29 de maio de 2018

Capítulo 2

MARGOT E KITTY estão ambas dormindo no banco de trás. Kitty está com a cabeça no colo de Margot; Margot está adormecida com a cabeça para trás e a boca aberta. Papai está escutando a NPR, com um ligeiro sorriso em seu rosto. Todo mundo está tão pacífico, e meu coração está batendo um milhão de vezes por minuto apenas em antecipação do que estou prestes a fazer.
Farei isso agora, esta noite. Antes de voltarmos para a escola, antes de todas as engrenagens encaixarem novamente no lugar e Peter e eu sermos nada mais do que uma lembrança. Como globos de neve, quando você os vira, por um momento tudo fica de cabeça para baixo, com glitter em todos os lugares e tudo parecendo mágico, mas então tudo se instala e volta ao seu devido lugar.
As coisas têm uma maneira de se acomodar. Não posso voltar atrás.
Espero, de modo que estamos parados num sinal de trânsito no bairro de Peter quando peço para o papai me deixar ir. Ele deve perceber a intensidade em minha voz, a necessidade, porque não faz nenhuma pergunta, ele só diz que sim.
Quando vamos até a casa de Peter, as luzes estão acesas e seu carro está na garagem; assim como a minivan de sua mãe. O sol está se pondo mais cedo, porque é inverno. Do outro lado da rua, os vizinhos de Peter ainda estão com as luzes acesas do seu feriado. Provavelmente hoje é o último dia para isso, vendo como estamos em um novo ano.
Novo ano, novo começo.
Posso sentir as veias pulsando, e estou tão, tão nervosa. Corro para fora do carro e toco a campainha. Quando ouço passos do lado de dentro, aceno para papai, e ele sai da entrada de automóveis. Kitty agora está acordada, o rosto contra a janela, sorrindo forte. Ela me envia um sinal de positivo e eu aceno de volta.
Peter abre a porta. Meu coração salta como um feijão saltador mexicano em meu peito. Ele está usando uma camisa de botão que nunca vi antes, xadrez. Deve ter sido um presente de Natal. Seu cabelo está despenteado no alto, como se estivesse deitado.
Ele não parece muito surpreso ao me ver.
— Ei.
Ele olha minha saia, que está armada debaixo do meu casaco de inverno como um vestido de baile.
— Por que está tão bem vestida?
— É para o Ano-Novo.
Talvez eu devesse ter ido para casa e me trocado primeiro. Pelo menos, assim eu me sentiria como eu mesma, de pé na porta dele, chapéu metafórico na mão.
— Então, hã, como foi o seu Natal?
— Bom.
Ele leva o seu tempo, quatro segundos inteiros, antes de perguntar:
— Como foi o seu?
— Ótimo. Temos um novo cachorro. O nome dele é Jamie Fox-Pickle.
Nem sequer vestígio de um sorriso em Peter. Ele está frio; eu não esperava que ele fosse frio. Talvez não tão frio. Talvez apenas indiferente.
— Posso falar com você por um segundo?
Peter dá de ombros, o que parece ser um sim, mas ele não me convida para entrar. Tenho esse medo repentino e enjoo no estômago de que Genevieve está lá dentro, que rapidamente se dissipa quando lembro que, se ela estivesse lá dentro, ele não estaria aqui comigo. Ele deixa a porta entreaberta enquanto calça tênis e veste um casaco, e em seguida, sai para a varanda. Ele fecha a porta atrás dele e se senta nos degraus. Sento-me ao lado dele, alisando a saia ao meu redor.
— Então, o que houve? — diz ele, como se eu estivesse tomando seu precioso tempo.
Isso não está certo. Não era o que eu esperava. Mas o que, exatamente, espero de Peter? Eu lhe daria a carta, ele leria, e então me amaria? Ele me pegaria nos braços; nos beijaríamos apaixonadamente, mas apenas um beijo inocente? E depois? Teríamos um encontro? Quanto tempo até que ele se entediasse de mim, sentisse falta de Genevieve, quisesse mais do que eu estava preparada para dar, como dormir juntos e apenas viver a vida?
Alguém como ele nunca ficaria dentro de casa e assistiria a um filme no sofá. É de Peter Kavinsky que estamos falando, afinal.
Levo tanto tempo perdida em meu rápido devaneio que ele repete, um pouco menos frio neste momento.
— O que foi, Lara Jean?
Ele olha para mim como se esperasse por algo, e de repente fico com medo de entregar.
Aperto meu punho em torno da carta, e a enfio no bolso do casaco. Minhas mãos estão congelando. Não tenho luvas ou chapéu; eu provavelmente deveria ir para casa.
— Eu só vim aqui para dizer... para dizer que sinto muito pela forma como as coisas aconteceram. E... espero que nós ainda possamos ser amigos, e feliz Ano-Novo.
Seus olhos se estreitam ao ouvir isso.
— Feliz Ano-Novo? — ele repete. — Foi isso o que você veio aqui dizer? Sinto muito e feliz Ano-Novo?
— E espero que nós ainda possamos ser amigos — acrescento, mordendo o lábio.
— Você espera que nós ainda possamos ser amigos — ele repete, e há uma nota de sarcasmo em sua voz que eu não entendo e não gosto.
— Foi o que eu disse.
Começo a me levantar. Eu estava torcendo para que ele me desse uma carona para casa, mas agora não quero pedir. Só que está tão frio. Talvez se eu der uma indireta... soprando as mãos, digo:
— Acho que vou para casa.
— Espere um minuto. Vamos voltar para a parte das desculpas. Pelo o que você está se desculpando, exatamente? Por ter me chutado para fora da sua casa, ou por pensar que sou um babaca que sairia por aí dizendo a todo mundo que transamos mesmo não sendo verdade?
Um nó se forma na minha garganta. Quando ele coloca dessa forma, realmente soa terrível.
— Pelas duas coisas. Sinto muito pelas duas coisas.
Peter inclina a cabeça para o lado, as sobrancelhas erguidas.
— E o que mais?
Eu pisco. O que mais?
— Não tem “o que mais”. É só isso.
Graças a Deus eu não dei a carta, se é assim que ele vai agir. Não é como se eu fosse a única com motivos para se desculpar.
— Ei, foi você quem veio aqui falando sobre desculpas e sobre ser amigos novamente. Você não pode me forçar a aceitar o seu pedido de desculpas pela metade.
— Bem, desejo a você um feliz Ano-Novo de qualquer maneira. — Agora sou a única a ser sarcástica, e, com certeza, é gratificante. — Tenha uma boa vida. Auld lang syne e tudo mais.
— Tudo bem. Tchau.
Viro-me para ir. Eu estava tão esperançosa esta manhã, tinha esse brilho nos olhos, imaginando o que aconteceria. Deus, como Peter é que idiota. Bom, felicidades para ele!
— Espere um minuto.
Esperança salta em meu coração como Jamie Fox-Pickle pula em minha cama, rápida e sem ser convidada. Mas eu me viro novamente, com cara de Aff, o que você quer agora, para que ele não perceba.
— O que é isso amassado no seu bolso?
Minha mão voa para o bolso do casaco.
— Isso? Oh, não é nada. É um panfleto. Estava no chão perto da sua caixa de correio. Não se preocupe, vou jogar fora para você.
— Me dá que eu jogo agora — diz ele, estendendo a mão.
— Não, eu cuido disso.
Enfio a carta mais fundo no bolso do casaco, e Peter tenta arrebatá-la da minha mão. Eu me afasto dele rapidamente e seguro firme. Ele dá de ombros, e eu relaxo e dou um pequeno suspiro de alívio, e então ele pula para frente e arranca a carta de mim. Eu ofego.
— Me devolva, Peter!
Alegremente ele diz:
— Sabia que interferir no correio americano é crime federal? — ele olha para o envelope. — É para mim. De você.
Faço mais uma tentativa desesperada de pegar o envelope, e Peter é pego de surpresa. Brigamos pela carta; consigo segurar um canto, mas ele não está soltando.
— Pare, você está vai rasgar! — grita ele, erguendo-o para fora do meu alcance.
Tento segurar com mais força, mas é tarde demais. Ele conseguiu.
Peter detém o envelope acima da minha cabeça e o abre, e começa a ler. É torturante permanecer ali na frente dele, esperando – o que, eu não sei. Mais humilhação? Eu provavelmente deveria ir. Ele lê tão devagar.
Quando ele finalmente termina, pergunta:
— Por que você desistiu de me entregar a carta? Por que estava apenas indo embora?
— Porque, sei lá, você não pareceu feliz em me ver... — minha voz falha, sem convicção.
— Isso se chama bancar o difícil! Estive esperando você me ligar, sua pateta. Já faz seis dias.
Eu inspiro.
— Ah!
— Ah.
Ele me puxa pelas lapelas do meu casaco, aproximando-nos, perto o suficiente para beijar. Ele está tão perto que posso ver o seu hálito se condensar. Tão perto que poderia contar os seus cílios, se quisesse. Em voz baixa, ele diz:
— Então... você ainda gosta de mim?
— Sim — eu sussurro. — Quero dizer, mais ou menos.
Meu batimento cardíaco está indo rápido, rápido, rápido. Estou tonta. Isto é um sonho? Se for, não quero acordar nunca. Peter me dá um olhar como Caia na real, você sabe que gosta de mim. Eu gosto, eu gosto.
Então, suavemente, ele diz:
— Você acredita em mim quando digo que não falei para as pessoas que transamos na viagem para a estação de esqui?
— Sim.
— Ok. — Ele inspira. — Aconteceu... aconteceu alguma coisa entre você e o Sanderson depois que eu saí da sua casa naquela noite?
Ele está com ciúmes! O próprio pensamento me aquece como sopa quente. Começo a dizer que não, de jeito nenhum, mas ele diz rapidamente:
— Espera. Não me diga. Eu não quero saber.
— Não — digo com firmeza, para que ele saiba que estou falando sério.
Ele balança a cabeça, mas não diz nada. Em seguida, ele se inclina, e eu fecho meus olhos, o coração tamborilando no peito como asas de beija-flor. Nós tecnicamente nos beijamos somente quatro vezes, e só um desses momentos foi real. Eu gostaria de começar logo para poder parar de ficar nervosa. Mas Peter não me beija, não do jeito que eu esperava. Ele beija minha bochecha esquerda, e depois a direita; sua respiração é quente. E depois... nada. Meus olhos se abrem. Este é na verdade um beijo de adeus? Por que ele não me beija direito?
— O que você está fazendo? — sussurro.
— Criando expectativa.
— Me beija logo — disparo.
Ele vira a cabeça e encosta a bochecha contra a minha, e é quando a porta se abre e o irmão mais novo de Peter, Owen, aparece ali de pé com os braços cruzados. Eu pulo para longe de Peter como se tivesse acabado de descobrir que ele tem alguma doença infecciosa incurável.
— Mamãe quer que vocês entrem e tomem uma cidra — diz ele, sorrindo.
— Em um minuto — diz Peter, me puxando de novo.
— Ela disse agora — retruca Owen.
Meu Deus. Lanço um olhar de pânico para Peter.
— Eu provavelmente deveria ir andando antes que meu pai comece a se preocupar...
Ele aponta para a porta com o queixo.
— Vamos entrar por um minuto, e então eu levo você para casa. — Então eu entro, ele tira o meu casaco e diz em voz baixa: — Você realmente ia para casa à pé o caminho todo nesse vestido chique? No frio?
— Não, eu ia deixar você se sentindo culpado para que oferecesse carona para casa — sussurro de volta.
— Que roupa é essa? — Owen diz para mim.
— É o que os coreanos vestem no Ano-Novo — respondo.
A mãe de Peter sai da cozinha com duas canecas fumegantes. Ela está usando um longo cardigã de caxemira com um cinto frouxo em volta da cintura, e pantufas cor de creme.
— É impressionante — ela diz. — Você está linda. Tão colorido.
— Obrigada — respondo, meio constrangida pela atenção.
Nós três nos sentamos na sala; Owen foge para a cozinha. Ainda me sinto ruborizada desde o quase beijo e o fato de que a mãe de Peter provavelmente sabe o que estávamos fazendo. Me pergunto, também, o que ela sabe sobre o que está acontecendo conosco, o quanto ele contou para ela, se é que contou alguma coisa.
— Como foi o seu Natal, Lara Jean? — a mãe dele me pergunta.
Sopro a minha caneca.
— Foi bem legal. Meu pai comprou um cachorro para a minha irmã mais nova, e brigamos o tempo todo sobre quem vai pegá-lo no colo. E a minha irmã mais velha ainda está de férias da faculdade, de modo que tem sido bom também. Como foi o seu Natal, Sra. Kavinsky?
— Oh, foi bom. Tranquilo. — Ela aponta para as pantufas. — Owen me deu isso. Como foi a festa? Suas irmãs gostaram dos biscoitos de frutas cristalizadas feitos pelo Peter? Honestamente, não suporto aqueles biscoitos.
Surpresa, olho para Peter, que de repente está ocupado mexendo no celular.
— Pensei que você tivesse dito que sua mãe quem os fez.
A mãe dele sorri um tipo orgulhoso de sorriso.
— Ah, não, ele fez tudo sozinho. Estava muito determinado.
— Eles tinham gosto de lixo! — Owen grita da cozinha.
A sra. Kavinsky ri de novo, e ficamos em silêncio. Minha mente está correndo, tentando pensar em tópicos potenciais de conversas. Resoluções de Ano Novo, talvez? A tempestade de neve que supostamente virá na próxima semana? Peter não ajuda em nada; ele está olhando para o celular novamente. Ela se levanta.
— Foi bom vê-la, Lara Jean. Peter, não a faça ficar na rua até tarde.
— Não vou. — Para mim, ele diz: — Já volto; só vou pegar minhas chaves.
Quando ele se foi, eu digo:
— sinto muito aparecer assim desse jeito no dia de Ano-Novo. Espero não ter interrompido nada.
— Você é bem-vinda aqui a qualquer hora. — Ela se inclina para frente e põe a mão no meu joelho. Com um olhar significativo, ela diz: — Só cuide bem do coração dele, é tudo o que peço.
Meu estômago faz um mergulho. Será que Peter contou a ela o que aconteceu entre nós? Ela dá um tapinha no meu joelho e se levanta.
— Boa-noite, Lara Jean.
— Boa-noite — repito.
Apesar de seu sorriso gentil, sinto como se eu tivesse acabado em apuros. Havia uma sugestão de censura na voz dela, sei que ouvi. Não mexa com meu filho, é o que ela estava dizendo. Peter ficou muito chateado com o que aconteceu entre nós? Ele não deixou nada transparecer lá fora. Irritação, talvez um pouco de mágoa. Certamente não chateado o suficiente para falar com sua mãe sobre isso. Mas talvez ele e a mãe fossem muito próximos. Odeio pensar que posso já ter dado uma má impressão, antes de Peter e eu sequer termos começado.

* * *

Está escuro lá fora, sem muitas estrelas no céu. Penso que talvez vá nevar novamente em breve. Na minha casa, todas as luzes estão acesas no andar de baixo, e a luz do quarto de Margot no andar de cima. Do outro lado da rua, posso ver a pequena árvore de Natal da sra. Rothschild pela janela.
Peter e eu estamos aquecidos e aconchegados em seu carro. Ar quente sai pelas saídas de ventilação.
— Você contou para a sua mãe sobre como nós terminamos?
— Não. Porque nós nunca terminamos — diz ele, virando-se para diminuir o aquecimento.
— Não?
Ele ri.
— Não, porque nós nunca ficamos realmente juntos, lembra?
Estamos juntos agora? É o que estou pensando, mas não pergunto, porque ele coloca o braço em volta de mim e inclina minha cabeça até a sua, e eu estou nervosa novamente.
— Não fique nervosa — diz ele.
Dou-lhe um beijo rápido para provar que não estou.
— Me beije como se tivesse sentido minha falta — diz ele, e sua voz sai rouca.
— Eu senti — digo. — Minha carta dizia isso.
— Sim, mas...
Eu o beijo antes que ele possa terminar. Um beijo de verdade. Intenso. Ele beija de volta, com vontade. Como se quatrocentos anos tivessem se passado. E então eu não estou pensando em mais nada, e só estou perdida no beijo.

14 comentários:

  1. Então agr eles estão juntos né???!!!
    Foi o Peter q fez os biscoitos 😍😍😍😍😍😍😍💟💟💚💚💚💚💚😏😏😏🌚🌚🌚

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  2. ta mais cadee o colaaar?

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    1. Também queria saber...

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    2. Não entendi, de qual colar você fala?

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    3. Desde o livro passado to esperando esse bendito aparecer

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    4. O pai dela queria comprar um colar para ela, mas esse já tinha sido vendido. Talvez seja o Josh que tenha comprado pra ela, ou o Peter só esqueceu de entregar para ela, ou foi só outra pessoa que comprou mesmo.

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  3. Aaaaaaaah!!! Que fofinhooo!!
    ❤😍

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  4. Que maravilhosoooooo! Deus min dá um desse de presente kkkkkkkkkkk

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  5. Estava me fazendo de difícil sua bobona ❤️ amei

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  6. okay eu e esqueci como respirava com esse final

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Boa leitura, E SEM SPOILER!