29 de maio de 2018

Capítulo 26

ASSIM QUE PENSEI QUE O CALVÁRIO do vídeo do ofurô tivesse verdadeiramente acabado, outra versão aparece e me lembra que este pesadelo em particular nunca vai acabar. Nada na Internet morre; não é isso que as pessoas dizem? Desta vez estou na biblioteca, e com o canto do olho eu vejo duas meninas do segundo ano dividindo os fones de ouvido, assistindo o vídeo, rindo. Lá estou eu, de camisola, cobrindo o colo de Peter como um cobertor. Por alguns segundos eu apenas fico sentada ali, presa em minha indecisão. Enfrentar ou não enfrentar. Lembro-me das palavras de Margot sobre ficar acima disso e agir como se eu não pudesse me importar menos. E então penso, Dane-se.
Eu me levanto, caminho até elas, e arranco os fones de ouvido da entrada do laptop.
Parte do seu mundo explode para fora dos alto-falantes.
— Ei! — a garota diz, girando em seu assento. Em seguida, vê quem eu sou, e ela e sua amiga trocam um olhar de pânico. Ela estica o braço e fecha o laptop.
— Vá em frente, dê o play — eu digo, cruzando os braços.
— Não, obrigado — diz ela.
Passo por ela, abro o laptop e aperto o play. Quem quer que tenha feito esse vídeo juntou cenas de A Pequena Sereia.
“O que é fogo? O que é queimar? Lá eu vou ver.” Fecho o computador.
— Só para vocês saberem, assistir este vídeo é o equivalente a pornografia infantil, e vocês poderiam ser cobradas por isso. O seu endereço de IP já está no sistema. Pense nisso antes de enviá-lo. Isso é distribuição.
A garota de cabelos vermelhos está embasbacada.
— Como isso é pornografia infantil?
— Eu sou menor de idade e Peter também.
A outra menina sorri e diz:
— Pensei que vocês alegassem que não estavam fazendo sexo.
Estou perplexa.
— Bem, vamos deixar o Departamento de Justiça classificar. Mas primeiro notificarei a diretora Lochlan.
— Não é como se fôssemos as únicas a vê-lo! — diz a garota de cabelos vermelhos.
— Pense em como você se sentiria se fosse você no vídeo — eu digo.
— Eu me sentiria ótima — murmura a garota. — Você é sortuda. Kavinsky é um gato.
Sortuda. Certo.

* * *

Sou pega desprevenida com o quão perturbado Peter fica quando lhe mostro o vídeo da Pequena Sereia. Porque nada de ruim paralisa Peter; ele só vai através disso. É por isso que as pessoas gostam tanto dele, eu acho. Ele é seguro de si; é dono de si mesmo. Ele deixa as pessoas à vontade.
Mas é o vídeo da Pequena Sereia é demais para ele. Nós assistimos em seu carro, no celular dele, e ele está tão furioso que temo que ele atire o aparelho pela janela.
— Esses filhos da mãe! Como se atrevem!
Peter dá um soco no volante, e a buzina toca. Eu salto. Nunca o vi irritado assim. Eu não tenho certeza do que dizer, algo para acalmá-lo. Cresci em uma casa cheia de mulheres e um pai gentil. Eu não sei nada sobre os temperamentos dos meninos adolescentes.
— Merda! — ele grita. — Eu odeio não poder protegê-la disto.
— Eu não preciso que você faça isso — respondo.
E percebo que o que digo é verdade. Eu mesma estou lidando bem. Ele olha para a frente.
— Mas eu quero. Pensei que tivesse resolvido antes, mas aqui está novamente. É como uma droga de herpes.
Quero consolá-lo, fazê-lo rir e esquecer.
— Peter, você tem herpes? — pergunto de provocação.
— Lara Jean, isso não é engraçado.
— Desculpe. — Coloco a mão em seu braço. — Vamos sair daqui.
Peter liga o carro.
— Aonde você quer ir?
— A qualquer lugar. A lugar nenhum. Vamos apenas dirigir.
Eu não quero correr para ninguém, não quero nenhum conhecido olhando ou sussurrando. Eu quero me esconder. O Audi de Peter é o nosso pequeno paraíso. Para encobrir os meus pensamentos sombrios, dou a Peter um sorriso brilhante, brilhante o suficiente para fazê-lo sorrir de novo, apenas.
Dirigir acalma Peter, e no momento em que chegamos à minha casa, Peter parece estar de bom humor novamente. Pergunto-lhe se ele quer entrar e comer pizza, já que é noite da pizza e tudo. Digo a ele que ele pode encomendar o sabor que quiser. Mas ele balança a cabeça, diz que deve ir para casa. Pela primeira vez, ele não me dá um beijo de despedida, e isso me faz sentir culpada, o modo como ele se sente mal.
É em parte por minha culpa, eu sei que é. Ele sente como se tivesse que fazer as coisas certas para mim, e agora sabe que não pode, e isso o está matando.

* * *

Quando entro em casa, papai está esperando por mim na mesa da cozinha, apenas sentado e esperando, sobrancelhas unidas.
— Por que você não atendeu o celular?
— Desculpe... minha bateria morreu. Está tudo bem?
A julgar pelo olhar sério em seu rosto, algo definitivamente não está bem.
— Nós precisamos conversar, Lara Jean. Sente-se.
Pavor me atinge como uma onda.
— Por que, papai? O que está errado? Onde está Kitty?
— Está no quarto dela.
Largo minha bolsa e faço o meu caminho até a mesa da cozinha, os pés se movendo tão lentamente quanto posso movê-los. Sento-me ao lado dele e ele suspira pesadamente, as mãos unidas.
— É sobre o perfil de relacionamento que fiz para você? Porque eu ainda não ativei... — eu falo, ao mesmo tempo em que ele diz:
— Por que você não me contou o que estava acontecendo na escola?
Meu coração cai todo o caminho até o chão.
— O que você quer dizer?
Ainda estou esperando, rezando para ser outra coisa. Diga-me que falhei no meu teste de química; diga qualquer coisa, menos o ofurô.
— O vídeo de você e Peter.
— Como foi que você descobriu? — eu sussurro.
— Sua orientadora me ligou. Ela estava preocupada com você. Por que você não me contou o que estava acontecendo, Lara Jean?
Ele parece tão severo, e mesmo assim muito decepcionado, o que odeio mais do que tudo. Sinto pressão atrás dos meus olhos.
— Porque... Eu fiquei com vergonha. Não quero que você pense em mim desse jeito. Papai, eu juro, nós só estávamos nos beijando. É isso.
— Eu não vi o vídeo, e não pretendo ver. É algo privado, entre você e Peter. Mas eu gostaria que você tivesse usado melhor julgamento naquele dia, Lara Jean. Há consequências duradouras para as nossas ações.
— Eu sei.
Lágrimas rolam pelo meu rosto. Papai pega a minha mão do meu colo e a segura entre as suas.
— Me dói que você não tenha me procurado quando as coisas estavam tão difíceis para você na escola. Eu sabia que você estava passando por algo, mas não queria forçar. Sempre tento pensar no que sua mãe faria se estivesse aqui. Eu sei que não é fácil, ter apenas um pai para falar sobre... — sua voz quebra e eu choro mais — mas eu estou tentando. Eu realmente estou tentando.
Eu salto para fora do meu assento e jogo meus braços em torno dele.
— Eu sei que você está tentando — eu choro.
Ele me abraça de volta.
— Você tem que saber que pode me procurar, Lara Jean. Não importa o quê. Falei com a diretora Lochlan, e ela fará um anúncio amanhã dizendo que quem assistir ou distribuir o vídeo será suspenso.
Alívio me inunda. Eu deveria ter vindo ao meu pai desde o início. Me endireito, e ele levanta e enxuga minhas bochechas.
— Agora, o que é isso de perfil de relacionamento?
— Oh... — sento-me novamente. — Bem... Eu fiz um para você eno singleparentloveconnection.com.
Ele está franzindo a testa, então acrescento rapidamente:
— A vovó não acha que é bom para um homem ficar sozinho por tanto tempo, e eu concordo com ela. Pensei que namoro on-line poderia ajudá-lo a voltar lá para fora.
— Lara Jean, eu posso lidar com minha própria vida amorosa! Não preciso da minha filha conduzindo os meus encontros.
— Mas... Você nunca vai em nenhum.
— Isso é da minha conta, não da sua. Quero que você exclua esse perfil hoje à noite.
— Ele não foi ativado, na dúvida, só configurei. É todo um novo mundo lá fora, papai.
— Neste momento, estamos falando da sua vida amorosa, não da minha, Lara Jean. A minha guardaremos para outra vez. Quero ouvir sobre a sua.
— Ok. — Empertigada, dobro minhas mãos na minha frente na mesa. — O que você quer saber?
Ele coça o pescoço.
— Bem... é muito sério entre você e Peter?
— Eu não sei. Quer dizer, acho que eu poderia amá-lo. Mas talvez seja cedo demais para dizer. Quão sério você pode ser no ensino médio, de qualquer maneira? Veja Margot e Josh, e como isso acabou.
Melancolicamente, papai diz:
— Ele nunca mais veio aqui.
— Exatamente. Eu não quero ser a garota chorando em seu quarto por causa de um menino — paro de repente. — Isso foi algo que mamãe disse a Margot. Para não ser a garota que vai para a faculdade com um namorado e, em seguida, perde tudo.
Ele sorri um tipo sorriso sabido.
— Isso soa como ela.
— Quem foi o namorado dela no colegial? Será que ela o amava muito? Você o conheceu?
— Sua mãe não tinha um namorado no colegial. Era da companheira de quarto que ela estava falando. Robyn — papai dá risada. — Ela deixou sua mãe louca.
Recosto em minha cadeira. Todo esse tempo eu pensei que a mamãe estivesse falando sobre si mesma.
— Eu me lembro da primeira vez que vi sua mãe. Ela dava um jantar em seu dormitório chamado Ação de Gracinhas, e um amigo meu e eu fomos. Foi uma grande refeição de Ação de Graças, em maio. Ela estava com um vestido vermelho, e seu cabelo era comprido e puxado para trás. Você sabe, você já viu as fotos — ele faz uma pausa, um sorriso vacilante em seu rosto. — Ela me fez passar um mau bocado porque eu levei feijões-verdes enlatados e não frescos. Assim é que você sabia que se ela gostava de alguém, se ela brincava com você. Claro, eu não sabia disso na época. Eu era muito ignorante sobre garotas naquela época.
Ha! Naquela época.
— Pensei que vocês tivessem se conhecido em uma aula de psicologia — falei.
— De acordo com sua mãe, nós fizemos a mesma aula em um semestre, mas eu não me lembro de vê-la. Foi em uma dessas salas de aula com centenas de pessoas.
— Mas ela notou você — aponto.
Isso, eu ouvi antes. Ela falou que gostava do jeito como ele prestou atenção na aula, e como seu cabelo era um pouco longo demais na parte de trás, como um professor distraído.
— Graças a Deus que ela notou. Onde eu estaria sem ela?
Isso me faz pensar. Onde ele estaria? Sem nós, certamente, mas provavelmente não seria um viúvo. Será que sua vida ter sido mais feliz se tivesse casado com outra garota, feito alguma outra opção?
Papai pega meu queixo. Firmemente, e ele diz:
— Eu não estaria em lugar nenhum sem ela, porque eu não teria as minhas meninas.

* * *

Eu ligo pro Peter e lhe digo que a sra. Duvall ligou para o meu pai e ele sabe de tudo sobre o vídeo, mas ele falou com a diretora Lochlan e tudo vai ficar bem agora. Espero que ele esteja aliviado, mas ele ainda soa triste.
— Agora o seu pai provavelmente me odeia — diz ele.
— Ele não odeia — asseguro-lhe.
— Você acha que eu deveria conversar com ele? Eu não sei, tipo, pedir desculpas de homem para homem?
Eu tremo.
— Definitivamente não. Meu pai é superestranho.
— Sim, mas...
— Por favor, pare de se preocupar, Peter. É como eu te falei, o meu pai resolveu tudo. A diretora Lochlan fará o anúncio e as pessoas vão nos deixar em paz. Além disso, não há nada para você se desculpar. Eu estava nele tanto quanto você. Você não me obrigou a fazer qualquer coisa que eu não queria fazer.
Nós desligamos depois, e mesmo que eu me sinta melhor quanto ao vídeo,  ainda me sinto inquieta sobre Peter. Sei que ele está chateado por não ser capaz de me proteger, mas também sei que parte da razão pela qual ele está chateado é porque o seu orgulho foi ferido, e que não tem nada a ver comigo. O ego de um menino realmente é tão frágil? Tem que ser isso.

2 comentários:

  1. Ainda bem que o Peter não aceitou entrar na casa da Lara Jean, pq as coisas ficariam um pouco mais tensas.

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  2. Só eu acho que não tem nada haver ele estar triste por não poder protegê-lá, é por isso mas, tipo não de todo? Ele parece distante, como se estivesse se afastando ou se sentindo culpado por outra coisa, será que ele beijou a Genevieve e agora está de consciência pesada? Estou com medo por Lara Jean

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Boa leitura, E SEM SPOILER!