7 de abril de 2018

Capítulo um



A prisão não era como Call havia imaginado.
Ele crescera assistindo a programas sobre crimes na televisão, então acreditava que deveria ter um colega de cela mal-humorado, que mostrasse a ele como as coisas funcionavam e como ficar bombado levantando peso. Call deveria detestar a comida e não provocar ninguém, tendo em mente que poderia ser agredido com uma faca artesanal feita a partir de uma escova de dentes.
Só que, no fim das contas, a única coisa que o presídio mágico tinha em comum com o da televisão era o fato de que o protagonista fora acusado de um crime que não cometera.
Nas manhãs, era acordado quando as luzes fracas do Panóptico se tornavam absurdamente intensas. Piscando e bocejando, ele observava os outros prisioneiros (parecia haver cerca de cinquenta) enquanto saíam de suas celas. Eles seguiam caminho, provavelmente para o café da manhã, mas a bandeja de Call era entregue na porta por dois guardas, um dos quais fazia uma careta. O outro parecia intimidado.
Call, que tinha ficado entediado ao longo dos últimos seis meses, devolveu a careta só para ver o guarda assustado parecer ainda mais assustado.
Nenhum deles o via como um menino de 15 anos, um garoto. Todos pensavam nele como o Inimigo da Morte.
Em todo o tempo que esteve ali, ninguém foi visitá-lo. Nem seu pai. Nem seus amigos. Call tentava se enganar, dizendo que eles não podiam, mas isso também não o reconfortava; provavelmente estavam bastante encrencados. Provavelmente desejavam nunca ter ouvido falar em Callum Hunt.
Call terminou de comer parte da gororoba na bandeja, depois escovou os dentes para tirar o gosto da boca. Os guardas voltaram — era hora do interrogatório.
Todos os dias, ele era levado a uma sala de paredes brancas e sem janelas onde três membros da Assembleia o interrogavam duramente sobre sua vida. Era a única interrupção da monotonia de seu dia.
Qual é sua primeira lembrança?
Quando percebeu que era mau?
Sei que você diz que não consegue se lembrar de nada sobre ser Constantine Madden, mas e se tentar com mais afinco?
Quantas vezes você se encontrou com Mestre Joseph? O que ele falou para você? Onde fica sua fortaleza? Quais são seus planos?
Qualquer que fosse a resposta, eles revisavam tudo minuciosamente até o próprio Call ficar confuso. O acusavam de mentir com frequência.
Às vezes, quando ficava cansado e entediado, sentia-se tentado a mentir, porque o que eles queriam ouvir era muito óbvio, e parecia que seria mais fácil dizer o que queriam. Mas ele não mentia, porque sua lista de Suserano do Mal estava de volta à ativa e ele estava se dando pontos para tudo o que fazia que parecesse coisa de Suserano do Mal. Mentir definitivamente contava.
Era fácil acumular pontos de Suserano do Mal na prisão.
Seus interrogadores falavam muito sobre o charme avassalador do Inimigo da Morte e sobre como Call não deveria ter permissão para falar com nenhum prisioneiro, por conta do risco de seduzi-los com seus estratagemas maléficos.
O garoto poderia ter achado isso lisonjeiro se não estivesse tão óbvio que seus interrogadores acreditavam que ele escondia deliberadamente esse aspecto da própria personalidade. Se Constantine Madden tinha um carisma avassalador, eles achavam que Call demonstrava exatamente o oposto. Não ficavam ansiosos em vê-lo; e isso era recíproco.
Naquele dia, no entanto, Call teve uma surpresa. Quando entrou para ser interrogado, não encontrou as pessoas de sempre. Em vez disso, do outro lado da mesa branca, viu seu antigo professor, Mestre Rufus, vestido de preto, a careca morena reluzindo sob as luzes excessivamente claras.
Call não encontrava nenhum conhecido havia muito tempo. Teve vontade de pular sobre a mesa e abraçar Mestre Rufus, apesar do fato de que o Mestre o encarava com uma expressão aborrecida, e de que ele não era muito de abraços.
Call sentou-se na cadeira em frente ao professor. Não podia nem acenar ou oferecer a mão para um cumprimento, considerando que seus punhos estavam amarrados para a frente por uma corrente brilhante de metal incrivelmente duro.
Call pigarreou.
— Como está Tamara? — perguntou. — Bem?
Mestre Rufus olhou para ele por um longo tempo.
— Não sei se devo contar — respondeu, afinal. — Não sei ao certo quem você é, Call.
O garoto sentiu uma dor no peito.
— Tamara é minha melhor amiga. Quero saber como ela está. E Devastação. E até Jasper.
Era estranho não citar Aaron também. Apesar de saber que ele estava morto, apesar de ter repassado as circunstâncias de sua morte repetidas vezes, Call ainda sentia sua falta de um jeito que o tornava mais presente que ausente.
Mestre Rufus apoiou o queixo nos dedos.
— Quero acreditar em você — assegurou. — Mas você mentiu para mim por muito tempo.
— Eu não tive escolha! — protestou Call.
— Teve. Poderia ter me contado a qualquer instante que Constantine Madden vivia dentro de você. Há quanto tempo sabia? Você me manipulou para escolhê-lo como aprendiz?
— No Julgamento de Ferro? — Call não conseguia acreditar. — Eu não sabia de nada naquele momento! Tentei fracassar... eu nem queria ir para o Magisterium.
Mestre Rufus ainda parecia cético.
— Foi o fato de tentar fracassar que me chamou a atenção. Constantine saberia disso. Ele saberia como me manipular.
— Não sou ele — disse Call. — Posso ter sua alma, mas não sou ele.
— Vamos torcer para que seja verdade, para seu próprio bem — ameaçou Rufus.
De repente, Call sentiu-se exausto.
— Por que você veio? — perguntou ao professor. — Por que você me odeia?
Isso pareceu fazer Mestre Rufus recuar por um momento.
— Não odeio você — respondeu ele, com mais tristeza que raiva. — Passei a gostar de Callum Hunt... bastante. Mas, outrora, também gostei de Constantine Madden... e ele quase destruiu a todos nós. Talvez seja por isso que vim: para ver se posso confiar em meu próprio juízo de caráter... ou se cometi o mesmo erro duas vezes.
Mestre Rufus parecia tão cansado quanto Call.
— Eles já acabaram os interrogatórios — prosseguiu. — Agora precisam decidir o que fazer com você. Eu pretendia falar na audiência, relatar o que você acabou de me dizer, que pode ter a alma de Constantine, mas que não é ele. Antes eu precisava ver com meus próprios olhos para crer.
— E?
— Ele era muito mais charmoso que você.
— É o que todos dizem — murmurou o garoto.
Mestre Rufus hesitou.
— Você quer sair da prisão?
— Não sei — respondeu Call, após considerar. — Eu... permiti que Aaron fosse morto. Talvez mereça estar aqui. Talvez eu deva ficar.
Após essa admissão, fez-se um silêncio muito, muito longo. Mestre Rufus se levantou.
— Constantine amava o irmão — declarou. — Mas jamais diria que merecia ser punido por sua morte. Era sempre culpa dos outros.
Call não disse nada.
— Segredos machucam quem os guarda mais do que você imagina. Eu sempre soube que tinha segredos, Callum, e torci para que os revelasse para mim. Se fizesse isso, talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Call fechou os olhos, temendo que Mestre Rufus estivesse certo. Ele guardou segredos e fez com que Aaron, Tamara e Jasper os guardassem também. Se ao menos tivesse procurado Mestre Rufus. Se ao menos tivesse procurado alguém, talvez as coisas pudessem ter tido outro desfecho.
— Sei que ainda guarda alguns — continuou Mestre Rufus, surpreendendo Call o suficiente para que o menino levantasse os olhos.
— Então, você também acha que estou mentindo? — indagou Call.
— Não. Mas esta pode ser sua última chance de se libertar do fardo. E pode ser a minha última de ajudá-lo.
Call pensou em Anastasia Tarquin e em como havia se revelado mãe de Constantine. Na época, ele não soube o que pensar. Estava revoltado com a morte de Aaron, revoltado por se achar traído por todos em quem acreditara.
Mas de que adiantaria falar isso para Mestre Rufus? Não ajudaria em nada. Apenas machucaria mais alguém, mais uma pessoa que confiou nele.
— Quero lhe contar uma história — disse o professor. — Certa vez, houve um mago, um homem que gostava muito de ensinar e de compartilhar seu amor pela magia. Ele acreditava em seus alunos e em si mesmo. Quando uma grande tragédia abalou essa crença, ele percebeu que estava sozinho, que havia dedicado toda a vida ao Magisterium e que, fora dele, esta era vazia.
Call piscou os olhos. Estava quase certo de que essa história era sobre o próprio Mestre Rufus, e tinha que admitir que jamais havia pensado no professor como alguém com uma vida fora do Magisterium. Nunca pensou nele tendo amigos, uma família ou alguém que o visitasse nas férias, ou a quem alertasse sobre perigos.
— Pode simplesmente dizer que essa história é sobre você — afirmou Call. — Ainda terá efeito emocional.
Mestre Rufus o encarou.
— Tudo bem — concordou ele. — Foi após a Terceira Guerra dos Magos que encarei a solidão da vida que escolhera para mim. E quis o destino que eu me apaixonasse logo depois; em uma biblioteca, pesquisando documentos antigos. — Ele sorriu timidamente. — Mas ele não era mago. Não sabia nada sobre o mundo secreto da magia. E eu não podia contar. Teria violado todas as regras se tivesse dito qualquer coisa sobre o funcionamento de nosso mundo, e ele teria me achado louco. Então, eu disse que trabalhava no exterior e voltava para casa nas férias. Nós nos falávamos com frequência, mas, essencialmente, eu estava mentindo para ele. Eu não queria mentir, mas mentia.
— Essa não é uma história sobre como é melhor guardar segredos? — argumentou Call.
As sobrancelhas de Mestre Rufus fizeram mais um de seus movimentos improváveis, abaixando-se em um arco realmente impressionante.
— É uma história que pretende demonstrar que eu entendo como é guardar segredos. Entendo como eles protegem as pessoas, e como podem machucar quem os guarda. Call, se existe algo a ser contado, conte, e farei o possível para ajudá-lo.
— Não tenho segredos — disse Call. — Não mais.
Mestre Rufus meneou a cabeça e depois suspirou.
— Tamara está bem — revelou ele a Call. — As aulas sem você e Aaron são solitárias, mas ela está seguindo. Devastação sente sua falta, é claro. Quanto a Jasper, não sei dizer. Ele fez coisas estranhas com o cabelo ultimamente, mas podem não ter relação com você.
— Certo — comentou Call, um pouco espantado. — Obrigado.
— Quanto a Aaron — continuou Mestre Rufus —, ele foi enterrado com toda a pompa digna de um Makar. Seu funeral contou com a presença de toda a Assembleia e todo o Magisterium.
Call fez assentiu e olhou para o chão. O enterro de Aaron. Ouvir Mestre Rufus dizer essas palavras fez com que se tornasse mais real. Esse sempre seria o fator central de sua vida: se não fosse por ele, o melhor amigo ainda estaria vivo.
Mestre Rufus foi até a porta para se retirar, mas parou no meio do caminho, só por um segundo. Quando apoiou a mão na cabeça de Call, o garoto sentiu um aperto na garganta que o surpreendeu.
Quando Call foi escoltado de volta à cela, teve a segunda surpresa do dia. Seu pai, Alastair, estava do lado de fora, esperando por ele.
Alastair fez um breve aceno, e Call mexeu as mãos algemadas. Precisou piscar bastante os olhos, ou o charme devastadoramente pérfido do Inimigo da Morte se dissolveria em lágrimas.
Os guardas de Call o levaram para a cela e o desalgemaram. Eram magos mais velhos, vestidos com o uniforme marrom-escuro do Panóptico. Após soltarem suas mãos, prenderam uma das extremidades de uma algema de metal em sua perna, e a outra em um gancho na parede. A corrente era longa o bastante para que o menino pudesse circular pela cela, mas não o suficiente para que alcançasse as grades ou a porta.
Os guardas saíram da cela, trancaram-na e regressaram às sombras. Mas Call sabia que ainda estavam ali. Aquele era o objetivo do Panóptico: sempre havia alguém de olho.
— Você está bem? — perguntou Alastair com a voz rouca, assim que os guardas saíram. — Eles não te machucaram?
Ele parecia querer pegar o filho no colo e vistoriar seu corpo em busca de ferimentos, como fazia quando o garoto caía de um balanço ou batia de skate em uma árvore.
Call balançou a cabeça.
— Não tentaram me machucar fisicamente nenhuma vez — assegurou ele.
Alastair assentiu. Seus olhos pareciam fundos e cansados por trás dos óculos.
— Eu teria vindo antes — explicou, endireitando-se na cadeira de metal de aparência desconfortável que os guardas tinham colocado do outro lado das grades —, mas não estavam permitindo visitas.
A onda de alívio que Call sentiu foi incrível. De algum jeito, ele conseguira se convencer de que o pai estava feliz com sua prisão. Ou talvez não feliz, porém melhor sem ele.
Call ficou muito feliz por isso não ser verdade.
— Tentei de tudo — disse Alastair ao filho.
O menino não sabia como responder. Não havia como dizer quanto lamentava. Também não entendia por que, de repente, passara a poder receber visitas... a não ser que tivesse deixado de ser útil à Assembleia.
Talvez aquelas fossem as últimas visitas que ele receberia na vida.
— Vi Mestre Rufus hoje — revelou ao pai. — Ele disse que os interrogatórios tinham acabado. Isso quer dizer que vão me matar?
Alastair pareceu chocado.
— Não podem fazer isso. Você não fez nada de errado.
— Eles acham que eu matei Aaron! — rebateu Call. — Estou preso! Obviamente acham que eu fiz alguma coisa errada.
E eu fiz coisa errada, acrescentou mentalmente. Ainda que tivesse sido Alex Strike quem de fato matou Aaron, ele morreu por ter guardado o segredo de Call.
Alastair balançou a cabeça, descartando as palavras do filho.
— Eles têm medo... medo de Constantine, medo de você... então, estão procurando uma desculpa para manterem você aqui. Não acreditam de fato que tenha sido responsável pela morte de Aaron. — Alastair suspirou. — E, se isso não o conforta, pense: uma vez que eles não entendem como Constantine transferiu a alma para você, tenho certeza de que não querem correr o risco de que a transfira para outra pessoa.
O pai detestava o mundo mágico e não era muito otimista, mas, nesse caso, a aspereza em seu tom fez com que Call se sentisse melhor. Ele definitivamente tinha um bom argumento. Jamais sequer ocorreu a Call transferir sua alma para alguém, ou que os magos pudessem se preocupar com isso.
— Então, vão me manter aqui trancado — disse Call. — E depois vão jogar a chave fora e se esquecer de mim.
Alastair ficou em silêncio por um longo tempo depois disso, o que foi bem menos reconfortante.
— Quando você soube? — perguntou Call, temendo que o silêncio pudesse se alastrar ainda mais.
— Soube o quê?
— Que eu não sou seu filho de verdade.
Alastair fez uma careta.
— Você é meu filho, Callum.
— Você entendeu — retrucou o menino, com um suspiro... embora não pudesse negar que ter sido corrigido o fez se sentir melhor. — Quando você percebeu que eu tinha a alma dele?
— Cedo — respondeu Alastair, surpreendendo Call um pouco. — Eu acho. Eu sabia o que Constantine estava estudando. Parecia possível que ele obtivesse sucesso em transferir a alma para seu corpo.
Callum se lembrou da mensagem derradeira que sua mãe deixara para Alastair, a que Mestre Joseph, instrutor do Inimigo da Morte e seu capanga mais devoto, tinha mostrado a ele, mas que seu pai havia excluído da história: MATE A CRIANÇA.
Seu corpo ainda gelava ao pensar na mãe escrevendo isso com as últimas forças, no pai lendo aquelas palavras, com um bebê chorando — Call — em seus braços.
Alastair poderia ter simplesmente saído da caverna se tivesse entendido o que aquilo significava. O frio teria se encarregado do resto.
— Por que fez isso? Por que me salvou?
Callum não pretendia que as palavras tivessem soado tão furiosas, mas foi o que aconteceu. Ele estava com raiva, apesar de saber que a alternativa seria sua morte.
— Você é meu filho — respondeu Alastair mais uma vez, desamparado. — Independentemente de qualquer outra coisa que seja, você também é meu filho. Almas são maleáveis, Call. Não são imutáveis. Pensei que, se eu o criasse corretamente... se te desse bons conselhos... se o amasse o suficiente, você ficaria bem.
— E veja no que deu — argumentou Call.
Antes que o pai pudesse responder, um guarda surgiu na frente da cela para anunciar que o horário de visitas havia acabado.
Alastair se levantou e, então, com a voz baixa, disse novamente:
— Não sei se fiz alguma coisa certa, Call. Mas, se serve de consolo, acho que você se saiu muito bem.
Com isso, ele se retirou, acompanhado por outro guarda.


Call dormiu melhor naquela noite que em todas as demais que havia passado no Panóptico. A cama era estreita, com um colchão duro; e a cela, fria. À noite, quando fechava os olhos e adormecia, o sonho era recorrente: o raio mágico atingindo Aaron. Seu corpo navegando pelo ar antes de atingir o chão. Tamara se agachando sobre Aaron, chorando. E uma voz dizendo a culpa é sua; a culpa é sua.
Mas, naquela noite, ele não sonhou, e, quando acordou, havia um guarda do lado de fora da cela, segurando sua bandeja de café da manhã.
— Você tem outra visita — anunciou o homem, olhando-o de esguelha.
Call tinha quase certeza de que os guardas ainda estavam esperando que ele os assolasse com aquele carisma. Ele se sentou.
— Quem é?
O homem deu de ombros.
— Uma pessoa que estuda em sua escola.
O coração de Call começou a acelerar. Era Tamara. Tinha que ser Tamara. Quem mais o visitaria?
Ele mal notou o guarda entregando a bandeja pela abertura estreita embaixo da porta. Estava ocupado demais endireitando a postura e passando os dedos pelos cabelos emaranhados, tentando se acalmar e pensar no que dizer para ela quando entrasse.
Oi, como você está, sinto muito por ter deixado seu melhor amigo morrer...
A porta se abriu, e a visita entrou, caminhando entre dois guardas. Era mesmo alguém que estudava no Magisterium, isso era verdade.
Mas não era Tamara.
— Jasper? — perguntou Call, incrédulo.
— Eu sei. — Jasper ergueu as mãos para conter os agradecimentos. — Você obviamente está chocado com minha gentileza em vir até aqui.
— Hum. — Foi a resposta de Call.
Mestre Rufus tinha razão quanto a Jasper: parecia que ele não penteava o cabelo havia anos. Estava espetado em todas as direções. Call encarou Jasper. Será que ele realmente tinha se esforçado para deixá-lo assim? De propósito?
— Presumo que você tenha vindo me dizer quanto a escola inteira me detesta.
— Eles não se importam tanto com você — disse Jasper, claramente mentindo. — Você não causou tanta impressão assim. Na verdade, estão todos tristes por Aaron. Pensavam em você como seu assistente, sabe? Como parte do cenário.
Pensam em você como seu assassino. Era isso que Jasper queria dizer, ainda que não verbalizasse.
Depois disso, Call não conseguiu perguntar por Tamara.
— Você se encrencou muito? — Foi o que perguntou no fim das contas. — Quero dizer, por minha causa.
Jasper esfregou as mãos no jeans de marca.
— Basicamente queriam saber se você tinha nos enfeitiçado para nos manter em servidão maligna. Eu disse que você não é um mago suficientemente bom para isso.
— Obrigado — agradeceu Call, sem saber ao certo se estava sendo sincero ou não.
— Então, como é a vida no velho Panóptico? — perguntou Jasper, olhando em volta. — Parece muito, hum, estéril aqui. Conheceu algum criminoso de verdade? Fez uma tatuagem?
— Jura? — exigiu Call. — Jura que você veio até aqui para saber se eu fiz uma tatuagem?
— Não — respondeu o menino, deixando as desculpas de lado. — Na verdade vim porque... bem... Celia terminou comigo.
— Oi? Não acredito.
— Eu sei! Também não! — Jasper se sentou na cadeira desconfortável dos visitantes. — Éramos perfeitos juntos.
Call desejou conseguir alcançar Jasper para poder estrangulá-lo.
— Eu quis dizer que não estou acreditando que você passou por seis pontos de verificação e uma revista potencialmente constrangedora só para vir até aqui reclamar de sua vida amorosa!
— Você é o único com quem posso conversar, Call.
— Porque estou preso por essa corrente e não posso sair?
— Exatamente. — Jasper pareceu gostar. — Todo mundo foge quando me vê. Mas eles não entendem. Preciso recuperar Celia.
— Jasper — começou Call. — Me diga uma coisa e, por favor, seja honesto.
O garoto assentiu.
— Isso é mais uma estratégia de tortura da Assembleia até eu liberar informações?
No exato momento em que essas palavras foram ditas, um fio fino de fumaça se ergueu do térreo, seguido pelo estalo de chamas. Ao longe, um alarme começou a soar.
O Panóptico estava pegando fogo.

5 comentários:

  1. To achando que fiz o primeiro comentário,meio alienada,só pode kkkkk
    Karina este livro é continuação de algum outro,porque acho que cometi um grande pequeno king kong..kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. Sim, é o quarto livro da série Magisterium hauehauaheu

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  2. Obrigado Karina, você é demais.
    E eu ainda tenho esperança que de alguma forma o Aaron vai voltar, nem que seja como zumbi, não me interessa, desde que volte.

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  3. AAAAAA finalmente!
    Mds, Jasper vc ñ tem jeito kkkkk
    Pobre Call :( Gente, seis meses eh muito tempo pra ficar sem ver alguém conhecido, coitado

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!