29 de maio de 2018

Capítulo 11

VOU AO ESCRITÓRIO DE JANETTE em Belleview no dia seguinte, armada com um caderno e uma caneta.
— Tive uma ideia para uma aula de artesanato. Como fazer scrapbooks.
Janette acena para mim e eu continuo.
— Eu posso ensinar aos moradores o que é um scrapbook, e colaremos todas as fotos e lembranças antigas, e escutaremos suas histórias.
— Parece bom — diz ela.
— Então eu poderia dar essa aula e também cuidar da hora do coquetel da noite de sexta-feira?
Janette dá uma mordida em seu sanduíche de atum e engole.
— Podemos cortar o coquetel completamente.
— Cortá-lo? — repito em descrença.
Ela dá de ombros.
— A presença foi diminuindo desde que começamos a oferecer o curso de informática. Os moradores descobriram a Netflix. É todo um mundo novo lá fora.
— E se nós fizéssemos mais um evento? Tipo, mais especial?
— Nós realmente não temos o orçamento para qualquer coisa sofisticada, Lara Jean. Tenho certeza de que Margot lhe contou como fazemos por aqui. Por causa do nosso minúsculo orçamento.
— Não, não, poderia ser algo do tipo faça-você-mesmo. Apenas toques simples farão toda a diferença. Poderíamos fazer um casaco obrigatório para os homens. E não poderíamos pedir emprestado os utensílios de vidro da sala de jantar em vez de usar copos de plástico?
Janette ainda está ouvindo, então sigo em frente.
— Por que servir amendoins direto da lata, quando podemos colocá-los em uma bela tigela, certo?
— Amendoim parece amendoim, não importa a embalagem.
— Eles pareceriam mais elegantes se servidos em uma tigela de cristal.
Eu falei demais. Janette está pensando que tudo isso soa como trabalho demais, eu posso ver.
— Não temos tigelas de cristal, Lara Jean.
— Tenho certeza de que posso arranjar umas em casa — eu asseguro a ela.
— Parece trabalho demais para cada noite de sexta-feira.
— Bem, talvez possa ser apenas uma vez por mês. Tornaria o evento ainda mais especial. Por que não paramos por um tempo e trazemos de volta com força total em um mês ou algo assim? — sugiro. — Nós podemos dar às pessoas a chance de sentir falta. Construir a antecipação e, em seguida, realmente fazer dar.
Janette balança a cabeça em um aceno relutante, e antes que ela possa mudar de ideia eu digo:
— Pense em mim como sua assistente, Janette. Deixe comigo. Eu vou cuidar de tudo.
Ela dá de ombros.
— Fique à vontade.

* * *

Chris e eu estamos deitadas no meu quarto naquela tarde, quando Peter liga.
— Estou indo para a sua casa — ele diz. — Quer fazer alguma coisa?
— Não! — Chris grita ao telefone. — Ela está ocupada.
Ele geme em meu ouvido.
— Desculpe — digo a ele. — Chris está aqui.
Ele diz que vai me ligar mais tarde, e eu mal pouso o telefone quando Chris resmunga:
— Por favor, não se torne uma dessas meninas que começam um relacionamento e esquecem dos amigos.
Eu estou muito familiarizada com “essas meninas”, porque Chris desaparece toda vez que conhece um cara novo. Antes que eu possa lembrá-la disso, ela continua.
— E não seja uma dessas groupies relaxadas também. Odeio groupies. Tipo, elas não podem ser algo melhor do que uma groupie? Como uma banda? Ah meu Deus, eu seria tão boa em ser uma groupie de verdade, de banda importante. Ser uma musa, sabe?
— O que aconteceu com aquela ideia sobre você começar sua própria banda?
Chris dá de ombros.
— O cara que toca baixo acabou com a mão quando andava de skate, e depois ninguém falou mais nada. Ei, você quer dirigir até DC amanhã à noite e ver esta banda Felt Tip? Frank vai pegar emprestada a van do pai, então esse provavelmente será o dormitório.
Eu não tenho nenhuma ideia de quem é Frank e Chris provavelmente só o conheceu por dois minutos. Ela sempre diz os nomes das pessoas como se eu devesse saber quem são.
— Eu não posso, amanhã é dia de aula.
Ela faz uma careta.
— Veja, isso é exatamente disso que estou falando. Você já está se tornando uma “dessas meninas”.
— Isso não tem nada a ver, Chris. A) o meu pai nunca me deixaria ir para DC em um dia de aula. B) eu não sei quem é Frank, e não vou ficar na parte de trás da van dele. C) eu tenho um sentimento de que Felt Tip não é o meu estilo de música. É?
— Não — ela admite. — Tudo bem, mas a próxima coisa que eu lhe pedir para fazer, você tem que dizer sim. Nada desse ABC de razões sobre por que é “besteira”.
— Tudo bem, eu concordo,
Embora meu estômago dê uma pequena sacudida, porque com Chris você nunca sabe no que está se metendo. Embora, também conhecendo Chris, ela já terá esquecido.
Nós nos acomodamos no chão e começamos o negócio das mãos. Chris pega uma das minhas canetas douradas e começa a pintar estrelas minúsculas na unha de seu polegar. Eu estou fazendo uma base cor de alfazema e desenhando flores roxas escuras com centros cor de calêndula.
— Chris, você faz as minhas iniciais na minha mão direita?
Levanto a mão para ela.
— Começando com o dedo anelar descendo até o meu polegar. LJSC.
— Letra extravagante ou bastão?
Eu lhe lanço um olhar.
— Vamos lá, com quem você está falando aqui? — Ao mesmo tempo que ambas respondemos: — extravagante.
Chris é boa em fazer letras desenhadas. Tão boa, na verdade, que estou admirando sua obra quando algo me vem à cabeça.
— Ei, eu tenho uma ideia. E se nós começamos a fazer manicure em Belleview? Os moradores adorariam.
— Por quanto?
— De graça! Você pode pensar nisso como serviço comunitário, mas não obrigatório. Por bondade em seu coração. Alguns dos moradores não podem cortar as próprias unhas muito bem. As mãos são realmente retorcidas. Dedos do pé, também. As unhas ficam grossas e... — eu paro quando vejo a expressão de nojo em seu rosto. — Talvez pudéssemos ter uma pequena gorjeta.
— Eu não vou cortar as unhas dos pés de idosos de graça. Não farei isso por menos de cinquenta dólares cada um, no mínimo. Eu vi os pés do meu avô; as unhas dos pés são como garras de águia.
Ela se volta para o meu polegar, dando-me uma bela letra cursiva C com um floreio.
— Feito. Deus, eu sou boa. — Ela joga a cabeça para trás e grita: — Kitty! Traga sua bunda aqui!
Kitty vem correndo para o meu quarto.
— O quê? Eu estava no meio de algo.
— “Eu estava no meio de algo” — Chris imita. — Se você me trazer uma Coca-Cola Diet, farei suas unhas como fiz as de Lara Jean.
Mostro minhas unhas exuberantemente como uma modelo de mão. Chris conta com os dedos.
— “Kitty Covey” se encaixa perfeitamente.
Kitty corre para fora, e eu grito para ela:
— Me traz um refrigerante também!
— Com gelo! — Chris acrescenta. Em seguida, ela dá um suspiro melancólico. — Eu gostaria de ter uma irmãzinha. Eu seria incrível em mandar nela.
— Kitty não costuma ouvir muito bem. É só porque ela gosta de você.
— Ela gosta, não é?
Chris pega e torce sua meia, sorrindo para si mesma. Kitty gostava de Genevieve, também. Tinha uma espécie de admiração por ela.
— Ei — digo, de repente. — Como está a sua avó?
— Ela está bem. Ela é muito difícil.
— E como está... o resto de sua família? Tudo bem?
Chris dá de ombros.
— Claro. Tudo Bem.
Hmm. Se Chris não sabe, quão ruim as coisas poderiam estar com a família de Genevieve? Ou não tão ruins ou, mais provavelmente, apenas mais uma das mentiras de Genevieve. Mesmo quando éramos pequenas ela mentia muito, seja para evitar problemas com a mãe dela (em um caso ela me culpou no lugar), ou para ganhar a simpatia dos adultos. Chris me olha.
— Sobre o que você tanto pensa? Ainda está insistindo naquele seu vídeo de sexo?
— Não é um vídeo de sexo, nós não estamos transando nele!
— Acalme-se, Lara Jean. Tenho certeza que depois do que Peter fez as pessoas vão deixá-la em paz. Eles vão passar para outra coisa.
— Espero que você esteja certa.
— Confie em mim, haverá alguém ou algo novo para eles focarem a atenção na próxima semana.

* * *

Acontece que Chris estava certa, as pessoas mudaram o foco para o próximo assunto. Na terça-feira, um garoto chamado Clark do segundo ano é pego se masturbando no vestiário dos meninos, e é disso que todos falam. Sorte minha!

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!