15 de junho de 2018

Warner

Eu odeio de verdade ser abraçado.
Existem pouquíssimas exceções a essa regra, e Haider não é uma delas. Mesmo assim, toda vez que nos encontramos, ele insiste em me abraçar. Beija o ar dos dois lados do meu rosto, apoia a mão em meus ombros e sorri como se eu realmente fosse seu amigo.
— Hela habibi shlonak? É um prazer enorme vê-lo.
Finjo um sorriso.
— Ani zeyn, shukran. — Aponto para a mesa. — Sente-se, por favor.
— Claro, claro — concorda, e olha em volta. — Wenha Nazeera...?
— Oh — surpreendo-me. — Pensei que tivesse vindo sozinho.
— La, habibi — diz, enquanto se senta. — Heeya shwaya mitakhira. Mas ela deve chegar a qualquer momento. Estava muito animada com a oportunidade de vê-lo.
— Duvido muito disso.
— Hum, com licença, mas eu sou o único aqui que não sabia que você falava árabe? — Kenji me observa de olhos arregalados.
Haider solta uma risada, olhos luminosos enquanto analisa meu rosto.
— Seus novos amigos sabem bem pouco sobre você. — Depois, volta-se para Kenji: — Seu Regente Warner fala sete línguas.
— Você fala sete línguas?! — Juliette exclama, segurando meu braço.
— Às vezes — respondo baixinho.
O jantar de hoje é para um grupo pequeno. Juliette está sentada à cabeceira da mesa. Eu me encontro à sua direita; Kenji, à minha direita.
À minha frente está Haider Ibrahim.
À frente de Kenji, uma cadeira vazia.
— Então — diz Haider, unindo as mãos. — Essa é a sua nova vida? Tanta coisa mudou desde nosso último encontro.
Seguro o garfo.
— O que você veio fazer aqui, Haider?
— Wallah — diz, levando a mão ao peito. — Pensei que fosse ficar feliz em me ver. Eu queria conhecer todos os seus novos amigos. E, é claro, tinha de conhecer sua nova comandante suprema. — De canto de olho, avalia Juliette; o movimento é tão rápido que quase passa despercebido. Em seguida, pega seu guardanapo, abre-o cuidadosamente no colo e fala em um tom muito leve: — Heeya jidan helwa.
Meu peito aperta.
— E isso é suficiente para você? — Ele inclina o corpo para a frente, de repente falando muito baixinho, de modo que só eu consiga ouvi-lo. — Um rostinho bonito? E você trai seus amigos com tanta facilidade assim?
— Se você veio aqui atrás de briga, por favor, não percamos tempo jantando antes — retruco.
Haider deixa escapar uma risada alta. Segura seu copo de água.
— Ainda não, habibi. — Toma um gole. Relaxa na cadeira. — Sempre temos tempo para jantar.
— Onde está sua irmã? — questiono, desviando o olhar. — Por que não vieram juntos?
— Por que não pergunta diretamente a ela?
Ergo o olhar e me surpreendo ao encontrar Nazeera parada na passagem da porta. Ela analisa a sala, e seu olhar detém-se no rosto de Juliette só um segundo a mais. Senta-se sem dizer uma única palavra.
— Meus caros, esta é Nazeera — Haider a apresenta, levantando-se com um salto e um sorriso enorme no rosto. Envolve a irmã com um braço na altura de seu ombro, mesmo enquanto ela o ignora. — Nazeera ficará aqui durante minha estada. Espero que a recebam com o mesmo calor humano que me receberam.
Nazeera não cumprimenta ninguém.
O rosto de Haider demonstra um exagero de felicidade. Nazeera, todavia, não esboça nenhuma expressão. Seus olhos são apáticos; o maxilar, solene. As únicas semelhanças entre esses dois irmãos são físicas. Ela tem a mesma pele bronzeada, os mesmos olhos castanho-claros e os mesmos cílios longos e escuros que protegem sua expressão do restante de nós. No entanto, cresceu muito desde a última vez que a vi. Seus olhos são maiores e mais profundos que os de Haider, e ela ostenta um pequeno piercing de diamante abaixo do lábio inferior, além de dois outros diamantes acima da sobrancelha direita. A única outra distinção óbvia entre os dois é que não consigo ver os cabelos dela.
Nazeera ostenta um xale de seda envolvendo a cabeça.
E não consigo evitar o choque. Isso é novidade. A Nazeera da qual me lembro não cobria os cabelos — e por que cobriria? Seu xale é uma relíquia, parte de nossa vida passada. É um artefato religioso e cultural que deixou de existir com a chegada do Restabelecimento. Já faz muito tempo que nosso movimento expurgou todos os símbolos e práticas de fé ou culturais em um esforço para restabelecer identidades e alianças, tanto que os locais de adoração foram as primeiras instituições a serem destruídas ao redor do mundo. Os civis, diziam, deveriam se curvar diante do Restabelecimento e nada mais. Cruzes, luas crescentes e estrelas de Davi — turbantes e quipás e hijabs e hábitos de freiras… Tudo isso é ilegal.
E Nazeera Ibrahim, filha de um comandante supremo, é dotada de impressionante coragem. Porque esse simples xale, um detalhe aparentemente insubstancial, não é nada menos que um ato declarado de rebelião. Estou tão impressionado que não consigo segurar minhas próximas palavras:
— Você cobre os cabelos agora?
Ao me ouvir, ela ergue o rosto, olhando-me nos olhos. Toma um demorado gole de seu chá e me estuda. Por fim…
Não diz nada.
Sinto meu rosto prestes a registrar surpresa e tenho de me forçar a ficar parado. Ela claramente não se mostra interessada em discutir esse tema. Decido mudar de assunto. Estou prestes a dizer algo a Haider quando,
— Então, você pensou que ninguém fosse perceber? Que cobre os cabelos? — É Kenji, falando e mastigando ao mesmo tempo. Toco meus dedos nos lábios e desvio o olhar, lutando para esconder minha repulsa.
Nazeera finca o garfo em uma folha de alface em seu prato. Come-a.
— Quero dizer, você deve saber que a peça que está usando é uma ofensa digna de ser punida com prisão — Kenji continua falando para ela, ainda mastigando.
Nazeera parece surpresa ao ver Kenji insistindo nesse assunto. Seus olhos o analisam como se ele fosse um idiota.
— Perdão — ela fala com um tom leve, baixando o garfo. — Mas quem é você mesmo?
— Nazeera — Haider chama a atenção da irmã, tentando sorrir enquanto lança um cuidadoso olhar de soslaio para ela. — Por favor, lembre-se de que nós somos os convidados...
— Eu não sabia que havia um código de vestimenta aqui.
— Ah… Bem, acho que não temos um código de vestimenta aqui — Kenji retruca entre uma mordida e outra, alheio à tensão. — Mas isso só acontece porque temos uma nova comandante suprema que não é uma psicopata. Porém, continua sendo ilegal vestir-se assim — censura, apontando com a colher para o rosto dela. — Tipo, é ilegal literalmente em todos os lugares. Certo? — Desliza o olhar por todos nós, mas ninguém responde. — Não é? — insiste, concentrando-se em mim, ansioso por uma confirmação.
Faço um gesto positivo com a cabeça. Lentamente.
Nazeera bebe mais um demorado gole de seu chá, tomando cuidado ao descansar a xícara no pires antes de apoiar o corpo no encosto da cadeira, olhar-nos nos olhos e dizer:
— O que o leva a pensar que eu me importo com isso?
— Quero dizer… — Kenji franze a testa. — Você não tem que se importar? Seu pai é um dos comandantes supremos. Ele sabe que você usa essa coisa — aponta outra vez, agora para a cabeça de Nazeera — em público? Ele não vai ficar irritado?
Esse jantar não está indo nada bem.
Nazeera, que acabou de segurar outra vez o garfo para pegar um pouco de comida em seu prato, baixa o talher e suspira. Diferentemente do irmão, ela fala um inglês sem qualquer sotaque.
Está olhando para Kenji quando diz:
— Essa coisa?
— Desculpe — ele se expressa timidamente. — Não sei como chamam isso.
Nazeera sorri para ele, mas não há cordialidade em sua expressão. Apenas uma advertência.
— Os homens sempre ficam tão desorientados com as roupas das mulheres. Tantas opiniões sobre um corpo que não lhes pertence. Cubra, não cubra. — Acena com a mão, deixando claro seu desdém. — Vocês parecem nunca se decidir.
— Mas… Não é isso que eu… — Kenji tenta se retratar.
— Sabe o que eu penso — ela o interrompe, ainda com um sorriso no rosto — sobre alguém me dizendo o que é legal ou ilegal na minha maneira de me vestir?
Ela ergue os dois dedos do meio.
Kenji engasga.
— Vá em frente — Nazeera o desafia, seus olhos brilhando furiosamente enquanto pega outra vez o garfo. — Conte ao meu pai. Alerte os inimigos. Estou pouco me fodendo para isso.
— Nazeera…
— Cale a boca, Haider.
— Nossa! Ei… desculpe — Kenji de repente fala, aparentando estar em pânico. — Eu não tinha a intenção de…
— Que se dane — ela responde, revirando os olhos. — Não estou com fome. — Ela se levanta de pronto. Com elegância. Existe algo interessante em sua raiva. Em seu protesto nada sutil. E ela é ainda mais impressionante de pé.
Tem as mesmas pernas longas e o corpo magro de seu irmão, e se sustenta com muito orgulho, como alguém que nasceu com posição e privilégios. Usa uma túnica cinza feita com um tecido refinado e denso; calça de couro justa; botas pesadas; e reluzentes socos ingleses de ouro nas duas mãos.
E eu não sou o único encarando.
Juliette, que ficara observando em silêncio durante todo o tempo, está com o rosto erguido, maravilhada. Posso praticamente ver seu processo de raciocínio enquanto ela subitamente enrijece o corpo, olha as próprias roupas e cruza os braços na altura do peito como se quisesse esconder seu suéter rosa. Puxa as mangas como se quisesse rasgá-las.
É tão adorável que quase a beijo bem ali.

Um silêncio pesado e desconfortável se instala entre nós depois que Nazeera vai embora.
Todos esperávamos questionamentos intensos vindos de Haider esta noite; em vez de lançar perguntas, todavia, ele permanece em silêncio, cutucando a comida, parecendo cansado e constrangido. Nenhum dinheiro ou prestígio no mundo pode proteger qualquer um de nós da agonia de jantares constrangedores em família.
— Por que teve que abrir a boca? — Kenji me dá uma cotovelada, fazendo-me estremecer, deixando-me surpreso.
— Perdão?
— Foi culpa sua — ele resmunga, ansioso. — Você não devia ter falado nada sobre o xale dela.
— Eu fiz uma pergunta — rebato duramente. — Foi você quem insistiu no assunto...
— Sim, mas você começou! Por que teve de comentar?
— Ela é filha de um comandante supremo — argumento, esforçando-me para falar baixo. — Sabe melhor do que ninguém que está usando uma peça ilegal segundo as leis do Restabelecimento.
— Ah, meu Deus! — Kenji exclama, balançando a cabeça. — Só… só pare, está bem?
— Como se atreve…
— O que vocês dois estão cochichando? — Juliette pergunta, aproximando-se.
— Só que seu namorado não sabe quando é hora de calar a boca — Kenji responde, levando mais uma colherada à boca.
— É você que é incapaz de ficar calado. — Desvio o rosto. — Não consegue nem ficar de boca fechada enquanto mastiga. Aliás, essa é só mais uma das coisas nojentas que você…
— Cale a boca, cara. Estou com fome.
— Acho que também vou me retirar por esta noite — Haider de repente anuncia.
E se levanta.
Todos olhamos para ele.
— Claro — digo. E também me levanto para lhe desejar um boa-noite apropriado.
— Ani aasef — Haider diz, olhando para seu prato ainda parcialmente cheio. — Eu esperava ter uma conversa mais produtiva com todos vocês esta noite, mas receio que minha irmã esteja contrariada por estar aqui. — Suspira. — Mas você conhece Baba — diz para mim. — Ele não deu escolha a ela. — Haider dá de ombros. Tenta sorrir. — Nazeera ainda não entendeu que o que temos que fazer… a maneira como vivemos agora… — hesita — foi a vida que recebemos. Nenhum de nós teve escolha.
E, pela primeira vez esta noite, ele me surpreende; vejo alguma coisa que reconheço em seus olhos. Uma centelha de dor. O peso da responsabilidade. Expectativas.
Sei muito bem o que é ser filho de um comandante supremo do Restabelecimento. E como é se atrever a discordar de alguma coisa.
— Claro — digo a ele. — Eu entendo.
Eu realmente entendo.

10 comentários:

  1. Eu amei a Nazeera hahaha #RAINHA nos haters faz assim mesmo ,Já shippo com o Kenji porque sou iludida

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  2. ❤❤ Gostei da Nazeera,espero que ela n me decepcione.
    O capítulo 15 está dando erro.

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  3. Acho q é tudo encenação pra tentar fzr o Warner e o pessoal simpatizar com eles e os atacarem

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  4. Todo mundo gostou dela menos eu? Não sei. Não sei o que esperar dela.sei lá. Não sei quais os objetivos dela.

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  5. A Nazeera é muito loka.... Ela e o Kenji formam um par perfeito❤❤

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  6. Ela deu uma olhada na j. Eu falo que eles são irmãos.

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  7. Ainda bem que eu não fui a única a shipar a Nazeera com o Kenji kkkkkkkkkk

    Flavia

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  8. ACHO QUE NAZEERA É O KENJI VÃO FICAR JUUUUNTOZ

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  9. Nazeera você quer o mundo eu te dou.
    Tô nem ai se ela ainda é pseudo psicopata eu quero ela como comandante suprema.
    E tbm shippei ela com o Kenji, tenho que parar de fazer isso

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  10. Sdds dos comentários da Tainá Zuera

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Boa leitura, E SEM SPOILER!