7 de abril de 2018

Capítulo treze


Call deu um passo para longe de Aaron, tropeçando em um livro perdido.
Aquele era Mestre Joseph como Call jamais o vira antes, seus olhos desgovernados e cheios de raiva. Ele vestia o Alkahest em uma das mãos. Ao vê-lo, Call sentiu a respiração falhar.
Antigamente, mesmo nas profundezas de sua raiva, Mestre Joseph sempre protegeu Call. Na tumba do Inimigo da Morte, ele até se jogou na frente do garoto, pronto para dar a própria vida para o salvar. Mas agora parecia pronto para matá-lo, sem pensar duas vezes.
— A-ajudando Aaron — gaguejou Call.
— Você não pode mexer com o que fez! — gritou Mestre Joseph, gotas de saliva projetando-se ao falar. — Sem uma ressurreição não somos nada! Os magos vão nos superar, e seremos destruídos. Somente com o poder da vida eterna nosso exército poderá crescer para destruir a Assembleia.
Sobre a mesa, Aaron se sentou. Ele não parecia intimidado pela gritaria. Simplesmente encarou Mestre Joseph de forma impassível.
— Certo, certo — concordou Call, estendendo as mãos e cedendo. Alex tinha recuado para longe de Mestre Joseph, o suficiente para estar contra a parede, seu rosto da cor de cera de vela. Call jamais o vira daquele jeito antes, e isso o deixou ainda mais assustado. — Não se exalte. Está tudo bem.
Mestre Joseph deu um passo em direção a Aaron e pegou seu pescoço, inclinando a cabeça e olhando para ele, como se tentasse determinar se sua nova Mercedes tinha um arranhão.
— Callum parece determinado a me provar que ele mais atrapalha que ajuda. Desde o começo me desafiou. Zombou de seu papel. Fez pouco caso da honra que recebeu. Jogou minha lealdade e meus sacrifícios em minha cara diversas vezes. Bem, Callum, acho que já cansei de vê-lo arruinando meus planos.
— Não leve para o lado pessoal — explicou Call. — Muitas pessoas me acham muito irritante. Não é só você.
— Call estava tentando me ajudar — argumentou Aaron, tentando se livrar da garra de Mestre Joseph. Havia algo quase aterrorizante em sua expressão.
— Você não precisa de ajuda! — irritou-se Mestre Joseph, pegando-o pelo ombro daquela vez. — Não podemos mexer com você!
— Saia de cima de mim — exigiu Aaron, afastando a mão de Mestre Joseph. — Você não sabe do que eu preciso!
Mestre Joseph fez uma careta.
— Silêncio. Você não é uma pessoa. Você é uma coisa. Uma coisa morta.
O braço de Aaron se estendeu, e ele segurou Mestre Joseph pela garganta. Foi tudo muito rápido; rápido demais para que Call conseguisse reagir de qualquer jeito que não respirar fundo.
A mão de Mestre Joseph levantou, como se fosse fazer fogo, mas Aaron lhe pegou o braço e girou-o para trás das costas. Sua outra mão apertou na garganta do mago. Mestre Joseph se debateu, engasgou, e seu olhar foi perdendo o foco.
— Não! — gritou Call, finalmente percebendo o que Aaron pretendia fazer. — Aaron, não!
Mas Call tinha ordenado Aaron que nunca mais lhe obedecesse, e Aaron assim o fez. Seus dedos enterraram ainda mais na garganta de Mestre Joseph, e ouviu-se um ruído estalado, como o que gravetos fazem quando se pisa neles.
A luz deixou os olhos de Mestre Joseph.
Call engasgou, olhando para Aaron, sem conseguir acreditar que seu amigo tinha feito isso, seu amigo mais próximo, que sempre foi a melhor pessoa que ele conhecia. Pela primeira vez Call teve medo; não por Aaron, mas dele.
Alex emitia um ruído estranho, que tanto Call quanto Aaron entenderam como a palavra não repetidas vezes.
Aaron soltou Mestre Joseph e deu um passo para trás, olhando para a própria mão, como se só agora estivesse se dado conta do que fizera. Ele pareceu confuso quando o corpo do mago atingiu o chão.
Você é uma coisa. Uma coisa morta.
Mestre Joseph estava encolhido aos pés de Call, como Drew estivera antes. Me conhecer tem sido bem ruim para a família de Mestre Joseph, pensou Call, com alguma histeria, mas não tinha a menor graça.
Alex caiu de joelhos. Ele encarava o corpo de Mestre Joseph.
— Você... pode trazê-lo de volta — disse Alex.
— Mas não vou.
As palavras saíram da boca de Call antes mesmo que ele parasse para pensar. Ficou mais que chocado por Alex ter lhe pedido que revivesse o mesmo Mestre que o ameaçara com o Alkahest, que desdenhara e desacreditara dele. Mas Alex observava o cadáver com um olhar assombrado.
— Você precisa — insistiu Alex. — Alguém precisa nos liderar.
Aaron ficou analisando, com o rosto vazio, o que fizera. Se sentia algum remorso, não demonstrou.
Alex foi para perto do corpo de Mestre Joseph. Havia lágrimas em seu rosto, mas ele não se esticou para tocar o cadáver. Em vez disso, sua mão foi para o Alkahest. Ele o apoiou no peito, e Call percebeu que foi um tolo por não pegá-lo antes de qualquer coisa.
— Hum, Alex? — chamou Call. — O que você está fazendo?
— Nunca achei que ele pudesse morrer. — Alex parecia estar falando com Call, embora a voz estivesse baixa, como se falasse consigo mesmo. — Ele era um grande homem. Achei que fosse liderar o exército comigo ao seu lado.
— Ele era um homem muito mau — rebateu Call. — De certa maneira, tudo o que aconteceu, a guerra dos magos, a morte de Jericho, e mesmo a de Drew, foi sua culpa. Ele machucava as pessoas.
— Ele é o único motivo pelo qual você já foi importante. Ele acreditava em você. E você vai simplesmente largá-lo aqui?
— Como você fez comigo? — retrucou Aaron, descendo da mesa. Ele foi para perto de Call.
— Não fiz aquilo para mostrar que eu era superior ao Inimigo da Morte! — Alex rosnou. Ele ainda estava com o Alkahest, abraçando-o contra o corpo.
— Não. Fez para mostrar que era exatamente igual a ele — argumentou Call, indo até a porta com Aaron logo atrás. Lá, Call virou e prosseguiu: — Nós vamos embora. Sei que está chateado, Alex, mas você pode se sair bem no mundo com sua magia do caos. Ainda pode ser famoso e poderoso, e não escolher o mal. Com Mestre Joseph morto, tudo isso pode acabar.
Alex olhou para Call, parecendo cansado.
— Bem, mal — disse ele. — Qual é a diferença?
Call esperou Aaron falar alguma coisa. Esperava que ele fosse observar que Alex deveria saber a diferença, mas não o fez. Talvez esse Aaron também não soubesse.
Call e Aaron percorreram o corredor em silêncio. Devastação logo se juntou a eles, orelhas para trás, o rabo abanando. Passos soaram pela casa, mas ninguém se colocou entre eles e a porta. Pisaram na grama.
— Para onde vamos? — perguntou Aaron.
— Não sei — respondeu Call. — Sair desta ilha. Para longe de tudo.
— Eu vou com você?
Aaron pareceu perceber que matar Mestre Joseph poderia ser algo que faria diferença para Call. Talvez parte de Aaron também estivesse incomodada com isso. Talvez ele se lembrasse de que houve um tempo em que ele jamais teria matado alguém assim, a sangue-frio, com as próprias mãos.
— Claro que vai — assegurou Call, mas Aaron provavelmente ouviu a hesitação em seu tom.
— Ótimo — respondeu.
Começaram a caminhar em direção ao bosque, seguindo a estrada, mantendo-se à margem das árvores. Em instantes, a perna de Call começou a doer, mas ele não desacelerou. Deixou a dor acontecer, deixou piorar. E daí se estava doendo? E daí se ele mancava? A dor o fazia sentir tudo de maneira mais aguçada.
Aaron caminhou a seu lado, aparentando estar perdido nos próprios pensamentos. Horrivelmente, quanto mais tempo passava, menos Call sentia que seu amigo o acompanhava, e mais que era um dos Dominados. Até Devastação parecia estar evitando Aaron, mantendo-se do outro lado do dono, sem nunca se aproximar para ser afagado. Apesar de Devastação ter buscado carinho na véspera, parecia claro que o lobo também achava que Aaron mudara desde que voltou dos mortos. Aaron tinha mudado. Mas por que isso teria acontecido?
Pelo menos estavam perto da água agora. Call podia ouvir as ondas batendo na costa. E, então, de repente, aquele ruído foi sufocado pelo ronco de motores. Caminhões rugiam pela estrada. Acima, um elemental que parecia um laço cortou o céu.
Call virou-se, agarrou Aaron pelo ombro e o empurrou para o mato.
— Corra! Precisamos correr!
Mas Call sabia que sua perna não o permitiria ir rápido.
De súbito, vindo do bosque, surgiram Hugo e diversos magos, e, marchando atrás do grupo, os Dominados de Alex.
Mesmo com Mestre Joseph morto, Call e Aaron não conseguiriam escapar.
— Eu sou o Inimigo da Morte! — gritou Call. — Sou a pessoa que está no comando. São minhas ordens que vocês devem seguir. E eu digo que voltem para casa! Acabou. Eu sou Constantine Madden! Sou o Inimigo da Morte! E digo que acabou!
Hugo deu um passo em direção a Call, com um sorriso no rosto. Com um medo crescente, Call percebeu que não eram apenas os magos que ele vira antes. Não eram apenas fugitivos do Panóptico ou aprendizes, como Jeffrey. Havia outros; até pessoas com roupas da Assembleia, que provavelmente tinham acabado de chegar. Traidores, todos reunidos para lutar pelo lado errado. Call teve a impressão de ter reconhecido o pai de Jasper.
Devastação começou a latir alto.
— Você pode ter a alma de Constantine, mas não está no comando — disse Hugo. — Mestre Joseph me deu instruções bastante específicas. Se alguma coisa acontecesse com ele, deveríamos seguir Alex Strike, e Alex disse para levá-lo de volta; à força se necessário.
— Mas eu sou o Inimigo da Morte! — insistiu Call. — Vejam, fui eu que ressuscitei Aaron. Vocês estão todos aqui para desvendar os mistérios da morte, certo? Bem, eu sou o segredo do cadeado da morte! Sou a chave do galpão estranho que ela guarda nos fundos!
Por um instante, depois que Call falou, todos ficaram em silêncio. Ele não sabia ao certo se os tinha impressionado com sua lógica ou não. Por um momento, torceu para que realmente o deixassem ir.
— Talvez você seja... todas essas coisas — argumentou Hugo. — Mas vai ter que voltar para a casa assim mesmo. Haverá uma batalha em breve, e todos precisamos estar prontos. O bosque não é seguro para você nem para Aaron agora. Pode haver membros da Assembleia em qualquer lugar.
— Não vou voltar com vocês.
Ao dizer isso, Call ergueu a mão, invocando o caos. Talvez o liberassem se mostrasse do que era capaz. Se percebessem que ele estava disposto a lutar, talvez temessem machucá-lo. O poder começou a se reunir lentamente dentro de si, embora Call tivesse ficado quase exaurido ao tentar ver o que havia de errado com Aaron. Com um pedaço da alma faltando, ele estava fraco. Precisava de mais poder.
Por hábito, ele alcançou Aaron, seu contrapeso. Mas alcançá-lo era como enfiar um braço em água gelada. Um nada frio e negro lavou sua mente. Call soltou um grito quando o mundo escureceu.


Call acordou com as mãos amarradas atrás de si, a cabeça caindo para o lado. Por um momento, depois que recobrou a consciência, achou que estivesse de volta ao Panóptico. Só quando viu o que o cercava — a saleta vitoriana arrepiante de Mestre Joseph — é que se lembrou de tudo o que tinha acontecido. Mestre Joseph... Tamara... Aaron.
Aaron.
Ao olhar para baixo, viu que estava preso a uma cadeira, com os tornozelos amarrados rentes às pernas, e os punhos atados atrás das costas.
— Você está acordado — constatou Aaron.
A voz tinha vindo de trás de Call, perto o bastante para que tivesse certeza de que o amigo também estava amarrado a uma cadeira. As cadeiras provavelmente estavam amarradas uma à outra. Call se mexeu um pouquinho para testar a hipótese, e o peso a confirmou.
— O que aconteceu? — perguntou.
Aaron se mexeu um pouco.
— Você parecia prestes a invocar alguma magia, mas simplesmente desmaiou. Eu não tenho magia, então não pude ajudar muito. Devastação também não. Eles nos amarraram. Alex correu de um lado para o outro, dando ordens. Acho que Hugo falou a verdade sobre a batalha.
— Alex realmente está no comando? — indagou Call, in crédulo.
— Ele alega... — começou Aaron.
Antes que pudesse concluir, no entanto, Hugo entrou, seguido de Alex. Quando a porta se abriu, Call ouviu Anastasia falando com outros magos. Por um instante, ele pensou ter ouvido uma voz que reconhecia, mas não conseguia situá-la.
Alex vestia um longo casaco preto abotoado até o pescoço, o cabelo cuidadosamente penteado para fora do rosto. Não parecia mais cansado nem assustado. Seus olhos cintilavam, e o Alkahest em seu braço brilhava, como se tivesse acabado de ser polido...
— Sério? Você está em um teste para o próximo Matrix — disse Call, e depois percebeu que, talvez, não devesse fazer esse tipo de provocação enquanto estivesse amarrado a uma cadeira.
— Estou no comando agora, como sempre deveria ter estado — disse Alex. — Tenho todo o conhecimento de Constantine e toda a habilidade de Mestre Joseph. Eu sou o novo Inimigo da Morte.
Call teve que morder o lábio para não fazer outra piada.
— Eu poderia transferir seu poder de Makar para mim e ser o mais poderoso usuário do caos que já existiu. Seja leal a mim e se torne meu fiel escudeiro, Callum, ou o mato aqui e agora.
— É uma oferta tentadora — analisou Call. — Mas você sequer tem certeza de que o Alkahest funciona desse modo.
— Você não pode matá-lo — disse Aaron, com gentileza. — Assim como não pode me matar. Sem nós, seu exército não se sustenta.
A boca de Alex se contorceu em uma careta.
— É claro que se sustenta.
— É óbvio que não — contestou Call, seguindo a linha de Aaron. — Essas pessoas querem o retorno dos mortos, e quem fez isso fui eu, não você. Todos sabem.
— Ele está certo — insistiu Aaron. — Essa gente veio para seguir Call e Mestre Joseph, não um adolescente que não conhecem.
— Por favor — zombou Alex. — Call explicou como trazer de volta os mortos. Ele usou a própria alma. Posso fazer o mesmo quando quiser, então não preciso mais dele. Preciso de você, é claro. Você é prova de que isso funciona, mas Call é dispensável.
— Se ele morrer, não vou te ajudar — lançou Aaron, sem qualquer emoção. — Pode ser que não faça isso sob qualquer condição.
Alex parecia pronto para bater o pé, mas, em vez disso, sacou uma faca do bolso interno do casaco. A lâmina curva, de aparência vil, fez Call pensar em Miri, a própria lâmina, que estava no Magisterium. Forçou um sorriso.
— Então, Call. Você quer correr o risco de que eu cumpra a ameaça assim mesmo, ou promete ser leal? Vai lutar a meu lado no conflito iminente?
— Eu luto a seu lado — decidiu Call. — Afinal, Aaron e eu não temos para onde ir. Você me viu correndo atrás de Tamara e Jasper? Não me ouviu quando disse para a Assembleia inteira que não estava aqui contra minha vontade? Todos os outros me odeiam. Você deveria ter começado seu argumento com esse fato.
Alex sorriu e se inclinou para cortar as cordas que os prendiam. Call se levantou e sentiu a perna ruim doer. Aaron se levantou lentamente depois dele.
— Venham — chamou Alex, marchando para fora da sala.
O sol tinha se posto enquanto Call e Aaron estavam amarrados. Pelas janelas, enquanto seguiam Alex pelo corredor, viram que já estava escuro do lado de fora. Ao passarem pela saleta, Call pôde notar que os enormes gramados do lado de fora da casa estavam acesos com esferas ardentes de fogo mágico.
Eles chegaram à varanda da casa e ficaram ali parados, encarando, Alex sorrindo ao lado. Sob a luz oscilante do fogo, o gramado era um campo de batalha sombrio. Um bando de magos com túnicas verdes da Assembleia e os uniformes pretos do Magisterium estavam diante da casa. De costas para o prédio, se postavam as forças de Mestre Joseph.
Eram forças de Alex agora. Call não as discernia muito bem, mas sabia que eram muitos. Teve a impressão de ter reconhecido Hugo e alguns magos. Eles formavam um muro espesso na frente da propriedade, olhando para o norte com grande determinação.
Havia um buraco mais ou menos do tamanho de um campo de futebol entre eles e os magos da Assembleia. Call foi até a grade da varanda e ouviu um latido.
— Devastação! — exclamou.
O lobo correu em torno da casa e subiu os degraus para se aproximar da perna de Call. O garoto exibiu uma careta de dor, mas baixou a mão para afagar o animal. Era um alívio vê-lo, o único de seus amigos que não mudara.
Arriscou uma olhada de esguelha para Aaron. O perfil era bem delineado pela luz vermelho-alaranjada. Fazia os olhos verdes parecerem mais escuros.
Call lembrou-se de como Aaron tinha apertado a garganta de Mestre Joseph até que estalasse, e sentiu uma dor por dentro. De certa forma, ele sentia mais a falta de Aaron agora do que quando ele estava morto. Era como se tivesse trazido Aaron de volta, e, a partir daquele momento, tudo o que fazia Aaron ser ele mesmo tivesse desaparecido, como a bruma evaporando de um rio.
Mas por quê? O pensamento atiçou o subconsciente de Call. O problema era o corpo de Aaron. Se ele o tivesse colocado em um corpo diferente, se tivesse transferido a alma de Aaron, como Constantine transferiu a dele... será que teria feito diferença?
Devastação latiu outra vez quando a porta da frente se abriu e Anastasia foi para a varanda. Estava com sua armadura, o cabelo preso com peltre. Ela deslizou em direção a Call.
— Callum — disse ela. — Estou feliz que tenha enxergado a razão e decidido lutar ao lado de Alex.
— Não enxerguei a razão — respondeu Call. — Ele simplesmente me ameaçou se eu fizesse o contrário.
Anastasia piscou os olhos. Call não pôde deixar de imaginar: será que para ela não faria diferença se Alex matasse a alma de Constantine? Mas quaisquer concessões que Anastasia fizera, há tempos, a fim de aceitar as ações do filho, seu desejo de consegui-lo de volta assim mesmo, deviam lhe estar bloqueando a mente.
— Depois que a luta acabar — continuou ela —, vamos para algum lugar, vamos ressuscitar Jericho e viveremos em paz.
— Chega, Anastasia — ameaçou Alex. — Mestre Joseph tolerava esse devaneio ridículo, mas eu não. Callum não é seu filho. Não me importa o que você pensa. Call não é Constantine Madden, e todo o seu encanto por ele não fará a menor diferença. Ele não te ama.
A expressão de Anastasia imediatamente tornou-se severa. A cortina de fumaça começava a se erguer, e Call não sabia ao certo se Alex gostaria de ver o que tinha por baixo.
— Alex, seria muito bom para você se lembrar de que precisa de mim — aconselhou Anastasia. — E de meus elementais.
— E seria muito bom para você se lembrar de que, se deve considerar alguém como seu filho, esse alguém sou eu.
— Eu conheço a alma de Call — retrucou Anastasia, embora o menino não achasse que isso fosse verdade. — Não a sua.
O rosto de Alex se contorceu.
— Há muitas coisas acontecendo aqui — interrompeu Aaron, como se ninguém estivesse falando.
Alex o encarou, e Call olhou em volta da ilha.
Era verdade. O exército de Dominados tinha sido conduzido para fora do lago. Os mortos-vivos estavam em fileiras organizadas e vestiam trapos após tanto tempo submersos. Perto deles, havia elementais: cobras compridas e aeradas curvavam-se em torno das árvores, lagartos em chamas, aranhas enormes totalmente feitas de pedra. Call não viu nenhum elemental da água, mas, se havia algum, provavelmente estava no rio.
Ele olhou novamente para os magos. Teve a impressão de ter ouvido uma voz familiar antes, mas agora percebia que conhecia várias pessoas ali. Alguns membros da Assembleia estavam ao lado de Hugo, assim como diversos pais que ele reconhecia do Magisterium. O pai de Jasper estava lá, o que fez Call perder o fôlego.
Mas, entre a multidão, havia alguém que chocou Call mais ainda — a irmã mais velha de Tamara, Kimiya.
Kimiya, que segundos depois se jogou nos braços de Alex.
— Estou tão feliz por você estar bem — disse ela sem ar.
Até Alex pareceu surpreso.
— Kimiya?
— Kimiya, o que você está pensando? Você deveria estar do mesmo lado que suas irmãs — afirmou Call.
Ela se virou e o olhou, furiosamente.
— Ravan não é minha irmã — retrucou. — Ela foi destruída pelo fogo. Agora é um monstro. Minha melhor amiga, Jen, está morta... — Seus lábios tremeram. — Detesto a morte — anunciou. — Se Alex quer destruí-la, então ficarei a seu lado.
Alex lançou um olhar superior a Call por cima da cabeça de Kimiya.
— Vá e pegue uma arma para você, querida — instruiu ele, acariciando seus longos cabelos negros. — Vamos lutar juntos.
Kimiya desapareceu para dentro. Alex sorriu para Call, que mal conteve o impulso de pular em cima dele e esganá-lo. Mas Alex o interrompeu, indo para perto de Call e o pegando pelas costas da camisa com a mão que não estava coberta pelo Alkahest. Hugo, a seu lado, cuidou de Aaron.
— Leais seguidores! — gritou ele, e Call e Aaron foram lançados para a frente pela escada, para o centro de um holofote brilhante que estava sendo projetado por diversos magos. — Aqui estão, Callum Hunt, a reencarnação de Constantine Madden, e sua maior conquista: Aaron Stewart, ressuscitado dos mortos!
Uma onda de vibração se ergueu. Call ouviu as pessoas gritando o nome de Aaron. Ele se sentiu tonto. Era muito parecido com a vez que Aaron foi declarado o Makar, o herói do Magisterium, mas, ao mesmo tempo, totalmente diferente.
— E agora... — começou Alex. Mas Hugo o interrompeu.
— Mestre Strike — disse ele. — O outro lado está acenando uma bandeira branca.
— Eles se renderam? — Alex pareceu desapontado. — Já?
Hugo balançou a cabeça.
— Significa que querem conversar antes da batalha.
— Eles nos mandaram um recado. Realmente é o que desejam. Mas só com Call — disse Anastasia, parecendo tensa.
— Não — negou Alex. — Eu proíbo.
Aaron parecia pronto a discutir em seu nome, mas Call pôs a mão em seu braço.
— Ótimo — disse para Alex. — Eles provavelmente me pegariam, concluindo que o exército seria inútil sem mim.
— Eu estou liderando esse exército — retrucou Alex com raiva.
Call sorriu.
— Eu ainda sou o Inimigo da Morte.
Alex virou-se para Anastasia. Ele parecia petulante o suficiente para insistir.
— Por que querem conversar com Callum?
Kimiya havia reaparecido de dentro da casa, segurando um machado feito de pedra. Tinha muitos símbolos de ar e terra talhados, o que Call desconfiava que o tornava leve o bastante.
— Foi ideia de Tamara — avisou Kimiya. — Ela persuadiu nossos pais de que ele era confiável. Que sua palavra teria valor. — Ela balançou a cabeça. — Na verdade, acho que ela quer se despedir mais uma vez.
Um sorriso cruel brotou no rosto de Alex.
— Eu não sabia que estava rolando alguma coisa entre você e Tamara, Callum.
— Não é nada disso. — A voz de Call soou como um resmungo ridículo o bastante para que Aaron erguesse as sobrancelhas. Dava para perceber que Call estava mentindo.
— Eu me enganei. Você vai, Callum Hunt — decidiu Alex, com uma risada, claramente acreditando que isso deixaria Call chateado. — Você vai, e vai dizer exatamente o que eu quero que diga. Vai levar minha palavra aos magos da Assembleia, e eles vão aprender quem é o verdadeiro líder deste exército.
Call tentou parecer triste, mas suas entranhas estavam se revirando. Essa era a sua chance de ajudar a Assembleia. Mas como?
Ele respirou fundo. Precisava transmitir a eles uma ideia das forças que iriam enfrentar. Uma estimativa por alto de quantos elementais, Dominados e magos. Eles precisariam da informação. E de que Mestre Joseph estava morto.
— Não volte — sussurrou Aaron.
Call balançou a cabeça.
— E deixar você aqui? Nunca.
Aaron não disse mais nada. Não insistiu, não explicou.
— Eu ouvi isso — disse Alex. Todo de preto, ele parecia uma ave de rapina encarando os magos da Assembleia. — Estarei de olho para ver se está correndo para eles, Call. Observando caso queira me trair. E, se o fizer, comandarei todos os Dominados a atacar e não parar até o matarem.
Kimiya engasgou. Call virou-se para ver que uma linha de fogo se espalhava a partir da fila de magos da Assembleia sobre a grama vazia, em direção às forças de Alex.
A grama não queimou; o fogo pareceu navegar sobre ela, expandindo enquanto voava. Alex cerrou os olhos.
— Eles estão vindo — avisou ele. — Call, me ajude a comandar os Dominados...
— Não! — Kimiya colocou a mão no punho de Alex. — É Ravan.
— Ela está atacando!
A voz de Alex se elevou a um grito, mas Ravan já os tinha alcançado. Ela havia se transformado em uma coluna de chamas, erguendo-se da grama. Uma fumaça cinzenta e tingida com linhas laranjas de fogo surgiu... E coalesceu. Tornou-se cada vez mais sólida até uma menina cinza estar diante deles. Ela era sólida e parecia real. As dobras de um vestido de fumaça esvoaçavam em torno da jovem. Seu cabelo comprido, que outrora havia sido preto, agora brilhava em prata. Seu rosto lembrava Tamara, e Call sentiu um nó por dentro.
Três dos magos ergueram um escudo gelado entre ela e as forças de Alex, mas a elemental apenas riu.
— Acompanharei Callum até o outro lado — disse ela. — Estou pacífica agora, mas, se me atacarem, queimarei a terra por um raio de um quilômetro e meio.
Será que ela realmente podia fazer isso?, Call ficou imaginando. Quão horrível essa batalha se tornaria?
— Monstra — xingou Kimiya, com a voz furiosa.
Ravan deu um sorriso torto.
— Irmã — disse ela para Kimiya, e esticou a mão para indicar que Call andasse a sua frente. — Callum. Temos que nos apressar.
Call lançou a Aaron um olhar que dizia que ele voltaria antes de desviar o escudo de gelo e seguir a irmã de Tamara pela grama.
Tudo estava assustadoramente quieto. Mal havia vento enquanto atravessavam o terreno, o que permitiu que Ravan mantivesse a forma humana. Ao se aproximarem do outro lado, Call viu que três figuras esperavam por ele. A pele escura de Mestre Rufus contrastava com a túnica verde-oliva da Assembleia. A seu lado estava Tamara, com o uniforme escolar, seu cabelo muito preto contra o branco. E ao lado de Tamara estava Jasper, seu rosto furioso enquanto observava a aproximação de Call.
Quando ele os alcançou, Ravan começou a se espalhar, e cinzas vieram em ondas. Por um instante, enquanto se dissolvia, ela olhou para Call. Seus olhos estavam laranja, cheios de chamas.
— Não magoe minha irmã — sussurrou. — Ela gosta de você.
E, então, sumiu.
Call parou diante deles: seu amigo, sua ex-namorada e seu antigo professor. Nenhum deles falou.
— Call... — começou Tamara.
— Não tenho muito tempo — interrompeu Call.
Ele não se julgava capaz de suportar o que a garota tinha a dizer. Começou a falar depressa, sem olhar diretamente para nenhum deles. Explicou mais ou menos do que consistia o exército de Alex, e o que tinha acontecido com Mestre Joseph. Enquanto falava, um dos membros da Assembleia, Graves, saiu de onde estava e foi até eles. Nunca foi muito fã de Call, e Call tentou ignorar sua presença.
À medida que Call diminuía o ritmo, a expressão de Mestre Rufus foi mudando de neutra para preocupada.
— Callum — interrompeu ele, afinal. — Está me dizendo que Mestre Joseph está morto? E que Alex Strike e Anastasia Tarquin estão liderando as tropas?
Call assentiu.
— Mas principalmente Alex. Olhe, eu me rendo! Eu me rendo! Isso tudo foi um grande erro. Só me prometam que nada vai acontecer a Aaron, e farei o que quiserem.
Com a menção ao nome de Aaron, todas as expressões ficaram sombrias. Graves apontou um dedo magro para ele.
— Callum Hunt, o que você fez pode ter criado uma ruptura no mundo dos magos que jamais será corrigida. Os mortos não devem voltar. Aaron precisa ser destruído, pelo bem de sua alma, se não houver nenhum outro motivo.
— É isso que você acha? — Call virou-se para Tamara.
Os olhos da menina brilhavam, como se ela estivesse contendo lágrimas, mas a voz soou firme:
— Acho que você trouxe de volta parte de Aaron, mas não ele todo. Não acredito que ele gostaria de viver assim.
Mas e se eu estiver começando a entender o que eu fiz de errado?, queria perguntar a ela, mas já sabia qual seria a resposta. Era tarde demais. E se eu ainda puder consertar? Consertar Aaron?
Call não tinha certeza se era possível. Era apenas a semente de um pensamento no fundo de sua mente. Tinha algo a ver com o corpo de Aaron, um corpo que estivera morto... O corpo do próprio Call estava vivo quando Constantine lhe transferiu a alma...
Mas o que ele estava pensando era algo que possivelmente jamais poderia ser feito. Jamais deveria ser feito.
— Deixe Aaron escolher — pediu Call, olhando para o chão.
— Como se ele pudesse fazer escolhas — desdenhou Graves. — Ele consegue falar?
Tamara ruborizou. Call encarou Graves.
— Sim, ele consegue escolher fazer as coisas. Foi ele que matou Mestre Joseph, e o fez por conta própria.
Tamara perdeu o ar.
— Aaron matou Mestre Joseph?
— Sim — respondeu Call. — E ele deve poder escolher se quer viver, morrer, ou para onde vai! Eu o trouxe de volta. Devo isso a ele.
— Não tem a menor importância — retrucou Graves, embora ele parecesse abalado. — Você não pode voltar para o Magisterium.
— Então me mandem de volta ao Panóptico — sugeriu Call. — Me prendam. Mas não a Aaron.
— Você não pode voltar para nós, Callum — disse Rufus gentilmente, mas Graves o interrompeu.
— Não negociamos com você para oferecer ajuda. Nem a você e nem a seu monstro. Pedimos para conversar porque sua família e seus amigos acreditam que você possa ser persuadido a fazer a coisa certa. — Ele olhou em volta, como se não conseguisse acreditar na burrice dessas pessoas.
— A coisa certa? — repetiu Call, sem a menor certeza do que estavam sugerindo.
A única certeza que tinha era a de que não iria gostar.
— Já estivemos em guerra com as forças do Inimigo antes — prosseguiu Graves. — E sim, talvez Alex seja muito inferior, mas suas forças não. Ele é um Makar, e não temos mais nenhum Makar lutando do nosso lado.
Call abriu a boca, mas Jasper balançou a cabeça, e, pela primeira vez na vida, Call se calou. Queria que o pai estivesse presente para participar da conversa. Supunha que Alastair deveria ter pedido, mas entendia por que não o deixaram vir. Ele iria direto ao assunto e contaria o que realmente estava se passando.
— Tivemos mais traidores e desertores do que contávamos. Só existe uma maneira de acabar de uma vez por todas com isso. Você deve ser verdadeiro com o seu caos e destruir Alex Strike e a si mesmo.
Call respirou fundo.
— O quê? — exclamou Jasper.
Tamara explodiu em fúria.
— Não foi esse o acordo! Ele deveria destruir Mestre Joseph, e tudo seria perdoado! — Ela virou-se para olhar para Call. — Eu disse a eles que você não foi sincero quando falou que era o Inimigo da Morte, que você só disse isso para que Alex e Mestre Joseph não soubessem que você estava a nosso favor. Sei que você ressuscitou Aaron porque o ama, Call, e por nenhum outro motivo.
— Graves, isso é intolerável — disse Mestre Rufus. — Ele é uma criança. Não pode pedir para ele se destruir.
Call começou a recuar. Estava enjoado. Mestre Rufus podia discutir, mas a Assembleia já havia decidido, e a Assembleia estava no comando. Ela o queria morto. Não havia nada que pudesse fazer quanto a isso.
— Call — chamou Mestre Rufus. — Call, volte...
Mas Call já tinha partido, correndo pela grama em direção ao exército de Alex, em direção a Anastasia e aos Dominados. Depois de tanto tempo tentando se livrar deles, Call jamais pensou que correria para eles.
Devastação veio recebê-lo, latindo, os olhos coruscantes brilhando ao luar, como pontas de fogo. Call agarrou-se em seu pelo e correu o resto do caminho apoiando no lobo, a perna fraca doendo, assim como a cabeça.
Ele teria voltado para a casa, mas havia muitos Dominados e a Assembleia bloqueando sua passagem. Alex estava de pé ao lado de Kimiya e Anastasia. Ele estava sorrindo. Aaron postou-se um pouco atrás. Hugo trazia a mão em seu ombro — não era amigável, mas um alerta.
— Então, como foi, Call? — perguntou Alex. — Kimiya me contou que eles queriam que você se sacrificasse para derrotar Mestre Joseph. Ela ouviu Graves falando. É bom saber quanto o Magisterium o valoriza, não?
Call sentiu o coração despencar ainda mais. Por foi isso que Alex o deixou ir conversar. Não por confiar em Call ou por ter sido enganado por sua encenação de que estava chateado, mas por acreditar que ele não se sacrificaria.
E ele acertou. Call fugiu dos magos da Assembleia. Pensou em seu primeiro ano aprendendo magia. O final de seu poema particular. Call quer viver.
— Tamara — disse Kimiya. — Tamara estava bem? Ela não vai lutar, vai?
Call abriu a boca, depois a fechou novamente. Kimiya não merecia saber da irmã. Não merecia fingir se importar com Tamara quando a tinha abandonado.
— Eu tenho o Alkahest — avisou Alex, erguendo o braço. — Você luta conosco, Call, ou morre com Aaron. Agora entende isso, certo?
Call respirou fundo, tentando se recompor. Estava com vontade de gritar. Estava com vontade de chorar. Mas não podia fazer nenhuma das duas coisas.
— Sim, eles me fizeram uma proposta ofensiva. E daí? Eles já me abandonaram. — Call olhou bem para Alex, tentando transformar a raiva que sentia em confiança. — Eu já disse que não tinha para onde ir.
O sorriso de Alex oscilou.
— Que bom saber que não o fizeram mudar de ideia.
Aaron foi até ele, mas não perguntou como ele estava, não colocou a mão em seu ombro.
— Muitas pessoas vão morrer hoje, não é?
Sua pergunta não o fez soar particularmente preocupado, apenas curioso.
— Suponho que sim — respondeu Call.
Ainda parecia impossível, estúpido, mas estava acontecendo. Muitas pessoas, pessoas boas, iam se machucar. Iam morrer, como sua mãe tinha morrido.
— Você vai liderar o exército de Dominados do Inimigo da Morte do lado esquerdo — decidiu Alex. — Vou liderar o meu à direita. Anastasia vai comandar os elementais por cima. Hugo vai liderar os magos, que vão nos apoiar de uma distância segura. Vamos destruí-los. Você não se importa de estar na vanguarda, certo?
— É claro que não — respondeu Call.
Ele tinha certeza de que Alex considerava os Dominados de Constantine os mais descartáveis, e estava disposto a sacrificar Call na primeira oportunidade. Talvez até providenciasse um pequeno incidente.
— Aaron ficará comigo — disse Alex, tornando o cenário do “acidente” ainda mais provável.
— Não quero fazer isso — avisou Aaron, com um tom neutro que deixou Call um pouco nervoso.
— Bem, mas você vai — retrucou Alex. — Não se preocupe com Call. Ele não ficará sozinho. Devastação pode ir com ele.
Ao ouvir seu nome, o lobo Dominado latiu uma vez.
Call olhou para Aaron. Ele teria insistido para que seu amigo fosse junto, a não ser pelo fato de que Alex iria expor Call ao máximo perigo possível, e isso significava que o mesmo valeria para Aaron.
Ele pensou no que Graves havia lhe dito ao chamar os Dominados para si e comandá-los a se organizar em fileiras curtas. Pareciam um exército de soldadinhos de brinquedo, só que em tamanho aumentado e apavorantes.
Call tentava evitar aquele momento desde que descobriu que sua alma já havia pertencido a Constantine Madden. Tinha medo de se tornar o Inimigo da Morte, de ser motivo de dor e de medo e de destruição. Ele tentou fazer boas escolhas, mas, apesar de cada uma parecer boa isoladamente — bem, a maioria ao menos —, elas ainda o haviam levado até o momento presente.
Ele podia arrumar desculpas, mas elas não importavam. E Graves ser tão idiota também não, porque ele tinha razão. Mesmo que nada disso fosse culpa de Call, ele ainda era a pessoa que poderia corrigir a situação.
Só tinha que descobrir como.
— Vá — ordenou Alex. — Comande-os.
— Tudo bem — disse Call a seus Dominados. — Hora de marchar.
— Ssssim — rosnaram na língua que apenas Call entendia.
O grupo começou a se mover.
Seus pés trovejaram sobre o chão em direção ao ponto onde o exército da Assembleia ainda se reunia à beira d’água. O ar acima estalava com magia elementar. Atrás deles vinham os Dominados de Alex e os magos.
Call jamais se sentira tão despreparado para nada na vida. É exatamente como no Julgamento de Ferro, disse a si mesmo. Você só precisa perder. Ele iria se certificar de que seu lado perdesse de maneira espetacular.

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