29 de maio de 2018

Capítulo 12

De acordo com Stormy, existem dois tipos de garotas no mundo. O tipo que parte corações e o tipo que tem o coração partido. Um palpite a respeito de que tipo de garota é Stormy.
Estou sentada de pernas cruzadas no sofá de veludo de Stormy, vasculhando uma grande caixa de sapatos cheia de fotos – a maioria em preto e branco. Ela concordou em se juntar à minha aula scrapbook, e estamos usando a cabeça para começar a organizar tudo. Tenho várias pilhas se formando. Stormy: os primeiros anos; ela na adolescência; seu primeiro, segundo e quarto casamentos (não há fotos de seu terceiro casamento porque eles fugiram).
— Eu sou uma destruidora de corações, mas você, Lara Jean, é uma menina que tem o seu coração partido.
Ela levanta as sobrancelhas para mim para dar ênfase. Acho que ela esqueceu de passar lápis nelas hoje. Eu medito sobre isso. Não quero ser uma mulher que tem o coração partido, mas eu também não quero quebrar os corações dos garotos.
— Stormy, se você teve um monte de namorados na escola?
— Ah, com certeza. Dezenas. Era como nós fazíamos nos meus tempos. No carro na sexta-feira com Burt e festa com Sam no sábado. Mantínhamos nossas opções em aberto. A menina não firmava nada a menos que tivesse extrema certeza.
— Certeza se gostava dele?
— Certeza de que queria se casar com ele. Caso contrário, qual o sentido em terminar toda a diversão?
Pego uma foto de Stormy em um vestido cor de espuma do mar, sem alças, com uma saia rodada. Com essa aparência ela poderia ser uma prima de Grace Kelly, com seu cabelo louro claro e as sobrancelhas elevadas. Há um menino de pé ao lado dela, e ele não é muito alto ou particularmente bonito, mas há algo sobre ele. Um brilho em seus olhos.
— Stormy, quantos anos você tinha aqui?
Stormy olha para a fotografia.
— Dezesseis ou dezessete anos. Mais ou menos a sua idade.
— Quem é o garoto?
Stormy examina mais atentamente, franzindo o rosto como um damasco seco. Ela bate a unha vermelha na imagem.
— Walter! Nós o chamávamos de Walt. Ele era um verdadeiro sedutor.
— Ele era seu namorado?
— Não, era apenas um menino que eu via de tempos em tempos.
Ela ergue e abaixa as suas sobrancelhas claras para mim.
— Nós nadamos nus no lago e fomos pegos pela polícia. Foi bastante escandaloso. Cheguei a voltar para casa em um carro da polícia com nada além de um cobertor.
— Então... as pessoas fofocavam sobre você?
— Bien sûr.
— Eu tive um pequeno escândalo sobre mim — falo. Então conto a ela sobre o ofurô, o vídeo, e tudo o que veio a partir disso. Tenho que explicar o que é um meme. Ela está encantada; está praticamente vibrando com a indecência de tudo.
— Excelente! — ela vibra. — Estou tão aliviada que você tenha algumas marcas. Uma menina com uma reputação é muito mais interessante do que uma bobinha.
— Stormy, isso está na Internet. A Internet é para sempre. Não é só fofoca na escola. E, também, eu sou uma espécie de bobinha.
— Não, sua irmã Margaret é a bobinha.
— Margot — corrijo.
— Bem, ela certamente parece uma Margaret. Quero dizer, mesmo, toda sexta-feira à noite em uma casa de repouso! Eu cortaria os pulsos se fosse uma adolescente e passasse todos os meus belos anos em um maldito lar de idosos. Desculpe meu francês, querida. — Ela arruma o travesseiro atrás dela. — Filhos mais velhos estão sempre dando furos. Meu filho Stanley é de um tédio terrível. Ele é o pior. É podólogo, pelo amor de Deus! Acho que a culpa é minha por ter-lhe dado o nome Stanley. Não que eu tivesse algo a dizer sobre isso. Minha sogra insistiu em colocarmos o nome depois que seu marido morreu. Bom Deus, ela era uma velha. — Stormy toma um gole de chá gelado. — Filhos do meio supostamente trazem diversão, sabe. Você e eu, nós temos isso em comum. Eu estava feliz por você não ter vindo tanto. Esperava que estivesse se metendo em problemas. Parece que eu estava certa. Embora você possa se meter em mais alguns.
Stormy é fantástica em fazer uma pessoa se sentir culpada. Ela dominou a arte da detecção de mágoas.
— Agora que tenho um bom trabalho aqui, estarei por perto muito mais vezes.
— Bem, não com muita frequência. — Ela se anima. — Mas da próxima vez, trazer esse seu garoto. Nós poderíamos aproveitar um pouco de sangue fresco por aqui. Dar uma sacudida no lugar. Ele é bonito?
— Sim, ele é muito bonito. — O mais bonito de todos.
Stormy bate palmas.
— Então você deve trazê-lo aqui. Me avise primeiro, no entanto, assim aparecerei no meu melhor. Quem mais está aguardando por você?
Eu rio.
— Ninguém! Eu te disse, eu tenho um namorado.
— Hmm.
Isso é tudo o que ela diz, apenas “hmm”. Então...
— Eu tenho um neto que poderia estar com a sua idade. Ele ainda está na escola, de qualquer maneira. Talvez eu lhe peça para vir conhecê-la. É bom para uma menina ter opções.
Eu me pergunto como um neto de Stormy seria, provavelmente um real jogador, como Stormy. Abro minha boca para dizer não, obrigada, mas ela me corta com um shh.
— Quando estivermos fazendo o meu scrapbook, transcreverei minhas memórias para você, e você as digita para mim no computador. Estou pensando em brincar com storm, a palavra em inglês para tempestade. The Eye of the Storm – O Olho da Tempestade. Ou Stormy Weather. — Stormy começa a cantarolar. — Stormy weather. Since my man and I ain´t together... Keeps raining all of the time... — ela para de vez. — Devemos ter uma noite de cabaré! Imagine só, Lara Jean. Você em um smoking. Eu em um vestido vermelho deslumbrante deitada sobre o piano. Vai causar um ataque cardíaco em Morales.
Eu dou risada.
— Não vamos causar um ataque cardíaco. Talvez apenas um tremor.
Ela dá de ombros e continua a cantar, adicionando um balançar de quadris.
— Storm Weather...
Ela vai seguir cantando se eu não redirecioná-la.
— Stormy, me fale onde você estava quando John F. Kennedy morreu.
— Foi uma sexta-feira. Eu estava assando um bolo de abacaxi para o meu clube de bridge. Eu o coloquei no forno e então vi a notícia, aí esqueci do bolo e quase queimei a casa toda. Tivemos que repintar a cozinha por causa de toda a fuligem. — Ela arruma o cabelo. — Ele era um santo, aquele homem. Um príncipe. Eu o conheci no meu auge, nós realmente poderíamos ter tido um pouco de diversão. Sabe, eu flertei com o Kennedy uma vez em um aeroporto. Ele se aproximou de mim no bar e me comprou um gin martini muito seco. Aeroportos costumavam ser muito mais glamourosos. As pessoas se vestiam para viajar. Os jovens em aviões nos dias de hoje usam essas botas horríveis de pele de carneiro e calças de pijama – é uma monstruosidade. Eu não sairia para o correio vestida desse jeito.
— Que Kennedy? — pergunto.
— Hmm? Oh, eu não sei. Ele tinha o queixo do Kennedy, de qualquer maneira.
Mordo meu lábio para não sorrir. Stormy e suas escapadas.
— Posso anotar a sua receita de bolo de abacaxi?
— Claro, querida. É apenas um bolo de caixa com abacaxi Del Monte, açúcar mascavo e uma cereja marrasquino no topo. Apenas certifique-se de ter os anéis e não os pedaços.
Esse bolo parece horrível. Tento acenar de forma diplomática, mas Stormy me encara. Irritada, ela diz:
— Você acha que tive tempo para ficar preocupada com bolos feitos do zero como uma dona de casa velha e chata?
— Você nunca poderia ser chata — respondo, porque é verdade e porque eu sei que é o que ela quer ouvir.
— Você poderia cozinhar um pouco menos e viver um pouco mais a vida.
Ela está sendo espinhosa, e ela nunca é espinhosa comigo.
— Juventude é verdadeiramente desperdiçada nos jovens. — Ela franze a testa. — Minhas pernas doem. Você poderia pegar Tylenol PM para mim?
Pulo de pé, ansiosa para cair em suas boas graças novamente.
— Onde você guarda?
— Na gaveta da cozinha, ao lado da pia.
Remexo na gaveta, mas eu não o encontro. Apenas pilhas, talco, uma pilha de guardanapos McDonald, pacotes de açúcar e uma banana preta. Secretamente, jogo a banana no lixo.
— Stormy, não estou vendo o seu Tylenol PM aqui. Há outro lugar onde poderia estar?
— Esqueça. — Ela se levanta, vindo atrás de mim e me empurrando para o lado. — Eu mesma acho.
— Quer que eu sirva um pouco de chá?
Stormy está velha; por isso está agindo dessa maneira. Ela geralmente não é tão áspera. Eu sei que ela não queria dizer isso.
— O chá é para senhoras de idade. Eu quero um coquetel.
— Já está chegando — eu digo.

13 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!