29 de maio de 2018

Capítulo 1

KITTY PASSOU A manhã toda reclamando, e desconfio que Margot e papai estejam sofrendo de ressaca pós-festa de Ano-Novo. E eu? Eu estou com corações nos olhos e uma carta queimando um buraco no bolso do meu casaco.
Enquanto colocamos os sapatos, Kitty ainda tenta escapar de ter que usar um hanbok para ir à casa de tia Carrie e tio Victor.
— Olhe as mangas! Estão muito curtas!
— É para ser assim mesmo — diz papai, de forma nada convincente.
Kitty aponta para mim e para Margot.
— Então por que as mangas delas não ficam assim? — pergunta ela.
Nossa avó comprou os hanboks para nós na última vez em que foi à Coreia. O hanbok de Margot tem uma blusa amarela estilo bolero e saia verde-maçã. A minha é rosa-shocking com uma blusa branco-marfim e um laço rosa comprido com flores bordadas na frente. As saias são volumosas, como um sino, e vão até o chão. Menos a de Kitty, que termina bem no tornozelo.
— Não é culpa nossa que você cresça mais rápido que erva daninha — digo, ajeitando meu laço.
O laço é o mais difícil de acertar. Tive que assistir a um vídeo no YouTube um monte de vezes para dar o nó, e ainda parece torto e deprimente.
— Minha saia também está curta demais — resmunga ela, erguendo a barra.
A verdade é que Kitty odeia usar o hanbok porque é preciso caminhar com cuidado e segurar a saia com uma das mãos, senão ela se abre toda.
— Todos os outros primos vão estar de hanbok, e a vovó vai ficar feliz — diz papai, massageando as têmporas. — Caso encerrado.
No carro, Kitty não para de repetir “Odeio o Ano-Novo”, o que deixa todo mundo de mau humor, menos eu. Margot já estava um pouco aborrecida porque teve que acordar antes de o sol nascer para voltar para casa a tempo, pois estava no chalé da amiga. Tem também a questão da possível ressaca. Mas nada poderia azedar meu humor, porque nem estou no carro. Estou em um lugar completamente diferente, pensando na minha carta para Peter, me perguntando se tinha emoção suficiente e em como e quando vou entregá-la, o que ele vai dizer e o que tudo isso vai significar. Devo deixar na caixa de correio dele? No armário da escola? Quando nos encontrarmos de novo, ele vai sorrir para mim e fazer uma piada para quebrar o gelo? Ou vai fingir que nunca leu a carta, para poupar a nós dois? Acho que isso seria pior. Tenho que ficar lembrando a mim mesma que, apesar de tudo, Peter é um garoto gentil e tranquilo, e não vai ser cruel em hipótese alguma. Disso eu posso ter certeza.
— Em que você tanto pensa? — pergunta Kitty.
Eu nem escuto direito.
— Oi? — insiste ela.
Fecho os olhos e finjo estar dormindo, e só vejo o rosto de Peter.
Não sei o que exatamente quero dele, para que estou pronta. Se é para o amor sério e pra valer de namorados, se é para o que tivemos antes, diversão e uns beijinhos aqui e ali, ou se é para alguma coisa entre essas duas opções. Mas sei que não consigo tirar o rosto de menino bonito dele da cabeça. O sorrisinho que Peter dá quando diz meu nome, o jeito como às vezes me esqueço de respirar quando ele está por perto.
É claro que, quando chegamos à casa de tia Carrie e tio Victor, nenhum dos nossos primos está usando hanboks, e Kitty praticamente fica roxa pelo esforço de não gritar com o papai. Margot e eu também olhamos meio torto para ele. Não é muito confortável ficar de hanbok o dia todo. Mas vovó abre um sorriso de aprovação, o que faz tudo valer a pena.
Quando tiramos os sapatos e os casacos na porta da frente, sussurro para Kitty:
— Talvez os adultos nos deem mais dinheiro por termos nos arrumado.
— Vocês estão tão lindas — fala tia Carrie ao nos abraçar. — Haven se recusou a usar o dela!
Haven revira os olhos para a mãe.
— Adorei seu corte de cabelo — diz ela para Margot.
Haven é alguns meses mais velha do que eu, mas ela se acha muito mais madura. Está sempre tentando se enturmar com Margot.
Primeiro, tratamos das reverências. Na cultura coreana, você faz reverências para os mais velhos no dia de Ano-Novo e lhes deseja sorte no ano que está por vir, e em troca eles lhe dão dinheiro. A ordem é do mais velho para o mais novo, e, como a adulta mais velha, vovó se senta no sofá primeiro. Tia Carrie e tio Victor fazem a reverência, depois papai, e assim por diante até chegar a Kitty, a mais nova da família. Quando é a vez de papai de se sentar no sofá e receber as reverências, fica um lugar vazio ao lado dele, assim como em todos os dias de Ano-Novo desde que nossa mãe morreu. Sinto uma dor no peito ao vê-lo sentado sozinho, sorrindo com alegria, entregando notas de dez dólares. Vovó olha para mim, e sei que ela está pensando a mesma coisa. Quando chega minha vez de fazer a reverência, eu me ajoelho com as mãos cruzadas diante da testa e prometo que não vou ver papai sozinho naquele o sofá no ano que vem.
Recebemos dez dólares de tia Carrie e tio Victor, dez do papai, dez da tia Min e do tio Sam, que não são nossos tios de verdade, mas sim primos de segundo grau (eles são primos da mamãe) e vinte da vovó! Não recebemos mais por usarmos os hanboks, mas juntamos um bom dinheiro, de qualquer forma. Ano passado, nossos tios só deram cinco dólares cada um.
Em seguida, tomamos sopa de bolinho de arroz para dar sorte.
Tia Carrie também fez bolinhos de feijão fradinho e insiste para experimentarmos ao menos um, embora ninguém queira. Os gêmeos, Harry e Leon, se recusaram a comer a sopa e os bolinhos de feijão fradinho e estão comendo nuggets de frango na sala. Não tem espaço suficiente na mesa de jantar, então Kitty e eu vamos para a bancada da cozinha. Dá para ouvir todo mundo rindo.
Quando começo a tomar minha sopa, faço um pedido. Por favor, por favor, que as coisas deem certo entre mim e Peter.
— Por que minha tigela de sopa é menor do que a de todo mundo? — sussurra Kitty.
— Porque você é a menor.
— Por que não ganhamos tigelas de kimchi?
— Porque tia Carrie acha que não gostamos, já que não somos totalmente coreanas.
— Vá pedir um pouco — sussurra Kitty.
Eu peço, principalmente porque também quero.
Enquanto os adultos tomam café, Margot e eu vamos com Haven para o quarto, e Kitty nos segue. Normalmente, ela brincaria com os gêmeos, mas desta vez pegou o yorkshire de tia Carrie, Smitty, e nos seguiu para o andar de cima como se fosse uma das adolescentes.
Haven tem pôsteres de bandas indies nas paredes; nunca ouvi falar da maioria. Ela está sempre trocando. Tem um novo, do Belle and Sebastian, com textura. Parece jeans.
— Esse é legal — comento.
— Eu estava querendo trocar — diz Haven. — Pode ficar, se quiser.
— Não precisa. — Sei que ela só está oferecendo para se sentir superior, como sempre.
— Eu quero — diz Kitty, e Haven franze a testa por um segundo, mas Kitty já está tirando o pôster da parede. — Obrigada, Haven.
Margot e eu nos entreolhamos e tentamos não sorrir. Haven nunca teve muita paciência com Kitty, e o sentimento é infinitamente mútuo.
— Margot, você foi a algum show desde que se mudou para a Escócia? — pergunta Haven.
Ela se senta na cama e abre o laptop.
— Não — responde Margot. — Ando muito ocupada com as aulas.
Ela não liga muito para música ao vivo. Está olhando para o celular, com a saia do hanbok espalhada a seu redor. Ela é a única de nós, irmãs Song, que ainda está totalmente caracterizada. Tirei a blusa, então estou só de camiseta e saia, e Kitty tirou a blusa e a saia e só está de camiseta e calçola.
Eu me sento na cama ao lado de Haven, para ela poder me mostrar no Instagram as fotos da viagem deles para as Bermudas. Enquanto ela procura no feed, uma foto do passeio de esqui aparece.
Haven é da Orquestra Juvenil de Charlottesville e conhece gente de várias escolas, inclusive da minha.
Não consigo evitar um pequeno suspiro quando vejo a foto do nosso grupo no ônibus, na última manhã. Peter está com o braço nos meus ombros, sussurrando alguma coisa no meu ouvido. Eu queria lembrar o quê.
Surpresa, Haven ergue o rosto e diz:
— Ah, é você, Lara Jean. De onde é isso?
— Do passeio da escola para uma estação de esqui.
— Esse é seu namorado? — pergunta Haven, e percebo que ela está impressionada, mas não quer demonstrar.
Eu queria poder dizer que sim. Mas...
Kitty se aproxima de nós e olha por cima dos nossos ombros.
— É, e é o cara mais lindo que você já viu na vida, Haven.
Ela fala como um desafio. Margot, que estava lendo alguma coisa no celular, levanta a cabeça e ri.
— Não é bem verdade. — Tento amenizar.
Ele é o cara mais lindo que eu já vi na vida, mas não sei com que tipo de gente Haven estuda.
— Não, Kitty está certa, ele é lindo — admite Haven. — Como você conseguiu um cara desses? Sem querer ofender. Mas achava que você era do tipo que não namora.
Franzo a testa. Do tipo que não namora? Que tipo é esse? Um cogumelo minúsculo que fica sentado em casa no escuro, com limo crescendo?
— Lara Jean namora bastante — diz Margot, leal.
Fico vermelha. Eu nunca namoro, Peter quase nem conta, mas fico feliz pela mentira.
— Qual é o nome dele? — pergunta Haven.
— Peter. Peter Kavinsky.
Até dizer o nome dele é um prazer reminiscente, algo a saborear, como um pedaço de chocolate se dissolvendo na minha língua.
— Ah — diz ela. — Achei que ele namorasse aquela loura bonita. Qual é mesmo o nome dela? Jenna? Vocês não eram melhores amigas quando pequenas?
Sinto uma pontada no coração.
— O nome dela é Genevieve. Nós éramos melhores amigas, mas não somos mais. E ela e Peter terminaram tem um tempo.
— E há quanto tempo você e Peter estão juntos? — pergunta Haven.
Ela está com uma expressão de dúvida no rosto, como se acreditasse noventa por cento em mim, mas ainda restassem aqueles incômodos dez por cento cheios de desconfiança.
— Começamos a sair em setembro. — Pelo menos, isso é verdade. — Não estamos juntos agora; nós demos um tempo... Mas estou... otimista.
Kitty cutuca minha bochecha com o dedo mindinho.
— Você está sorrindo — diz ela, e sorri também. E me abraça. — Faça as pazes com ele hoje, tá? Quero Peter de volta.
— Não é tão simples — respondo, mas e se for?
— Claro que é simples. Ele ainda gosta muito de você. É só dizer que você ainda gosta dele também e bum. Vocês voltam, e vai ser como se você nunca o tivesse expulsado da nossa casa.
Haven arregala os olhos.
— Lara Jean, você terminou com ele?
— Caramba, é tão difícil de acreditar?
Cerro os olhos para ela, e Haven abre a boca, mas a fecha sabiamente antes de falar.
Ela olha de novo para a foto de Peter. Em seguida, se levanta para ir ao banheiro e, ao fechar a porta, diz:
— Só posso dizer que, se aquele garoto fosse meu, eu nunca terminaria com ele.
Meu corpo todo formiga quando ela diz isso.
Eu já pensei a mesma coisa sobre Josh, e olhe para mim agora: parece que um milhão de anos se passaram e ele é só uma lembrança.
Não quero que isso aconteça com Peter. Esse distanciamento dos sentimentos antigos, que, mesmo quando você se esforça muito, não lhe permite se lembrar direito do rosto dele ao fechar os olhos. Custe o que custar, quero me lembrar do rosto de Peter para sempre.
Quando chega a hora de ir embora, coloco o casaco, e a carta de Peter cai do meu bolso. Margot a pega.
— Outra carta?
Eu fico corada e digo, depressa:
— Ainda não decidi quando entregá-la, se devo colocar na caixa de correio dele ou mandar pelo correio. Ou cara a cara? Gogo, o que você acha?
— Você só tem que falar com ele — diz Margot. — Vá agora mesmo. Papai pode te dar carona. Vá à casa dele, entregue a carta e veja o que Peter tem a dizer.
Meu coração bate mais rápido com a ideia. Agora? Ir até lá sem ligar, sem plano nenhum?
— Não sei — começo, hesitante. — Acho que eu deveria pensar melhor no assunto...
Margot abre a boca para responder, mas Kitty se aproxima pelas nossas costas e diz:
— Chega de cartas. Vá reconquistá-lo.
— Não espere até ser tarde demais — diz Margot, e sei que ela não está falando só sobre mim e Peter.
Tenho evitado falar sobre Josh por causa de tudo que aconteceu conosco. Margot me perdoou, mas não significa que quero reabrir velhas feridas. Nos últimos dois dias, dei meu apoio silencioso e torci para isso ser o bastante. Mas Margot vai embora para a Escócia em menos de uma semana. A ideia de ela partir sem nem falar com Josh não me parece certa. Somos amigos há tanto tempo. Sei que Josh e eu vamos nos entender, pois somos vizinhos, e é isso o que acontece com as pessoas que se veem com frequência. A relação se conserta praticamente sozinha. Mas não vai ser assim entre Margot e Josh com ela tão longe. Se eles não conversarem agora, a cicatriz só vai aumentar com o tempo, vai calcificar, e eles vão virar estranhos que nunca se amaram, que é o pensamento mais triste de todos.
Enquanto Kitty coloca as botas, eu sussurro para Margot:
— Se eu devo falar com Peter, você deve falar com Josh. Não volte para a Escócia sem resolver as coisas com ele.
— Vamos ver — diz ela, mas vejo esperança em seus olhos, e isso me enche de esperança também.

6 comentários:

  1. Essa Haven parece meio enjoada 😒😒

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  2. ☺☺☺estou amardo

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  3. não sei porque mais eu acho que Peter nao ta sozinho :/ alguma coisa me diz que ela vai dar de cara

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  4. Kitty muito amorzíneo falando do Peter

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Boa leitura, E SEM SPOILER!