15 de junho de 2018

Warner

Hoje participei com Juliette de sua caminhada matinal.
Ela parece extremamente nervosa agora, ainda mais do que antes, e eu me culpo por não tê-la preparado melhor para o que teria de encarar como comandante suprema. Ontem à noite, voltou em pânico para nosso quarto, comentou alguma coisa sobre querer falar mais línguas e recusou-se a debater mais a fundo essa questão.
Sinto que está escondendo alguma coisa de mim.
Ou talvez eu esteja escondendo dela.
Ando tão absorto em meus próprios pensamentos, em meus próprios problemas, que não tive muita chance de conversar com ela sobre como está se sentindo ultimamente. Ontem foi a primeira vez que ela expôs suas preocupações sobre ser uma boa líder, o que me fez imaginar há quanto tempo esses medos a estão incomodando. Há quanto tempo está guardando tudo para si. Temos que encontrar mais oportunidades para conversar sobre tudo o que está acontecendo, mas receio que possamos estar nos afogando em revelações.
Tenho certeza de que eu estou.
Minha mente continua tomada pelas bobagens ditas por Castle. Tenho um bom grau de certeza de que descobriremos que ele está desinformado, que entendeu errado algum detalhe crucial. Mesmo assim, estou desesperado por respostas verdadeiras e ainda não tive a oportunidade de mexer nos arquivos de meu pai.
Portanto, permaneço aqui, nesse estado de incerteza.
Eu esperava encontrar um tempo para mexer naqueles arquivos hoje, mas não confio em Haider e Nazeera para deixá-los sozinhos com Juliette. Dei a ela o espaço de que precisava quando conheceu Haider, mas deixá-la sozinha com eles agora seria uma irresponsabilidade. Nossos visitantes estão aqui por todos os motivos errados e provavelmente em busca de alguma razão para dar início a uma olimpíada mental cruel com as emoções de Juliette. Ficaria surpreso se não estivessem tentando aterrorizá-la e confundi-la. Forçá-la a ser covarde. Começo a me preocupar.
Há tanto que Juliette não sabe.
Acho que não me esforcei o bastante para imaginar como ela deve estar se sentindo. Eu menosprezo muita coisa nessa vida militar, tudo me parece óbvio, mas para ela ainda é novidade. Preciso ter isso em mente. Preciso dizer a Juliette que ela tem suas próprias armas. Que conta com uma frota de carros particulares, um motorista pessoal. Vários jatos particulares e pilotos à sua disposição. E de repente me pergunto se ela já viajou de avião.
Eu paro, imerso no pensamento.
É claro que ela não sabe. Ela não conhece nada além da vida no Setor 45. Duvido de que já tenha sequer nadado, muito menos pisado em um navio e se deslocado pelo mar. Juliette nunca viveu em nenhum lugar que não seus livros e suas lembranças.
Ela ainda tem tanta coisa a aprender. Tanta coisa a superar. E, enquanto me solidarizo profundamente com suas lutas, realmente não a invejo nesse sentido, na enormidade da tarefa em seu horizonte. Afinal, há um simples motivo pelo qual eu nunca quis o trabalho de comandante supremo para mim…
Eu nunca quis a responsabilidade que vem com ele.
Trata-se de uma quantidade imensa de trabalho com muito menos liberdade do que se imagina; pior ainda, é uma posição que requer uma boa carga de habilidades para lidar com pessoas. O tipo de habilidade que inclui tanto matar quanto seduzir alguém de uma hora para a outra. Duas coisas que detesto.
Tentei convencer Juliette de que ela era perfeitamente capaz de assumir o posto de meu pai, mas ela não parece tão persuadida. E agora, com Haider e Nazeera aqui, entendo por que Juliette parece mais insegura do que nunca. Os dois — bem, na verdade, foi só Haider — pediram para participar da caminhada matinal de Juliette hoje. Ela e Kenji vêm conversando bem baixinho, mas Haider tem ouvidos mais afiados do que imaginávamos. Então, aqui estamos, nós cinco, andando pela praia mergulhados em um silêncio desconfortante. Haider, Juliette e eu formamos um grupo, embora não tenhamos planejado assim. Nazeera e Kenji nos seguem alguns passos atrás.
Ninguém fala nada.
De todo modo, a praia não é um lugar horrível para passar a manhã, mesmo com o fedor estranho que a água exala. Para dizer a verdade, é um lugar bastante tranquilo. O som das ondas quebrando forma um pano de fundo relaxante para o que será um dia muito estressante.
— Então… — Haider enfim quebra o silêncio, dirigindo-se a mim. — Vai participar do Simpósio Continental esse ano?
— É claro que vou — respondo baixinho. — Participarei como sempre participo. — Um breve silêncio. — Você vai voltar para casa para participar do seu próprio evento?
— Infelizmente, não. Nazeera e eu estávamos planejando acompanhá-lo no evento norte-americano, mas é claro que… eu não sabia se a Comandante Suprema Ferrars — ele olha para Juliette —, participaria, então…
Juliette fica de olhos arregalados.
— Perdão, mas do que vocês estão falando?
Haider franze só um pouco a testa em resposta, mas percebo a intensidade de sua surpresa.
— Do Simpósio Continental — repete. — Você certamente já ouviu falar dele, não?
Juliette me fita confusa, e então…
— Ah, sim, claro — responde, lembrando-se. — Várias das correspondências que recebi falam sobre esse simpósio, mas eu não tinha me dado conta de que era algo tão importante.
Luto contra a vontade de me encolher. Essa foi mais uma negligência de minha parte.
Juliette e eu já falamos sobre o simpósio, é claro, mas só muito por cima. É um congresso bianual de todos os 555 regentes espalhados pelo continente. Trata-se de um tremendo evento.
Haider inclina a cabeça, estudando-a.
— Sim, é um negócio importantíssimo. Nosso pai está muito ocupado se preparando para o evento da Ásia, então, ando pensando muito nisso. Mas como o falecido Supremo Anderson nunca participava de reuniões públicas, acabei ficando curioso para saber se você seguiria os passos dele.
— Ah, não, eu estarei lá — Juliette se apressa em dizer. — Eu não me escondo do mundo como ele se escondia. É claro que participarei.
Os olhos de Haider ficam ligeiramente arregalados. Ele desliza o olhar de mim para ela e outra vez na minha direção.
— Quando exatamente será? — Juliette pergunta, e sinto a curiosidade de Haider crescendo cada vez mais.
— Você não viu no seu convite? — ele indaga, todo inocente. — O evento será em dois dias.
Ela de repente se vira, mas não sem que antes eu note suas bochechas coradas. Sinto seu constrangimento imediato, o que parte meu coração. Odeio Haider por brincar assim com ela.
— Eu andei muito ocupada — Juliette responde baixinho.
— Foi culpa minha — intervenho. — Era para eu acompanhar o desenrolar dos preparativos e acabei esquecendo. Mas vamos finalizar o programa hoje. Delalieu já está trabalhando pesado para dar conta de todos os detalhes.
— Perfeito — Haider diz para mim. — Nazeera e eu aguardamos ansiosamente por participarmos com vocês. Nunca estivemos em um simpósio fora da Ásia.
— Claro — respondo. — Será um prazer enorme tê-los conosco.
Haider olha Juliette de cima a baixo e, em seguida, examina suas roupas, os cabelos, os tênis desgastados e simples. E, embora não diga nada, posso sentir sua desaprovação, seu ceticismo e, acima de tudo, a decepção que sente por ela.
O que me faz querer jogá-lo no mar.
— Quais são seus planos para o restante de sua estada aqui? — pergunto, agora observando-o mais de perto.
Ele dá de ombros, mostrando total indiferença.
— Nossos planos são flexíveis. Só queremos passar nosso tempo com todos vocês. — Ele olha para mim. — Afinal, velhos amigos precisam ter motivo para visitarem uns os outros? — E por um momento, pelo mais breve dos momentos, percebo a dor sincera por trás de suas palavras. Um sentimento de negligência.
Que me deixa surpreso.
E então desaparece.
— De todo modo — continua —, acredito que a Comandante Suprema Ferrars já tenha recebido várias cartas de nossos velhos amigos. Mesmo assim, parece que seus pedidos para fazerem uma visita vêm sendo respondidos com o silêncio. Receio que se sentiram um pouco ignorados quando contei que Nazeera e eu estávamos aqui.
— O quê? — questiona Juliette, olhando para mim antes de voltar a encarar Haider. — Quais outros amigos? Está falando dos outros comandantes supremos? Porque eu não…
— Ah, não — Haider responde. — Não, não. Dos outros comandantes supremos, não. Pelo menos, não ainda. Só nós, os filhos. Esperávamos fazer um pequeno reencontro. Não reunimos o grupo todo há muito tempo.
— O grupo todo… — Juliette repete baixinho. Depois franze a testa. — Quantos outros filhos existem pelo mundo?
A falsa exuberância de Haider de repente fica estranha. Fria. Ele me olha com uma mistura de raiva e confusão quando diz:
— Você não contou nada sobre nós para ela?
Agora Juliette me encara. Seus olhos ficam perceptivelmente arregalados. Sinto seu medo aumentar. E ainda estou pensando em uma forma de lhe dizer para não se preocupar quando Haider segura meu braço com força e me puxa para a frente.
— O que você está fazendo? — ele sussurra em um tom urgente, veemente. — Você virou as costas para todos nós… e a troco de quê? Disso? De uma criançaInta kullish ghabi — ele diz. — É uma coisa muito, muito estúpida de se fazer. Eu lhe garanto, habibi, que isso não vai terminar bem.
Há um sinal de advertência em seus olhos.
Então, quando ele de repente me solta — quando liberta um segredo guardado dentro de seu coração — eu sinto que algo terrível se instala na boca do meu estômago. Uma sensação de náusea. Um medo terrível.
E finalmente entendo.
Os comandantes estão mandando seus filhos sondar o que acontece aqui porque acham que vir ele próprios é perda de tempo. Querem que sua prole se infiltre e examine nossa base — que eles usem sua juventude para seduzir a nova e jovem comandante suprema da América do Norte, que finjam camaradagem e, no final, enviem informações. Não estão interessados em formar alianças. Só vieram aqui para descobrir o trabalho que dará nos destruir.
Viro-me, a raiva ameaçando acabar com minha compostura, e Haider segura meu braço com ainda mais força. Olho-o nos olhos. É só a minha determinação em manter as coisas dentro do campo da civilidade pelo bem de Juliette que me impede de tirar as mãos dele de cima de mim e quebrar-lhe os dedos.
Ferir Haider seria o bastante para dar início a uma guerra mundial.
E ele sabe disso.
— O que aconteceu com você? — pergunta, ainda sibilando em meu ouvido. — Não acreditei quando disseram que tinha se apaixonado por uma menina psicótica e idiota. Eu esperava mais de você. Eu o defendi. Mas isso… — Nega com a cabeça. — Isso é realmente de partir o coração. Não acredito que tenha mudado tanto.
Meus dedos ficam tensos, coçando por formar um punho fechado, e estou prestes a responder quando Juliette, que nos observa a uma certa distância, diz:
— Solte-o.
E há algo na firmeza de sua voz, algo em sua fúria quase incontida, que captura a atenção de Haider.
Surpreso, ele solta meu braço. Vira-se.
— Volte a tocar nele e eu arranco o seu coração — Juliette ameaça baixinho.
Haider a encara.
— Como é que é?
Ela dá um passo à frente. De repente, ficou com uma aparência assustadora. Há fogo em seus olhos. Uma serenidade assassina em seus movimentos.
— Se eu voltar a pegá-lo com as mãos em Warner, vou rasgar o seu peito e arrancar o seu coração — ela repete.
Espantado, Haider arqueia as sobrancelhas. Pisca os olhos. Hesita antes de dizer:
— Eu não sabia que você podia fazer algo desse tipo.
— Em você — assegura —, farei com prazer.
Agora Haider sorri. Ri, e bem alto. E pela primeira vez desde que chegou, realmente parece sincero. O deleite faz seus olhos brilharem.
— Você se importaria — diz a ela — se eu pegasse o seu Warner emprestado por um instante? Prometo que não vou tocar nele. Só quero conversar com ele.
Juliette se vira para mim com uma pergunta nos olhos.
Mas só consigo lhe oferecer um sorriso. Quero pegá-la em meus braços e tirá-la dali. Quero levá-la a um lugar tranquilo e me perder dentro dela. Amo o fato de essa garota que enrubesce tão facilmente em meus braços ser a mesma que mataria um homem que me causasse mal.
— Não demoro — digo a ela.
E ela retribui meu sorriso, seu rosto mais uma vez transformado. O sorriso dura apenas alguns segundos, mas de alguma forma o tempo passa lento o bastante para eu reunir os muitos detalhes desse momento e colocá-los entre as minhas lembranças favoritas. De repente, sinto gratidão por esse dom incomum e sobrenatural que tenho de perceber as emoções. Ainda é um segredo meu, conhecido por poucas pessoas — um segredo que consegui esconder de meu pai e dos outros comandantes e seus filhos. Gosto de como isso faz eu me sentir à parte — diferente — das pessoas que sempre conheci. Mas o melhor de tudo é que esse dom me possibilita saber quanto Juliette me ama. Sempre consigo sentir a carga de emoções em suas palavras, em seus olhos. A certeza de que ela lutaria por mim. De que me protegeria. E saber disso deixa meu coração tão pleno que, às vezes, quando estamos juntos, mal consigo respirar.
E me pergunto se ela sabe que eu faria qualquer coisa por ela.

8 comentários:

  1. Mds Warner é perfeito ❤❤❤❤❤❤

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  2. Owwnn vai subestimando ela besta, quando levar uma sugada de energia vc aprende !

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  3. Eu quero que a pancadaria role solta só uma vezinha na broderagem só pra verem o monstro que tem dentro delaaaa. Odeio q seja subestimada -.-

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  4. Warner é perfeito, mas as vezes ele age como um bacaca. O que custa deixar ela sabendo das coisas? Que vergonha ela deve ter ficado com essa confusão toda.
    - Thalita

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  5. Mds Juliette defendendo o Mozão é minha religião 😍😍😍

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  6. Como não amar esse casal?!😍❤😄

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  7. "Mas só consigo lhe oferecer um sorriso. Quero pegá-la em meus braços e tirá-la dali. Quero levá-la a um lugar tranquilo e me perder dentro dela."
    Malicie huehue

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  8. Eu realmente tô chateada com o Warner. Sério. Todo esse apoio pra Juliette e tals pra no fim quando ela toma o cargo, ele deixar ela no escuro? Cheio dos segredinhos e tudo mais? ah vá cagar...eu no lugar dela estaria muito chateada...a menina fica fazendo papel de boba quando devia tá manjando de como as coisas funcionam com os outros malucos lá...pelor amor...bem, mas eu é eu e Juliette é Juliette, vamo vê no q q isso vai dá...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!