a mim mesmo me distrair; fiquei envolvido demais comigo mesmo, fui consumido por minhas próprias preocupações e problemas cotidianos.
É culpa minha.
É culpa minha porque entendi tudo errado.
É culpa minha pensar que ela estava bem, que não precisava mais de mim — mais estímulo, mais motivação, mais direcionamento — diariamente. Ela continuava exibindo esses extraordinários momentos de crescimento e transformação, e isso acabou me desarmando. Só agora percebo que esses momentos me levavam a enxergar as coisas da forma errada. Juliette precisava de mais tempo, de mais oportunidades para solidificar seus pontos fortes. Precisava de prática; e precisava ser forçada a praticar. Ser inflexível, lutar sempre por si mesma.
E ela chegou muito longe.
Hoje é quase irreconhecível se comparada à garota insegura que conheci. É forte. Deixou de sentir medo de tudo. Mesmo assim, continua tendo só dezessete anos. E está nessa posição há pouquíssimo tempo.
Sempre me esqueço disso.
Eu devia tê-la aconselhado quando ela disse que queria assumir o cargo de comandante suprema. Devia ter dito algo naquela ocasião. Devia certificar-me de que ela entendia a enormidade daquilo em que estava se metendo. Devia tê-la advertido de que seus inimigos tentariam mais cedo ou mais tarde atentar contra sua vida
Tenho que arrastar as mãos para longe do rosto. Inconscientemente, pressionei os dedos com tanta força que provoquei mais uma dor de cabeça.
Suspiro e solto o corpo contra a cadeira, abrindo as pernas e sentindo a cabeça encostar na parede fria de concreto atrás de mim. Sinto-me entorpecido, mas, ao mesmo tempo, um tanto elétrico. Com raiva. Impotente. Com essa necessidade insuportável de gritar com alguém, com qualquer pessoa. Meus punhos se apertam. Fecho os olhos. Ela tem que ficar bem. Ela tem que ficar bem por ela e por mim, porque preciso dela e porque preciso que esteja bem…
Alguém pigarreia.
Castle se senta na cadeira ao meu lado. Não olho em sua direção.
— Senhor Warner — diz.
Não respondo.
— Como está, garoto?
Pergunta idiota.
— Isso… — ele continua, apontando para o quarto dela. — É um problema muito maior do que qualquer pessoa vai admitir. Acho que você também sabe disso.
Meu corpo enrijece.
Ele me encara.
Viro-me apenas um centímetro em sua direção. Finalmente percebo as leves marcas de expressão em volta de seus olhos, na testa. Os fios brancos brilhando em meio aos dreadlocks presos na altura do pescoço. Não sei quantos anos Castle tem, mas suspeito que tenha idade suficiente para ser meu pai.
— Você tem algo a dizer?
— Ela não pode liderar essa resistência — ele explica, apertando os olhos na direção de algo ao longe. — É nova demais. Inexperiente. Raivosa. Você sabe disso, não sabe?
— Não.
— Era para ter sido você — Castle afirma. — Eu sempre tive uma esperança secreta, desde quando você apareceu em Ponto Ômega, de que quem ocuparia esse cargo seria você. De que você se uniria a nós. E nos guiaria. — Balança a cabeça. — Você nasceu para isso. Teria cumprido as obrigações com plena destreza.
— Eu não queria esse trabalho — respondo em um tom duro, tenso. — Nossa nação precisava ser transformada. Precisava de um líder com coração e paixão, e eu não sou essa pessoa. Juliette se importa com as pessoas. Ela se importa com as esperanças, com os medos da população… e vai lutar por eles de um jeito que eu jamais conseguiria.
Castle suspira.
— Ela não pode lutar por ninguém se estiver morta, garoto.
— Juliette vai ficar bem — retruco, furiosamente. — Agora ela está descansando.
Castle passa um instante quieto. Quando, enfim, quebra o silêncio, ele diz:
— Tenho uma grande esperança de que, muito em breve, você pare de fingir que não entende o que eu falo. Não tenha dúvida de que respeito demais sua inteligência, por isso, não posso retribuir o fingimento. — Castle está olhando para o chão, as sobrancelhas tensas. — Você sabe muito bem onde estou tentando chegar.
— E o que você quer dizer com isso?
Ele se vira para olhar na minha direção. Olhos castanhos, pele castanha, cabelos castanhos. Seus dentes brilham quando ele diz:
— Você diz que a ama?
De repente, sinto meu coração acelerar, as palpitações ecoando em meus ouvidos. Para mim, é muito difícil admitir esse tipo de coisa em voz alta. Em especial para um homem que, no fundo, é um verdadeiro estranho.
— Você realmente a ama? — insiste.
— Sim — sussurro. — Amo.
— Então a contenha. Faça-a parar antes que eles façam. Antes que esse experimento a destrua.
Viro-me, o peito latejando.
— Você continua não acreditando em mim — diz. — Muito embora saiba que estou dizendo a verdade.
— Só sei que você pensa que está me dizendo a verdade.
Castle nega com a cabeça.
— Os pais de Juliette estão vindo atrás dela. E quando chegarem você vai ter certeza de que não desviei vocês do caminho certo. Mas, quando isso acontecer, será tarde demais.
— Sua teoria não faz o menor sentido — retruco, frustrado. — Tenho documentos declarando que os pais biológicos de Juliette morreram há muito tempo.
Ele estreita os olhos.
— Documentos são falsificados facilmente.
— Nesse caso, não — respondo. — Não é possível.
— Garanto que é possível.
Continuo negando com a cabeça.
— Acho que você não entende — aponto. — Eu tenho todos os arquivos de Juliette. E a data de morte de seus pais biológicos sempre esteve muito clara em todos. Talvez você os esteja confundindo com os pais adotivos
— Os pais adotivos só tinham a custódia de uma filha… Juliette… certo?
— Sim.
— Então como você explicaria a segunda filha?
— O quê?! — Encaro-o. — Qual segunda filha?
— Emmaline, a irmã mais velha. Você, obviamente, se lembra de Emmaline.
Agora estou convencido de que Castle perdeu o que lhe restava de sanidade.
— Meu Deus! — exclamo. — Você ficou mesmo louco.
— Que disparate! — responde. — Você se encontrou com Emmaline muitas vezes, senhor Warner. Talvez, na época, não soubesse quem era, mas você viveu no mundo dela. Interagiu muito com ela. Não foi?
— Receio que esteja extremamente mal-informado.
— Tente lembrar-se, garoto.
— Tentar lembrar-me do quê?
— Você tinha dezesseis anos. Sua mãe estava morrendo. Havia rumores de que seu pai logo seria promovido da posição de comandante e regente do Setor 45 para a de comandante supremo da América do Norte. Você sabia que, dentro de alguns anos, ele o levaria para a capital, e você não queria ir. Não queria deixar sua mãe para trás, então propôs assumir o lugar de seu pai. Propôs assumir o Setor 45. E estava disposto a fazer qualquer coisa para conseguir isso.
Sinto o sangue saindo do meu corpo.
— Seu pai lhe deu um emprego.
— Não — sussurro.
— Você se lembra do que ele o obrigou a fazer?
Olho para minhas mãos abertas e vazias. Meu pulso acelera. Minha mente gira.
— Você se lembra, garoto?
— Quanto você sabe? — questiono, mas meu rosto parece paralisado. — Sobre mim... sobre isso?
— Não tanto quanto você, mas mais que a maioria das pessoas.
Afundo o corpo na cadeira. A sala rodopia à minha volta.
Só consigo imaginar o que meu pai diria se estivesse vivo para presenciar esta cena. Patético. Você é patético. Não pode culpar ninguém além de si mesmo, ele diria. Está sempre estragando tudo, colocando suas emoções acima das obrigações…
— Há quanto tempo você sabe? — Olho para Castle, sinto a ansiedade enviando ondas de um calor indesejado para as minhas costas. — Por que nunca falou nada?
Castle se ajeita na cadeira.
— Não sei quanto exatamente devo dizer sobre isso. Não sei até que ponto posso confiar em você.
— Não pode confiar em mim? — exclamo, perdendo o controle. — Foi você quem passou esse tempo todo escondendo informações. — Ergo o olhar, de repente me dando conta de uma coisa. — Kishimoto sabe disso?
— Não.
Minhas feições se reorganizam. Fico surpreso.
Castle suspira.
— Mas vai saber muito em breve. Assim como todos os outros.
Descrente, balanço a cabeça.
— Então você está me dizendo que… que aquela garota… aquela era irmã dela?
Castle assente.
— Impossível.
— É um fato.
— Como isso pode ser verdade? — questiono, ajeitando o corpo na cadeira. — Eu saberia se fosse verdade. Eu teria acesso a informações sigilosas, seria alertado…
— Você ainda é apenas uma criança, senhor Warner. Às vezes se esquece disso. Esquece-se de que seu pai não lhe contou tudo.
— Como você sabe, então? Como sabe de tudo isso?
Castle me estuda.
— Sei que me acha tolo — ele diz —, mas não sou tão simplório quanto talvez imagine. Eu também tentei liderar esta nação certa vez e, durante o tempo que passei no submundo, fiz muitas pesquisas. Passei décadas construindo o Ponto Ômega. Acha que fiz isso sem também entender meus inimigos? Eu tinha três arquivos de um metro de altura contendo informações sobre cada comandante supremo, suas famílias, seus hábitos pessoais, suas cores preferidas. — Estreita os olhos. — Você, certamente, não pensava que eu fosse tão ingênuo. Os comandantes supremos ao redor do mundo guardam muitos segredos, e eu tive o privilégio de conhecer alguns deles. Contudo, as informações que reuni no início do Restabelecimento se provaram verdadeiras.
Só consigo encará-lo, sem entender direito.
— Foi com base no que descobri que fiquei sabendo de uma jovem com um toque letal trancafiada em um hospício do Setor 45. Nossa equipe já vinha planejando uma missão de resgate quando você descobriu a existência dela… como Juliette Ferrars, um nome falso... e então percebeu que ela poderia ser útil nas suas pesquisas. Por isso, nós, do Ponto Ômega, esperamos. Ganhamos tempo. Nesse ínterim, fiz Kenji se alistar. Ele passou vários meses reunindo informações antes de seu pai, finalmente, aprovar o pedido que você fez para tirá-la do hospício. Kenji se infiltrou na base do Setor 45 seguindo ordens minhas; sua missão sempre foi recuperar Juliette. Desde então, passei a procurar Emmaline.
— Continuo sem entender — sussurro.
— Senhor Warner — ele diz, impaciente —, Juliette e sua irmã estão sob a custódia do Restabelecimento há doze anos. As duas são parte de um experimento contínuo que envolve testes e manipulação genética, mas cujos detalhes ainda estou tentando desvendar.
Minha mente parece prestes a explodir.
— Agora acredita em mim? — pergunta. — Já fiz o bastante para provar que sei mais da sua vida do que você imagina?
Tento falar, mas minha garganta está seca; as palavras raspam o interior da boca.
— Meu pai era um homem doente e sádico, mas não teria feito isso. Não pode ter feito isso comigo.
— Mas fez — Castle responde. — Ele deixou que você levasse Juliette à base, e fez isso sabendo muito bem quem ela era. Seu pai tinha uma obsessão perturbadora por tortura e experimentos.
Sinto-me desligado da minha mente, do meu corpo, mesmo enquanto me forço a respirar.
— Quem são os pais verdadeiros dela?
Castle balança a cabeça.
— Ainda não sei. Seja lá quem forem, sua lealdade ao Restabelecimento era profunda. Essas meninas não foram roubadas de seus pais. Elas foram oferecidas por eles de livre e espontânea vontade.
Fico de olhos arregalados. De repente, estou nauseado.
A voz de Castle muda. Ainda sentado, ele puxa o corpo para a frente na cadeira, mantendo um olhar penetrante.
— Senhor Warner, não estou dividindo essas informações com você com o objetivo de provocar dor. Saiba que essa situação toda também não é fácil para mim.
Ergo o olhar.
— Eu preciso da sua ajuda — fala, estudando-me. — Preciso saber o que fez durante aqueles dois anos. Preciso saber dos detalhes da sua obrigação com Emmaline. O que você tinha de fazer? Ela estava sendo mantida como cativa? Como a usavam?
Balanço a cabeça.
— Eu não sei.
— Sabe, sim — ele responde. — Tem que saber. Pense, garoto. Tente lembrar.
— Eu não sei! — grito.
Surpreso, Castle recua.
— Ele nunca me contou — prossigo, quase sem ar. — Esse era o trabalho. Seguir as ordens sem questioná-las. Fazer o que o Restabelecimento me pedia. Provar minha lealdade.
Desanimado, Castle solta o corpo na cadeira. Parece realmente abatido.
— Você era a única esperança que me restava — admite. — Pensei que, enfim, conseguiria solucionar esse mistério.
Encaro-o, coração acelerado.
— Eu continuo sem ter a menor ideia do que você está falando.
— Há um motivo para ninguém conhecer a verdade sobre essas irmãs, senhor Warner. Há um motivo para Emmaline ser mantida sob alta segurança. Ela é fundamental, de alguma maneira, para a estrutura do Restabelecimento, e ainda não sei como nem por quê. Não sei o que ela está fazendo para eles. — Olha direto no meu rosto, um olhar que me atravessa. — Por favor, tente lembrar. O que ele o forçou a fazer com ela? Qualquer coisa que conseguir se lembrar… Qualquer coisa, mesmo…
— Não — sussurro, mas a vontade é de gritar. — Não quero lembrar.
— Senhor Warner, entendo que seja difícil para você…
— Difícil para mim? — De repente, me levanto. Meu corpo treme de raiva. As paredes, as cadeiras, as mesas à nossa volta começam a tremer. As luminárias balançam perigosamente no teto, as lâmpadas piscam. — Você acha difícil para mim?
Castle não fala nada.
— O que você está me dizendo agora é que Juliette foi plantada aqui, na minha vida, como parte de um experimento maior… Um experimento do qual meu pai sempre esteve a par. Está me dizendo que Juliette não é quem eu penso ser. Que Juliette Ferrars sequer é seu nome verdadeiro. Está me dizendo que ela não apenas é uma garota com pais vivos, mas também que passei dois anos torturando sua irmã sem saber. — Meu peito lateja enquanto o encaro. — É isso?
— Tem mais.
Deixo escapar uma risada alta. O barulho é insano.
— Senhorita Ferrars logo vai descobrir tudo isso — Castle me alerta. — Portanto, eu o aconselharia a ser mais rápido com essas revelações. Conte tudo a ela, e conte quanto antes. Você precisa confessar. Faça isso agora mesmo.
— O quê? — indago, espantado. — Por que eu?
— Porque se não contar logo a ela, senhor Warner, posso garantir que outra pessoa contará…
— Não estou nem aí — respondo. — Vá você contar a ela.
— Você não está me ouvindo. É imperativo que ela ouça essa história da sua boca. Juliette confia em você. Ela o ama. Se descobrir sozinha ou por meio de alguma fonte menos fidedigna, podemos perdê-la.
— Nunca vou deixar isso acontecer. Nunca vou permitir que ninguém volte a feri-la, mesmo que isso signifique que eu mesmo tenha de protegê-la…
— Não, garoto — Castle me interrompe. — Você me entendeu errado. Eu não quis dizer que a perderíamos fisicamente. — Ele sorri, mas a imagem é estranha. Parece assustado. — Eu quis dizer que a perderíamos… aqui… — ele toca sua cabeça com um dedo — e aqui — e toca em seu coração.
— O que quer dizer com isso?
— Simplesmente que você não pode viver em negação. Juliette Ferrars não é quem você pensa ser e não é alguém com quem possamos brincar. Ela parece, em alguns momentos, completamente indefesa. Ingênua. Até mesmo inocente. Mas você não pode se permitir esquecer de que ainda há raiva no coração dela.
Surpreso, meus lábios se entreabrem.
— Você leu sobre isso, não leu? No diário dela? — ele indaga. — Já leu a respeito de até onde a mente dela pode ir... de como pode ser sombria…
— Como foi que você…
— E eu — continua, interrompendo-me —, eu já vi. Eu já a vi, com meus próprios olhos, perdendo o controle dessa fúria silenciosamente contida. Juliette quase destruiu todos nós em Ponto Ômega muito antes de seu pai. Ela arrebentou o chão em um ataque de loucura inspirado por um mero mal-entendido — ele conta. — Porque ficou nervosa com os testes que estávamos fazendo com o senhor Kent. Porque ficou confusa e um pouco assustada. Ela não ouvia racionalmente… E quase matou a nós todos.
— Lá era diferente — retruco, negando com a cabeça. — Isso foi há muito tempo. Agora ela é diferente. — Desvio o olhar, fracassando em minha tentativa de controlar a frustração gerada por suas acusações ligeiramente veladas. — Ela está feliz
— Como pode estar realmente feliz se nunca enfrentou seu passado? Nunca deu atenção a ele, apenas o deixou de lado. Nunca teve tempo ou ferramentas para examiná-lo. E essa fúria… esse tipo de raiva… — Castle balança a cabeça — não desaparece de uma hora para a outra. Ela é volátil e imprevisível. E escreva o que eu digo, garoto: a fúria de Juliette vai ressurgir.
— Não.
Ele me encara. Seu olhar me deixa abalado.
— Você não acredita no que está dizendo.
Não respondo.
— Senhor Warner…
— Não será assim — respondo. — Se essa fúria ressurgir, não será assim. Raiva, talvez, mas não essa fúria. Não a fúria descontrolada e sem limites…
Castle sorri. É um sorriso tão repentino, tão inesperado, que me faz interromper a fala.
— Senhor Warner —, o que acha que vai acontecer quando a verdade sobre o passado de Juliette, enfim, vier à tona? Acha que ela vai aceitar tudo tranquilamente? Calmamente? Se minhas fontes estiverem corretas, e em geral costumam estar, os rumores no submundo afirmam que o tempo dela aqui está chegando ao fim. O experimento já foi concluído. Juliette assassinou um comandante supremo. O sistema não vai deixá-la sair impune, com seus poderes livres. E ouvi dizer que o plano é extinguir o Setor 45. — Castle hesita. — Quanto a Juliette, é provável que a matem ou a levem para outro lugar.
Minha mente gira, explode.
— Como sabe disso?
Castle deixa escapar uma risada rápida.
— Você não pode achar mesmo que Ponto Ômega tenha sido o único grupo de resistência na América do Norte, senhor Warner. Eu tenho muitos contatos no submundo. E o que eu disse continua valendo. — Faz uma pausa. — Juliette logo terá acesso às informações necessárias para unir todas as peças do quebra-cabeça de seu passado. E vai descobrir, de um jeito ou de outro, qual foi a sua participação em tudo o que aconteceu.
Desvio o olhar antes de encará-lo outra vez. Sinto meus olhos arregalados e minha voz instável ao sussurrar.
— Você não entende. Ela jamais me perdoaria.
Castle nega com a cabeça.
— Se Juliette descobrir por intermédio de outra pessoa que você sempre soube que ela era adotada? Se ouvir da boca de outra pessoa que você torturou a irmã dela? — Assente. — Sim, é verdade. É muito provável que jamais o perdoe.
Por um terrível momento, deixo de sentir meus joelhos. Sou forçado a me sentar, meus ossos tremendo.
— Mas eu não sabia — declaro, detestando o som das palavras, detestando me sentir como uma criança. — Eu não sabia quem era aquela garota. Não sabia que Juliette tinha uma irmã… Eu não sabia…
— Não importa. Sem você, sem contexto, sem uma explicação ou pedido de desculpas, será muito mais difícil ela perdoar tudo o que aconteceu. Mas se contar você mesmo e contar agora a ela? O relacionamento de vocês talvez ainda tenha uma chance. — Balança a cabeça. — De um jeito ou de outro, precisa contar a ela, senhor Warner. Porque temos de adverti-la. Juliette precisa saber o que está por vir e temos que começar a traçar nossos planos. Seu silêncio acerca deste assunto só vai terminar em ruína.

15 comentários:

  1. Devo admitir que estou em estado de choque !!!!

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  2. Minha nossa!! Que capítulo foi esse?? Tô sem palavras 😱😱

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  3. Baffooo!!! Mas q p..., essa agora sobre ela.
    Comichando de curiosidade..

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  4. Como assim cara :0 tá bugando minha mente.
    SE FOR PRA ELES N FICAREM JUNTOS NO FINAL ERA PRA TER DEIXADO SÓ COMO TRILOGIA MSM HEIN ESCRITORA Hahsuhaushauhs

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  5. agr sim a parada vai ficar loka

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  6. PQP... MAS e agora Juliette?😲😱😨

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  7. Muito esclarecedor esse capítulo. Primeiro, Juliette tem uma irmã que foi durante por Warner e está mantida prisioneira pelo restabelecimento; os pais de ambas estão vivos e deram eles para o restabelecimento de boa vontade . E acima de tudo isso, tudo que aconteceu comJuliette foi planejado e ela nem se chama assim. Tudo isso engloba uma experiência...

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  8. Conta logo Warner!

    Flavia

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  9. Não gosto muito do Castle, e gosto de pessoas imprevisíveis.

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  10. que capitulo foi esse? EU to completamente sem palavras =O
    Só quero ver esses dois juntos =(

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Boa leitura, E SEM SPOILER!