15 de junho de 2018

Juliette

Warner acompanha Haider de volta aos aposentos que lhe foram reservados e, logo depois que os dois se retiram, o restante do nosso grupo vai embora. Foi um jantar estranho, extremamente curto e com muitas surpresas, e agora sinto dor de cabeça. Estou pronta para ir para a cama. Kenji e eu percorremos em silêncio o caminho que leva ao quarto de Warner, os dois perdidos em pensamentos.
É ele o primeiro a falar.
— Então… Você está muito quieta hoje — diz.
— Sim. — Dou risada, mas não há qualquer sinal de vida nela. — Estou exausta, Kenji. Foi um dia esquisito. E uma noite ainda mais bizarra.
— Em que sentido?
— Não sei, mas que tal começarmos com o fato de que Warner fala sete línguas? — Ergo o rosto, olho em seus olhos. — Quero dizer, que história é essa? Às vezes acho que o conheço tão bem, e então uma coisa assim acontece e isso simplesmente — balanço a cabeça — me deixa aturdida. Você estava certo. Ainda não sei nada a respeito dele. Além do mais, o que estou fazendo a essa altura? Eu não falei nada durante o jantar porque não tinha a menor ideia do que falar.
Kenji suspira.
— É… Bem… Sete línguas é uma coisa bem louca. Mas, quero dizer… Você tem que se lembrar de que ele nasceu nesse meio, entende? Warner teve uma educação que você nunca teve.
— É exatamente disso que estou falando.
— Ei, você vai ficar bem — Kenji me conforta, apertando meu ombro. — Vai dar tudo certo.
— Eu estava começando a sentir que talvez desse conta desse desafio — confesso-lhe. — Tive uma conversa bem longa com Warner hoje e saí me sentindo melhor. Mas agora nem lembro por quê. — Suspiro. Fecho os olhos. — Eu me sinto tão idiota, Kenji. Mais idiota a cada dia.
— Talvez você só esteja envelhecendo. Ficando senil. — Ele dá tapinhas em sua cabeça. — Você sabe.
— Cale a boca!
— Então, é… — Kenji dá risada. — Sei que foi uma noite esquisita e coisa e tal, mas… o que você achou? No geral?
— Do quê? — pergunto, encarando-o.
— De Haider e Nazeera — esclarece. — Ideias? Sentimentos? Sociopatas, sim ou não?
— Ah! — Franzo a testa. — Bem, eles são tão diferentes um do outro. Haider é muito barulhento. Já Nazeera é… Não sei. Nunca conheci alguém como ela antes. Acho que respeito o fato de ela desafiar o pai e o Restabelecimento, mas não sei quais são suas motivações, então não sei se devo lhe dar muito crédito. — Suspiro. — Mas, enfim, ela me pareceu muito… irritada. E muito bonita. E muito intimidadora.
A dolorosa verdade é que nunca me senti tão intimidada por outra garota antes e não sei como admitir algo assim em voz alta. Passei o dia todo — assim como as últimas semanas — me sentindo uma impostora. Uma criança. Odeio a facilidade com a qual minha confiança vem e vai, odeio fraquejar entre quem eu era e quem poderia ser. Meu passado ainda está grudado em mim, mãos de esqueleto me puxando para trás mesmo enquanto eu me impulsiono em direção à luz. E não consigo deixar de me perguntar quão diferente eu seria hoje se em algum momento, enquanto crescia, eu tivesse tido alguém para me encorajar. Nunca tive um modelo feminino forte. Conhecer Nazeera hoje à noite, ver como ela se mostrou altiva e corajosa, me deixou pensando sobre onde ela teria aprendido a ser assim.
Cheguei a desejar ter tido uma irmã. Ou uma mãe. Alguém com quem aprender e com quem contar. Uma mulher que me ensinasse a ser corajosa em meu próprio corpo em meio a esses homens.
Nunca tive isso.
Na verdade, fui criada sob uma dieta rigorosa de provocações e zombarias, golpes no coração, tapas na cara. Cresci ouvindo repetidas vezes que eu não valia nada. Que era um monstro. Jamais amada. Jamais protegida do mundo.
Nazeera parece não se importar com o que outras pessoas falam, e eu queria tanto ter a sua confiança. Sei que mudei muito, que percorri um longo caminho a partir de quem eu era, mas, mais do que qualquer outra coisa, quero ser confiante e não ter remorsos sobre quem sou e como me sinto, e não ter de ficar tentando ser algo o tempo todo. Ainda estou desenvolvendo essa parte do meu ser.
— Certo — Kenji está dizendo. — É. Bem irritada, mas…
— Com licença?
Ao ouvir a voz, nós dois giramos nos calcanhares.
— Por falar no diabo… — Kenji resmunga baixinho.
— Desculpem, acho que estou perdida — Nazeera diz. — Pensei que conhecesse esse prédio muito bem, mas há muita obra e reforma acontecendo aqui e estou… bem, estou perdida. Será que algum de vocês pode me dizer como sair daqui?
Ela quase sorri.
— Sim, claro — respondo, quase retribuindo o sorriso. — Na verdade… — Hesito por um instante. — Acho que você está do lado errado do prédio. Lembra-se da entrada pela qual você veio?
Ela para e pensa.
— Acho que estamos instalados do lado sul — diz, lançando um sorriso enorme e verdadeiro para mim pela primeira fez. Então, titubeia: — Espere. Eu acho que era o lado sul. Sinto muito. — E franze a testa. — Eu cheguei há poucas horas… Haider chegou aqui antes de mim…
— Entendo perfeitamente — respondo, interrompendo-a com um aceno de mão. — Não se preocupe… Eu também levei um tempo para aprender a andar por aqui. Na verdade, quer saber? Kenji sabe andar aqui melhor do que eu. A propósito, este é Kenji… Acho que vocês dois não foram formalmente apresentados ainda.
— Sim… oi — ela o cumprimenta, mas seu sorriso some imediatamente. — Eu me lembro dele.
Kenji a encara como um idiota. Olhos arregalados, piscando. Lábios ligeiramente separados. Cutuco seu braço e ele solta um grito, sobressaltado, mas recobra a consciência.
— Ah, certo — apressa-se em dizer. — Oi. Oi… É, oi, hum, sinto muito pelo jantar.
Ela arqueia a sobrancelha para ele.
E pela primeira vez desde que o conheci, Kenji fica realmente ruborizado. Ruborizado.
— Não, de verdade — ele gagueja. — Eu, hum, eu acho que o seu… xale… é, hum, bem legal.
— Aham.
— Do que é feito? — ele pergunta, estendendo a mão para tocar a cabeça de Nazeera. — Parece tão macio.
Ela afasta a mão de Kenji com um tapa. Seu recuo é visível, mesmo sob a luz fraca.
— Que história é essa? Está de brincadeira, né?
— O quê? — Confuso, Kenji pisca os olhos. — O que foi que eu fiz?
Nazeera dá risada; sua expressão se transforma em uma mistura de confusão e ligeiro asco.
— Como pode ser tão ruim nisso?
Kenji fica paralisado, boquiaberto.
— Eu não… hum… Eu só não sei, tipo, quais são as regras. Tipo, posso ligar para você um dia ou…
Solto uma risada repentina, alta e embaraçosa, e belisco o braço dele.
Kenji pragueja em voz alta. Lança-me um olhar furioso.
Estampo o rosto com um sorriso enorme e falo somente para Nazeera:
— Então, sim, hum… Se quiser chegar à saída do lado sul — digo rapidamente — sua melhor aposta é voltar pelo corredor e virar três vezes à esquerda. Vai encontrar portas duplas à sua direita. Lá, peça a um dos soldados para acompanhá-la.
— Obrigada — ela agradece, retribuindo meu sorriso antes de lançar um olhar esquisito para Kenji. Ele continua massageando o ombro dolorido enquanto acena seu discreto adeus para ela.
É só depois que ela se vai outra vez que eu dou meia-volta e resmungo:
— Qual é o seu problema, hein? — E Kenji segura meu braço, sente os joelhos bambearem, e diz:
— Ah, meu Deus, J, acho que estou apaixonado.
Ignoro-o.
— Não, sério — ele insiste. — Será que é isso? Porque nunca me apaixonei antes, então não sei se é amor ou se não passa de, sei lá, uma intoxicação alimentar.
— Você nem a conhece — respondo, revirando os olhos. — Então, imagino que seja apenas intoxicação alimentar.
— Você acha?
Com olhos estreitados, encaro-o, mas só preciso de uma olhadela para deixar a raiva para trás. Sua expressão é tão estranha e apatetada — uma cara de bobo alegre — que quase me sinto mal por ele.
Suspiro, empurrando-o para frente. Ele fica parando o tempo todo pelo caminho, sem nenhum motivo específico.
— Não sei. Acho que talvez você só esteja… se sentindo, digamos, atraído por ela? Nossa, Kenji, você falou tanta besteira para mim quando eu agi assim por causa de Adam e Warner e agora aí está você, sendo todo hormônios…
— Que seja. Você me deve uma.
Franzo a testa para ele.
Kenji dá de ombros, ainda com um sorriso enorme no rosto.
— Quero dizer, sei que ela deve ser uma sociopata. E sem dúvida me mataria enquanto durmo. Mas nossa, ela é… uau! — exclama. — Ela é bonita pra caralho. Tem o tipo de beleza que faz um homem pensar que ser assassinado durante o sono pode não ser uma forma tão ruim assim de morrer.
— Claro — respondo, mas baixinho.
— Não é?
— Acho que sim.
— Como assim, acha que sim? Eu não estava fazendo uma pergunta. Essa menina é simplesmente linda.
— Claro.
Kenji para, segura meus ombros.
— Qual é o seu problema, J?
— Não sei do que você está…
— Ah, meu Deus! — exclama, espantado. — Você está com ciúme?
— Não! — respondo, mas a palavra sai praticamente gritada.
Agora Kenji está rindo.
— Que loucura! Por que está com ciúme?
Dou de ombros, resmungo alguma coisa.
— Espere, como é? — Ele coloca a mão em forma de concha atrás da orelha. — Está preocupada que eu vá deixá-la por outra mulher?
— Cale a boca, Kenji. Não estou com ciúme.
— Que fofa, J.
— Não estou. Eu juro. Não estou com ciúme. Eu só estou… Só estou…
Estou passando por maus bocados. Mas não tenho tempo de pronunciar essas palavras. De repente, Kenji me levanta do chão, gira comigo e diz:
— Ah, você fica tão fofinha quando está com ciúme…
E eu chuto seu joelho. Com força.
Ele me derruba no chão, agarra as próprias pernas e grita palavras tão obscenas que sequer reconheço metade delas. Saio correndo, em parte me sentindo culpada, em parte me sentindo satisfeita, suas promessas de detonar comigo pela manhã ecoando no ar enquanto sigo meu caminho.

10 comentários:

  1. Rindo muito com esse capítulo!!😂😂 A amizade deles é muito fofa!!

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  2. Kenji é uma fofura! E a outra é linda pra caralho, mesmo!

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  3. Aaaah não Kenjiiii não se apaixonaa por ela eu to aquiii !!!

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  4. Aaaah não Kenjiiii não se apaixonaa por ela eu to aquiii !!!

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  5. Quando vi eles se xingando na mesa, já sabia que era amor KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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  6. Shippando forte Nazeera e Kenji 😍😍😍

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  7. Só eu achei isso estranho. .. tipo. .. ela fica andando por ali e se esbarra com eles aí, Ops tô perdida. É uma gracinha Kenji apaixonado? É! E eu até shipo mas não confio!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!