15 de junho de 2018

Juliette

— Por onde você andou, caramba?
— O quê? Lugar nenhum — respondo, sentindo o calor tomar conta do meu corpo.
— Como assim, lugar nenhum? — Kenji insiste, quase pisando nos meus pés enquanto tento passar por ele. — Estou esperando aqui há quase duas horas.
— Eu sei… Desculpe…
Ele segura meus ombros, fazendo-me girar. Desliza o olhar por meu rosto e…
— Que nojo, J, mas que droga é…?
— O quê? — Arregalo os olhos, toda inocente, mesmo com o rosto em chamas.
Kenji me lança um olhar fuzilante.
Pigarreio.
— Eu falei para você fazer uma pergunta a ele.
— Eu fiz.
— Meu Deus do céu! — Kenji esfrega a mão agitada na testa. — Hora e lugar não significam nada para você?
— Hã?
Ele estreita os olhos para mim.
Abro um sorriso.
— Vocês dois são terríveis.
— Kenji — digo, estendendo a mão.
— Eca, não toque em mim…
— Está bem — respondo, franzindo a testa e cruzando os braços.
Ele faz uma negativa com a cabeça, desvia o olhar. Ostenta uma careta e fala:
— Quer saber? Que se dane! — E suspira. — Warner pelo menos contou alguma coisa útil antes de vocês dois… digamos, mudarem de assunto?
Kenji e eu acabamos de voltar à recepção, onde ainda há pouco encontramos Haider.
— Sim, contou — respondo, determinada. — Ele sabia exatamente de quem eu estava falando.
— E?
Sentamos nos sofás. Dessa vez, Kenji escolhe tomar o lugar à minha frente. Pigarreio. E me pergunto em voz alta se deveríamos pedir mais chá.
— Nada de chá. — Kenji solta o corpo no encosto do sofá, cruza as pernas, calcanhar direito apoiado no joelho esquerdo. — O que Warner revelou sobre Haider?
Seu olhar é tão focado e implacável que fico sem saber o que fazer. Sinto-me estranhamente constrangida. Queria ter lembrado de ter prendido outra vez os cabelos. Tenho que ficar o tempo todo afastando os fios do rosto.
Sentada, forço a coluna a permanecer ereta. Recomponho-me.
— Ele disse que nunca foram, de fato, amigos.
Kenji bufa.
— Até aí, nenhuma surpresa.
— Mas que se lembra dele — continuo, apontando para nada em particular.
— E? Do que ele lembra?
— Ah, hum. — Coço um incômodo imaginário atrás da orelha. — Não sei.
— Você não perguntou?
— Eu, é… esqueci?
Kenji revira os olhos.
— Droga, eu sabia que devia ter ido lá pessoalmente.
Sento-me sobre as mãos e tento sorrir.
— Quer pedir uma xícara de chá?
— Nada de chá! — Kenji lança um olhar furioso na minha direção. Pensativo, bate a mão na perna.
— Você quer…?
— Onde está Warner agora? — Kenji me interrompe.
— Não sei — respondo. — Acho que ainda está no quarto dele. Tinha um monte de caixas lá que ele queria analisar.
Kenji imediatamente se coloca de pé. Ergue um dedo.
— Eu já volto.
— Espere! Kenji… Não acho que seja uma boa ideia…
Mas ele já se foi.
Solto o corpo no sofá e suspiro.

Exatamente como suspeitei. Não foi uma boa ideia.
Warner está parado com o corpo todo enrijecido ao lado do meu sofá, quase sem olhar para Kenji. Acho que ainda não o perdoou pelo corte de cabelo desastroso, e não posso dizer que o culpo. Warner fica muito diferente sem seus cabelos dourados — não fica ruim, mas diferente. Agora os fios quase não alcançam meros centímetros, todos com tamanho uniforme, um tom de loiro que só começa a aparecer agora. Contudo, a transformação mais interessante em seu rosto é a barba suave por fazer, como se tivesse se esquecido de se barbear nos últimos dias. E me vejo surpresa ao me dar conta de que isso não me incomoda.
Ele é naturalmente bonito demais para sua genética ser alterada por um simples corte de cabelo e, verdade seja dita, eu meio que gosto do que estou vendo.
Hesito para lhe confessar isso, afinal, não sei se Warner apreciaria um elogio tão pouco convencional, mas há algo positivo nessa mudança. Parece um pouco mais durão agora, um pouco mais masculino. Está menos bonito, mas, ao mesmo tempo, irresistivelmente…
Mais sensual.
Cabelos curtos e descomplicados; aquela sombra de barba começando a aparecer; um rosto muito, muito sério.
Cai bem nele.
Está usando um suéter leve e azul-marinho — as mangas, como de costume, puxadas na altura do antebraço —, e calças justas enfiadas em botas pretas e lustrosas. É um visual sem esforço. E, nesse exato momento, mantém o corpo apoiado em um pilar, os braços cruzados na altura do peito, os pés cruzados na altura do tornozelo, parecendo mais carrancudo que de costume. E essa imagem muito me agrada.
Porém, não agrada nada a Kenji.
Os dois parecem mais irritados do que nunca, e percebo que sou a culpada pela tensão. Continuo insistindo em forçá-los a passar um tempo juntos. Continuo mantendo a esperança de que, por meio de experiências suficientes, Kenji vai passar a ver o que eu amo em Warner e Warner vai aprender a admirar o que admiro em Kenji… Mas meu plano parece não estar funcionando. Forçá-los a passar um tempo juntos já começa a se provar um tiro no pé.
— Então… — quebro o silêncio, unindo as mãos. — Podemos conversar?
— Claro — Kenji responde, mas continua olhando para a parede. — Vamos conversar.
Ninguém diz nada.
Cutuco o joelho de Warner. Quando ele olha para mim, gesticulo um convite para que se sente.
E ele se senta.
— Por favor — sussurro.
Warner franze a testa.
Finalmente, ainda relutante, suspira.
— Você disse que tinha perguntas a me fazer.
— Sim, a primeira: por que você é tão babaca?
Warner se levanta.
— Meu amor — fala baixinho. — Espero que me perdoe pelo que estou prestes a fazer com a cara dele.
— Ei, babaca, ouvi o que você falou.
— É sério, isso precisa parar. — Estou puxando o braço de Warner, tentando fazê-lo se sentar, mas ele se recusa. Minha força sobre-humana é totalmente inútil em Warner; ele simplesmente absorve o meu poder. — Por favor, sentem-se. Todos. E você… — Aponto para Kenji. — Você precisa parar de provocar brigas.
Kenji lança as mãos ao ar, emite um ruído que deixa clara sua descrença.
— Ah, então é sempre culpa minha, não é? Que se dane.
— Não — rebato veementemente. — Não é culpa sua. É culpa minha.
Surpresos, Kenji e Warner viram-se ao mesmo tempo para me encarar.
— Isso que está acontecendo — esclareço, apontando de um para o outro. — Fui eu quem provocou isso. Sinto muito por ter pedido que fossem amigos. Vocês não têm que ser amigos. Não têm sequer que gostar um do outro. Esqueçam tudo o que eu disse.
Warner descruza os braços.
Kenji arqueia as sobrancelhas.
— Eu prometo — asseguro. — Não teremos mais momentos de aproximação forçada. Não precisam mais passar tempo juntos sem a minha presença. Entendido?
— Jura? — Kenji lança.
— Eu juro.
— Graças a Deus! — Warner exclama.
— Digo o mesmo, irmão. Digo o mesmo.
E eu, irritada, reviro os olhos. Essa é a primeira vez que concordam em alguma coisa em mais de uma semana: seu ódio mútuo por minha esperança de que se tornem amigos.
Bem, pelo menos Kenji enfim abriu um sorriso. Ele se senta no sofá e parece relaxar. Warner toma o lugar ao meu lado — sereno, muito menos tenso.
E é isso. Era só disso que precisavam. A tensão se desfez. Agora que estão livres para odiarem um ao outro, parecem perfeitamente amigáveis. Simplesmente não consigo entendê-los.
— Então… você tem perguntas a me fazer, Kishimoto? — Warner indaga.
Kenji assente, inclina o corpo para a frente.
— Sim… Tenho. Quero saber tudo que se lembra da família Ibrahim. Temos que estar preparados para o que quer que Haider decida jogar na mesa hoje durante o jantar, o que… — Kenji olha para o relógio em seu pulso, franze a testa —, por sinal, começa em vinte minutos, não graças a vocês dois, mas enfim… fiquei pensando se poderia nos contar alguma coisa sobre as possíveis motivações dele. Eu gostaria de estar um passo à frente daquele cara.
Warner assente.
— A família de Haider vai levar mais tempo para desfazer as malas por aqui. De modo geral, eles são intimidantes. Mas Haider é muito menos complexo. Aliás, ele é uma escolha um tanto bizarra para uma situação como essa. Fico surpreso por Ibrahim não ter mandado sua filha.
— Por quê?
Warner dá de ombros.
— Haider é menos competente. É hipócrita. Mimado. Arrogante.
— Espere aí… Está descrevendo Haider ou a si mesmo?
Warner parece não dar a mínima para a provocação.
— Você não percebe uma diferença fundamental entre nós — prossegue. — É verdade que sou confiante. Mas Haider é arrogante. Não somos iguais.
— Para mim, parece tudo a mesma coisa.
Warner entrelaça os dedos e suspira, parecendo se esforçar ao máximo para ser paciente com uma criança terrível.
— Arrogância é confiança falsa — afirma. — Brota da insegurança. Haider finge não ter medo. Finge ser mais cruel do que de fato é. Mente com facilidade, o que o torna imprevisível e, em certas ocasiões, um oponente mais perigoso. Mas, na maior parte do tempo, suas ações são movidas pelo medo. — Warner ergue o rosto, olha Kenji nos olhos. — E isso o torna fraco.
— Ah, entendi. — Kenji deixa o corpo afundar no sofá enquanto processa as informações. — Alguma coisa particularmente interessante a respeito dele? Algo que devamos saber de antemão?
— Na verdade, não. Haider é medíocre na maioria das coisas. Só se sobressai ocasionalmente. É obcecado sobretudo pelo próprio corpo, e mais talentoso com rifles de precisão.
Kenji ergue o queixo.
— Obcecado pelo próprio corpo? Tem certeza de que vocês dois não são parentes?
Ao ouvir isso, Warner fecha a cara.
— Eu não sou obcecado pelo…
— Está bem, está bem, acalme-se! — Kenji acena com a mão. — Não precisa criar rugas nesse seu rostinho lindo por causa do meu comentário.
— Detesto você.
— Amo o fato de sentirmos a mesma coisa um pelo outro.
— Chega, vocês dois — falo em voz alta. — Foco. Temos um jantar com Haider em cinco minutos e parece que sou a única aqui preocupada com a revelação de que ele é um atirador especialmente talentoso.
— É, talvez ele esteja aqui para… — Kenji usa os dedos para simular uma arma apontada para Warner, depois para si próprio. — Treinar tiro ao alvo.
Ainda irritado, Warner faz uma negação com a cabeça.
— Haider é poser. Eu não me preocuparia com ele. Conforme já disse, eu me preocuparia mais se sua irmã estivesse aqui. O que significa que devemos começar a nos preocupar muito em breve. — Exala. — Tenho quase certeza de que será a próxima a chegar.
Ao ouvir as palavras, arqueio as sobrancelhas.
— Ela é mesmo tão assustadora assim?
Warner inclina a cabeça.
— Não é exatamente assustadora — diz para mim. — Ela é muito racional.
— Então ela é tipo… o quê? — Kenji pede esclarecimentos. — Psicopata?
— Longe disso. Mas sempre tive a impressão de que ela sente as pessoas e suas emoções, e nunca consegui ler direito aquela mulher. Acho que a mente dela funciona rápido demais. Há uma coisa um pouco… volúvel em sua forma de pensar. Como um beija-flor. — Suspira. Olha para cima. — Enfim, não a vejo há pelo menos alguns meses, mas duvido que tenha mudado.
— Como um beija-flor? — Kenji repete. — Então, tipo, ela fala rápido?
— Pelo contrário — Warner esclarece. — Ela costuma ser muito silenciosa.
— Hum… Entendi. Bem, fico contente por ela não estar aqui — Kenji fala. — Essa mulher parece um tédio.
Warner quase sorri.
— Ela poderia arrancar suas tripas.
Kenji revira os olhos.
Estou prestes a fazer outra pergunta quando um barulho repentino e irritante interrompe nossa conversa.

Delalieu veio nos buscar para o jantar.

2 comentários:

  1. O irmão mais velho tocou nela sem medo dela o machucar. A irmã dele tem um certo bloqueio em ser decifrada... Estranho

    ResponderExcluir
  2. "Agora que estão livres para odiarem um ao outro, parecem perfeitamente amigáveis. Simplesmente não consigo entendê-los."

    Garotos :)

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!