15 de junho de 2018

Juliette

— Pare de tremer, J.
Estamos no elevador panorâmico, a caminho de uma das principais áreas de recepção, e não posso deixar de ficar agitada.
Fecho os olhos com bastante força. E tagarelo:
— Meu Deus, eu sou uma total sem noção, não sou? O que estou fazendo? Minha aparência não está nem perto de ser profissional…
— Quer saber? Quem se importa com as suas roupas? — Kenji fala. — No fim das contas, tudo é uma questão de atitude. De como você se comporta.
Ergo o olhar na direção do rosto dele, notando mais do que nunca a diferença de altura entre nós.
— Mas eu sou tão baixinha.
— Napoleão também era baixinho.
— Napoleão era horrível — declaro.
— Mas fez muitas coisas, não fez?
Franzo a testa.
Kenji me cutuca com o cotovelo.
— Mesmo assim, talvez fosse melhor não mascar chiclete — aconselha.
— Kenji — chamo-o, ouvindo apenas em parte suas palavras. — Acabo de me dar conta de que nunca conheci nenhum oficial estrangeiro.
— Eu sei. Eu também não — confessa, bagunçando meus cabelos. — Mas vai dar tudo certo. Você só precisa se acalmar. E, a propósito, você está uma graça. Vai se sair bem.
Afasto a mão dele com um tapa.
— Posso não saber muito ainda sobre o que é ser uma comandante suprema, mas sei que não devo estar uma graça.
E então, o elevador emite um ruído e a porta se abre.
— Quem foi que disse que você não pode estar uma graça e botar moral ao mesmo tempo? — Ele pisca um olho para mim. — Eu mesmo sou uma graça e boto moral todos os dias.

— Caramba... sabe de uma coisa? Esquece o que eu falei — é a primeira coisa que Kenji me diz. Parece constrangido e me lança um olhar de soslaio ao continuar: — Talvez você realmente devesse melhorar seu guarda-roupa.
Eu poderia morrer de vergonha.
Seja lá quem for, sejam quais forem as suas intenções, Haider Ibrahim é a pessoa mais bem-vestida que já encontrei na vida. Ele não se parece com ninguém que eu já tenha visto na vida.
Ele se levanta quando entramos na sala — é alto, muito alto — e, no mesmo instante, fico impressionada com sua aparência. Usa uma jaqueta de couro cinza por cima do que imagino ser uma camisa, mas na verdade é uma série de correntes tecidas, atravessando o peito. Sua pele é bem bronzeada e está parcialmente exposta; a parte superior do corpo fica pouco escondida pela camisa de correntes. A calça preta afunilada desaparece dentro dos coturnos que vão até a canela, e seus olhos castanho-claros formam um contraste impressionante com a pele bronzeada e são emoldurados por cílios longos e negros.
Agarro meu suéter rosa e nervosamente engulo o meu chiclete.
— Oi — cumprimento-o e começo a acenar, mas Kenji é gentil o bastante para abaixar a minha mão. Pigarreio. — Sou Juliette.
Haider caminha na minha direção com cautela, seus olhos repuxados no que parece ser um semblante de confusão enquanto me avalia. Sinto-me desconfortavelmente constrangida. Extremamente despreparada. E, de repente, uma necessidade desesperadora de usar o banheiro.
— Olá — ele finalmente cumprimenta, mas a palavra soa mais como uma pergunta.
— Podemos ajudá-lo? — pergunto.
— Tehcheen Arabi?
— Ah. — Olho para Kenji, depois para Haider. — Hum, você não fala inglês?
Haider arqueia uma única sobrancelha.
— Você só fala inglês?
— Sim? — respondo, sentindo-me mais nervosa do que nunca.
— Que pena. — Ele bufa. Olha em volta. — Estou aqui para ver a comandante suprema. — Sua voz é intensa e profunda, e vem acompanhada de um discreto sotaque.
— Sim, oi, sou eu — respondo com um sorriso no rosto.
Seus olhos ficam arregalados, incapazes de esconder a confusão.
— Você é… — Franze a testa. — A suprema?
— Aham. — Abro um sorriso ainda maior.
Diplomacia, digo a mim mesma. Diplomacia.
— Mas a informação que nos chegou foi a de que ela era forte, letal… Aterrorizante…
Faço uma afirmação com a cabeça. Sinto meu rosto esquentar.
— Sim, sou eu mesma. Juliette Ferrars.
Haider inclina a cabeça, seus olhos analisando meu corpo.
— Mas você é tão pequena. — Ainda estou tentando encontrar um jeito de responder a isso quando ele balança a cabeça e diz: — Peço desculpas, eu quis dizer que… que é tão jovem. Mas claro, também é muito pequena.
Meu sorriso já começa a provocar dor no rosto.
— Então foi você — indaga, ainda confuso — quem matou o Supremo Anderson?
Assinto. Dou de ombros.
— Mas…
— Perdão — Kenji entra na conversa. — Você tem um motivo específico para ter vindo aqui?
Haider parece impressionado com a pergunta. Olha para Kenji.
— Quem é esse homem?
— Ele é meu segundo em comando — respondo. — E pode ficar à vontade para responder quando ele falar com você.
— Ah, está bem — Haider afirma com um ar de compreensão nos olhos. Acena para Kenji. — Um membro da sua Guarda Suprema.
— Eu não tenho uma Gua…
— Exatamente — Kenji responde, batendo rapidamente o cotovelo em minhas costelas para me calar. — Perdoe-me por ser um pouco superprotetor. — Sorri. — Tenho certeza de que entende.
— Sim, claro — Haider admite, parecendo solidário.
— Podemos nos sentar? — convido-o, apontando para os sofás da sala. Ainda estamos parados na entrada e a situação já começa a ficar constrangedora.
— Claro. — Haider me oferece o braço para enfrentar a jornada de quatro metros até os sofás, e lanço um rápido olhar confuso para Kenji.
Ele dá de ombros.
Nós três tomamos nossos assentos; Kenji e eu ficamos de frente para o visitante. Há uma mesa de centro longa de madeira entre nós, e Kenji pressiona o botão minúsculo embaixo dela para chamar o serviço de café e chá.
Haider não para de me encarar. Seu olhar não é nem lisonjeiro nem ameaçador — parece genuinamente confuso. E fico surpresa ao perceber que é essa reação que me deixa mais desconfortável. Se seus olhos demonstrassem raiva ou desprezo, talvez eu soubesse melhor como reagir. Em vez disso, ele parece calmo e agradável, mas… surpreso. E não sei o que fazer com isso. Kenji estava certo. Eu queria, mais do que nunca, que Warner estivesse aqui; sua habilidade de perceber emoções me daria uma ideia mais clara de como responder.
Enfim, quebro o silêncio entre nós.
— É realmente um prazer conhecê-lo — digo, esperando soar mais gentil do que realmente me sinto. — Mas eu adoraria saber o que o traz aqui. Afinal, percorreu um longo caminho…
Nesse momento, Haider sorri. A reação traz um toque de calor tão necessário ao seu rosto, fazendo-o parecer mais jovem do que antes.
— Curiosidade — é tudo o que oferece em resposta.
Dou o meu melhor para esconder a ansiedade.
A cada instante fica mais óbvio que ele foi enviado para cá para realizar algum tipo de reconhecimento e levar informações para seu pai. A teoria de Castle estava certa — os comandantes supremos devem estar morrendo de curiosidade para saber quem sou eu. E começo a me perguntar se esses seriam os primeiros dos vários olhos à espreita que virão me visitar.
Nesse momento, o serviço de chá e café chega.
Os homens e mulheres que trabalham no Setor 45 — aqui e nos complexos — andam mais animados do que nunca ultimamente. Há uma injeção de esperança em nosso setor, algo que não existe em nenhum outro lugar do continente, e as duas senhoras que se apressam para dentro da sala com o carrinho de comida não são imunes aos efeitos dos eventos recentes. Lançam sorrisos enormes e calorosos na minha direção e arrumam a porcelana com uma exuberância que não passa despercebida. Noto que Haider observa nossa interação muito de perto, examinando o rosto das mulheres e a maneira à vontade como se movimentam na minha presença. Agradeço-as por seu trabalho, o que deixa meu visitante visivelmente espantado. Com as sobrancelhas erguidas, ajeita-se no sofá, entrelaça as mãos sobre as pernas, um cavalheiro perfeito, totalmente em silêncio até as mulheres saírem.
— Vou aproveitar sua gentileza por algumas semanas — Haider anuncia de repente. — Quero dizer, se isso não for problema.
Franzo o cenho, começo a protestar, mas Kenji me interrompe:
— Claro — diz, abrindo um sorriso enorme. — Fique todo o tempo que desejar. O filho de um comandante supremo é sempre bem-vindo aqui.
— Vocês são muito gentis — elogia, fazendo uma breve reverência com a cabeça.
Ele então hesita, toca alguma coisa em seu punho e nossa sala em um instante é invadida por pessoas que parecem ser membros de sua comitiva.
Haider se levanta tão rapidamente que quase não percebo seu movimento.
Kenji e eu nos apressamos para também ficar de pé.
— Foi um prazer conhecê-la, Comandante Suprema Ferrars — diz o visitante, dando um passo à frente para apertar minha mão, e fico surpresa com sua coragem. Apesar dos muitos rumores que sei que ouviu a meu respeito, não parece se importar em se aproximar de minha pele. Não que isso tenha importância, obviamente… Já aprendi a ligar e desligar meus poderes sempre que eu quiser. Mas nem todo mundo sabe disso ainda.
De qualquer modo, ele dá um rápido beijo nas costas da minha mão, sorri e faz uma reverência muito discreta.
Consigo abrir um sorriso desajeitado e fazer uma breve reverência.
— Se me disser quantas pessoas trouxe em sua comitiva — Kenji começa a dizer —, posso já ir cuidando das acomodações para…
Surpreso, Haider solta uma gargalhada.
— Ora, não será necessário — afirma. — Eu trouxe minha própria residência.
— Você trouxe… — Kenji franze a testa. — Você trouxe sua própria residência?
Haider assente, mas sem olhar para Kenji. Quando volta a falar, dirige-se exclusivamente a mim:
— Espero encontrá-la com o restante da sua guarda hoje no jantar.
— Jantar? — repito, piscando rapidamente os olhos. — Hoje?
— É claro — Kenji apressa-se em dizer. — Esperaremos ansiosamente.
Haider assente.
— Por favor, mande lembranças minhas ao seu Regente Warner. Já se passaram vários meses desde nossa última visita, mas espero ansiosamente vê-lo. Ele já falou sobre mim, é claro? — Um sorriso enorme estampa seu rosto. — Nós nos conhecemos desde a infância.
Impressionada, só consigo assentir. A percepção dos fatos começa a afastar a confusão.
— Sim. Certo. É claro. Tenho certeza de que Warner ficará muito feliz com a oportunidade de vê-lo.
Mais uma afirmação com a cabeça e Haider vai embora.
Kenji e eu ficamos sozinhos.
— Que porra foi…
— Ah — Haider passa a cabeça pela porta. — E, por favor, avise ao seu chef que eu não como carne.
— Claro — Kenji confirma, assentindo e sorrindo. — Sim, certamente. Pode deixar.

8 comentários:

  1. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK "cadê a suprema? " "Ah Oi, sou eu".
    Que vergonha alheia cara 😂😂
    Já tenho teorias que ela tem algum irmão(ã) perdida nessa comitiva da Oceania aí, já que parece q ela veio de lá.

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  2. Será quanto custou esse mico, Ju?

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  3. Ai Ju. .. o que foi isso? Bastava responder: Quer uma amostra? .... e dava só um toquinho nele. ... mas não. A garota mais poderosa da p*** toda não sabe lidar com um ridículo desse!

    Flávio

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  4. Kkkkk acho que nunca senti tanta vergonha alheia lendo um livro como nesse capítulo. A melhor parte foi a dela levantando a mão para acenar e o Kenji abaixando

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Boa leitura, E SEM SPOILER!