29 de maio de 2018

Capítulo 27

A CARTA CHEGOU NUMA terça-feira, mas eu não a vi até quarta de manhã, antes da escola. Estou no assento da janela da cozinha, comendo uma maçã, passando pela pilha de correspondência e esperando por Peter para me pegar. Conta de energia elétrica, TV à cabo, catálogo da Victoria’s Secret, coisas de Kitty da Cão Chique (Para Crianças!) deste mês. E então uma carta, em um envelope branco, endereçado a mim. Uma caligrafia de menino. Um remetente que não reconheço.

Cara Lara Jean,
Uma árvore caiu em nossa garagem na semana passada e sr. Barber de Barber Landscaping veio tirá-la do caminho. Os Barbers são a família que se mudaram para nossa antiga casa em Meadowridge, e possuem uma empresa de paisagismo. O sr. Barber trouxe a sua carta. Vi no carimbo do correio que você enviou em setembro, mas apenas a peguei esta semana, porque ela foi enviada para a minha antiga casa. Foi por isso que levei tanto tempo para escrever de volta.
Sua carta me fez lembrar de todos os tipos de coisas que pensei que eu tivesse esquecido. Como aquela vez em que a sua irmã mais velha fez pé-de-moleque no micro-ondas e vocês decidiram que deveríamos ter um concurso de break-dancing para ver quem ganharia o maior pedaço. Ou a vez em que fiquei trancado para fora da minha casa uma tarde e fui para a casa da árvore, e você e eu lemos até que já estava tão escuro que tivemos que usar uma lanterna. Lembro-me que o seu vizinho grelhou hambúrgueres e você me desafiou a pedir um para nós compartilharmos, mas eu fui um frangote. Quando voltei para casa, fiquei em apuros porque ninguém sabia onde eu estava, mas valeu a pena.

Paro de ler. Eu me lembro do dia em que nós dois ficamos trancados do lado de fora! Éramos Chris, John e eu, mas Chris teve que ir e sobramos apenas John e eu. Meu pai tinha ido em um seminário; não me lembro onde Margot e Kitty estavam. Tínhamos tanta fome que rasgamos o saco de Skittles que Trevor tinha escondido debaixo de uma tábua solta. Acho que eu poderia ter ido para a casa do Josh em busca de comida e abrigo, mas havia algo divertido em passar necessidade com John Ambrose McClaren. Era como se fôssemos fugitivos.

Eu devo lhe dizer, a sua carta me surpreendeu, porque quando eu tinha treze anos eu ainda era um garotinho, e aqui você era essa pessoa real com pensamentos e emoções complexas. Minha mãe ainda corta a maçã para mim para o lanche da tarde. Se eu tivesse escrito uma carta para você na oitava série, teria escrito que seu cabelo é bonito. É isso aí. Então seu cabelo é bonito. Eu era tão sem noção. Não tinha ideia que você gostava de mim naquela época.
Alguns meses atrás eu a vi no Projeto das Nações Unidas no Thomas Jefferson. Duvido que você tenha me reconhecido, mas eu estava ali representando a República Popular da China. Você pegou um bilhete de mim e eu chamei o seu nome, mas você continuou andando. Tentei encontrá-la mais tarde, mas você não estava em lugar nenhum. Você me viu?
Acho que estou mais curioso para saber por que você decidiu me enviar a carta depois de todo esse tempo.
Então, se você quiser me ligar, ou me enviar e-mail, ou me escrever, faça isso por favor.
Atenciosamente, John
P.S.: Já que você perguntou, as únicas pessoas que me chamam de Johnny são minha mãe e minha avó, mas sinta-se livre.

Deixo escapar um longo suspiro.
No ensino fundamental, John Ambrose McClaren e eu tivemos dois encontros “românticos” – beijo ao girar a garrafa, o que honestamente não foi nem um pouco romântico, e aquele dia na chuva na educação física, que até este ano era o momento mais romântico da minha vida. Tenho certeza de que John não se lembra dessa forma. Duvido que ele se lembre de algo disso. E receber esta carta dele, depois de todo esse tempo, é como se ele voltasse dos mortos. É uma sensação diferente de vê-lo por aqueles poucos segundos no Projeto da ONU em dezembro. Lá foi como ver um fantasma. Agora é verdade, uma pessoa que eu conhecia, que costumava me conhecer.
John era inteligente; tinha as melhores notas dos meninos, e eu tinha as melhores notas das meninas. Estávamos em aulas avançadas juntos. Ele era melhor em história – sempre fazia suas leituras – mas era bom em matemática e ciências também. Tenho certeza de que não mudou.
Se Peter foi o último rapaz da nossa classe a ficar alto, John foi o primeiro. Eu gostava de seu cabelo loiro, ensolarado e leal como o milho branco de verão. Ele era inocente e com bochechas doces, tinha o rosto de um menino que nunca se meteu em problemas, e as mães do bairro o amavam. Ele tinha aquela aparência. O que o tornava um bom parceiro em tal crime. Ele e Peter costumavam fazer todos os tipos de travessuras juntos. John era o esperto, tinha grandes ideias, mas era um pouco tímido para falar, porque costumava ter uma gagueira. Ele gostava de desempenhar o papel de apoio enquanto que Peter amava ser a estrela. Então, todo mundo sempre deu o crédito, e a culpa, a Peter, porque ele era o malandro e como um anjo como John Ambrose McClaren poderia realmente ser culpado por alguma coisa? Não que houvesse ainda muita culpa. As pessoas eram tão encantadas por belos rapazes. Meninos bonitos ganhavam um balançar indulgente da cabeça e um “Oh, Peter”, nem mesmo um tapa no pulso. A sra. Holt, nossa professora de inglês, costumava chamá-los de Butch Cassidy e Sundance Kid, pessoas que nenhum de nós nunca tínhamos ouvido falar. Peter a convenceu a mostrar o filme para nós na sala de aula um dia, e, em seguida, eles discutiram o ano todo sobre quem era Butch e quem era o Sundance Kid, apesar de estar muito claro para todos quem era quem.
Aposto que todas as meninas em sua escola gostam dele. Quando eu o vi no Projeto das Nações Unidas, ele parecia tão seguro, a maneira como se sentava em sua cadeira, ombros elevados, totalmente focado. Se eu fosse para a escola de John, aposto que eu estaria ali na frente do pelotão, com binóculos e uma barra de granola, acampando em seu armário. Eu teria sua agenda memorizada, saberia o seu almoço favorito. Será que ele ainda come sanduíches de pão integral com manteiga de amendoim em dobro e geleia? Há tantas coisas que eu não sei.

* * *

A buzina do carro de Peter lá fora é o que me sacode para fora do meu devaneio. Salto por causa do som. Tenho esse impulso louco de esconder a carta, de guardá-la em minha caixa de chapéus por segurança e nunca pensar nela novamente. Mas então eu penso, não, isso seria uma loucura. É claro que eu vou escrever para John Ambrose McClaren de volta. Seria rude não responder.
Então eu dobro a carta e guardo na mochila, visto o meu casaco branco acolchoado e corro para o carro de Peter. Ainda há um pouco de neve no chão por causa da última tempestade, mas parece gasta, como um tapete esfarrapado. Eu sou um tipo de menina tudo-ou-nada quando se trata de tempo, prefiro que derreta tudo ou que a neve tenha vários centímetros de profundidade, afundar até joelhos.
Quando chego ao carro, Peter está mandando mensagens em seu celular.
— O que foi? — pergunto-lhe.
— Nada — diz ele. — É apenas a Gen. Ela queria uma carona, mas falei que não vai dar.
Minha pele se arrepia. Me irrita que eles ainda troquem tantas mensagens de texto, que estejam em um contato tão fácil, o suficiente para pedir caronas. Mas eles são amigos, apenas amigos. Isso é o que eu continuo dizendo a mim mesma. E ele está me contando a verdade, assim como prometemos que faríamos.
— Adivinha de quem recebi uma carta.
Ele sai da entrada da nossa garagem.
— De quem?
— Adivinha.
— Hum... Margot?
— Por que isso seria surpreendente? Não, não Margot. John Ambrose McClaren!
Peter apenas parece confuso.
— McClaren? Por que ele escreveria uma carta para você?
— Porque eu escrevi uma para ele, lembra? A mesma que mandei para você. Havia cinco cartas de amor, e a dele foi a única carta que não voltou. Pensei que estivesse perdida para sempre, mas então uma árvore caiu na entrada da casa de John após esta última tempestade de gelo, e o sr. Barber foi para tirar e levou a carta.
— Quem é o sr. Barber?
— É o homem que comprou a antiga casa de John. Ele é dono de uma empresa de paisagismo – o que não importa muito, de qualquer maneira. O ponto é, John só recebeu a minha carta na semana passada; por isso que levou tanto tempo para responder.
— Hmm — diz Peter, mexendo com as aberturas do sistema de aquecimento. — Então, ele te escreveu uma carta de verdade? Não um e-mail?
— Não, foi uma carta de verdade que chegou pelo correio.
Observo para ver se ele está com ciúmes, ver se este novo desdobramento o afeta, mesmo que um pouco.
— Hmm. — Peter diz novamente. Esse segundo “hmm” está soando entediado, evasivo. Não está nem um pouco ciumento.
— Como está o Sundance Kid, de qualquer maneira? — Ele recorda. — McClaren costumava odiar quando eu o chamava assim.
— Eu me lembro.
Estamos no semáforo; há uma fila para entrar na escola.
— O que a carta diz?
— Ah, você sabe, apenas “como você vai”, o tipo usual de perguntas.
Olho para fora da janela. Estou me sentindo um pouco mesquinha sobre o compartilhamento de informações extras porque a reação hmm-hmm não mereceu qualquer uma. Será que ele não tem a decência de, pelo menos, agir como se ele se importasse?
Peter batuca os dedos no volante.
— Devemos sair com ele algum dia.
O pensamento de Peter e John Ambrose McClaren no mesmo espaço, juntos novamente, é desconcertante. Para onde é que eu olharia?
— Hmm, talvez — respondo vagamente.
Talvez trazer a carta à tona não tenha sido uma boa ideia.
— Acho que ele ainda está com a minha antiga luva de beisebol — ele brinca. — Ei, ele disse alguma coisa sobre mim?
— Como o quê?
— Eu não sei. Tipo ele perguntou o que eu estava fazendo?
— Na verdade, não.
— Hmm — a boca de Peter transforma-se em uma espécie de expressão irritada. — O que você respondeu para ele?
— Acabei de pegar a carta! Não tive tempo para escrever qualquer coisa.
— Diga a ele que dei um oi quando você escrever — diz ele.
— Claro.
Apalpo minha bolsa para garantir que a carta ainda está lá.
— Então, espere, se você enviou uma carta de amor para cinco de nós, isso significa que você gostou de nós todos igualmente?
Ele está olhando para mim com os olhos expectantes, e sei que ele acha que vou dizer que gostei mais dele, mas isso não seria verdade.
— Sim, eu gostei de vocês todos exatamente igual.
— Besteira! De quem você mais gostou? De mim, certo?
— Essa é uma pergunta realmente impossível de responder, Peter. Quero dizer, é tudo relativo. Eu poderia dizer que gostava mais de Josh porque eu gostei dele por mais tempo, mas não se pode julgar quem você mais ama pelo maior tempo de amor.
— Amor?
— Gostar — eu digo.
— Você definitivamente disse “amor”.
— Bem, eu quis dizer “gosta”.
— E quanto a McClaren? — ele pergunta. — Quanto você gosta dele, em comparação com o resto de nós?
Finalmente! Um pouco de ciúme, por fim.
— Eu gostava dele...
Estou prestes a dizer “igual”, mas eu hesito. De acordo com Stormy, ninguém pode gostar de ninguém exatamente igual. Mas como você pode possivelmente quantificar o quanto gosta de uma pessoa, ainda mais duas? Peter sempre tem de ser mais apreciado. Ele espera isso. Então eu termino por responder:
— Não dá pra saber. Mas eu gosto mais de você agora.
Peter balança a cabeça.
— Para alguém que nunca teve um namorado antes, você realmente sabe como fazer um cara se esforçar.
Levanto minhas sobrancelhas. Eu sei como fazer um cara se esforçar? Essa é a primeira vez que ouço isso na minha vida. Genevieve, Chris, elas sabem como ocupar os caras.
Eu não. Nunca eu.

9 comentários:

  1. Peter fazendo de desentendido kkkkkk

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  2. E se o John tivesse respondido antes da Lara Jean começar a gostar do Peter? Será que eles teriam um relacionamento? Não sei, quero gostar do Peter, mas sinto que tem algo estranho nele.

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    1. As vezes tambem sinto que tem algo estranho, me passa a cabeça se ele esta por tras de tudo

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  3. Pra quem o Peter envia tanta mensagem...

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  4. Se eu fosse A Laranjinha , eu acabaria com essa palhaçada de ficar trocando mensagens com a ex vagabunda dele

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  5. Já gostei desse John.
    Alguém tem que falar pra Lara Jean que a lei da vida é gostar de quem não presta, não desses meninos fofos e maravilhosos que ela escolhe.

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  6. Não vi ciúmes da parte do Peter em nenhum momento... e para quê tanta mensagem mds? Virar amigo de ex? Tudo bem, agora essa intimidade toda e logo uma ex como a Genevieve que a instituição fala para todo mundo que é só estalar os dedos que ele volta? Pera aí.
    Fica esperta Lara Jean e se prepara, ou vai ganhar um par de xifres nessa cabecinha romântica KKKKKKKKKK

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Boa leitura, E SEM SPOILER!